sexta-feira, 20 de março de 2020

quarta-feira, 18 de março de 2020

Coping em tempos de cólera


Há pessoas que quando estão assustadas, com medo, ansiosas ou frágeis congelam. Ficam ali a cismar, sem conseguir agir, enterradas nas preocupações, com insónias e falta de apetite. A maioria das pessoas que conheço ficam assim e acho que, por serem a maioria, se considera que esta é a forma socialmente desejável de se sentir (mostrar?) sofrimento. 

Já eu quando estou triste, angustiada, preocupada, perdida ou ansiosa tenho duas respostas: primeiro começo a ser hiperactiva e exploro todas as opções que consigo controlar de forma desenfreada até as esgotar; segundo não dispenso nenhuma gota extra de energia sobre coisas que não controlo. E durmo, muito, como se o meu cérebro se quisesse poupar, numa espécie de reboot e armazenar energia para quando ela for mesmo útil. As pessoas não são muito empáticas por quem não se mostra down, na merda e - muito menos- por quem dorme durante o caos. 

Eu durmo. 

Pensei que seria essa a minha resposta a este stress que o vírus trouxe à vida de todos mas, Maslow existe, e fiquei doente ( e não foi somático: fiquei mesmo doente). E por isso (e por ser grupo de risco) estou em isolamento e numa serenidade que complica a maioria das pessoas que conheço. As estratégias de coping são as respostas de cada pessoa para lidar com situações extremas de stress externas ou internas. 

Não há estratégias padrão ou universais para lidar com o stress. Tal como há diferentes formas para se fazer bolos. 

Não julguemos quem se orienta para a regulação da emoção como não julguemos quem adopta estratégias de resolução do problema. É, mais que nunca, a altura de aproveitarmos o período de isolamento para nos conhecermos melhor uns aos outros, com o tempo que o dia a dia, o trânsito, os relógios e o que fazemos para jantar, não nos permite. 

Mas, sobretudo, aproveitemos este tempo para nos conhecermos melhor. A nós próprios. 

E seja qual for a forma que tenhamos disponível para nos auto-regularmos e pormos o bolo no forno. Há poucas coisas melhoras na vida que o cheirinho a bolo quente a sair do forno. E a certeza de que somos capazes de ultrapassar o stress e sairmos ilesos disto. E comermos o bolo sem culpa. Com o prazer de estar vivos. 

Estaremos.

terça-feira, 17 de março de 2020

Nobody sait it was easy but caralho, men!






Há uma semana fomos almoçar ovos rotos ao rubro e eu ofereci às minhas amigas os presentes de Natal  atrasados:  umas canecas tolas feitas por mim. Adiamos encontros, andamos sempre de agendas desencontradas e damos por garantidas novas oportunidades de estarmos juntas, de nos abraçarmos, de partilharmos comida na mesma mesa, de rirmos cara a cara. 

No dia seguinte voltámos a estar juntas num momento tristíssimo de uma de nós e mais uma vez suspendemos todos os planos e priorizámo-nos. 

Eu, que não acredito em premonições, olho para as mensagens toscas que escolhi para cada uma delas. e para o facto de uma fatalidade nos ter juntado um dia depois, como um prenúncio dos tempos que, hoje, vivemos. Vai passar.

 Nobody said it was easy (But caralho, men), vamos ter que gritar namastoda-se muitas vezes, mas enfim, sobreviveremos porque, no fim de contas, somos todos paleolitic survivers. Não vai ser fácil mas vamos superar. Vamos ter que viver dentro de casa, experimentar big brothers familiares duros e vamos ficar insuportáveis. Mas vivos, que é o que se quer. 

Enquanto escrevo este post olho para a caneca que ficou por entregar à querida MEP e sorrio. A caneca que reza assim “Jesus ama-te porque não convive contigo”. Que com este convívio não nos deixemos de amar. Pelo contrário: que sobrevivamos com mais amor, mais sentido de urgência no amor, menos adiamentos de planos, de afectos, de beijos, abraços, olhos nos olhos e gargalhadas ao vivo que nunca mais daremos por garantidas. 

A vida dá-nos sempre hipóteses de fazermos melhor. 
Faremos.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Ana, a confusa

"Ai mãe, a minha vida é uma confusão: como a catequese e o yoga são um dia a seguir ao outro nunca sei quando é que é para dizer ámen ou namaste"

...

quarta-feira, 11 de março de 2020

O Mundo divide-se...

... entre as pessoas que sabem o que significa quarentena e os estúpidos.

Ana, aos sete anos e bué dias



Chamo a Ana para tomar banho.

"Ó mãe, agora não dá! Estou no meu momento."

Volto a chamar, segunda vez.

"Deixa-me lá momentar mais um bocadinho, vá!"

Zango-me e começo a contar 1,2,2 e meio já para a banheira e ela segue à minha frente, injustiçada:

"Estás a ser momentosa!"

...

segunda-feira, 9 de março de 2020

Ana, a literal

 A professora da miúda reuniu a turma e fez uma brilhante e apaziguadora explicação sobre o Coronovirus, terminando com a recomendação mais inteligente de todas: o importante é lavar as mãos e bem e sem ser a despachar. 

Para ilustrar isto, deu como referência que eles devem lavar as mãos enquanto cantam duas vezes a canção dos "Parabéns a você". 

A modos que cheira-me que não há coronovirus que se cole à Ana pois, para além dela cantar desde a primeira estrofe do "Parabéns a você" até à última "uma salva de palmas", continua sempre com o "Obrigada, meus amigos, do fundo do coração, por me terem cantado esta linda canção", faz a onomatopeia dos aplausos, do sopro da vela olhando- se no espelho e no, fim, já a secar as mãos, reclama sempre com um "devíamos pôr uma vela aqui ao pé do lavatório para pedir um desejo quando acabo de lavar as mãos, não achas, mãe?"

São só 27538 minutos a lavar as mãos, coisa pouca. 

...

A minha vida é um prato de ovos rotos.




Uma espécie de metáfora da minha vida: batatas fritas alinhadas, presunto do melhor, o ovo no ponto certo mas o que mais queres na vida é desmanchar a gema do ovo, remexeres em todos os ingredientes, desalinhares todo o prato e chafurdares-te. 

A minha vida é um prato de ovos rotos.
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