Quando nos morre alguém, como no dia de hoje há dez anos, sentimos que não vamos sobreviver. A garganta fica com um nó, o coração apertado, os olhos pequenos de tanto chorar: tudo em nós encolhe, minga, sufoca.
O grande desafio de se crescer (eu não acredito em envelhecer, acho que crescemos até ao fim) é este: crescer implica expandir, abrir, ocupar mais espaço, ficar maior e a morte dos que amamos faz precisamente o contrário, diminui-nos, fecha-nos, insignifica-nos face à grandeza do amor. Por isso, dizia eu, o grande desafio de crescer é fazermos o pino e, com o mundo de pernas para o ar, encontrarmos o equilíbrio novamente sem as referências do amor que nos guia na vida, voltarmos a endireitar os quadros nas paredes, a olhar sem lágrimas as fotografias nas molduras, a endireitar a vida com o peso estranho da ausência que levita.
Cada pessoa que parte esvazia-nos, entristece-nos para sempre, numa tristeza que aprendemos a convidar para comer connosco à mesa e dormir e acordar ao nosso lado na cama, porque negar, evitar não a vai fazer desaparecer, porque aceitar ajuda a crescer, ainda assim. Um dia, desgostos somados, crescemos tudo e fazemos contas ao amor, às memórias felizes, à saudade e, outra vez, aos desgostos somados.
Crescemos a acreditar em finais felizes mas só há tristeza em qualquer fim.
Eu achava que não se sobrevivia à morte, há treze anos, há dez no dia de hoje, há cinco, neste Julho que passou e como estava enganada.
As pessoas dizem que se envelhece porque crescer deixa de ser bom e em expansão e passa a ser duro, com perdas e a mingar mas, ainda assim, trata-se sempre de crescer.
Crescemos até ao fim porque sobrevivemos sempre à morte.
É a vida que acaba. É à vida que não se sobrevive e esse é, talvez, o grande paradigma da humanidade. Do amor.
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