sexta-feira, 17 de abril de 2015

O Mundo divide-se entre quem gosta de ler Lobo Antunes e os outros

"Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão, eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas, quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou pegar nos talheres como deve ser. A ordem
- Pega nos talheres como deve ser
ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra pergunta
- Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?
ou a resposta
- Um dia falamos sobre isso
quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura: sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:
 - Porque é que as mulheres fazem por uma escova?
e os meus pais primeiro banzos também e depois a lutarem para ficar sérios. Não me explicaram nada e vários mistérios subsistiram durante muito tempo. Primeiro, porque é que as mulheres têm uma escova ali. Segundo, porque é que as escovas, que passei a olhar com desconfiança, fazem chichi. Terceiro, isto acontecerá ao conjunto das meninas, ao crescerem, ou só àquela? Quarto, o exame minucioso a que submeti todas as escovas que encontrei em casa não me deu nenhum resultado esclarecedor: não havia uma que não estivesse seca. As de escovar a roupa, as de escovar o cabelo, as de esfregar o chão. E os meus pais sem responderem. A minha mãe ainda abriu a boca mas não chegou a falar, embaraçadíssima. O meu pai não abriu a boca mas qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas, quando qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas a minha mãe a censurá-lo
- João
e ele logo sério, ausente, a interessar-se pelos meus estudos que, em geral, o desgostavam porque os meus resultados escolares costumavam roçar o trágico e constituíam uma preocupação constante para a família. O facto de eu ser escritor
(sempre fui escritor desde que me conheço e a minha mãe previa-me um futuro de miséria negra)
não desagradava inteiramente ao meu pai, que tinha um respeito sagrado pelos artistas, mas os meus resultados escolares preocupavam-no, queria que eu tivesse uma profissão sólida que me amparasse as veleidades criativas. Para ele, a única profissão sólida e digna era ser médico
 - E depois, nos intervalos, escreves
como Júlio Dinis ou Duhamel. Acabei por lhe fazer a vontade, pai, tornei-me médico, mas o meu curso foi um tormento para ele: reprovações, notas baixíssimas, os seus colegas, professores também, lá me iam deixando passar por amizade. Lembro-me que no fim da prova de Medicina Operatória o catedrático me disse com bonomia, diante do anfiteatro cheio:
- Olha, filho, tens treze e diz lá ao pai que não pôde ser mais.
Isto para além de cartas que ele me mostrava com desgosto, género
O seu rapaz esteve aqui e não sabia nada
ou, comparando-me com o meu irmão
- O Lobo Antunes tem dois filhos, um é bom, o outro é uma nódoa.
Ainda me espanta a razão pela qual o meu pai não me matou. Mas sei que lia às escondidas o que eu escrevia e tinha muitas esperanças literárias no filho, embora nunca me tivesse falado nisso, porque não era dado a confidências ou elogios. A mim não me disse nada mas dizia aos meus irmãos
- O António tem faísca, o António tem faísca
e que, quando comecei a publicar, se orgulhava dos meus produtos. Eu acho que os meus irmãos e eu tivemos muita sorte com os nossos pais, que eram pessoas de uma honestidade irrepreensível, inteligentes, cultas, complexas, rigorosas, com qualidades muito superiores aos defeitos que obviamente também possuíam. Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto. E morreu de puro desgosto, sem doença. Somos orfãos do Pedro também. Sobramos cinco e eu não quero que nenhum deles morra antes de mim. Gostamos uns dos outros sem palavras, com o imenso pudor que herdámos dos nossos pais. Não suporto a ideia da morte do João, do Miguel, do Nuno, do Manuel, como continuo a não suportar a ideia da morte do Pedro. Vou dizer uma coisa. Não devia dizer mas vou dizer. Quando fomos contar à nossa mãe que o Pedro se tinha ido embora ela pronunciou só uma frase:
- Tenham misericórdia de mim.
Sentada na sua cadeira, na sua sala:
- Tenham misericórdia de mim.
Agora está com o nosso pai, a contar, entre muitos outros episódios
- Lembras-te daquela história da escova?
e o meu pai a responder
- Ah
que, no seu caso, às vezes, era um discurso muito comprido. Esta crónica saiu toda descosida e mal feita. Não importa, de que outra forma podia fazê-la? É a minha maneira aselha de pedir que tenham misericórdia de mim, porque não sou o adulto que pensam. Peguem-me ao colo. Às vezes tenho tão poucos anos nos meus anos todos e fico tão leve nessas alturas."

quinta-feira, 9 de abril de 2015

É oficial: as minhas amigas são melhores que as vossas!

Chegámos ao restaurante. Na mesa ao lado da nossa uma folha manuscrita a dizer "Reservado: Nuno".  Começámos a jantar- eu e a minha amiga Rita- a mais destrambelhada de todas. 
Chega o suposto Nuno com uma babe toda ela cheia de "não me toques".  O Nuno a bater, claramente, o couro à rapariga. A rapariga com um ar enjoado, cheio de mania. 
A minha amiga Rita levanta-se para ir à casa-de-banho, passa pela mesa do Nuno, olha-o e cumprimenta-o efusivamente. Com um entusiasmo excitado, até. Pergunta-lhe se ele tem o número de telefone certo dela pois ficou à espera da chamada e nada...
O Nuno faz um ar confuso, um sorriso amarelo e não se desmancha. A "não me toques" fica de trombas o resto do jantar. 
A minha amiga acaba de jantar e antes de sairmos acena ao Nuno e pisca-lhe o olho. Faz-lhe mímica que indicia telefonemas posteriores. 

Saímos. 

- "Conheces o Nuno?"
- "Não. Mas aderi aquela merda dos 21 dias sem açúcar e se alguém tem que levar com o meu mau humor provocado pela falta de açúcar no sangue que sejam gajas com a puta da mania e garanhões com a mania que são engatatões... "

...

...

...


É isto a minha vida.

terça-feira, 17 de março de 2015

Se isto não é poesia, então a poesia não vale nada

O meu amigo Paulo diz  que quando era pequeno (citando) "saber se os berlindes iam para o céu ou não quando se partiam atormentava-me"...

Portuenses do it better!

Eu peço um sítio BBB (bom, bonito e barato) para jantar.
Elas acrescentam outro B e dizem que me vão levar a um sítio BBBB (som, bonito, barato e "baitudopelosares").
(Bai ser bonito, bai...)

quinta-feira, 12 de março de 2015

domingo, 8 de março de 2015

Eu queria mesmo era provar um a 2 dimensões, pá!

Ontem, no final de um repasto de sushi com os meus amigos Catarino, o Luis pergunta o que têm de sobremesa.

Resposta do empregado:

"Temos um pudim a três versões que eu não me lembro do nome e um pudim de queijada de Sintra a três dimensões, sabem?"


...


...


...

Eu achava que este dia não era para mim



Eu achava que este dia não era para mim. Mas é. Este dia, afinal, é para mim. 
E é para mim e para todas as mulheres que, fora do meu etnocentrismo, continuam a precisar de um dia que as lembre da luta pela igualdade. É para mim e para Jyoti Singhque, a rapariga de 23 anos que, na Índia, foi violada por um grupo de homens, às nove da noite, num autocarro depois de ter ido assistir à "Vida de Pi". É para mim e para as meninas que, todos os dias, na Guiné Bissau são vítimas de mutilação genital feminina à sombra de crenças e de Deuses que acreditam que não merecem sentir prazer. É para mim e para todas as mulheres que têm que usar burka. É para mim e para todas as mulheres que são vendidas como escravas sexuais neste mundo fora. É para mim e para todas as mulheres na Arábia Saudita que ainda não podem conduzir, mas que, em 2016, quando se realizarem eleições autárquicas, vão poder candidatar-se e votar. É para mim e para as mulheres da Nigéria, para quem a violência “vinda do marido com o objectivo de corrigir a sua mulher” está prevista na lei. É para mim e paras a mulheres de Madagáscar que não podem trabalhar em fábricas à noite, a não ser que estas pertençam à sua família. É para mim e para as mulheres da República Democrática do Congo, que são obrigadas a casar e a viver com os marido e a estar com eles onde quer que "o homem decida viver”, não podem assinar qualquer contrato, escolher um emprego ou ter um negócio sem a autorização do cônjuge. É para mim e para as mulheres da Tunísia e dos Emiratos Árabes Unidos que recebem apenas metade da herança em relação aos irmãos do sexo masculino. É para mim e para uma em cada 4 que, em Portugal, se encontra desempregada. É para mim e para as mulheres que em Portugal, em 2015, continuam a sofrer uma disparidade salarial de 13% face aos homens que ocupam iguais cargos. É para mim e para as mulheres de todos os 319 homens que usam, neste momento, pulseira electrónica no âmbito de casos de violência doméstica. É para mim e para as 47 mulheres que o ano passado morreram vítimas de violência doméstica. É para mim e para as mulheres que são assediadas no local de trabalho, para as mulheres que são dispensadas dos empregos grávidas ou em licença de maternidade. É para mim e para as mulheres que têm maridos que as "ajudam" nas tarefas domésticas como se fossem actores secundários da gestão doméstica. É para mim e para as minhas antepassadas que não votaram, não trabalharam sem ser confinadas ao lar e ao trabalho de campo, que não tiveram acesso à escola, ao alfabetismo, que foram damas de companhia de pais e avós, que casaram por combinação dos pais, que nunca beijaram de língua, que fizeram filhos "sem ser por gosto", que morreram sem saber o sabor da liberdade e da igualdade. 
Eu achava que este dia não era para mim. Mas é. Este dia, afinal, é, sobretudo, para mim. Para me lembrar de sair do meu etnocentismo, de perceber que a luta continua, que as desigualdades continuam e da utopia de este dia, um dia, não ser preciso para mim. Nem para mais ninguém.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Uma das minhas pessoas preferidas no Mundo também celebra 35 anos

"Na minha forma displicente de encarar a minha vida, tive uma primeira tentação de dizer que desde os 25 pouco tinha mudado e havia pouco a acrescentar, mas não é verdade. Tanta coisa aconteceu. Perdi a minha mãe e com ela o meu colo e uma parte de mim. Fiz um cruzeiro na Russia entre São Petersburgo e Moscovo com o meu pai. Tirei um mestrado. Fui viver para os Estados Unidos e voltei à cidade onde nasci. Conheci São Francisco, o Big Sur, Yosemite, Lake Tahoe, o Grand Canyon, Las Vegas, Miami e o Hawaii. Fui ao México e passei a passagem de ano com uma família mexicana a convite de pessoas que conhecemos num bar dias antes. Fui fazer doutoramento para a Holanda. Vivi um mês num complexo de apartamentos para idosos. Fui viver com um francês. Passei um aniversário sozinha a jantar pizza congelada de pijama na cozinha, e não foi bom. Fui viver sozinha. Comemorei os 30 anos e fiz uma house warming party. Fiz grandes amigos para a vida. Fui a um casamento na Alemanha e outro na República Checa. Fui a Londres, New York, Budapeste, Praga, Munique, Madrid e Copenhaga. Fiz férias na Croácia e em Ibiza (grande merda). O doutoramento correu mal e demorei 3 anos a ter os primeiros bons resultados. Ganhei uma poster presentation para surpresa geral. Publiquei o primeiro paper. Tive uma sobrinha linda. O meu contrato de doutoramento acabou. Com resultados para dois papers pendentes e dependentes de outras pessoas. Fiquei deprimida. Tive entrevistas de trabalho em Lausanne e Cambridge que não deram em nada. Numa delas fui entrevistada pelo francês. Voltei para casa. Iniciei uma espécie de semestre sabático. Apaixonei-me. Fui a um casamento nos Açores. Voltei a trabalhar na tese. Mas ainda faltavam os resultados para um paper. Fiz uma viagem de carro de Portugal à Holanda, passando pela Bretanha e Normandia. Trouxe as minhas coisas da Holanda. Entrei em conflito com o meu orientador e vi o meu doutoramento por um fio. Recorri. Ganhei. Juntei os trapinhos. Publiquei mais um paper. Chegaram os resultados para o último paper. Ainda não acabei a tese. Mas está quase. Continuo sem certezas quanto ao futuro e sem estabilidade profissional. Mas estou mais feliz. Fiz 35 anos hoje. Fim."



Não é fim. The best is yet to come para as pessoas de 35 anos, miúdas, raparigas da nossa idade, enfim...

Feliz ano novo, Luna!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...