Já não são os nossos avós: são os pais. Depois do pai da Xana, um cinquentão saudável e charmoso ter morrido no balneário do seu ginásio, da mãe da Rosa aos 51 anos ter sucumbido a um AVC, desta feita foi o pai da Catarina,
Morreu para muitos um homem importante. Um ícone da Guiné-Bissau.
Acho que não conheço muita gente que tenha conhecido heróis. Talvez, a Calinhas, avó da Catarina, que conheceu Fernando Pessoa e tem um livro autografado por ele. Fico sem fólego de cada vez que me lembro disto. Mas eu falo de heróis vivos, pessoas reais, que vestem calças de ganga e usam cachecóis do Sporting quando assistem aos jogos directamente do sofá. Eu conheci.
Conhecer o Pepito, era conhecer um herói. Casou-se à revelia dos pais e, assim que nasceu a primeira filha, a família aterrou numa Bissau recém-independente, de onde era natural e onde queria mudar o (seu) mundo. Foi o pai da reforma agrária na Guiné, um político social por vocação e o maior impulsionador do desenvolvimento comunitário daquele país. Não queria dar peixe às pessoas mas ensiná-las a pescar. Não queria substituí-las, queria dar-lhes ferramentas. De Norte a Sul da Guiné, tabanca a tabanca, toda a gente sabia quem era o Pepito, o branco mais preto de que há memória. Viu-lhe ser pilhada a casa e a vida mil vezes e voltou a erguer tijolos, mobílias e a dignidade mil e uma. Dizia que "desistir é perder, recomeçar é vencer". Recusava ser comparado com o Che Guevara afirmando que "Morrer pela revolução é fácil, viver pela revolução é que é difícil". Ele viveu.
Morreu para muitos um homem importante. Um ícone da Guiné-Bissau.Para nós morreu o pai da Catarina, o pai de um de nós.
Sentiremos a falta do seu sorriso franco de cada vez que nos recebia em Oeiras ou em São Martinho, das histórias da Guiné e do ar embevecido quando ficava criança outra vez só por brincar com a neta com quem dançava música africana e embalava em crioulo. Sentiremos falta do tom propositadamente sério para nos intimidar, do porte de gigante e dos olhos vivos de cada vez que se falava do Sporting. Sentiremos falta da sua presença no quintal com vista para a baía em almoçaradas cheias de gentes vindas de todos os lados do Mundo com quem acabávamos por confraternizar porque a sua casa era como o seu coração: aberta a quem viesse por bem.
Hoje não chove lá fora mas chove em nós. Morreu para muitos um homem importante.Para nós morreu o único herói que conhecemos e, mais importante que tudo, morreu um pai. O pai de um de nós.
(Um beijo, Catarina. Gosto tanto mas tanto de ti.)


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