terça-feira, 14 de setembro de 2021

Primeiro dia de aulas do 4º ano





Podia fazer quarenta graus à sombra, haver uma parada de camelos e todo um desfile cénico de cactos, podia haver uma escola de samba com bailarinos desnudados e sensação térmica de deserto do Sahara que ela hoje levaria, sob qualquer circunstância, o vestido novo dos corações.
Quatro anos para conseguir uma fotografia de primeiro dia de aulas irrepreensível com data certa e todas as peças de roupa vestidas e nos livramos de unicórnios na mochila but... aqui está ela!

Quarto ano da Ana! Desejem-lhe boa sorte!  

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

As fitas


Ele perguntou "também lá estiveste internada?" e eu disse que sim, confusa. É uma névoa na minha cabeça todo o tempo em que lá estive internada, uma névoa sobreposta pelo que a minha mãe me conta, as memórias felizes que ela assistiu, o dia em que a RTP lá foi e me filmou e os domingos em que as irmãs incluiam sempre batatas fritas no menu e a Lai, a educadora, única memória de afecto que guardo. Tinha na minha memória as memórias da minha mãe a ocuparem o lugar das minhas, não sabia para onde teriam elas voado. 

Mas depois ele continuou "e as fitas? Lembras-te das fitas?" e um portal de memórias recalcadas se abriu, como se fosse uma epifania do passado, uma visão de dor que enterrei num poço da minha memória- a psicologia explica- acabava a hora da visita a seguir ao jantar que era dado demasiado cedo, acho que pelas 19h, e a minha mãe e todas as visitas iam embora e vinham as irmãs, vestidas com o hábito creme, com as fitas. 

Às vezes eu choramingava, tinha 4 anos, 5, 7, 8, era pequena, choramingava "não quero as fitas! Tenho comichão e não me consigo coçar" e elas não me respondiam, não me explicavam, não me consolavam, limitavam-se a apertar as fitas à volta do meu corpo pequen ino e prendiam com firmeza e eu ficava sem me mexer toda a noite, às vezes durante muito tempo a olhar para o tecto da enfermaria e a pensar que a comichão iria passar e que a minha mãe chegaria no outro dia e ouvir os gritos de outras meninas: "tirem-me as fitas! Tirem-me as fitas!", depois passos delas e o silêncio a calar os gritos das outras meninas. 

Eu desisti de pedir, percebi que não me ouviam, não queria que os passos se aproximassem e se pedisse apertavam com mais firmeza, nem uma palavra, às vezes eu enchia o peito de ar para ficar com mais folga e poder mexer-me melhor até mas tirarem de manhã, muito cedo, acordavam-nos as sete para lavarem o chão com lixívia e umas máquinas que aspiravam e enceravam, tudo tinha que cheirar a limpo, a doença cheira mal. 

Nunca ninguém me abraçou, consolou ou alargou as fitas, em noites apertadas e silenciosas à espera de manhãs asséticas e da minha mãe chegar outra vez. 

Ele carregou com o dedo na ferida cicatrizada em vão"lembras-te das fitas?" e eu lembrei e perguntei, agora, à minha mãe se era real ou se o sonhara. "Era para vocês não caírem das camas!" e eu sei que ela acredita nisso, as irmãs diziam e ninguém questionava as irmãs- é a memória da minha mãe sobre as fitas mas não é a realidade e eu nem me lembrava que havia esta realidade mas ele perguntou pelas fitas e agora não me consigo esquecer de dormir de colete de forças grande parte da minha infância naquele hospital, do cheiro a lixívia e de tudo o que mais queria no Mundo era a hora em que chegava a minha mãe.

domingo, 12 de setembro de 2021

Tudo o que aprendi na gravidez foi com o Lobo Antunes



"Que livros leste durante a gravidez da Ana?"- na feira do livro, lembrei-me da pergunta feita tantas vezes, por amigas grávidas e por leitoras do blog grávidas, ao longo destes anos. 

E eu sempre meio envergonhada a responder a verdade: não li nada, excepto as Crónicas do Lobo Antunes, porque estava internada e sem me poder mexer e não tinha nada que fazer. Minto, li um manual de uma enfermeira inglesa, Gina Ford, que era a guru da minha amiga Xana mas li mais por amor - para não desapontar a Xana- que por crença, que a senhora dizia que devíamos deixar os bebés dormirem sozinhos e deixarmos os putos chorarem até se calarem e se não se calassem lá poderíamos ir ao pé dos berços mas nada de acendermos as luzes para eles não nos verem e não quererem folia e voltarem a adormecer. 

Por isso digo que não li nada, mas li Gina Ford para não desapontar a Xana, por amor, nunca lhe disse que odiei a enfermeira inglesa maluca que fazia bíblias sobre bebés sem nunca ter sido mãe. 

E quando a Ana nasceu e fui fazer o primeiro biberão perguntei ao Rui "a misturar isto ponho primeiro o pó do leite ou a água?" e nenhum de nós sabia o que se punha primeiro, nem se fazia diferença a ordem com que se misturava aquilo. "Num biberão pomos primeiro o pó e depois a água e no seguinte fazemos o contrário e logo vemos se faz diferença para a miúda"- concordámos. 

Nenhum de nós leu livros e fomos fazendo sempre tentativa-erro, com a certeza, porém, que a trariamos para dormir no meio de nós, que não a deixaríamos chorar até desistir e que lhe acenderemos a luz todas as vezes que fizer escuro e ela precisar de ver o nosso rosto a dizer que tudo vai ficar bem. 

Tudo o que aprendi sobre livros na gravidez foi com o Lobo Antunes, talvez por isso ontem só tivesse comprado o seu último livro de crónicas, com a esperança que na sua arrogância para inglês ver me ensine mais sobre o mundo e sobre os afectos que enfermeiras inglesas que toda a vida trabalharam com bebés.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

E estava óptimo. Mas hoje sinto-me a lamber todas as salinas desde Aveiro a Rio Maior.

Depois do périplo do almoço vou jantar a casa dos meus amigos Ines e Bruno que fazem o quê para jantar?

Bacalhau à Brás. 

Pode ser o último post deste blog

Fui comer uma pasta ao almoço ao Basílico no Corte Inglês.

Agarrei numa daquelas cenas de metal que costumam ter queijo ralado e carreguei. Saiu um pó e achei que eram coentros. Era pimenta.

Praguejei.

Agarrei na cena ao lado, outra coisa de metal igual com os furinhos e pensei que iria carregar no queijo. Carreguei. Era sal.

Não quis dar parte fraca, sorri e comi tudo como se nada fosse.

Acho que os meus rins vão parar, a tensão disparar e sinto que a minha boca se afogou no mar salgado e não sinto a língua como da última vez que tinha nove anos e achei que devia lamber a cuvete de gelo.

Sou menina para falecer.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Materno skills aos 9 anos e um mês da miúda

Saber qual a quantia exacta que a fada dos dentes coloca debaixo da almofada quando lhe cai um dente- checked

Saber o ângulo que os olhos devem arregalar para impor respeito à miúda quando lhe abrir os olhos sem parecer que acabei de fumar umas ganzas nem que sou um carneiro mal morto- checked

Saber o tipo de bolachas e de leite que o Pai Natal come para lhe deixar na varanda na véspera de Natal- checked 

Treinar a cadência da expressão “che-gan-do a ca-sa con-ver-sa-mos”- checked

Saber sempre o nome da melhor amiga actualizado para poder usar com legitimidade a frase “não penses que falas comigo como falas com a tua amiga Joana”- checked 

Saber que ela está com febre sem usar termómetro e apenas encostando os meus lábios à sua testa- checked

Ter lenços de papel na carteira que aguentem saliva para poder limpar caras badalhocas da mesma forma que odiava que a minha mãe me limpasse a mim- checked 

Saber o tempo médio de um castigo para não ser rígida demais nem branda em demasia- checked 

Bater palmas com convicção na plateia de cada teatrinho da escola mesmo que ela tenha tanto jeito para as artes cénicas como eu- checked 

Saber exactamente o timing da contagem progressiva do "uuuuum, doooooooois...." e nunca chegar ao "trêêêês!" dando-lhe tempo para ela sair de onde está sem eu ter que me descabelar com ela- checked

Dizer com ar convicto “não te deixo comer gelados de água que isso é uma porcaria, escolhe antes um de leite”- checked 

Não me esquecer de reparar em como vai agasalhada e acrescentar, invariavelmente, um “não te esqueças do casaco, que vai fazer frio!”- checked 

 Nunca a deixar entrar no portão da escola sem lhe dizer que a amo, mesmo que às vezes, sem querer ou de propósito, a possa vir a embaraçar- checked

Conseguir abrir a puta da tampa do Ben u ron- checked



So far, so good...

It's Wednesday and I'm not in love

Bom dia a todas as pessoas menos aos patrões que decretaram o fim do tele-trabalho e que contribuem para o regresso das filas de trânsito.

Que a Nossa Senhora do IC19 ou a Santinha Padroeira da VCI vos acompanhe, sim? 

Am I alone?

 

Era eu a única criança no Mundo que pedia uma "pirâmide" na pastelaria e a minha mãe dizia que não porque era um bolo que era feito com os restos dos outros bolos e eu achava que era com os restos que as velhotas deixavam nos pratos e não com os restos da massa dos bolos?


Update 1- Acabei de perguntar a mámen e ele diz que sim: que eu era a única!


Update 2- Em boa verdade mámen diz que na ilha dele só havia Paninnis e não é uma fonte fidediga....

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Socorro!

A escola começa dia 14.
A minha filha já escolheu o vestido para o primeiro dia de aulas, as meias(!), os sapatos, os brincos, o gancho e a máscara a condizer bem como os brincos e já pendurou este carnaval todo na maçaneta do roupeiro.

Hoje é dia 7. 
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