sexta-feira, 6 de março de 2020

Calma



Aos 20 anos a gente quer arrumar a vida: introduzir sonhos em Excel, somar conquistas, acumular experiências, encontrar as fórmulas certas para cada operação e que no final as contas todas batam certo. Se pudermos introduzir gráficos que provem que não há margem de erro é tratar, analisar e discutir os dados, tanto melhor. Não queremos que haja dúvidas de que estamos certos. 

Esperamos aos trinta anos termos a folha de Excel imaculada e depois percebemos que a matemática não depende só de nós: há falhas de electricidade, vírus nos computadores da vida, actualizações no próprio Excel de versão 1.1 e quando passamos a dominá-la, já vai na 7.1. e estamos sempre atrasados, desactualizados, perdidos. Errados nas contas. Irremediavelmente errados. São as primeiras pessoas significativas que nos morrem, as casas que não conseguimos comprar, as rendas de aluguer que aumentam, as viagens que sonhámos fazer para as quais o dinheiro não chega, a vida que desgasta as relações, os empregos que já não são para a vida e a consciência plena de que há muitas coisas que dependem dos nossos conhecimentos em Excel mas há a sorte, o mundo, o acaso e tudo aquilo que não controlamos. A electricidade que falha. 


Aos 30 fechamos as macros e as folhas e de repente somos mães e dizem-nos que a vida vai mudar e romantizam e é um paint irreal e ultrapassado. De Excel a paint- imagine-se o fail. E vendem-nos as aguarelas de que vamos tomar conta dos filhos e de repente são os filhos que tomam conta de nós, do nosso tempo, energia e planos. É duríssimo. “A maternidade é um esvaziar-se que transborda tudo”- li algures. É isto.



Aos 40 a gente até quer desarrumar a vida. Para os 40 quero um word onde possa escrever e deletar, activar o corrector automático e ignorar as sugestões, mudar estilos e números de fontes, contar palavras e arriscar em negritos, itálicos e sublinhados naquilo que importa. Construir a minha história. A minha. Mesmo que tenha -rev01 ou _rev100 na extensão dos nomes dos ficheiros guardados. Não preciso de contas nem cores. Só da história contada de forma corrida. A minha história.


Se tudo falhar que não me falte papel e caneta. 

Nunca me esqueci de como é bom escrever à mão. O difícil é recomeçar. 

quarta-feira, 4 de março de 2020

A parábola que se transformou numa metáfora e a morte de uma das principais figuras de estilo

Há exactamente sete anos andava fascinada com esta história. Contei-a aqui mas posso voltar a resumi-la:

"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse... e foi assim." 

  

Ulay morreu esta semana.

Dei por mim, triste e melancólica, a pensar em tudo o que poderia ter sido se se abraçassem e tivessem caminhado juntos na mesma direcção da Muralha da China. Teriam só conhecido uma margem- a mesma- os dois ao invés de cada um conhecer cada pedacinho do lado oposto. Teriam perdido Mundo? Teriam ganho Mundo?

Terá acontecido o mesmo com eles? Digo isto no sentido de acontecer de forma interna. Em que se tornaram no caminho individual? No que se poderiam ter tornado no plural?

O amor pode, não resistindo, persistir? E quando a vida e o amor são coisas diferentes? E todas as possibilidades que não passaram disso? E toda a história que se concretizou sobre uma não concretização?

Muitas vezes, o amor é uma coisa e a vida é outra e isso é, simultaneamente triste e belo de tão triste que é.  Uma contradição absolutamente estúpida. 

Ulay morreu esta semana e com ele morreu tudo o que poderia ter acontecido. 

terça-feira, 3 de março de 2020

Sistema de senhas prioritárias para o Coronovirus atribuídas a...


  • Pessoas que escrevem "-mos" em verbos conjugados na primeira pessoal do plural 
  • Pessoas que escrevem "estives-te" 
  • Pessoas que dizem "as alterações climáticas são uma treta, é tudo para ganhar dinheiro" e depois queixam-se que chove muito no verão ou que faz calor no inverno 
  • Machistas, racistas, xenófobos, fanáticos religiosos, políticos e clubisticos.
  • Pessoas que não distinguem o “à” do “há” 
  • Malta que cutuca no nosso braço enquanto falamos 
  • Pessoas que dizem "ha-des" e eles "idem"
  • Pessoas que dizem 'colocar' em vez de 'pôr' 
  • Pessoas que escrevem "fodasse" 
  • Gente que partilha imagens motivacionais da treta 
  • AVentesma
  • Pessoas que dizem ouvistes, falastes, Hades, Tufone, Pugrama... 
  • Pessoas que estacionam no lugar reservado a pessoas de mobilidade condicionada 
  • Homens que dizem “a minha Maria” quando se referem às mulheres 
  • Locutores de rádio super bem dispostos e felizes e a rir imenso logo às 8 da manhã. 
  • Malta que escreve "voçês" 
  • Toureiros e todos os que contribuem para isso 
  • Gente que diz "prontos" 
  • Pessoas que dizem “eu não sou racista mas"
  •  Pessoas que ainda têm jerricans cheios em casa
  • Fachos 
  • Mulheres que usam unhas de gel pontiagudas 
  • Terraplanistas 
  • Pessoas que começam a frase por "- Epá, estás mais gordo..." 
  • Pessoas que frequentaram a “universidade da vida” 
  • Pessoas que embarcam no medo e espalham rumores e fake news sem sequer tentar verificar idoneidade da informação 
  • Anti-vaxs
  •  Pessoas que lêem Pedro Chagas Freitas e Margarida Rebelo Pinto
  • Pessoas que usam 's como plural e desconhecem o uso do genitivo 
  •  Malta que diz sande e téni 
  • Pessoas que atendem o telemóvel durante espetáculos ou no cinema 
  •  Coachs da vida 
  •  Pessoas que mandam indirectas no Facebook 
  • Pessoas que tentam meter-se na frente dos outros na fila do supermercado 
  • Condutores de fim-de-semana 
  • Aquele youtuber que acabou com a namorada num vídeo 
  •  Homofóbicos e misóginos 
  • Pessoas que publicam fotos suas, acompanhadas de grandes pensamentos filosóficos (#sóquenão) e terminam os textos com "e mais não digo..." 
  • Os "arquitectos" que projectam WC públicos com menos de 1 m2, onde tens que encostar as pernas à sanita para conseguir entrar e fechar a porta! Ah!! E quem se lembra de instalar os sensores de luz, como se tivéssemos todos uma antena de meio metro na cabeça, para fazer aquilo disparar e não ficarmos de rabo para o ar a esbracejar! 
  • Homens que fazer mansplaining 
  • Pessoas que têm tanta pressa de entrar no elevador que bloqueiam a passagem de quem tem de sair para lhes dar lugar
  •  Gente de claques de futebol 
  • Pessoas que dizem "ele até diz umas verdades!" e esquecem as barbaridades políticas associadas 
  • Pessoas que compraram todas as máscaras e deixaram os imunodeprimidos a ver navios 
  • Quem diz "Amarei-te" e afins! 
  •  Epidemiologistas de sofá.

 (aceito mais sugestões na caixa de comentários)

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que usam o relógio no pulso direito e as outras.

Pertenço ao grupo de risco do coronovírus

Se quinar não me vão "atravessadas" na garganta as pessoas a quem não disse que amava nem as pessoas a quem me falta pedir desculpas: vão todas aquelas a quem não mandei para aquele sítio cabeludo.

Ana, a mercenária

Com toda a timidez que a caracteriza, a Ana tem uma característica improvável: adora trocas comerciais, é empreendedora e inventa sempre novas formas de ganhar dinheiro. Há uns tempos andou a vender receitas do seu fantástico bolo de cenoura, no Verão montou com a melhor amiga uma banca de limonada, já fez pulseiras de linha para vender às amigas e por aí fora. 

Vai que, recentemente, começou a separar, ela mesmo, as roupas e os brinquedos que já não usa e a vendê-los em segunda mão, estando- obviamente!- a juntar o dinheiro todo. 

No fim-de-semana, depois de ter açambarcado uma quantia simpática na Kid to Kid a vender roupa, virou-se para mim e para o pai, muito séria, e informou:

"Sabem, a minha palavra preferida no Mundo é... "dinheiro"!

O pai, a fingir-se ofendido: "Dinheiro? Tens a certeza?"

"Pronto, "dinheiro" e logo a seguir "grátis". Também gosto muito da palavra "grátis". 

Eu e o pai olhamos um para o outro, chocados e ela encaram-me:

"Não precisas de ficar com essa cara, que a minha terceira palavra preferida, logo a seguir a "dinheiro" e grátis", é "mãe", tá?

...

segunda-feira, 2 de março de 2020

Confessem lá sobre as saudades que vocês tinham de uma quadripolarização




"Oi!
Ouvi dizer que te faltava a Ucrânia, portanto aqui tens a praça central de Kiev! A panorama ficou um bocado tremida porque isto foi na manhã depois de descobrir o vodka ucraniano...

De bónus, tens Prypiat, do alto de um prédio de 16 andares (bem contados, que subi a pé), com o sarcófago de Chernobyl a ver-se ao fundo! Tive de pedir o papel ao guia e deixá-lo na zona de exclusão, não fosse estar contaminado. xD

Beijinhos quadripolares radioactivos

Ana C."


Querida Ana: finalmente o teu email publicado e a Ucrânia quadripolarizada. Yeahhh!

[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]

Despedidas à porta da escola: uma análise histórica da minha curta vida como mãe



No pré-escolar: 

Beijinhos, vá. Tem um bom dia, meu amor. Brinca muito. Porta-te bem. A mãe ama-te muito. 

No início da escola primária: 

Não dispas o casaco no recreio, ouviste? Toma atenção nas aulas! Não te esqueças da lancheira. Beijinhos, vá. A mãe ama-te muito.

Há dois meses:  

Não dispas o casaco no intervalo. Estás cheia de cieiro: não te esqueças de pôr o batom nos lábios. Come tudo o que vai na lancheira, ok? Muita atenção nas aulas, ouviste? Beijinhos, vá. A mãe ama-te muito. 

Há um mês:

A mãe ama-te muito, querida. Tem um dia feliz mas NÃO ENCOSTES A CABEÇA AOS MENINOS QUE ESTIVEREM A COÇAR MUITO O CABELO, OUVISTE? Beijinhos, tá?

Há uma semana:

A mãe ama-te muito MAS o coronovirus existe e estás proibida de dar abraços e beijinhos a quem quer que seja, ESTÁ BEM? 


The Secret Diary of Pólo Norte, Aged 39¾

Tens que fazer dieta que depois dos 40 não é fácil emagrecer. Se te desleixas ele arranja outra mais nova, que os homens a partir de uma certa idade, dá-lhes para isto. Não mudes de trabalho porque depois estás velha para encontrar um novo. Olha, que tens uma filha para criar. Não vais dar um irmão à miúda? Olha que é agora ou nunca! Já ouviste falar de menopausa precoce? Sabes que o útero tem um prazo de validade? Não pintes esses cabelos brancos não, que não é preciso. As tuas maminhas também já começam a acusar o peso da gravidade? Não podes comprar outra casa que já nenhum banco empresta dinheiro a trinta anos a pessoas de quarenta, né? Oh, uma pena ficares só por uma filha, que um não é nada mas também, ser mãe aos 40, só se fosse para seres avó da criança. Mudar de cidade? Nesta idade? Tu ganha juízo. Sabias que a outra fez uma plástica: podias seguir-lhe o exemplo. Credo, gabo-te a energia. Já não tens idade para usar esse decote. Não sejas tão impulsiva. Já não tens idade para dizeres palavrões que és uma senhora. Vais fazer uma festa de 40 anos com o tema dos anos 20? Podias usar uma maquilhagem básica para disfarçar essas manchas na pele. Já fizeste a mamografia? Já fizeste a ecografia mamária? Oh, tu também tens pés de galinha? Na tua idade é melhor assumires de vez o fato de banho, que já não tens corpo para bikini. Podias correr: na tua idade o que está a dar é fazer corridinhas. Ganha juízo e deixa-te estar como estás. Fazer uma tatuagem: olha para o que te havia de dar agora... Tens que ter mais pudor com o que escreves que não podes envergonhar a tua filha. Nem a tua mãe. O teu marido não se chateia que saias à noite com um amigo? Moderninhos, han? O Boom não é para gente da tua idade. Tu estima bem o teu marido que ele faz tudo em casa e homens desses não se arranja por aí. Estás gordinha, pá! Todas as tuas amigas estão na segunda ronda de bebés, tens a certeza que não? Uma corzinha nas unhas, vá, faz lá um esforço! Um gelinho? Bebe muita água que assim ficas sem fome. Fica tão feio uma senhora beber cerveja pela garrafa. Não percebo como não te interessas por moda. Estás a ficar uma simplória. Andas desleixada. Quanto é que te pesas, se não é indiscrição? Já não tens idade para falar de sexo assim, parece vulgar. Devias cuidar mais de ti. Como assim trocaste os recursos humanos por psicologia social? Queres ver que o dinheiro não te faz falta. Não tens saudade de ser bem sucedida? Vais ao revenge of the 80's? Estás gorda, já nem te conhecia. Já trocavas esses relógiozinhos da Swatsch por relógios de gente crescida, han? Como assim não és louca por malas e sapatos? Vais à neve? Tens a certeza que não vais mesmo dar um irmão à Ana? A melhor prenda que se pode dar a uma criança é um irmão. Ah, desculpa, se calhar não podes ter mais, não é? A tua vida é fantástica: não estragues tudo. As pessoas da tua idade... No teu tempo... Olha, quase, quase a entrar na ternura dos 40, han?


Ide-vos foder. 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Coração em tempos de cólera

O meu coração é um freguês do Lidl que passeia naqueles corredores centrais cheios de bugigangas à espera de aparecer uma quinquilharia que nunca me ocorreria que viesse a precisar mas que, a partir daquele momento, não consigo imaginar a minha vida sem tal inutilidade. E embora tenha tudo em casa, domine os sítios onde está tudo guardado, tenha moldado o sofá e as almofadas ao meu corpo e os tapetes e os chinelos aos meus pés deformados, o meu coração vai sempre lembrar-se que precisa de uma máquina de cortar pelos do nariz. Colorida, embora a cor não faça falta para nada e com certificação iso9001 e tudo.
Só que a verdade, verdadinha, é que eu nem sequer tenho pêlos no nariz.
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