domingo, 26 de dezembro de 2021
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
Tudo sobre controlo
quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
Crescemos sempre até ao fim
É a vida que acaba. É à vida que não se sobrevive e esse é, talvez, o grande paradigma da humanidade. Do amor.
sábado, 18 de dezembro de 2021
Electra
sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
Com força e baixinho
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
É bacalhau espiritual
quinta-feira, 2 de dezembro de 2021
A melhor música de Natal
sexta-feira, 1 de outubro de 2021
Moinho do Maneio
Há um lugar com casinhas de pedra que parecem de brincar. Com redes espalhadas à beira rio a convidarem-nos a baloiçar ao sol, à sombra, às estrelas, ao amor e à paixão, ao colo e à intimidade. Aos afectos. Com uma piscina onde podemos ser piratas e sereias em água doce e lagartixas e camaleões ao sol. Com pequenos socos com o melhor bolo de chocolate do Mundo, sumo de framboesas naturais e figos da Índia descascados, iogurtes com granola bons e pão a saber a pão e queijo de cabra e uma vista sobre o rio. Ah, o rio!
Há um lugar com um rio e uma canoa à espera de ser estreada, mesmo que já a tenhamos estreado antes, porque são sempre novas águas a correrem em direcção à pequena represa e os sapos assustam-se à nossa passagem e mergulham à nossa frente - flop!- e somos os três na canoa a cantar alto e a rir às gargalhadas ou é só ela, Pocahontas de Penamacor a remar em direcção a um mar que sabemos que existe lá longe mas que existe, e estamos sempre a caminho dele, mesmo que o rio seja no interior.
Existe um lugar com burros a zurrar e que correm quando lhes acenamos cenouras e cães amigáveis e educados a abanar a cauda, que recompensamos às escondidas com sobras do jantar. Onde pomos a tocar nas aparelhagens antigas de CD Maria Callas e Tom Jobim e as noites são,também por isso, mais estreladas.
Há um lugar onde cozinhamos comida caseira e sopa de tomate para comer nas mesas fora da porta e fazemos chá para beber ao serão, enquanto jogamos jogos de tabuleiro sem sentir falta de televisão nem rede de telemóvel porque o tempo e o silêncio são presentes dos céus.
Há um lugar onde nos recebem e se despedem de nós com o mesmo sorriso aberto e verdadeiro e onde damos por nós a cantar muitas vezes baixinho, a trautear músicas, porque quando estamos felizes cantar faz parte de quem somos. Há um lugar único em Portugal onde a minha família entra família e sai ainda mais família, mais conectada, mais íntima, mais simbiótica.
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
O Mundo divide-se...
... entre as pessoas que, mal espreita o Outono, ainda andam de chinelos e as que passam logo a andar de calçado fechado/botas
quarta-feira, 29 de setembro de 2021
Ana explica à avó como dá a volta ao pai...
terça-feira, 28 de setembro de 2021
Ana com febre*
"Do que gostaste mais do fim-de-semana fantástico, Ana?"
Gostava de morrer velha.
Gostava de morrer velha. Velha, velhinha. Ainda melhor, gostava de morrer velha e de velhice. Como se a vida quisesse pedir a conta final e fechar a despesa, satisfeita e de papo cheio, pronta a levantar o rabo da mesa e sair de mansinho, olhos fechados, memórias arrumadas, papo cheio, sensação de fecho da loja.
domingo, 26 de setembro de 2021
O Mundo divide-se...
...... entre as pessoas que acordam com o humor certo e não querem conversa de manhã e as outras.
sexta-feira, 24 de setembro de 2021
Merdas que vocês fazem aos vossos filhos para serem nomeadas para ganharem a "grã ordem de mérito da maternidade abnegada, sacrificada, carmelita descalça, cheia de culpa judaico-cristão, freudiana" e que nunca pensaram que um dia descessem tão baixo ao inferno-maternal de tal modo que batessem no fundo.
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
Apartas o cabelo ao meio
quarta-feira, 15 de setembro de 2021
Inventámos o nome de uma síndrome
terça-feira, 14 de setembro de 2021
Primeiro dia de aulas do 4º ano
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
As fitas
Mas depois ele continuou "e as fitas? Lembras-te das fitas?" e um portal de memórias recalcadas se abriu, como se fosse uma epifania do passado, uma visão de dor que enterrei num poço da minha memória- a psicologia explica- acabava a hora da visita a seguir ao jantar que era dado demasiado cedo, acho que pelas 19h, e a minha mãe e todas as visitas iam embora e vinham as irmãs, vestidas com o hábito creme, com as fitas.
Às vezes eu choramingava, tinha 4 anos, 5, 7, 8, era pequena, choramingava "não quero as fitas! Tenho comichão e não me consigo coçar" e elas não me respondiam, não me explicavam, não me consolavam, limitavam-se a apertar as fitas à volta do meu corpo pequen ino e prendiam com firmeza e eu ficava sem me mexer toda a noite, às vezes durante muito tempo a olhar para o tecto da enfermaria e a pensar que a comichão iria passar e que a minha mãe chegaria no outro dia e ouvir os gritos de outras meninas: "tirem-me as fitas! Tirem-me as fitas!", depois passos delas e o silêncio a calar os gritos das outras meninas.
Eu desisti de pedir, percebi que não me ouviam, não queria que os passos se aproximassem e se pedisse apertavam com mais firmeza, nem uma palavra, às vezes eu enchia o peito de ar para ficar com mais folga e poder mexer-me melhor até mas tirarem de manhã, muito cedo, acordavam-nos as sete para lavarem o chão com lixívia e umas máquinas que aspiravam e enceravam, tudo tinha que cheirar a limpo, a doença cheira mal.
Nunca ninguém me abraçou, consolou ou alargou as fitas, em noites apertadas e silenciosas à espera de manhãs asséticas e da minha mãe chegar outra vez.
Ele carregou com o dedo na ferida cicatrizada em vão"lembras-te das fitas?" e eu lembrei e perguntei, agora, à minha mãe se era real ou se o sonhara. "Era para vocês não caírem das camas!" e eu sei que ela acredita nisso, as irmãs diziam e ninguém questionava as irmãs- é a memória da minha mãe sobre as fitas mas não é a realidade e eu nem me lembrava que havia esta realidade mas ele perguntou pelas fitas e agora não me consigo esquecer de dormir de colete de forças grande parte da minha infância naquele hospital, do cheiro a lixívia e de tudo o que mais queria no Mundo era a hora em que chegava a minha mãe.






