quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Aos 9 de Agosto de 2013, à Ana por ocasião do seu primeiro aniversário

A vida, minha filha, pode ser como o arco-íris um fenómeno óptico mas, aceita-o, Ana, a vida às vezes é mesmo uma ilusão. Dizem que o arco-íris resulta da separação da luz solar no seu espectro contínuo quando o sol se reflecte sobre gotas de chuva. É assim a vida, Ana, por vezes temos que a dividir em momentos, categorizá-la em emoções, deixar que a luz de dias felizes brilhe sobre as lágrimas que escoam dos nossos olhos, os teus azuis para te lembrar que as lágrimas são apenas ondas de um mar maior, imenso e infinito, que o teu olhar-barragem-oceano é sempre maior e mais valente. 
Eu sei que todos te dirão que o arco-íris, como a vida, se vê, mas eu peço-te, minha Ana, que caminhes mais longe: escuta-o, toca-o, lambe-o, respira-o, vive-o.  Olha-o. de frente, e lembra-te de que cada cor existe para te lembrar do essencial:

Encarnado- cor do coração. Nada vale mais na vida que o amor: o amor que há um ano só me dedicavas mim, que hoje sentes pelo teu pai, avó, tias.  O amor pelo incerto do futuro que pode ser o que tu quiseres, filha, basta só isso: quereres! O amor do Jobim, numa bossa nova ouvida numa noite de Verão enquanto contas estrelas cadentes e um homem que a vida te reservará te sopre uma dessas estrelas nos lábios. como quem pede um desejo. O amor pelo próximo, pelo outro sem que saibamos quem é, o amor pelo igual a ti, o amor desinteresseiro só porque a tua missão é tão banal e especial: fazer do Mundo um lugar melhor.

Laranja- cor do fogo. Na vida, o calor das emoções faz-nos agir. Sente muito, Ana: sente medo, sente ansiedade, sente borboletas na barriga e tremores na voz, sente nós na garganta, sente lágrimas a quererem evadir-se, sente gargalhadas que não consegues silenciar, sente sorrisos involuntários, sente o calor do rubor da face, a voz a querer-te falhar, sente dormente do corpo, sente sismos no coração, sente os pés doridos do bom que é caminhar a descobrir pedaços do Mundo. Sente a vida, filha, nada temas. 

Amarelo- cor do sol. Permite-te ao Verão, não desconfies quando a vida te der sol, fecha os olhos e transforma-te num girassol de Van Gogh, encara-o de frente, sente o calor a bronzear-te a alma, sem que precises de creme protector emocional. Junta-lhe sal, sal de um mar aqui tão perto, o mar de tua mãe, o mar do teu pai, tão diferentes mas o mesmo Atlântico. Sol e mar, sol e sol, sol como quem torna a vida bronzeada e divertida. Solarenga. 

Verde- cor dos pastos dos Açores, cor dos campos do Minho. Rega, todos os dias, o amor pelo passado que eu guardei embrulhado em memórias ternas para te oferecer, devagarinho, como quem oferece uma caixa de bombons que deve, lentamente, ser saboreada. Conserva as memórias do teu bisavô que, todos os dias, percorria metade de uma ilha de piratas, para acender um farol. Conserva as lembranças do teu bisavô a trabalhar, duro, na pedra, risos nos lábios, a tocar realejo, a entrançar vime para os cestos, pés descalços- Conserva as memórias da tua bisavó e os brincos de princesa, no quintal e nas orelhas, o cheiro  a pão aquecido nos bicos do fogão, vou tentar reproduzir para ti, minha filha, o calor do seu corpo junto ao meu em noites de doenças chatas, o cafuné, o embalar, conserva-as através de mim, Ana, vou-tas dar de herança, prometo. Conserva as pronúncias cantadas das ilhas e do Norte. o brilho do ouro dos piratas saqueadores do Atlântico e dos fios nos peitos fartos das dançarinas de rancho, o negro do basalto e das vestes das noivas do Minho, o verde da caldeira e do Gerês.

Azul- cor do mar. Sempre que a vida for dura, Ana, lembra-te de respirar fundo e lembra-te da maior lição que o teu pai nos deu: o mar é já ali.

Anil: a náo-cor- Desconstrói tudo o que dás como certo. Afasta-te do evidente e vê-o de longe. Relativiza. Não queiras saber todos os truques por detrás das ilusões. Não aceites verdades absolutas. Desconfia de quem tem mais respostas que perguntas. Ama Magritte. 

Violeta- cor das flores na beira da estrada. O melhor na vida é o mais simples: um abraço de um amigo, um festinha das mãos enrugadas da tua avó. ligares o rádio ao calhas e estar a passar a tua música favorita, adormeceres numa cama com lençóis lavados, perfumados e esticadinhos, o cheiro da maresia pela manhã, reconheceres o perfume de alguém que ames num desconhecido que passa, beberes água fresca da fonte num dia de muito calor, a tua mãe, eu. a preparar-te de surpresa o teu prato favorito, viajar sem destino, o colo do teu pai mesmo que aches que já não cabes nele, fazer um novo amigo sem contar com isso, o cheiro da lareira numa noite fria de Inverno, chegar a casa e descalçar os sapatos. 

E no fim dos dias, Ana, quando já souberes todas estas lições de cor, minha filha, e não te restar mais nada senão procurar o pote de ouro no fim-do-arco-íris, não deixes de o procurar mas, lembra-te que, tal como o poeta fez com a sua estrela, assim poderás fazer com o pote de ouro da tua vida: põe-no, tu,  lá! 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que nunca receberam uma declaração de amor por blogo-procuração via Quadripolaridades e a Marta.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que leram os livros da Alice Vieira na infância (e até têm um preferido*) e os outros.



(* por aqui: "Úrsula, a maior!")

domingo, 28 de julho de 2013

Amizade à prova de praseodímio

Foi num dos nossos restaurantes preferidos. A mesa estava cheia de desconhecidos, amigos de amigos, a conversar entre margaritas e burritos, música de mariachis e fajitas de pollo, quando ele entrou. 
Parecia um desenho animado em termos de fisionomia e indumentária, uma personagem-tipo de um livro do Eça. Quando falava, num tom teatral, agravava-se a formação do estereótipo. Sentou-se perto de mim e da minha amiga Xana, que fez as honras da casa e mo apresentou : "Protásio" de sua graça. 
Eu queria dizer alguma coisa mas ainda estava a digerir aquilo tudo, demasiado incrédula e confusa,  e só me saiu um "Portásio?". A Xana, num momento que ficará para sempre na história da nossa amizade de 15 anos, quis disfarçar a minha cara de parva e desconversar, saindo-se com um "Olha, podia ser Praseodímio", naquela que se tornou a nossa maior private joke de sempre. 
E, depois de rirmos, literalmente, até às lágrimas com a saída da bicha, trocámos de papéis e deixámos toda a gente confusa e intrigada, vitoriosas por termos mapas de referência semelhantes, códigos secretos que uma infância a ler nos permite. 
E percebemos, claramente que o Mundo se divide entre quem sabe que Praseodímio podia ter sido uma personagem de um livro infantil e quem acredita que é apenas um elemento químico.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Os Açores... na festa da Ana!

Quando comecei a organizar a festa da Ana, queria ter o condão te poder trazer a Lisboa todos os leitores queridos do meu blog. 

Impossibilitada de o fazer alegrei-me quando percebi que a Marisa Barroca e a Isabel Coimbra faziam diligências para encontrar um autocarro que me trouxesse as gentes do Norte. Percebi que a Fatima Agostinho podia fazer um car sharing trazendo a Daniela Braz do Algarve. Vem uma menina do Alentejo, outra de Coimbra, a Daniela Ferreira de Bragança. A Luz vem do Funchal!

No entanto, porque tenho um tipo dos Açores cá em casa, conheço o peso da insularidade. E sabia que era quase impossível trazer leitoras dos Açores para nos ajudarem a apagar a vela! 

 No entanto, tal como fiz para muitos lados, tentei fazer alguma coisa. E eis que me chegou esta resposta: 

"Cara Pólo Norte, 

 nome do Grupo SATA, acuso a receção da sua mensagem de e-mail e agradeço o seu pedido que mereceu a nossa melhor atenção. 

 Gostaria de lhe transmitir que o seu pedido se enquadra na ativa postura de responsabilidade social que assumimos, pelo que estaremos em condições de oferecer o nosso apoio com a cedência das duas viagens solicitadas no percurso Ponta Delgada/Lisboa/Ponta Delgada. " 



A Corisca Ruim e a Carlinha vêm à festa da Ana!

Obrigada, SATA! Ficámos de coração cheio!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Angola? Done!



"Tanto tempo andei a congeminar a quadripolarização e hoje, sem contar, a coisa deu-se! (Mais depressa te tivesse eu enviado o email de ontem...)
Ora aqui tens, querida Ursa: a Portuguesita já com cores de África (bem sei que não parece, mas acredita em mim!) no candongueiro, a dominar uma Cuca (cerveja nacional)!
Comentário do motorista: "Tia, vê lá, não vai me vender em Portugal!". Portanto, olha, diz que o moço não está a venda! ;)

Beijinhos!"

Obrigada e um granda beijo aí para a banda, "tia" Susana!
Pólo Norte <3 you!


segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que, ao deixar cair pão, este cai com a margarina para cima e as que o respectivo pão cai com a manteiga para baixo.


domingo, 21 de julho de 2013

Mónaco? Uh lá lá!



Um grande bisous para os chiques e giros Filipa e Pedro que cumpriram a "dolorosa" tarefa de quadripolarizar o Mónaco...

Pólo Norte inveja-vos- é certo!- mas <3 you!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Toda a gente tem uma segunda cidade

Não tenho raízes lá. Nem familiares para visitar. Nem mortos para colocar flores no primeiro de Novembro. Não é terra da minha mãe, pai ou avós. Não tenho quaisquer raízes na minha segunda cidade, excepto as memórias frescas e salgadas de Verões ininterruptos.
Perto da rua da colónia de férias, se fossemos sempre rente ao muro da D. Armanda, sem estragar as hortenses, vendiam-se suspiros na padaria e a primeira vez que bebi um ginger-ale foi no Pára-Raios, o café do lado. Nunca deixei de gostar de ginger-ales. 
Para a ria ia-se a pé, e eu tinha um colete verde que não me deixava afogar. E os ombros do meu pai, a mergulharmos aos dois. E gostava de apanhar pequenos caranguejos, nas areias movediças daquele braço de mar, para logo a seguir os soltar. 
Aveiro é a minha segunda cidade. Foi em Aveiro que assisti ao meu primeiro luau. O meu primeiro beijo foi dado no cenário da praia da Vagueira, num entardecer de Julho de 1992. Na mesma praia onde procurei fadinhas do mar, noites estreladas da minha infância, de pés a brincar na areia do mar, mãos a coleccionarem conchas. Ao longe, os touros a puxarem as redes, enquanto mordiscava um gelado da Camy comprado na tasca do Toni e da Lúcia. 
O farol da Barra marcava o sítio onde o mar se via mais alto, perto da Lua mais bonita que alguma vez vi. E os meus sonhos, Julho após Julho, tinham as cores das casas da Costa Nova e a doçura das tripas com ovos moles. 
Em Aveiro, as pessoas são mais bonitas, mais temperadas e gostosas, como se as salinas lhes dessem um gostinho ao ser e um travozinho ao sotaque, nortenho mas não tanto. E são leves e esvoaçantes e fáceis de trato, como se tivessem alma de bicicleta, sempre a girar,
Aveiro é a minha segunda cidade, sem razões nem raízes, sem que nada o fizesse prever porque as nossas cidades também somos nós que as escolhemos, por fim.

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