quarta-feira, 21 de agosto de 2019

[ Um grão infinito de mil bocados do Mundo]



Durante muito tempo fui bairrista, regionalista, quase ruista que toda a gente sabe que a minha rua é a mais bonita do Mundo só porque é a minha. 

Nasci em Cascais, mas sou Minho nas raízes, Poiares, Barcelos e Ponte de Lima a palpitarem-me nas veias, sangue do Norte galopante como o ritmo dos acordeãos e dos cavaquinhos. Sou de Aveiro por adopção de verões inteiros a ver os toiros arrastarem as redes de peixe na Vagueira e ovos moles comidos à colherada com vista para as casas piratas da Costa Nova. E sou Açores por afinidade, sou caldeira de Santo Cristo por amor, a Horta por paixão e Ponta Delgada e o pico do Pico porque os afectos de quem nos quer e trata bem passam a fazer parte de nós.

Eu sabia que o meu amor por uma terra que constrói de forma sólida a minha essência encontrava-se entre esta quadratura: Cascais, Minho, Aveiro e Açores, azul e verde na minha alma.

Mas depois cresci e quis mostrar o Mundo à Ana e passámos a ser os caretos de Podence e Trás-os-Montes com danças celtas e nós a pular à volta da fogueira a queimar o Judas. E passámos a ser o Porto e um bairro que habitámos e continua a fazer parte de nós, Francelos e o senhor da Pedra como fundo de gargalhadas bebés. E passámos a ser a Cúria colorida como o papel de parede do Hotel do Parque e barcos a remos e nós lá dentro a sorrir. E passámos a ser Marvão e um picnic sob um tecto de estrelas no castelo nós a rodopiar sob a lua. E passámos a ser Fátima da fé e da renovação de votos de casados como um roteiro de esperança que também se renova. E passámos a ser Tomar porque sim. E passámos a ser o Algarve da casa da meia lua, da prova de amizade sincera, de Cacela velha e corpos bezuntados de areia e pele a saber a sal. 

Talvez deixemos de ser tanto uma ou duas terras e nos vendamos ao Mundo. Talvez deixemos de ter a essência apurada e passemos a ser uma caldeação de sítios que tatuamos nas memórias mas acredito agora no poder libertador de se estar espalhado por tantos sítios e sermos o melhor de cada um deles: um grão infinito de mil bocados do Mundo. 

Sejamos.]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Road trip -dia 5 (Pueblos Blancos)



Há dois anos planeámos fazer esta viagem: perdermo-nos pelo sul de Espanha na rota dos Pueblos Blancos, pequenas aldeias, lugares e vilas em redor da serra de Cadiz e da serra de Grazalema com povo Serrano e casas brancas, esconderijos secretos, pedaços de história guardados, gastronomia caseira, longe do rebuliço, numa viagem de aventura a três.

 Teria acontecido no ano passado se eu não tivesse ficado doente, depois na penúria e em convalescença e por fim não tivéssemos rumado aos Açores, onde fazíamos falta. A Ana teria seis anos acabados de fazer e seria uma viagem marcante para assinalar esse marco, antes da entrada na escola primária.

 Mas a vida trocou-nos as voltas e mesmo que eu não tivesse estado na penúria, mesmo que os Açores não nos tivessem chamado, a verdadeira questão é que as minhas pernas e o meu corpo nunca me teriam permitido ser andarilho com a minha família por aqui. 

 Este ano, a Ana já tem sete anos, já lê sozinha no banco traseiro do carro e já nos ajudou a fazer o mealheiro durante todo o ano para estas férias. Eu já consigo andar mais de um km seguido, já lhe consigo pegar ao colo encaixando-a na anca quando os seus pés estão cansados e precisa de mimo, já consigo nadar nos rios, piscinas e mar sem me cansar à quinta braçada, já lhe consigo ensinar flamenco improvisado e dançar de forma atabalhoada com ela pelas Calles e já percebi - relembrei-me à força de não a ter- que saúde é tudo.

 É tudo e este ano, por estar rica de pés, pernas, anca e coxas, por conseguir novamente andar, correr, saltar, nadar, subir, descer e dançar- por tudo isto!- é altura de comemorarmos estarmos vivos e com corpos a funcionarem bem e realizarmos os nossos desejos.

 O nosso era o de explorarmos os Pueblos Blancos e tornou-se, sempre a tempo, numa maravilhosa e “preciosa” realidade.

 Olá Pueblos Blancos: vamos criar memórias felizes?!

domingo, 18 de agosto de 2019

Road trip - dia 3 e 4 (Sevilha)



De Sevilha muitas aprendizagens pela primeira vez: aprender que os adultos também precisam de colo e o importante que foi dormirmos os três naquela noite em que recebemos a notícia triste da partida da tia Ascensão, aprender que a tristeza pode ficar aninhada a um canto da alma e a vida prosseguir e sem culpas, sem cobranças sem remorsos porque a vida é de quem a vive, aprender que poucas coisas fazem mais feliz uma criança que lhe permitirmos experimentar ser quem quer ser mesmo que para isso baste um vestido às bolas, um leque e uns sapatos de salto, aprender que a fantasia não pode ficar refém do Carnaval e que o jogo simbólico é das aquisições mais mágicas da infância, aprender que basta passar uma fronteira para ser normal partilhar comida do mesmo prato e que as tapas não são apenas comida mas especialmente amor partilhado, aprender que remar de barco parece fácil mas que só lhe sobrevivemos com bom ritmo, inteligência, estratégia e trabalho em equipa como afinal acontece com quase tudo na vida, aprender que viajar em família só tem sentido se respeitarmos os gostos, vontades, desejos, ritmos e características de cada um e que ceder para ver o outro feliz não é chato mas apenas uma oportunidade de dele ficarmos mais próximo, aprender que as melhores viagens não têm horários nem rotinas e que férias são para se irem vivendo devagarinho e sem planos, enganando-nos no caminho para nos surpreendermos com a surpresa do desconhecido e do jamais planeado. 

 De Sevilha aprendemos que os três somos os melhores companheiros de viagem uns dos outros, a dizer “olé” acentuando na tónica certa e que abanicos de 3 euros podem fazer-nos ainda mais felizes.

Óle.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Road trip- pausa a meio do dia 2 (Sevilha)




Sou uma inconsequente e ensinei a música do genérico “Juego de la Oca” à minha filha, que a canta em looping e isto se fosse mesmo como nos anos 90 eu dava o cabelo ao manifesto no barbeiro aqui do burgo só para ela se calar.


 Socoooooorrrrrooo!

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Road trip - dia 1 (Mérida)



De Mérida a procura em vão de referências à princesa da Disney com o mesmo nome.


 De Mérida little Roma ao virar de muitas esquinas, as primeiras palavras em castelhano da Ana, calor que nos abraça e nos sufoca, abanicos às bolas porque muitas vezes os clichés são sempre as melhores ideias. 

De Mérida tinto de verano em salas climatizadas, o primeiro gazpacho da Ana, pontes romanas, a procura da próxima loja com ar condicionado, o templo de Diana, o circo romano, o museu, a lembrança que trazíamos no carro o borrifador que usamos para engomar roupa e, a partir daí, a diversão completa pelas ruas quentes e boas, boas e quentes. “E se andássemos no comboio e visitássemos os monumentos todos à turista?” e logo a seguir Mérida vista do amarelinho, o aqueduto dos milagres, o teatro romano, a ponte romana a dar-nos o tom da metáfora, pássaros em voos picados no céu.

 Mérida que acolhia os veteranos romanos depois de muitas lutas e batalhas na pele (para nós também), Mérida cidade de compensação, Mérida no coração.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Road trip- dia 0



Saímos depois de almoço: uma mala de roupa para cada um, um saco com os sapatos de todos e uma mochila de higiene. Um cesto com comida e bebidas, uma mochila para cada um com termos cheios de bebida. Uma pen com música que a minha mãe gravou ao gosto de cada um de nós, uma almofada de pescoço para a Ana e ála.


Acreditamos que aos sete anos podemos partir numa aventura no asfalto: temos uma rota definida, reservas de dormidas para os primeiros três dias (depois logo se vê quanto tempo queremos ficar em cada sítio que não gostamos de coisas muito rígidas), duas máquinas fotográficas para mim e a Ana, um diário de viagem para a Ana e papéis e aguarelas para o Rui, este instagram para mim. Aos sete anos vamos celebrar a descoberta, a emoção do desconhecido, a imprevisibilidade da vida e a família.


 A união merecida sem horários rígidos, compromissos, stress e afazeres: a liberdade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Aos 9 de Agosto de 2019, à Ana por ocasião do seu 7º aniversário



Há sete anos não dormi ansiosa por tu chegares. 

Esperei-te como quem espera todas as estações do ano: esperei-te como quem espera a primeira flor de cera no vaso lá fora que só brota uma flor por ano, esperei-te como quem espera o primeiro dia de praia com o mergulho silenciado por outono, inverno e primavera e o sabor do sal a abraçar-nos a pele, esperei-te como quem espera o primeiro chá quente e scones a sair do forno em tardes de vento e chuva, esperei-te como quem espera a meia noite da véspera de Natal. 

Esperei-te, Ana, como quem espera o amor completo. 

Ontem, depois de quase uma semana de ausência, depois de reclamares a atenção que é tua por direito, depois de pedires colo, beijos e abraços, cafuné e chamego, depois de empurrares cadeiras de rodas, ajudares a transportar tabuleiros no refeitório, de brincares sentada no chão porque se eles não podem usar as pernas tu também não queres usar, depois de teres abraçado a menina que caiu, depois de teres ajudado a pentear outras meninas mais velhas que tu e ajudares a calçar o menino que teve um surto, achei que te tratávamos como uma adulta. 

Olhei-te de fora e vi-te, crescida e madura como as primeiras cerejas, os primeiros figos de setembro, os dióspiros mais melosos e as laranjas mais sumarentas. E chamei-te, culpada por esperar tanto de ti e abracei-te, era meia noite e estavas de vassoura a varrer a sala de formação: “Parabéns, meu amor! Desculpa não nos temos conseguido despachar mais cedo! Desculpa não estares ainda a dormir! Amanhã o dia é só para ti!”.

 E tu, cansada e ansiosa por virmos passar este dia a casa, abraçaste-me: “não faz mal, mãe: eu gosto muito de te ajudar a ajudar os meninos da colónia!” 

Esperei-te há sete anos e admirei-te em todo o esplendor de uma natureza completa como nesta noite de vassoura nas mãos e a doçura de todas as frutas maduras no coração. 

Esperei-te há sete anos como quem espera o amor. Obrigada por mo trazeres inteiro e completo. 

Sete anos, Ana. 

Há sete anos saiu-me o sete no Totoloto: és o meu jackpot. 

Parabéns, meu amor!

sábado, 3 de agosto de 2019

Não exijo nada menos que uma tatuagem a dizer "Amor de mãe" quando ela for adulta

Há meses que a Ana insiste em que este ano seja eu que faça o seu bolo de aniversário.

 São duas de amanhã e ainda não fiz malas para levar para o campo de treino que começa esta manhã e que me obrigará a estar uma semana ausente de casa mas fiz o ensaio geral do bendito bolo.





Que o Santo Buddy Valastro me proteja!


domingo, 21 de julho de 2019

Tenho que dar um nome à minha bicla



Pedalei com mais força e deixei a Ana para trás, certa que o pai lhe deitava um olho. 

Deixei de os ouvir, ganhei balanço, passei por cima de calhaus grandes e achei que ia cair umas duas ou três vezes. Não parei. A regra foi-me ensinada no Alcoitão, de cada vez que fazia uma cirurgia ortopédica e lá ficava para reabilitação para reaprender a andar: ganha-se balanço e segue-se em frente, nunca se pára com medo de cair, é a coragem do balanço e a determinação de avançar que faz que não se caia. 

Se se cair, paciência, a voz da Dra. Beatriz : “se cair, levanta-se, ora essa. Levanta-se, ganha balanço e põe-se a andar”. 

De repente, fecho os olhos e continuo a pedalar: o vento na minha cara, a velocidade do ar contra o meu corpo a furar o espaço e a memória do meu avô que punha molas nas “perneiras” das calças para elas não se emaranharem na corrente da bicicleta velha e eu atrás à boleia, com a mochila às costas a caminho do liceu. 

O meu avô nunca me deixava ao portão, achava que eu tinha vergonha de ir na boleia da bicicleta velha guiada por um velho com molas a prenderem as calças e houve uma altura em que era capaz de ter, naquela altura em que todas as adolescentes querem ser cool, mas depois eu cresci e um dia, já no secundário, perguntei-lhe se me deixava mesmo ao portão, ele parou e olhou para trás “não tens vergonha que os teus amigos gozem contigo?” E eu disse que não, que tinha orgulho que ele me levasse na sua bicicleta porque me queria poupar as pernas e os pés fracos e sempre cansados mais o peso da mochila e o meu avô fez como eu no Alcoitao e tomou balanço e avançou, pedalando com muita força, e eu fechei os olhos e senti-me como hoje, e se caísse tudo bem, ele estava lá para me levantar. 

Hoje não está mas eu já não tenho medo e sei que se sacode as mãos, ganha-se balanço e avança-se. 

Nunca há outra opção senão avançar.

terça-feira, 16 de julho de 2019

O último dos 30



Este é o meu último post dos 38 anos.

Foi um ano bom e mau. Foi um ano que começou com a recuperação de meses de doença e esperança e fé e brindes à saúde e que acabou com dois nódulos vistos numa ecografia de rotina e uma semana calada e circunspecta cheia de medo e de superstição e de um aviso para repetir exames em menos de seis meses. Foi um ano que começou com Açores e muita água salgada que diz que afasta más energias e muitas fajãs e lagoas e mar a regar os ossos e as carnes e que acaba com trabalho árduo na zona J de Chelas, o caminho da segunda circular todos os dias para lá e para cá a matutar no desafio de financiar um campo de treino que a menos de quinze dias de começar ainda não está cem por cento financiado. Foi um ano que começou com a miúda entusiasmada a iniciar o primeiro ciclo e a ansiar conhecer a professora nova e acaba com a miúda exausta a precisar urgentemente de férias longe com os pais só para ela. Foi um ano em que a relação começou assente na conjugalidade emocional e acaba com a conjugalidade prática do dia-a-dia a esmagar-nos. Foi um ano que teve Roma intensa, romântica, cheia de vida e gente e detalhes e acaba a precisar de um tempo fora sem nada para fazer e pulseira tudo incluído. Foi um ano que começou de cabelo comprido e loiro e acaba de cabelo curto e escurecido. Foi um ano que começou sem vontade de escrever e acaba com vontade de escrever trinta livros. Foi um ano de regresso ao Minho e às origens, as memórias e introspecção e que agora quer focar-se no destino e no futuro, nos projectos, planos e concretizações. 

Foi um ano que começou no período fértil e acaba com TPM e isto, parecendo que não, representa muito bem os meus 38 anos. Assim como a vida. 

Venham amanhã- para fechar com chave de ouro os sobrevalorizados 30- os 39.
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