quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Chove em nós

Já não são os nossos avós: são os pais. Depois do pai da Xana, um cinquentão saudável e charmoso ter morrido no balneário do seu ginásio, da mãe da Rosa aos 51 anos ter sucumbido a um AVC, desta feita foi o pai da Catarina,
Morreu para muitos um homem importante. Um ícone da Guiné-Bissau.
Acho que não conheço muita gente que tenha conhecido heróis. Talvez, a Calinhas, avó da Catarina, que conheceu Fernando Pessoa e tem um livro autografado por ele. Fico sem fólego de cada vez que me lembro disto. Mas eu falo de heróis vivos, pessoas reais, que vestem calças de ganga e usam cachecóis do Sporting quando assistem aos jogos directamente do sofá. Eu conheci.
Conhecer o Pepito, era conhecer um herói. Casou-se à revelia dos pais e, assim que nasceu a primeira filha, a família aterrou numa Bissau recém-independente, de onde era natural e onde queria mudar o (seu) mundo. Foi o pai da reforma agrária na Guiné, um político social por vocação e o maior impulsionador do desenvolvimento comunitário daquele país. Não queria dar peixe às pessoas mas ensiná-las a pescar. Não queria substituí-las, queria dar-lhes ferramentas. De Norte a Sul da Guiné, tabanca a tabanca, toda a gente sabia quem era o Pepito, o branco mais preto de que há memória. Viu-lhe ser pilhada a casa e a vida mil vezes e voltou a erguer tijolos, mobílias e a dignidade mil e uma. Dizia que "desistir é perder, recomeçar é vencer". Recusava ser comparado com o Che Guevara afirmando que "Morrer pela revolução é fácil, viver pela revolução é que é difícil". Ele viveu.
Morreu para muitos um homem importante. Um ícone da Guiné-Bissau.Para nós morreu o pai da Catarina, o pai de um de nós. 
Sentiremos a falta do seu sorriso franco de cada vez que nos recebia em Oeiras ou em São Martinho, das histórias da Guiné e do ar embevecido quando ficava criança outra vez só por brincar com a neta com quem dançava música africana e embalava em crioulo. Sentiremos falta do tom propositadamente sério para nos intimidar, do porte de gigante e dos olhos vivos de cada vez que se falava do Sporting. Sentiremos falta da sua presença no quintal com vista para a baía em almoçaradas cheias de gentes vindas de todos os lados do Mundo com quem acabávamos por confraternizar porque a sua casa era como o seu coração: aberta a quem viesse por bem. 
Hoje não chove lá fora mas chove em nós. Morreu para muitos um homem importante.Para nós morreu o único herói que conhecemos e, mais importante que tudo, morreu um pai. O pai de um de nós.

(Um beijo, Catarina. Gosto tanto mas tanto de ti.)



5 comentários:

Maria Pinto disse...

Lamento Pólo :'(
Um beijinho para ti e outro para a tua best friend Catarina!

Pedro disse...

É uma merda começarem a ser os pais. E crescer é fodido. Beijos a ambas

Margarida Almeida disse...

O mundo é tão pequeno... bem dizem aqueles teóricos que todos estamos a uns poucos nós uns dos outros... sigo este blogue há algum tempo e não fazia ideia que havia entre nós um nó comum...
Hoje, também eu lamento a mesma perda. Sou amiga da Pepas...

Luís Graça disse...

Liliana, és uma miúda extraordinária, sei que fizeste o ISCTE como eu, sou dos primeiros a passar por aquela escola, de boa memória para mim...

Quis ser politicamente correto ao acrescentar ao teu nickname "amigo/a da Catarina"... Não tínha dúvidas que ela uma amiga, pelo "estilo" literário... Há uma sensibilidade feminina e uma sensibilidade masculina... Só uma mulher, como tu, viria revelar em público que a avó da Catarina era a "avó da Calinhas", a decana da nossa Tabanca Grande, de quem temos muito orugulho e de quem queremos celebrar o centenário...

Polo Norte, aliás, Liliana, tive agora o privilégio de te conhecer pessoalmente, no velório do nosso comum amigo Pepito, que tu tratas com a reverência que é devida à distância geracional...

Com as pressas, cometi uma "calin(h)ada", troquei as manas, a Catarina e a Cristina... Não é a primeira vez... Sempre as troquei, aqui no blogue...Ambas começam por C... e o nosso convívio é diminuto. Mas, quando foi preciso pus a voz do blogue a reclamar por elas... e defendê-las dos energúmenos, portugueses e guineenses...

O bom gigante do Pepito ficava "piurso", agigantava-se ainda mais quando alguém "tocava" nas suas meninas... Aconteceu por duas ou três vezes... A Catarina sabe do que falo:; o episódio de Quinhamel, por ex. A Cristina não sei se já se lembra quando há uns anos foi maltratada por um senhor embaixador que se dizia representante de Portugal...

Peço desculpa a vocês três pela troca de nomes, ou melhor de posições das manas na escala de antiguidade.

Já corrigi. E entretanto já fui á Lourinhã, a 70 km de Lisboa, e já vim, depois de assistir à missa do 7º dia da minha querida mãe que se também despediu, aos 91 anos, da "terra da alegria" neste mês de fevereiro de má memória...

Um alfabravo (ABraço), como dizemos aqui, entre os grã-tabanqueiros que tinham no Pepito um amigo do peito e uma referência de esperança para a Guiné...

19 DE FEVEREIRO DE 2014

Guiné 63/74 - P12744: In Memoriam (179): Carlos Schwarz da Silva (1949-2014)... Pepito ca mori! (Liliana, amiga da Catarina): O Sr. Carlos, o Pepito, o filho da Calinhas, o marido da Isabel, o pai da Pepas, do Ivan e, especialmente, o pai da Catarina. O pai de um de nós. Para mim, era um herói, vivo

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2014/02/guine-6374-p12744-in-memoriam-179.html

Luís Graça disse...

Errata importante (...Liliana, na melhor nódoa cai o pano..):


(...) Quis ser politicamente correto ao acrescentar ao teu nickname amigo/a da Catarina"...
"amigo/a da Catarina"... Não tínha dúvidas que ERA uma amiga, pelo "estilo" literário... Há uma sensibilidade feminina e uma sensibilidade masculina... Só uma mulher, como tu, viria revelar em público que a avó da Catarina era a "avó CALINHAAS", a decana da nossa Tabanca Grande, de quem temos muito orugulho e de quem queremos celebrar o PRÓXIMO centenário"...

Tens uma escrita criativa, os teus dois blogues uma delícia!...

A imagem da matriosca russa (conjunto de bonecas semelhantes, de vários tamanhos, que se vão encaixando umas dentro das outras) é muito feliz e apropriada a nós e às nossas mães e pais... Quando um de nós morre, há algo que é amputado, como0 bem dizes, ao conjunto (o ADN, o fenótipo, a alma, a matriz sociocultural, a personalidade, a idiossincrasia, o que tu quiseres).

"Chove em nós" é um metáfora, lindíssiam, para dar conta da perda, do luto, da saudade...

Quanto ao teu pedido de permissão para nos visitar, com maior ou menor frequência, estás à vontade... Não fazemos discriminação com base na cor ou no tom da pele, as "branquelas" também têm direito a sentar-se à sombra do nosso mágico, secular, fraterno e protetor poilão da Tabanca Grande.

A partir de agora temos mais um bom irã a velar por nós todos, lá no alto do nosso poilão... O bom irã do Pepito que se despediu da "terra da alegria", como diria o poeta Ruy Belo... Tive pena de tu, e eu e outros amigos não lhe terem podido dar, em voz alta, na antecâmara do forno crematório uma palavra de despedida... Mas entendo e respeito a decisão da família...

Por mim, de resto, o "Pepito ca mori" (em crioulo, o "Pepito não morre").

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