quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A primeira quadripolarização do come back





"Olá Pólo Norte. 

Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt. Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar! Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos. 

 Beijinhos"

Obrigada, Matilde! Grande beijinho.

Conheça todos os países já quadripolarizados aqui.

O Mundo divide-se ...

... entre as pessoas que acham que as piores reuniões da vida são as de pais nas escolas das crias e as que acham que são as de condomínio com os vizinhos de prédio.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ana, o espírito santo dos livros

"Mãe, hoje ressuscitei dois livros da biblioteca da escola"

Isto é capaz de ser uma metáfora da vida

Há uns tempos andava com problemas intestinais (é a vida, babes, sou de carne e tripas: aguentem-me!). Mas o que me irritava mesmo a molécula é que estava com um olfacto super apurado e, para todo o lado onde quer que fosse, toda a gente me parecia ter mau hálito. Um péssimo hálito. Um horrendo e persistente pivete.

Sustinha a respiração e tudo para ver se não levava com os bafos de onça alheios. 

Comentei isto do problema do meu olfacto apurado com mámen.

E parece que, foi-se a ver e o mau hálito era meu.  


 ...


Lição a reter: se tudo de parece mal cheiroso e tu és o único denominador comum, o inferno é capaz de não ser os outros.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Os meus amigos podem não ser melhores que os vossos, mas terão certamente um sentido de humor mais peculiar # 45


Ninguém tem sobrinhos cães mais fofos que eu...

Podem achar que isto é um apelo a voto mas eu não sou nenhuma influencer e só falo de mim: portanto pensem à vontade e ainda levam com o #eeuralada

Na semana que passou fui jantar com o Jorge - este Jorge- e uma amiga comum, também ela cadeirante, antes de irmos a um evento.

A amiga desloca-se de cadeira de rodas eléctrica e para chegar a qualquer compromisso tem que sair de casa- ainda que seja em Lisboa cidade- muito tempo antes, uma vez que só (alguns) autocarros da Carris conseguem oferecer-lhe a única alternativa: não se pode confiar na falta de elevadores a funcionar em pleno no acesso aos metros (quando há elevadores), não há normalmente táxis adaptados para aquela tipologia de cadeira eléctrica ( e a haver cada corrida custa mais que um jantar) e não há Ubers adaptados.

Ponto de encontro: parque Mayer, centro de Lisboa. Há ali dentro um restaurante simpático e com boa comida que já me havia sido recomendado. Na véspera liguei para lá para me certificar se tinha acessibilidade e a resposta veio afirmativa, até haveria a possibilidade de uma rampa amovível.

Fomos descansados e quando chegámos percebemos que não só não estava a rampa disponível como a acessibilidade estava pronta para ser assegurada em braços pelos empregados solícitos do restaurante: uma das cadeiras eléctricas sozinha pesa mais de cem quilos, para terem a noção. Declinámos gentilmente, até porque nenhum adulto tem vontade de entrar ao colo de estranhos num restaurante, por mais boa vontade e gentileza que venha revestida a oferta: precisamos de rampas e acessibilidades, não colos nem jeitinhos.

Frustrados continuamente, lembrámo-nos de que havia ali na esquina um restaurante sobejamente conhecido- estávamos na Avenida da Liberdade, uma das artérias principais de Lisboa. Assim que chegámos percebemos que não conseguiríamos entrar porque havia degraus disuasores mas ofereceram-nos como alternativa a esplanada contígua, em cima do passeio lateral da própria Avenida. Queríamos mesmo jantar e arriscámos, ainda que pingasse e os enormes chapéus não nos protegessem da chuva. Quando nos trouxeram o menu percebemos que não tínhamos disponíveis os mesmos pratos que serviam lá dentro às pessoas que descem degraus automaticamente sem pensarem nisso e que por não terem mobilidade condicionada jantavam com ar condicionado e a uma temperatura confortável. Indagámos a razão do menu alternativo: era o menu da esplanada. Mas a esplanada não tinha sido uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade pelo facto de um edifício com serviço público não cumprir a lei das acessibilidades. Que percebiam mas que aquele era o menu da esplanada.

Frustrados exasperadamente e salpicados de chuva pedimos um prego e bebidas de pressão. Veio a conta: 15 euros por pessoa (repito: um prego e uma bebida de pressão). Ah, são preços de esplanada! A mesma que não foi uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade.

Este é apenas um exemplo de uma quinta-feira à noite.

Eu não gosto de política mas percebo a sua necessidade como modelo de funcionamento social. Na verdade o que eu não gosto são de políticos, com agendas secretas e necessidades de tachos, vindos das universidades das juventudes partidárias e sem saberem que há vida para além da chatice dentro de carros confortáveis e funcionais na fila da A5 e da maçada do tempo que demora a vir o menu de degustação do restaurante in a que vão e onde comem a temperatura ambiente confortável e banda sonora a condizer.

Sobre o BE tenho pontos em que me revejo na sua agenda política e outros que nem por isso ou outros que não de todo.

No domingo - 6 de Outubro- votarei neles, ainda assim.

Porque a política tem que nos representar: a todos. Tem que haver vozes dissonantes, diferentes perspectivas, oposição (por isso é sempre tão perigoso haver maiorias absolutas). E de haver pessoas que proponham legislação que proteja todos, sabendo do que falam, na pele, não conceptualmente.

O Mundo não é das maiorias: é de todos. Inclusive de todas as minorias no seu espectro total desde aqueles que demoram mais de uma hora a atravessar Lisboa sem trânsito por falta de transportes acessíveis e que comem pregos cheios de nervos a 15 paus e com chuva na mona e ainda assim são privilegiados porque não vivem no limiar da pobreza até tantas outras pessoas com deficiência a quem não sobra esse valor depois de todas as despesas inerentes aos gastos com as desvantagens trazidas pelas suas patologias e nem sequer de casa conseguem sair para ir à rua, vivendo numa espécie de prisão domiciliária sem terem cometido nenhum crime, excepto o de não terem corpos cem por cento funcionais.

Este não é um apelo ao voto. Cada um votará em consciência e estará sempre certo. É um remind para que não se esqueçam que os políticos nos devem representar a nós, povo, conhecendo de perto onde nos dói e o que precisa de ser feito. E que nos representam e, por isso, são também a nossa voz.

E agora leiam a noticia com que partilho este post e conheçam o Jorge: o político que representa a minha causa, por ser tanto e também a dele.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Recomeços sem mimimis


Perguntam-me como corre a primeira semana de trabalho.

 Chamam-me valente, corajosa, que começar tudo de novo aos quase 40 é só para os bravos, que audácia arriscar num desafio desconhecido agora que sou mãe e que não devo correr riscos. ´

As pessoas sobrevalorizam os inícios e começos, desprezando que os primeiros passos de uma corrida são sempre os mais fáceis. Recomeçar não é complicado: é estimulante, causa borboletas na barriga e tem a magia de uma lua-de-mel, onde tudo o que vem ainda não está materializado e pode hipoteticamente tudo vir a acontecer. Mesmo os sonhos, os desejos e as expectativas que à frente constatemos que não passaram disso.

 Mudar é bom, especialmente quando é por escolha e não por inevitabidade.

 Mudo aos quase 40 e mãe de uma filha porque sei que o legado mais importante que lhe posso deixar é a certeza de que só nos farão sentir velhos se nos conformarmos, que a experiência só traz mais segurança e serenidade bem como certeza do que queremos.

 E eu queria tempo (não dinheiro porque o dinheiro recupera-se e o tempo não) e novas aprendizagens (não um cargo de poder porque o ego é uma armadilha letal) com pessoas que me pudessem ensinar coisas novas e desafiantes. Queria um ambiente flexível e ter novidades para contar ao jantar.

 E queria mudar porque o mais difícil é permanecer, resistir aos meses e anos em velocidade de cruzeiro quando se tem alma de pirata. O mais difícil é fazer maratonas e ter endurance e não iniciar sprints.

 Desta vez escolhi o mais fácil: seguir o meu instinto, sair de um terreno que dominava de olhos vendados e pôr-me à prova, sentir borboletas nos ossos, nas entranhas, para além de na barriga.

 A primeira semana foi boa, foi fácil: é sempre fácil quando nós cedemos a ser exactamente quem somos.

 Serei sempre uma pessoa que adora mudanças e que abraça recomeços. Recomecemos. Aprendamos.

 Sejamos quem estamos destinados a ser.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O amor é uma caixa de velocidades

Há uma musica do Jorge Palma que se chama “otimista céptico”. É nela que penso quando alguém mostra admiração pelo facto de estarmos juntos há 20 anos, casados há 13 - completamos hoje- e nos pergunta se há alguma fórmula para isto durar. Acho que a resposta está no nome da musica ou talvez ao contrário, cada um de nós vive assim a relação com um optimismo céptico ou com um cepticismo optimista, ambos se complementam, como nós.


Tu claramente és um optimista céptico: sempre achaste que isto ia ser para sempre, disseste-o junto do padre Cruz com o corpo e a alma mas sabes das dificuldades que a vida traz e conduzes tudo isto com cautela e atenção, prudência e em estado de alerta. É como uma metáfora com aquela ideia de que as pessoas têm acidentes de carro não quando acabam de tirar a carta de condução, inexperientes e maçaricos, mas um ou dois anos depois, quando já estão confiançudos e conduzem à vontade, acreditando que nem todas as regras de trânsito são para ser cumpridas e que semáforos de controlo de velocidade não são para serem respeitados. 


Conduzes isto sempre com a humildade de quem sabe que as estradas e as condições do tempo e de visibilidade nunca são iguais e é sempre novo, desconhecido, passivo de haver acidentes. E que tens que fazer a tua parte nunca desprezando que nesta estrada temos sempre que contar com a condução do outro e que são duas faixas na mesma auto-estrada e não uma faixa em cada sentido, e que devemos manter a mesma velocidade, mesmo que isso implique abrandar ou avançar, isto não é uma corrida de fórmula um, é uma road trip de endurance.


Já eu sou uma céptica optimista. Só quem é filho de pais separados compreenderá. Sempre acreditei que não ia dar certo mas sempre desejei muito que desse. Nunca dei como garantida esta relação mas sempre acreditei nela o suficiente para embarcar na viagem, colocar o cinto de segurança, ajustar bancos e espelhos e benzer-me a Sto. Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, porque muitas vezes trata-se de fé, de crença, de superstição, esta coisa do amor. Terço no espelho retrovisor, se preciso for. 


O amor é uma caixa de velocidades e duas pessoas que, não importa o destino, só querem viajar juntas.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Nem muitos, nem poucos: os suficientes.



Dei por mim a estabelecer como regra no instagram exactamente a mesma que firmei para as questões da minha amizade: nem muitos, nem poucos: os suficientes.

 Estabeleci um número que nunca ultrapasso de páginas a seguir: 500. Na amizade menos, infinitamente menos, sem número preciso mas talvez use como medida os dedos exactos da minha mão.

 As pessoas que sigo, como os amigos que guardo, merecem a minha atenção e tempo. Ora, toda a gente sabe que o tempo varia na proporção inversa da idade das pessoas porque é a mesma medida: quanto mais tempo se acumula nos ossos menos tempo externo se tem. Com a atenção varia na mesma proporção: quanto mais idade mais necessidade tem de se olhar a fundo, de não se dispersar, de perceber cada detalhe na pétala de um girassol, cada tonalidade de amarelo ao invés de um simples click num campo de girassóis para mostrarmos que “i’ve been there”. Estar é cada vez mais uma coisa demorada e lenta.

 Daí que desde que tenho instagram já tenha seguido e deixado de seguir dezenas de contas. Também tem que ver com fases da minha vida e necessidade de me inspirar: já deixei de seguir páginas de decoração nórdica, de maternidade perfeita, de minimalismo e organização pessoal. Não tem que ver com ter deixado de gostar ou não gostar das pessoas que as têm mas dos interesses que me despertam quem são, o que fazem e, especialmente, do que pensam e da forma como o transmitem. Inspiram-me cada vez mais pessoas serenas e que estão num processo contínuo de compreensão da vida, da arte, da música ou da poesia. Que serão talvez tudo a mesmíssima coisa.

 Às vezes procuro semelhanças: coloco um hashtag com um assunto ou pessoa que me interesse e começo a seguir quem fala sobre esse tema, na expectativa de encontrar mais pontas soltas que nos unam, de aprender coisas novas da vida. Percebo e não levo a peito quem deixa de seguir a minha pagina e no fundo só desejo mesmo que 500 pessoas me sigam com o mesmo tempo e atenção com que sigo as minhas 500. Pontas soltas ao quadrado. 

 Na vida como no instagram é preciso tempo e atenção para encontrar almas que se interessem pela vida da mesma forma que nós. 

 Aos quase quarenta, na vida já não dá para ver bonecos.

sábado, 24 de agosto de 2019

Só há uma forma de amar: cuidando (Grazalema)




Só há uma forma de amar: cuidando.

 Cuidando que o outro se sente confortável, satisfeito, em paz e feliz. Cuidando que se chega ao pequenino hotel num vale tão querido no meio das montanhas e se diz à mãe: “vai tomar um banho que eu vou-te preparar uma surpresa”.

 E se arromba o saco das compras do supermercado e se dispõe alimento a alimento na mesa, tudo simples e sem qualquer requinte. E se vai buscar uma cadeira extra e as cartas do UNO para todos nos sentarmos e jogarmos uma partida a seguir ao jantar. E se entra na casa de banho e se pergunta alto: “mãe?! Como se diz em espanhol podia-me emprestar copos?!” E se segue para a recepção, repetindo baixinho a frase em portinhol, para não se esquecer.

 E depois a mãe sai do banho, seca-se e veste-se e dá com ela a preparar o melhor jantar dos últimos tempos, era só atum, gaspacho de pacote e tinto de verano de garrafa, pão e presunto mas depois também estava calor e o sol a pôr-se nas montanhas ali à frente, o tempo parado, e no telemóvel dele a música a tocar e a minha filha de sete anos a trautear o refrão.

 Só há uma forma de amar: cuidando.

 A Ana sabe-o melhor que ninguém e eu sei que o sabe, mesmo que inconscientemente, mesmo que por mero instinto, tive a certeza no meio da serra de Grazalema, este Verão.

E juntei-me a eles no refrão. 

 “Gracias a la vida” era, tão oportunamente, a canção.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Uma espécie de Oásis (Cueva del Gato)


Já estávamos cansados e já tínhamos 17 Pueblos Blancos no passaporte das nossas memórias.

 Já tínhamos muitos quilómetros de alcatrão acumulados, muitas montanhas com sol a nascer e a pôr-se decoradas nas retinas, muitas aldeias e vilas feitas noivas, alvas, brancas e puras cravadas em tudo o que vivemos, como se tivéssemos apanhado 17 bouquets sucessivamente que nos dessem acesso ao novo Pueblo, que fôssemos os próximos a que os barqueiros de lagoas, rios, ribeiras e barragens deixassem passar.

 Já tínhamos jamon, tapas em restaurantes e esplanadas, tintos de verano em varandas de hotéis e pensões em noites a dois enquanto a Ana já dormia, já tínhamos granizados, pão estrafegado em tomate, gaspacho frio, queijos e azeitonas compradas à beira da estrada e um desprezo enorme pela dieta durante todo o trilho.

 Já tínhamos o calor da cidade, o borrifar dos aspersores nas ruas de Mérida e o fresco de tantas fontes e fontanelas tatuados na pele. Já tínhamos o cheiro aos olivais e às árvores da serra, ao pó da terra árida e às dezenas de pássaros que voavam conosco sob o mesmo céu, abutres até. Já tínhamos casas brancas, azuis e a memória de uma cor terracota que marcou toda a viagem como os abanicos encarnados com bolas porque os clichês são para se perpetuarem.

 Já tínhamos a Carolina Deslandes, o Jorge Palma e a Luísa Sobral mais o Sérgio Godinho e a Mariza a tocarem na pen do carro e o Despacito na Radiolé e outras estações espanholas com ritmos de verão, pelo menos para nós. Já tínhamos noites estreladas em vales profundos e noites dormidas os três em camas apertadas e manhãs de lutas de almofadas só porque sim.

Faltáva-nos um oásis, daqueles à filme, um presente fresco numa longa travessia num deserto que não é metafórico, pois há muito que não nos sentíamos tão selva.

 Encontrámo-lo, perdidos na serra de Grazalema, e mergulhámos, enfim, nas águas geladas da Cueva del Gato.

 Podem googlar mas o Google nunca vos conseguirá explicar isto assim.

 Isto assim.

Na aldeia azul (Júzcar)


O GPS tinha-nos enganado.

 Nós não stressamos com imprevistos e até sabemos que é dos enganos que muitas vezes se chega a sítios inesperados e ainda melhores. Mas estávamos num trilho terrível, curvas e contra curvas, numa serra que não conhecíamos e num caminho de terra demasiado estreito para o nosso carro com penhascos lá em baixo.

 A Ana cantarolava lá atrás no banco, completamente alheia ao perigo que corríamos. Eu estava em pânico, a ansiedade no pico máximo, com arritmia e completamente descontrolada. Queria parar, voltar a pé, sair do carro e gritar, chorar, ligar para o 112 e pedir socorro, ai que se vem um carro de frente e nós não temos qualquer visibilidade, embatemos, caímos no penhasco e morremos. A Ana continuava a tagarelar, eu estava perdida em orações e a pensar que estava a segundos de ter a primeira crise de ansiedade da minha vida e não podia. Não podia mostrar descontrolo à minha filha, não podia entrar em pânico, tinha que permanecer segura e aparentemente sob controlo. 

Olhei para ele, ali ao lado, pálido e calado, com os maxilares tensos, a transpirar por todos os poros, corpo rígido. Ele estava a conduzir-nos, tinha a vida de nós os três nas mãos, não dizia nada. Não podia mostrar desconfiança na condução do meu marido, tinha que me manter optimista e controlada, tinha que o ajudar a tirar-nos dali.

 Então, respirei fundo-muito fundo- e fui buscar energia, serenidade e gestão das emoções à menina que ficava, aos 5 anos, internada no hospital meses seguidos, a sentir-se sozinha e perdida quando acabava a hora da visita e a minha mãe tinha que sair e a noite chegava e eu só me podia valer a mim mesma. Eu ainda sou essa Liliana, progressivamente segura e controlada, racional e objectiva: tens que ficar, é para teu bem, isto vai passar, não tarda muito tens alta e vais para casa. 

Abri os olhos e comecei a falar com ele: este caminho vai acabar, não sabemos daqui a quanto tempo, mas vai acabar, vamos com calma, somos uma equipa, buzina duas vezes em cada aproximar de curva para que nos ouçam, está quase, vai correr bem. 

Correu. Chegámos à aldeia azul da cor dos olhos deles. Vivos, unos, equipa. Família. Respirei fundo, enfim

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

[ Um grão infinito de mil bocados do Mundo]



Durante muito tempo fui bairrista, regionalista, quase ruista que toda a gente sabe que a minha rua é a mais bonita do Mundo só porque é a minha. 

Nasci em Cascais, mas sou Minho nas raízes, Poiares, Barcelos e Ponte de Lima a palpitarem-me nas veias, sangue do Norte galopante como o ritmo dos acordeãos e dos cavaquinhos. Sou de Aveiro por adopção de verões inteiros a ver os toiros arrastarem as redes de peixe na Vagueira e ovos moles comidos à colherada com vista para as casas piratas da Costa Nova. E sou Açores por afinidade, sou caldeira de Santo Cristo por amor, a Horta por paixão e Ponta Delgada e o pico do Pico porque os afectos de quem nos quer e trata bem passam a fazer parte de nós.

Eu sabia que o meu amor por uma terra que constrói de forma sólida a minha essência encontrava-se entre esta quadratura: Cascais, Minho, Aveiro e Açores, azul e verde na minha alma.

Mas depois cresci e quis mostrar o Mundo à Ana e passámos a ser os caretos de Podence e Trás-os-Montes com danças celtas e nós a pular à volta da fogueira a queimar o Judas. E passámos a ser o Porto e um bairro que habitámos e continua a fazer parte de nós, Francelos e o senhor da Pedra como fundo de gargalhadas bebés. E passámos a ser a Cúria colorida como o papel de parede do Hotel do Parque e barcos a remos e nós lá dentro a sorrir. E passámos a ser Marvão e um picnic sob um tecto de estrelas no castelo nós a rodopiar sob a lua. E passámos a ser Fátima da fé e da renovação de votos de casados como um roteiro de esperança que também se renova. E passámos a ser Tomar porque sim. E passámos a ser o Algarve da casa da meia lua, da prova de amizade sincera, de Cacela velha e corpos bezuntados de areia e pele a saber a sal. 

Talvez deixemos de ser tanto uma ou duas terras e nos vendamos ao Mundo. Talvez deixemos de ter a essência apurada e passemos a ser uma caldeação de sítios que tatuamos nas memórias mas acredito agora no poder libertador de se estar espalhado por tantos sítios e sermos o melhor de cada um deles: um grão infinito de mil bocados do Mundo. 

Sejamos.]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Road trip -dia 5 (Pueblos Blancos)



Há dois anos planeámos fazer esta viagem: perdermo-nos pelo sul de Espanha na rota dos Pueblos Blancos, pequenas aldeias, lugares e vilas em redor da serra de Cadiz e da serra de Grazalema com povo Serrano e casas brancas, esconderijos secretos, pedaços de história guardados, gastronomia caseira, longe do rebuliço, numa viagem de aventura a três.

 Teria acontecido no ano passado se eu não tivesse ficado doente, depois na penúria e em convalescença e por fim não tivéssemos rumado aos Açores, onde fazíamos falta. A Ana teria seis anos acabados de fazer e seria uma viagem marcante para assinalar esse marco, antes da entrada na escola primária.

 Mas a vida trocou-nos as voltas e mesmo que eu não tivesse estado na penúria, mesmo que os Açores não nos tivessem chamado, a verdadeira questão é que as minhas pernas e o meu corpo nunca me teriam permitido ser andarilho com a minha família por aqui. 

 Este ano, a Ana já tem sete anos, já lê sozinha no banco traseiro do carro e já nos ajudou a fazer o mealheiro durante todo o ano para estas férias. Eu já consigo andar mais de um km seguido, já lhe consigo pegar ao colo encaixando-a na anca quando os seus pés estão cansados e precisa de mimo, já consigo nadar nos rios, piscinas e mar sem me cansar à quinta braçada, já lhe consigo ensinar flamenco improvisado e dançar de forma atabalhoada com ela pelas Calles e já percebi - relembrei-me à força de não a ter- que saúde é tudo.

 É tudo e este ano, por estar rica de pés, pernas, anca e coxas, por conseguir novamente andar, correr, saltar, nadar, subir, descer e dançar- por tudo isto!- é altura de comemorarmos estarmos vivos e com corpos a funcionarem bem e realizarmos os nossos desejos.

 O nosso era o de explorarmos os Pueblos Blancos e tornou-se, sempre a tempo, numa maravilhosa e “preciosa” realidade.

 Olá Pueblos Blancos: vamos criar memórias felizes?!

domingo, 18 de agosto de 2019

Road trip - dia 3 e 4 (Sevilha)



De Sevilha muitas aprendizagens pela primeira vez: aprender que os adultos também precisam de colo e o importante que foi dormirmos os três naquela noite em que recebemos a notícia triste da partida da tia Ascensão, aprender que a tristeza pode ficar aninhada a um canto da alma e a vida prosseguir e sem culpas, sem cobranças sem remorsos porque a vida é de quem a vive, aprender que poucas coisas fazem mais feliz uma criança que lhe permitirmos experimentar ser quem quer ser mesmo que para isso baste um vestido às bolas, um leque e uns sapatos de salto, aprender que a fantasia não pode ficar refém do Carnaval e que o jogo simbólico é das aquisições mais mágicas da infância, aprender que basta passar uma fronteira para ser normal partilhar comida do mesmo prato e que as tapas não são apenas comida mas especialmente amor partilhado, aprender que remar de barco parece fácil mas que só lhe sobrevivemos com bom ritmo, inteligência, estratégia e trabalho em equipa como afinal acontece com quase tudo na vida, aprender que viajar em família só tem sentido se respeitarmos os gostos, vontades, desejos, ritmos e características de cada um e que ceder para ver o outro feliz não é chato mas apenas uma oportunidade de dele ficarmos mais próximo, aprender que as melhores viagens não têm horários nem rotinas e que férias são para se irem vivendo devagarinho e sem planos, enganando-nos no caminho para nos surpreendermos com a surpresa do desconhecido e do jamais planeado. 

 De Sevilha aprendemos que os três somos os melhores companheiros de viagem uns dos outros, a dizer “olé” acentuando na tónica certa e que abanicos de 3 euros podem fazer-nos ainda mais felizes.

Óle.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Road trip- pausa a meio do dia 2 (Sevilha)




Sou uma inconsequente e ensinei a música do genérico “Juego de la Oca” à minha filha, que a canta em looping e isto se fosse mesmo como nos anos 90 eu dava o cabelo ao manifesto no barbeiro aqui do burgo só para ela se calar.


 Socoooooorrrrrooo!
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