quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Acto de rendição



Passaram vinte anos desde que visitei os Açores pela primeira vez. 

Foi amor à primeira vista mas foi uma paixão controlada, cheia de resistências e não assumida durante mais de dois terços deste tempo. Os Açores são a casa dele, terra-mãe e mar-pai e eu sentia-me numa luta desigual, com poucos trunfos para derrotar esta beleza, este paraíso. 

E se ele quisesse voltar? E se eu tivesse que vir com ele? E se o nosso futuro passasse por aqui? 

Eu tinha medo de perder o meu amor para esta terra e passei toda a vida a lutar contra ela, numa luta inventada por mim, um medo estúpido e infundado do meu inconsciente. 

Passava a vida a comparar o que via: este arco é igual à boca do inferno em Cascais, esta estrada igual a uma em Sintra, Cascais tem uma baía mais bonita que esta, lá há mais vida nocturna, as pastelarias da minha terra é que são, mas aqui não há semáforos?!... 

Sempre à procura de semelhanças, de coisas em comum ou coisas menos evoluídas, numa competição idiota como se evolução fosse a urbe, o cosmopolita. 

Silly me. 

Há poucos anos pela primeira vez comecei a procurar as diferenças, a unicidade e o espanto surgiu, sem resistências, entreguei o corpo às balas das ilhas. 

Os Açores não entram em competição com nada. Não precisam. Valem por si só, pelas suas paisagens, cultura, pessoas. 

Os Açores são os Açores e isso, parecendo pouco, é tudo. 

Eu tinha medo de perder o meu amor para esta terra mas foi o meu amor que me ganhou para esta terra. 

Os Açores são ele e a Ana. 

Os Açores também sou eu.

Rendo-me, enfim.

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