quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Road trip - dia 1 (Mérida)



De Mérida a procura em vão de referências à princesa da Disney com o mesmo nome.


 De Mérida little Roma ao virar de muitas esquinas, as primeiras palavras em castelhano da Ana, calor que nos abraça e nos sufoca, abanicos às bolas porque muitas vezes os clichés são sempre as melhores ideias. 

De Mérida tinto de verano em salas climatizadas, o primeiro gazpacho da Ana, pontes romanas, a procura da próxima loja com ar condicionado, o templo de Diana, o circo romano, o museu, a lembrança que trazíamos no carro o borrifador que usamos para engomar roupa e, a partir daí, a diversão completa pelas ruas quentes e boas, boas e quentes. “E se andássemos no comboio e visitássemos os monumentos todos à turista?” e logo a seguir Mérida vista do amarelinho, o aqueduto dos milagres, o teatro romano, a ponte romana a dar-nos o tom da metáfora, pássaros em voos picados no céu.

 Mérida que acolhia os veteranos romanos depois de muitas lutas e batalhas na pele (para nós também), Mérida cidade de compensação, Mérida no coração.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Road trip- dia 0



Saímos depois de almoço: uma mala de roupa para cada um, um saco com os sapatos de todos e uma mochila de higiene. Um cesto com comida e bebidas, uma mochila para cada um com termos cheios de bebida. Uma pen com música que a minha mãe gravou ao gosto de cada um de nós, uma almofada de pescoço para a Ana e ála.


Acreditamos que aos sete anos podemos partir numa aventura no asfalto: temos uma rota definida, reservas de dormidas para os primeiros três dias (depois logo se vê quanto tempo queremos ficar em cada sítio que não gostamos de coisas muito rígidas), duas máquinas fotográficas para mim e a Ana, um diário de viagem para a Ana e papéis e aguarelas para o Rui, este instagram para mim. Aos sete anos vamos celebrar a descoberta, a emoção do desconhecido, a imprevisibilidade da vida e a família.


 A união merecida sem horários rígidos, compromissos, stress e afazeres: a liberdade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Aos 9 de Agosto de 2019, à Ana por ocasião do seu 7º aniversário



Há sete anos não dormi ansiosa por tu chegares. 

Esperei-te como quem espera todas as estações do ano: esperei-te como quem espera a primeira flor de cera no vaso lá fora que só brota uma flor por ano, esperei-te como quem espera o primeiro dia de praia com o mergulho silenciado por outono, inverno e primavera e o sabor do sal a abraçar-nos a pele, esperei-te como quem espera o primeiro chá quente e scones a sair do forno em tardes de vento e chuva, esperei-te como quem espera a meia noite da véspera de Natal. 

Esperei-te, Ana, como quem espera o amor completo. 

Ontem, depois de quase uma semana de ausência, depois de reclamares a atenção que é tua por direito, depois de pedires colo, beijos e abraços, cafuné e chamego, depois de empurrares cadeiras de rodas, ajudares a transportar tabuleiros no refeitório, de brincares sentada no chão porque se eles não podem usar as pernas tu também não queres usar, depois de teres abraçado a menina que caiu, depois de teres ajudado a pentear outras meninas mais velhas que tu e ajudares a calçar o menino que teve um surto, achei que te tratávamos como uma adulta. 

Olhei-te de fora e vi-te, crescida e madura como as primeiras cerejas, os primeiros figos de setembro, os dióspiros mais melosos e as laranjas mais sumarentas. E chamei-te, culpada por esperar tanto de ti e abracei-te, era meia noite e estavas de vassoura a varrer a sala de formação: “Parabéns, meu amor! Desculpa não nos temos conseguido despachar mais cedo! Desculpa não estares ainda a dormir! Amanhã o dia é só para ti!”.

 E tu, cansada e ansiosa por virmos passar este dia a casa, abraçaste-me: “não faz mal, mãe: eu gosto muito de te ajudar a ajudar os meninos da colónia!” 

Esperei-te há sete anos e admirei-te em todo o esplendor de uma natureza completa como nesta noite de vassoura nas mãos e a doçura de todas as frutas maduras no coração. 

Esperei-te há sete anos como quem espera o amor. Obrigada por mo trazeres inteiro e completo. 

Sete anos, Ana. 

Há sete anos saiu-me o sete no Totoloto: és o meu jackpot. 

Parabéns, meu amor!

sábado, 3 de agosto de 2019

Não exijo nada menos que uma tatuagem a dizer "Amor de mãe" quando ela for adulta

Há meses que a Ana insiste em que este ano seja eu que faça o seu bolo de aniversário.

 São duas de amanhã e ainda não fiz malas para levar para o campo de treino que começa esta manhã e que me obrigará a estar uma semana ausente de casa mas fiz o ensaio geral do bendito bolo.





Que o Santo Buddy Valastro me proteja!


domingo, 21 de julho de 2019

Tenho que dar um nome à minha bicla



Pedalei com mais força e deixei a Ana para trás, certa que o pai lhe deitava um olho. 

Deixei de os ouvir, ganhei balanço, passei por cima de calhaus grandes e achei que ia cair umas duas ou três vezes. Não parei. A regra foi-me ensinada no Alcoitão, de cada vez que fazia uma cirurgia ortopédica e lá ficava para reabilitação para reaprender a andar: ganha-se balanço e segue-se em frente, nunca se pára com medo de cair, é a coragem do balanço e a determinação de avançar que faz que não se caia. 

Se se cair, paciência, a voz da Dra. Beatriz : “se cair, levanta-se, ora essa. Levanta-se, ganha balanço e põe-se a andar”. 

De repente, fecho os olhos e continuo a pedalar: o vento na minha cara, a velocidade do ar contra o meu corpo a furar o espaço e a memória do meu avô que punha molas nas “perneiras” das calças para elas não se emaranharem na corrente da bicicleta velha e eu atrás à boleia, com a mochila às costas a caminho do liceu. 

O meu avô nunca me deixava ao portão, achava que eu tinha vergonha de ir na boleia da bicicleta velha guiada por um velho com molas a prenderem as calças e houve uma altura em que era capaz de ter, naquela altura em que todas as adolescentes querem ser cool, mas depois eu cresci e um dia, já no secundário, perguntei-lhe se me deixava mesmo ao portão, ele parou e olhou para trás “não tens vergonha que os teus amigos gozem contigo?” E eu disse que não, que tinha orgulho que ele me levasse na sua bicicleta porque me queria poupar as pernas e os pés fracos e sempre cansados mais o peso da mochila e o meu avô fez como eu no Alcoitao e tomou balanço e avançou, pedalando com muita força, e eu fechei os olhos e senti-me como hoje, e se caísse tudo bem, ele estava lá para me levantar. 

Hoje não está mas eu já não tenho medo e sei que se sacode as mãos, ganha-se balanço e avança-se. 

Nunca há outra opção senão avançar.

terça-feira, 16 de julho de 2019

O último dos 30



Este é o meu último post dos 38 anos.

Foi um ano bom e mau. Foi um ano que começou com a recuperação de meses de doença e esperança e fé e brindes à saúde e que acabou com dois nódulos vistos numa ecografia de rotina e uma semana calada e circunspecta cheia de medo e de superstição e de um aviso para repetir exames em menos de seis meses. Foi um ano que começou com Açores e muita água salgada que diz que afasta más energias e muitas fajãs e lagoas e mar a regar os ossos e as carnes e que acaba com trabalho árduo na zona J de Chelas, o caminho da segunda circular todos os dias para lá e para cá a matutar no desafio de financiar um campo de treino que a menos de quinze dias de começar ainda não está cem por cento financiado. Foi um ano que começou com a miúda entusiasmada a iniciar o primeiro ciclo e a ansiar conhecer a professora nova e acaba com a miúda exausta a precisar urgentemente de férias longe com os pais só para ela. Foi um ano em que a relação começou assente na conjugalidade emocional e acaba com a conjugalidade prática do dia-a-dia a esmagar-nos. Foi um ano que teve Roma intensa, romântica, cheia de vida e gente e detalhes e acaba a precisar de um tempo fora sem nada para fazer e pulseira tudo incluído. Foi um ano que começou de cabelo comprido e loiro e acaba de cabelo curto e escurecido. Foi um ano que começou sem vontade de escrever e acaba com vontade de escrever trinta livros. Foi um ano de regresso ao Minho e às origens, as memórias e introspecção e que agora quer focar-se no destino e no futuro, nos projectos, planos e concretizações. 

Foi um ano que começou no período fértil e acaba com TPM e isto, parecendo que não, representa muito bem os meus 38 anos. Assim como a vida. 

Venham amanhã- para fechar com chave de ouro os sobrevalorizados 30- os 39.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Quais as vossaas melhores memórias de Verão de infância?



Acabava a escola e eu chegava a casa. A primeira coisa a fazer, nessa tarde do último dia de aulas, eram os trabalhos de casa. Todos. De enfiada. E eram muitos.
Quando não havia tempo útil para os terminar, completava a tarefa no dia seguinte. Era a minha forma de me ver livre das tarefas escolares até Setembro. A minha mãe educou-me para não gostar de tarefas chatas pendentes.
A seguir era a rainha do quintal.
Tínhamos um baloiço grande de jardim e eu sentava-me a ler nos finais da manhã, as gémeas no colégio de santa Clara e no das Quatro Torres eram minhas companheiras de aventura e cheguei a desejar ir viver num internato.
Depois a minha avó chamava-me para ir almoçar, não sem antes esperarmos pelo meu avô ao portão, para se juntar a nós. O meu avô cortava-me os bifes, esmagava-me as batas com o peixe e regava tudo com azeite e vinagre e não me ralhava quando eu fazia bolhinhas no sumo com a palhinha. A minha avó ria-se, mas era às escondidas.
À tarde ir brincar com a Cláudia e a Rita à cirumba, eu não era boa a correr, as botas com aparelhos estorvavam as asas da minha cabeça e agrilhoavam-me as pernas mas elas não se importavam. Muitas vezes jogávamos ao elástico ou ao sete com uma bola de ténis contra uma parede. Às vezes a avó Maria, a avó da Cláudia, chamava-nos para lanchar pão com o melhor doce de tomate de que tenho memória. Outras voltávamos a perder-nos no quintal, a fingir quer fazíamos bolinhos, com farinha e água da mangueira e ríamos muito. Vivíamos no tempo em que havia estações do ano e o Verão era mesmo Verão.
Às vezes, aos fins-de-semana íamos à praia da Conceição e andava de gaivota com as minhas primas que, Agosto após Agosto, vinham de avião visitar-nos.
À noite, pelo menos uma vez em cada Verão, ia nas cavalitas do meu pai até à Feira de Artesanato do Estoril e a minha mãe pedia sempre a uma fotógrafa que lá andava para me tirar uma fotografia que depois imprimia a preto e branco e que registava a minha evolução, Verão após Verão.
Os Verões felizes da nossa meninice servem para plantar memórias e sementes boas que nos preparam para os outonos e invernos da idade adulta e não só nos ajudam a estruturar: constroem-nos cheios de flores e de sol.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ana, a geógrafa

A jogar ao stop electrónico com a Ana e sai a categoria “rios ou lagos” e a máquina ordena “letra joooota”. Eu e o pai ficamos num impasse a pensar e a Ana dá uma traulitada no botão e responde muito assertivamente: 


“Duuuh! Janeiro: Rio de Janeiro!”

segunda-feira, 1 de julho de 2019

I want to ride my bike

Tenho 38 anos, quase 39. 

Passei a minha vida toda em crises existenciais: primeiro porque era diferente, depois porque queria muito andar de bicicleta sem rodinhas e as botas ortopédicas estorvavam, depois porque as borbulhas não passavam com clerasil, depois porque não sabia que área de estudo escolher, depois porque não tinha a certeza do que queria ser quando fosse adulta e a hora para universidade estava à porta, depois porque não arranjava emprego, depois porque arranjei e era a recibos verdes e não tinha estabilidade nem contrato de trabalho para pedir um empréstimo habitação ao banco, depois porque veio a pré-crise e a primeira empresa onde trabalhei declarou insolvência, depois separei-me no mesmo ano em que o meu avô morreu, depois tinha medo de pedir um empréstimo habitação e a crise e o camandro, depois a segunda empresa despediu-me grávida depois de me reconciliar, depois tive um aborto, depois trabalhei numa empresa que me dava um salário fixe ao fim do mês mas em que me sentia miserável, depois a minha avó morreu e tive uma gravidez de alto risco, depois veio o Passos Coelho, depois assaltaram-me a casa, depois fomos morar numa casa péssima arrendada, depois passei a trabalhar outra vez a recibos verdes e- quarailho!- já tinha dado para esse peditório e o que me levavam em impostos fazia-me chorar literalmente cada final de trimestre, depois comprei casa e uma hipoteca para a vida, depois fiquei gravemente doente, depois passei a trabalhar na associação onde me sinto realizada mas onde as condições não são fixes, depois perguntam-me se não vou mesmo ter segundo filho que os 40 estão à porta e a vida tem prazo de validade e eu continuo a não saber exactamente o que quero ser quando for grande e, de repente, já sou grande. Tenho quase 39 anos e à parte de ainda ter borbulhas que nenhum clerasil resolve e precisar definitivamente de arrumar a minha vida profissional num sítio com salário digno e onde possa fazer o que sei fazer bem (independentemente da área que segui e do título profissional que ganhei), tudo o que eu preciso no meu aniversário é de uma bicicleta. 

Com cestinho à frente e uma campaínha para não ser preciso desatar a praguejar.

domingo, 30 de junho de 2019

Ana, a empreendedora

A Ana e a melhor amiga andam há duas semanas a preparar este dia: foram apanhar limões ao limoeiro da minha tia, juntaram dinheiro para comprar açúcar, copos e ainda fizeram dois bolos. Montaram a sua primeira banca de limonada e estão na rua mas até agora zero clientes.

 Está uma ventania desgraçada e nada de calor. 

 A ver se chegam a alguma conclusão

sexta-feira, 21 de junho de 2019

21 de Junho: solestício de Verão



Ando a escrever um livro para a Ana, avô. ´

Já vai com muitas páginas e conta as histórias da nossa família para ela um dia ter certeza de que sangue e fibra é feita, de onde vem (de onde “bem”), que histórias a trouxeram até ao meu ventre, que adn moldou o seu carácter, espírito, coração.

 Reparei que muitas pessoas de cujas histórias lhe relato chegaram até mim em farrapos de momentos e cujas histórias de vida lhe resumo num parágrafo, dois se tanto. A tia Isaura que morreu com uma apendicite e que foi enterrada vestida de noiva de véu e flor de laranjeira depois do namorado confirmar que morria virgem e imaculada. A tia Maria que escondeu uma gravidez concebida no meio do milho e que foi mãe solteira para vergonha de toda a gente, sem nunca mais ter conhecido outro homem que não o cretino pai da filha que nunca a perfilhou. A tua mãe, minha bisavó Ana, que morreu queimada porque teve uma crise de epilepsia enquanto se aquecia à lareira. 

Decoramos e transmitimos de geração em geração as pessoas assim: por acontecimentos invulgares ou excepcionais, por feitos não normativos. Nunca resultam em mais de um parágrafo. 

No entanto, a ti avô, dedico várias páginas deste livro e tu eras tão normativo e previsível, tão certinho e normal e ainda assim o homem mais importante da minha história, luz e calor, referência securizante e óbvia, solstício de Verão na minha vida. 

A tua vida e o verão com que iluminou as nossas davam um livro cheio de amor, ternura, dedicação e bondade. Hoje fazes 89 anos. 

Continuas a fazer enquanto não fores apenas um parágrafo resumido na história dos teus descendentes futuros. F

azes 89 anos porque não és passado em mim, nunca me passarás, querido avô, presente de presença e presente de prenda, presente ao quadrado para sempre em mim. 

Parabéns!

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Coração de mãe não tem intervalo.

Não há nada mais duro que educar um filho.

Nós partilhamos experiências com outros amigos pais, lemos livros, participamos em fóruns, uns até tiram cursos de ciências do comportamento (presente!) mas nada nos prepara para os desafios de ensinarmos a vida e guiarmos o destino dos nossos filhos.

Até sabemos a teoria, conhecemos estratégias mas depois os dias engolem-nos, os impulsos atropelam-nos e o stress é um cão descontrolado e damos por nós desorientados e impulsivos, emocionais e irracionais, instintivos e irreflectidos.

Eu ainda não me habituei a isto de ser adulta e muitas vezes apetece-me pedir “coooito!” nesta correria da vida, para parar o pensamento, descansar o coração, enrolar-me sobre mim mesma e esvaziar a mente e voltar ao tempo em que a decisão mais difícil dos meus dias era escolher a roupa que ia levar no dia seguinte para o liceu.

Cresci a correr e não me habituei ainda aos papéis sociais que desempenho e em tudo o que me tornei: mulher, trabalhadora, adulta, casada, mãe. Sou tantas coisas e ainda assim desapareceu tanto do meu eu, distribuído e repartido por tantos pedacinhos de mim.

 Hoje ela está triste. O pai está triste. Eu estou triste.

Educar é a tarefa mais dura dos meus dias e se eu tenho dias duros. ´

Coração de mãe não tem intervalo.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Sobre liberdade no dia de hoje e fugindo um bocadinho além das questões patrióticas




Quando o Papa Francisco esteve em Marrocos foi homenageado com um espetáculo em que um muçulmano canta uma oração em árabe, um judia em hebreu e uma cristã canta a Ave Maria de Caccini. Ao fim, a mistura das vozes numa sintonia perfeita, relembrando que a liberdade religiosa é possível. 

Nada me parece mais perfeito para relembrar no dia de hoje. 

terça-feira, 23 de abril de 2019

Ana, a confiançuda

Mámen em reunião até tarde. Eu e Ana jantamos, tomamos banho e enroscamo-nos no sofa

Ouço uma vozinha; "E agora um drinkezinho. mamã?!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Anúncio do apocalipse

"Mãe quero falar-te sobre o meu aniversario."

" Xinapá, Ana, ainda falta muito : é só em Agosto. "

 “A pergunta é: Vais tu fazer o meu bolo de aniversário, não vais?

#fml

sábado, 13 de abril de 2019

Ana, a sismóloga

Entrei no quarto dela e estava um caos.

 Preparada para a repreender atiro: “Ana, que vem a ser isto?!” 

Apanhada, riposta: “Um simulacro?

terça-feira, 9 de abril de 2019

Quem define o que é preconceito terá que ser sempre o alvo deste

Começou no Carnaval: a mãe de uma pessoa para quem trabalho (gosto muito de ambas) queixava-se no facebook de que as pessoas estavam muito sensíveis a propósito dos comentários indignados e cheios de razão face a uma notícia de uma escola que tinha mascarado os seus alunos de negros, com peles pintadas, saias de palha e artefactos tribais. 

A senhora indignava-se e quando lhe expliquei sobre apropriação cultural recusou-se a aceitar os meus argumentos, contrapondo que agora se vê “racismo em tudo”. Falei-lhe de racismo flagrante e racismo subtil com toda a boa vontade. 

Continuava irredutível: que era uma forma de se mostrar a diversidade étnica e cultural, dizia a senhora e batia o pé. Contrapus para a realidade que eu e ela conhecemos: se numa escola decidissem mascarar os alunos de pessoas com deficiência, espetando-os em cadeiras de rodas ou dando-lhes canadianas, ela que é mãe de uma pessoa com deficiência, como se sentiria? Que era incomparável, que toda a vida nos mascarámos de chineses e indianos e qual era o mal. Eu continuava: porque não mascararem-se de pessoas com deficiência? Não era, pela mesma lógica, uma forma de sensibilização para a diversidade funcional? 

Às vezes as pessoas têm que se remeter à sua insignificância face a temas que não as melindram, sendo humildes o suficiente para respeitarem os assuntos que melindram outrem. Não interessa se a intenção é ou não racista (normalmente é, mesmo que velada e inconsciente, é muitas vezes racismo subtil e está tão enraizada que nem damos por ela...), a questão é que se ofende, se melindra, se tem impacto generalizado na população de negros: é racismo. Mesmo que não compreendamos. Não temos que compreender (quem não consegue compreender). Temos que ser humildes e aceitar. E pedir desculpas, retratando-nos. 

Isto a propósito do boneco negro que hoje jazia no iscte para gestão da raiva. “Ah, o boneco podia ser Branco”. Ah, mas não era. “Ah, mas é irrelevante, para o efeito, até podia ter sido um saco de boxe”. Mas não foi. “Ah, é apenas um ser inanimado de uma cor”. Pois mas a cor não é laranja ou roxo: representa uma figura humana negra. “Ah vocês vêem racismo em tudo!” Não está centrado no sujeito, isto do racismo, mas no objecto.

 Nós podemos vê-lo ou não, desde que eles o sintam: é racismo. 

Tal como seria discriminação se o boneco, de todos os bonecos que se pudessem ter escolhido para o efeito, estivesse sentado numa cadeira de rodas. 

Aceitem. 

Retratem-se.
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