quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Entretanto fiz 37 anos




E não gosto grande coisa disto dos 30, se vos disserem que, sim senhora, a maturidade e o auto-conhecimento e que nos sentimos mais seguras e confiantes pois que pr'ó caralhinho. 
Tenho saudades- muitas!- da frescura dos vinte, da impulsividade e de me borrifar para as consequências, de não ter medo de arriscar e avançar, de não ter a sombra do dever e da obrigação de ter juizinho que tenho filhos para criar- não gosto de ter juizinho nem de ser crescida nem de ser adulta nem do papel social da mãe de família. 
Já vi(vi) demasiadas coisas na vida, já conheço de cor alguns guiões e como acabam uma data de histórias, sinto enfado mais vezes do que gostaria e só não reviro mais vezes os olhos porque já não sou adolescente e tenho auto-percepção e  auto-consciência e um super ego de 37 anos que me manda sorrir e acenar, desligar o cérebro enquanto os outros beca beca e blá blá. Às vezes pareço exausta e cansada e distraída e esquecida mas, na maioria das vezes, desligo porque estou fartinha de clichés em geral e de muitas pessoas em particular. Já consigo adivinhar o perfil das pessoas com que me cruzo, compará-las a outras, saber o que vem a seguir. Poucas coisas me surpreendem, até a mim própria já conheço de cor e salteado e há dias em que mal me aturo e não me consigo desatarrachar. 
A vida é muitas vezes a mesma coisa e uma pessoa habitua-se mas fica sempre na expectativa de que um dia se surpreenderá mas já ninguém se casa com 37 anos, já não há bodas nem copos d'água, o romantismo está pela hora da morte, as crianças não se batizam, os festivais de Verão afiguram-se a muitas máquina de roupa a lavar peças com pó e a conta da electricidade a bombar, praia só nas horas kids friendly, saídas nocturnas ahahahahah e bom bom, mas mesmo bom, é dormir a sesta a seguir às refeições e comer uma refeição quente seguida sem interrupções, sem ajeitar ganchos, sem "come de boca fechada", "vá, a fruta tem mesmo que ser!" e tudo e tudo. 
Estou uma beca esmagada com tantos estímulos visuais e sonoros, e redes sociais por todo o lado e gente a tentar comunicar ao telefone, ao telemóvel, ao whatsapp, por email, sms, mensagens de facebook e directs no instagram e eu bloqueio e não respondo a ninguém, não porque seja antipática- que sou muitas vezes- nem snob nem com a mania mas apenas desorganizada e bloqueada com tantos estímulos vindos de tantos canais e tendo como único alvo receptora eu.
E chamam-me cidadã, filha, mulher, mãe, doutora, psicóloga, contribuinte, eleitora, utente, participante, cliente, artista da cassete pirata e tenho bué saudades de ser só a Liliana e de poder escrever poesia sem me sentir tontinha e pueril e poder dizer bué em voz alta sem parecer ridícula como os trintões da idade da minha mãe que insistiam em dizer muita nice, és um borrachinho e vais à boite.
Não me apetece ir para o Lux de saltos altos e sair à noite com frio é um convite infame- ai que quentinha e feliz que estou no recato do lar, pés confortáveis em meias de lã no Inverno, amigos em casa e conversas noite dentro ao invés de discotecas ruidosas e roles plays de diversão porque é suposto, porque tem que ser, porque é sábado à noite- mas que alegre e eufórica que eu era quando sair à noite com os dedos dos pés num farrapo e música em decibéis ofensivos me parecia o melhor programa de sempre. 
Não me apetecem novos amigos nem relações em que tenha que me esforçar, para me esforçar e forçar já basta a vida, anseio por coisas básicas, pessoas básicas, diálogos básicos, piadas básicas, já percebo as donas-de-casa  de meia idade que curtem o Goucha, os cotas que arranjam miúdas com metade da idade deles e os velhos que jogam dominó e curtem anedotas à Malucos do Riso que para pesada já é a vida, as pessoas a morrerem, a minha mãe que não deixa de fumar, a miúda que anda chateada com o regresso às aulas, a quantidade de trabalho que não vê despacho, o corpo que já não funciona como nos tempos áureos e as estrias na barriga.

Entretanto fiz 37 anos e os 30 não são os novos 20: são os novos 60.

[Sim, sou capaz de estar cansada. Ou de estar mesmo a precisar de enfardar sushi]


1 comentário:

0000 disse...

Pólo, experimenta oferecer à tua mãe o livro "O método simples para deixar de fumar". Pode parecer parvo, mas foi o que me fez deixar de fumar literalmente de um dia para o outro depois de 15 anos a fumar um maço por dia. Sem sofrimento, sem dor, sem dramas. Desde dia 17 de Janeiro à tarde que não voltei a acender um cigarro.

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