quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ana, a geógrafa

A jogar ao stop electrónico com a Ana e sai a categoria “rios ou lagos” e a máquina ordena “letra joooota”. Eu e o pai ficamos num impasse a pensar e a Ana dá uma traulitada no botão e responde muito assertivamente: 


“Duuuh! Janeiro: Rio de Janeiro!”

segunda-feira, 1 de julho de 2019

I want to ride my bike

Tenho 38 anos, quase 39. 

Passei a minha vida toda em crises existenciais: primeiro porque era diferente, depois porque queria muito andar de bicicleta sem rodinhas e as botas ortopédicas estorvavam, depois porque as borbulhas não passavam com clerasil, depois porque não sabia que área de estudo escolher, depois porque não tinha a certeza do que queria ser quando fosse adulta e a hora para universidade estava à porta, depois porque não arranjava emprego, depois porque arranjei e era a recibos verdes e não tinha estabilidade nem contrato de trabalho para pedir um empréstimo habitação ao banco, depois porque veio a pré-crise e a primeira empresa onde trabalhei declarou insolvência, depois separei-me no mesmo ano em que o meu avô morreu, depois tinha medo de pedir um empréstimo habitação e a crise e o camandro, depois a segunda empresa despediu-me grávida depois de me reconciliar, depois tive um aborto, depois trabalhei numa empresa que me dava um salário fixe ao fim do mês mas em que me sentia miserável, depois a minha avó morreu e tive uma gravidez de alto risco, depois veio o Passos Coelho, depois assaltaram-me a casa, depois fomos morar numa casa péssima arrendada, depois passei a trabalhar outra vez a recibos verdes e- quarailho!- já tinha dado para esse peditório e o que me levavam em impostos fazia-me chorar literalmente cada final de trimestre, depois comprei casa e uma hipoteca para a vida, depois fiquei gravemente doente, depois passei a trabalhar na associação onde me sinto realizada mas onde as condições não são fixes, depois perguntam-me se não vou mesmo ter segundo filho que os 40 estão à porta e a vida tem prazo de validade e eu continuo a não saber exactamente o que quero ser quando for grande e, de repente, já sou grande. Tenho quase 39 anos e à parte de ainda ter borbulhas que nenhum clerasil resolve e precisar definitivamente de arrumar a minha vida profissional num sítio com salário digno e onde possa fazer o que sei fazer bem (independentemente da área que segui e do título profissional que ganhei), tudo o que eu preciso no meu aniversário é de uma bicicleta. 

Com cestinho à frente e uma campaínha para não ser preciso desatar a praguejar.

domingo, 30 de junho de 2019

Ana, a empreendedora

A Ana e a melhor amiga andam há duas semanas a preparar este dia: foram apanhar limões ao limoeiro da minha tia, juntaram dinheiro para comprar açúcar, copos e ainda fizeram dois bolos. Montaram a sua primeira banca de limonada e estão na rua mas até agora zero clientes.

 Está uma ventania desgraçada e nada de calor. 

 A ver se chegam a alguma conclusão

sexta-feira, 21 de junho de 2019

21 de Junho: solestício de Verão



Ando a escrever um livro para a Ana, avô. ´

Já vai com muitas páginas e conta as histórias da nossa família para ela um dia ter certeza de que sangue e fibra é feita, de onde vem (de onde “bem”), que histórias a trouxeram até ao meu ventre, que adn moldou o seu carácter, espírito, coração.

 Reparei que muitas pessoas de cujas histórias lhe relato chegaram até mim em farrapos de momentos e cujas histórias de vida lhe resumo num parágrafo, dois se tanto. A tia Isaura que morreu com uma apendicite e que foi enterrada vestida de noiva de véu e flor de laranjeira depois do namorado confirmar que morria virgem e imaculada. A tia Maria que escondeu uma gravidez concebida no meio do milho e que foi mãe solteira para vergonha de toda a gente, sem nunca mais ter conhecido outro homem que não o cretino pai da filha que nunca a perfilhou. A tua mãe, minha bisavó Ana, que morreu queimada porque teve uma crise de epilepsia enquanto se aquecia à lareira. 

Decoramos e transmitimos de geração em geração as pessoas assim: por acontecimentos invulgares ou excepcionais, por feitos não normativos. Nunca resultam em mais de um parágrafo. 

No entanto, a ti avô, dedico várias páginas deste livro e tu eras tão normativo e previsível, tão certinho e normal e ainda assim o homem mais importante da minha história, luz e calor, referência securizante e óbvia, solstício de Verão na minha vida. 

A tua vida e o verão com que iluminou as nossas davam um livro cheio de amor, ternura, dedicação e bondade. Hoje fazes 89 anos. 

Continuas a fazer enquanto não fores apenas um parágrafo resumido na história dos teus descendentes futuros. F

azes 89 anos porque não és passado em mim, nunca me passarás, querido avô, presente de presença e presente de prenda, presente ao quadrado para sempre em mim. 

Parabéns!

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Coração de mãe não tem intervalo.

Não há nada mais duro que educar um filho.

Nós partilhamos experiências com outros amigos pais, lemos livros, participamos em fóruns, uns até tiram cursos de ciências do comportamento (presente!) mas nada nos prepara para os desafios de ensinarmos a vida e guiarmos o destino dos nossos filhos.

Até sabemos a teoria, conhecemos estratégias mas depois os dias engolem-nos, os impulsos atropelam-nos e o stress é um cão descontrolado e damos por nós desorientados e impulsivos, emocionais e irracionais, instintivos e irreflectidos.

Eu ainda não me habituei a isto de ser adulta e muitas vezes apetece-me pedir “coooito!” nesta correria da vida, para parar o pensamento, descansar o coração, enrolar-me sobre mim mesma e esvaziar a mente e voltar ao tempo em que a decisão mais difícil dos meus dias era escolher a roupa que ia levar no dia seguinte para o liceu.

Cresci a correr e não me habituei ainda aos papéis sociais que desempenho e em tudo o que me tornei: mulher, trabalhadora, adulta, casada, mãe. Sou tantas coisas e ainda assim desapareceu tanto do meu eu, distribuído e repartido por tantos pedacinhos de mim.

 Hoje ela está triste. O pai está triste. Eu estou triste.

Educar é a tarefa mais dura dos meus dias e se eu tenho dias duros. ´

Coração de mãe não tem intervalo.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Sobre liberdade no dia de hoje e fugindo um bocadinho além das questões patrióticas




Quando o Papa Francisco esteve em Marrocos foi homenageado com um espetáculo em que um muçulmano canta uma oração em árabe, um judia em hebreu e uma cristã canta a Ave Maria de Caccini. Ao fim, a mistura das vozes numa sintonia perfeita, relembrando que a liberdade religiosa é possível. 

Nada me parece mais perfeito para relembrar no dia de hoje. 

terça-feira, 23 de abril de 2019

Ana, a confiançuda

Mámen em reunião até tarde. Eu e Ana jantamos, tomamos banho e enroscamo-nos no sofa

Ouço uma vozinha; "E agora um drinkezinho. mamã?!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Anúncio do apocalipse

"Mãe quero falar-te sobre o meu aniversario."

" Xinapá, Ana, ainda falta muito : é só em Agosto. "

 “A pergunta é: Vais tu fazer o meu bolo de aniversário, não vais?

#fml
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