segunda-feira, 11 de abril de 2022

Fátima

 

Tenho uma relação atribulada com a religião.
Cheguei, aos 41, a um compromisso: tudo o que nos faz sentir bem, acrescenta. Haja ou não racionalidade ou ciência, factos ou evidências: a fé é que nos salva sempre. E a fé pode ter diferentes metamorfoses: podemos ter fé no universo, num Deus, em várias entidades ou nas fadas e nos unicórnios, como a Ana. E tudo é válido, tudo é certo, desde que nos faça sentir bem, desde que nos faça sentir melhor.

A última vez que vim a Fátima com o meu avô, num Citroen AX a cair de podre, com o Rui a fazer a transferência dele para a cadeira de rodas praticamente de bruços, o meu avô chorou como se fosse um menino pequeno. Que era a última vez que cá viria e que, por isso, se queria demorar. Queria ter um lenço e dizer adeus à imagem de Nossa Senhora de Fátima. Queria cantar baixinho, e já sem força nos músculos oro-faciais, o avé Maria. "Ai que parvoíce, avô: claro que voltamos! Que disparate!". Era o que eu desejava, que o tempo de vida do meu avô fosse infinito e que pudessemos voltar sempre. Todas as vezes que nos apetecesse, comigo mais velha, num carro menos rasca, com mais conforto. Mas ambos sabíamos que aquela seria mesmo a última vez e, por isso, dessa vez demorámos todo o tempo do mundo, queimámos velas e ficámos muito tempo a vê-las arder, acenámos com um lenço branco ao passar da imagem e cantámos juntos e baixinho que "apareceu brilhando, a virgem Maria".

Não sei se apareceu ou não. Ao meu avô fez bem, acrescentou.

Quando aqui volto, desde então, venho sempre- sem excepção - ao encontro do meu avô.
Hoje vim agradecer bênçãos: a minha mãe, o novo desafio. Numa semana subi do Inferno ao Céu e não sei que intervenção divina foi esta mas tenho que agradecer: à virgem, ao meu avô, aos meus mortos que mantêm a sua energia sobre mim e me protegem. É esta a minha fé.

A Ana agradeceu a saúde da minha mãe, as boas notas e pediu proteção para os avós dos Açores.
Serena-me saber que ela tem fé e acredita que não está tudo sobre o controlo dela, que há alguma ordem no Universo e que coisas boas podem acontecer a pessoas boas.

Que ela aqui encontre, sempre, de quem vier ao encontro como eu hoje, mais uma vez, nas minhas preces, encontrei o meu avô e tive a certeza de que aquela não foi, nem nunca poderia ser, a última vez que ele aqui viria.

Ele está sempre aqui.

domingo, 10 de abril de 2022

Agora pensem qual é

 

Há tempos a Teresa, leitora do meu blog, escreveu e interpretou o hino quadripolar.
Era uma prosa incrível que não sei se ainda pára no YouTube.
A Ana andou a cantar aquilo meses seguidos, quando descobriu. Entre muitas das palavras que lá constavam a Ana acabou de eleger, agora ao jantar, a sua palavra favorita. "Esta é que é, mamã!"
"Meretrista"
Adianto que ela percebeu sempre mal a palavra e nunca tivemos coragem de a corrigir.
...

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Ir

 Há dias extraordinariamente ambivalentes.

De repente, há uma janela que se abre, se escancara para ti e tu ficas ali, sem saber se trepas, se a fechas e ficas ali, indecisa entre o calor de uma casa que conheces- onde te sentes em família, onde podes andar de pés descalços e sabes que há sempre comida quente sobre a mesa, abraços à tua espera - e o fresco das aventuras que te espera no outro lado do vidro, nas ruas desconhecidas cheias de desafios por desbravar. Sentas-te no parapeito da janela e olhas ora para dentro, ora para fora, o conforto de dentro, a casa e a família e todas as possibilidades em aberto de fora, tudo o que pode acontecer, a novidade, a mudança e tu até não és nada avessa à mudança. Fechas as portinholas e voltas para o calor? Ou pões uma mão de fora para testar a temperatura e, num salto de fé (é sempre de fé que se trata) saltas para o desconhecido (e se for um abismo? E se correr mal? E se ficares perdida ao frio? E se nunca encontrares o caminho para voltar? E se nunca mais houver volta?)?

Há dias extraordinariamente ambivalentes em que ficas de coração partido e, ao mesmo tempo, de coração acelerado porque dói sempre quando deixas quem gostas na mesma proporção do entusiasmo e da expectativa de quem está por conheceres, de quem um dia irás gostar.

Hoje foi um dia extraordinariamente ambivalente e eu vou saltar da janela porque a sorte protege os audazes e a mudança dá um medo do caraças mas nada nos lembra com mais poder de que estamos vivos.

Pode correr mal. Mas também pode correr bem.

Que a sorte, a fé e o afecto de quem fica dentro dos vidros da janela me proteja. Casa será sempre casa mas eu sou feita do verbo ir. Abram-se as janelas de par em par: estou a ir!

Vamos lá.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Respirar

 Entrava o sol pela janela e eu acreditei que era um bom pronuncio. Tinha comprado lírios violetas na véspera porque acreditei que seriam bons augúrios da chegada de uma Primavera há muito ansiada. Não no calendário, cá dentro, na vida.

Quando se tem esperança tudo nos parece simbólico e um pronuncio bom, agarramo-nos a tudo: ao sol a romper as frestas da janela, aos lírios a cantar opera desde os camarotes das jarras bonitas, a manta de rosetas da minha mãe a fazer arco-íris na sala.
As notícias vieram ao fim da tarde e eram boas. Quando a Dra. Mariana me ligou, desliguei o telefone e fiquei com os olhos cheios de lágrimas. A minha mãe está bem. Viva e bem.
Pensei que ia serenar e ter a paz que preciso tanto mas o meu cérebro pregou-me uma partida.
Desde então tem-me doido o peito e tenho tido dificuldade em respirar. Tenho que induzir o bocejo várias vezes para respirar fundo e sentir que respiro como deve de ser. Tenho tido pesadelos e noites pessimamente dormidas.

Tudo é compatível com uma crise de ansiedade desde segunda-feira. Ansiedade a estrear e com retroativos. Que me está a deixar exausta porque sou psicóloga e a reconheço teoricamente, sei de forma racional u estratégias para a minimizar e não consigo de forma alguma fazê-lo, como se ainda fosse preciso mais isto para eu perceber que não controlamos nada. Já tinha percebido há muito tempo, era escusado, mas o meu cérebro continua a sabotar-me e continuo cansada e a somatizar.

Não sei até quando.

As emoções são coisas sérias. As minhas estratégias de coping são sempre estratégias de resolução de problemas. Todas as minhas energias, perante um problema, são para a acção. Agora que posso descansar acho que o meu cérebro acha que se pode dar ao luxo de ficar triste, angustiado e doente com retroactivos.
Não posso fazer nada. Senão deixar toda a angustia acumulada passar.

A minha mãe está curada. Em breve o meu coração perceberá que pode relaxar e é tempo de comemorar.
Não sei quando. Sei que será quando conseguir apreciar sem sombras o sol, os lírios, a manta e, principalmente, a conseguir respirar outra vez.

Venha a Primavera.

Ana, a hiperbólica

 

Sem dar conta trago para a mesa uma colher de sopa para o gelado de sobremesa da Ana.
Atira a Ana: "Agora não te esqueças de trazer um remo para mexer o teu cafezinho, han!"

Açorianos perceberão


A palavra preferida do Rui é "ensocado",

À moda de São Jorge diz-se "ensucuado" e eu amo expressões açorianas, caraças! 

Fiz a mesma pergunta agora à Ana


"A minha palavra preferida é "mãe"."
"Não, Ana, esquece o significado! O som de palavra mesmo..."
"Sim, é "mãe". Eu grito o som, oiço o som e a seguir vens tu e resolves tudo e qualquer coisa ..
"Isso é muito fofo!"
"Sim, é "mãe". Empatado com "chulé". Não sei de qual gosto mais ..."

... 

Qual a vossa palavra preferida? (do ponto de vista fonético, esqueçam lá a simbologia, ok?)

 

Começo eu: psiché.
Agora vocês.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

O Mundo divide-se...

 ... entre quem prefere farófias com doce de ovos e quem prefere farófias com leite creme.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Ana, a actriz

 

Ana todos os dias, ao intervalo, brinca de ser atriz e representa os mais diversos papéis, inspirada vá se lá saber do quê.
Hoje, ao pequeno almoço, comentávamos que a minha mãe deixou de fumar e a pequena suspira:
"Tem sido complicado, mãe. Esta semana temos estado a representar Alice no País das Maravilhas e eu era sempre a lagarta que fumava e inspirava-me na avó e agora a lagarta teve que passar a mascar pastilha elástica e ficou assim um bocadinho esquisito...."
...
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