quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Os meus amigos podem não ser melhores que os vossos, mas terão certamente um sentido de humor mais peculiar # 45


Ninguém tem sobrinhos cães mais fofos que eu...

Podem achar que isto é um apelo a voto mas eu não sou nenhuma influencer e só falo de mim: portanto pensem à vontade e ainda levam com o #eeuralada

Na semana que passou fui jantar com o Jorge - este Jorge- e uma amiga comum, também ela cadeirante, antes de irmos a um evento.

A amiga desloca-se de cadeira de rodas eléctrica e para chegar a qualquer compromisso tem que sair de casa- ainda que seja em Lisboa cidade- muito tempo antes, uma vez que só (alguns) autocarros da Carris conseguem oferecer-lhe a única alternativa: não se pode confiar na falta de elevadores a funcionar em pleno no acesso aos metros (quando há elevadores), não há normalmente táxis adaptados para aquela tipologia de cadeira eléctrica ( e a haver cada corrida custa mais que um jantar) e não há Ubers adaptados.

Ponto de encontro: parque Mayer, centro de Lisboa. Há ali dentro um restaurante simpático e com boa comida que já me havia sido recomendado. Na véspera liguei para lá para me certificar se tinha acessibilidade e a resposta veio afirmativa, até haveria a possibilidade de uma rampa amovível.

Fomos descansados e quando chegámos percebemos que não só não estava a rampa disponível como a acessibilidade estava pronta para ser assegurada em braços pelos empregados solícitos do restaurante: uma das cadeiras eléctricas sozinha pesa mais de cem quilos, para terem a noção. Declinámos gentilmente, até porque nenhum adulto tem vontade de entrar ao colo de estranhos num restaurante, por mais boa vontade e gentileza que venha revestida a oferta: precisamos de rampas e acessibilidades, não colos nem jeitinhos.

Frustrados continuamente, lembrámo-nos de que havia ali na esquina um restaurante sobejamente conhecido- estávamos na Avenida da Liberdade, uma das artérias principais de Lisboa. Assim que chegámos percebemos que não conseguiríamos entrar porque havia degraus disuasores mas ofereceram-nos como alternativa a esplanada contígua, em cima do passeio lateral da própria Avenida. Queríamos mesmo jantar e arriscámos, ainda que pingasse e os enormes chapéus não nos protegessem da chuva. Quando nos trouxeram o menu percebemos que não tínhamos disponíveis os mesmos pratos que serviam lá dentro às pessoas que descem degraus automaticamente sem pensarem nisso e que por não terem mobilidade condicionada jantavam com ar condicionado e a uma temperatura confortável. Indagámos a razão do menu alternativo: era o menu da esplanada. Mas a esplanada não tinha sido uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade pelo facto de um edifício com serviço público não cumprir a lei das acessibilidades. Que percebiam mas que aquele era o menu da esplanada.

Frustrados exasperadamente e salpicados de chuva pedimos um prego e bebidas de pressão. Veio a conta: 15 euros por pessoa (repito: um prego e uma bebida de pressão). Ah, são preços de esplanada! A mesma que não foi uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade.

Este é apenas um exemplo de uma quinta-feira à noite.

Eu não gosto de política mas percebo a sua necessidade como modelo de funcionamento social. Na verdade o que eu não gosto são de políticos, com agendas secretas e necessidades de tachos, vindos das universidades das juventudes partidárias e sem saberem que há vida para além da chatice dentro de carros confortáveis e funcionais na fila da A5 e da maçada do tempo que demora a vir o menu de degustação do restaurante in a que vão e onde comem a temperatura ambiente confortável e banda sonora a condizer.

Sobre o BE tenho pontos em que me revejo na sua agenda política e outros que nem por isso ou outros que não de todo.

No domingo - 6 de Outubro- votarei neles, ainda assim.

Porque a política tem que nos representar: a todos. Tem que haver vozes dissonantes, diferentes perspectivas, oposição (por isso é sempre tão perigoso haver maiorias absolutas). E de haver pessoas que proponham legislação que proteja todos, sabendo do que falam, na pele, não conceptualmente.

O Mundo não é das maiorias: é de todos. Inclusive de todas as minorias no seu espectro total desde aqueles que demoram mais de uma hora a atravessar Lisboa sem trânsito por falta de transportes acessíveis e que comem pregos cheios de nervos a 15 paus e com chuva na mona e ainda assim são privilegiados porque não vivem no limiar da pobreza até tantas outras pessoas com deficiência a quem não sobra esse valor depois de todas as despesas inerentes aos gastos com as desvantagens trazidas pelas suas patologias e nem sequer de casa conseguem sair para ir à rua, vivendo numa espécie de prisão domiciliária sem terem cometido nenhum crime, excepto o de não terem corpos cem por cento funcionais.

Este não é um apelo ao voto. Cada um votará em consciência e estará sempre certo. É um remind para que não se esqueçam que os políticos nos devem representar a nós, povo, conhecendo de perto onde nos dói e o que precisa de ser feito. E que nos representam e, por isso, são também a nossa voz.

E agora leiam a noticia com que partilho este post e conheçam o Jorge: o político que representa a minha causa, por ser tanto e também a dele.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O amor é uma caixa de velocidades

Há uma musica do Jorge Palma que se chama “otimista céptico”. É nela que penso quando alguém mostra admiração pelo facto de estarmos juntos há 20 anos, casados há 13 - completamos hoje- e nos pergunta se há alguma fórmula para isto durar. Acho que a resposta está no nome da musica ou talvez ao contrário, cada um de nós vive assim a relação com um optimismo céptico ou com um cepticismo optimista, ambos se complementam, como nós.


Tu claramente és um optimista céptico: sempre achaste que isto ia ser para sempre, disseste-o junto do padre Cruz com o corpo e a alma mas sabes das dificuldades que a vida traz e conduzes tudo isto com cautela e atenção, prudência e em estado de alerta. É como uma metáfora com aquela ideia de que as pessoas têm acidentes de carro não quando acabam de tirar a carta de condução, inexperientes e maçaricos, mas um ou dois anos depois, quando já estão confiançudos e conduzem à vontade, acreditando que nem todas as regras de trânsito são para ser cumpridas e que semáforos de controlo de velocidade não são para serem respeitados. 


Conduzes isto sempre com a humildade de quem sabe que as estradas e as condições do tempo e de visibilidade nunca são iguais e é sempre novo, desconhecido, passivo de haver acidentes. E que tens que fazer a tua parte nunca desprezando que nesta estrada temos sempre que contar com a condução do outro e que são duas faixas na mesma auto-estrada e não uma faixa em cada sentido, e que devemos manter a mesma velocidade, mesmo que isso implique abrandar ou avançar, isto não é uma corrida de fórmula um, é uma road trip de endurance.


Já eu sou uma céptica optimista. Só quem é filho de pais separados compreenderá. Sempre acreditei que não ia dar certo mas sempre desejei muito que desse. Nunca dei como garantida esta relação mas sempre acreditei nela o suficiente para embarcar na viagem, colocar o cinto de segurança, ajustar bancos e espelhos e benzer-me a Sto. Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, porque muitas vezes trata-se de fé, de crença, de superstição, esta coisa do amor. Terço no espelho retrovisor, se preciso for. 


O amor é uma caixa de velocidades e duas pessoas que, não importa o destino, só querem viajar juntas.

sábado, 24 de agosto de 2019

Só há uma forma de amar: cuidando (Grazalema)




Só há uma forma de amar: cuidando.

 Cuidando que o outro se sente confortável, satisfeito, em paz e feliz. Cuidando que se chega ao pequenino hotel num vale tão querido no meio das montanhas e se diz à mãe: “vai tomar um banho que eu vou-te preparar uma surpresa”.

 E se arromba o saco das compras do supermercado e se dispõe alimento a alimento na mesa, tudo simples e sem qualquer requinte. E se vai buscar uma cadeira extra e as cartas do UNO para todos nos sentarmos e jogarmos uma partida a seguir ao jantar. E se entra na casa de banho e se pergunta alto: “mãe?! Como se diz em espanhol podia-me emprestar copos?!” E se segue para a recepção, repetindo baixinho a frase em portinhol, para não se esquecer.

 E depois a mãe sai do banho, seca-se e veste-se e dá com ela a preparar o melhor jantar dos últimos tempos, era só atum, gaspacho de pacote e tinto de verano de garrafa, pão e presunto mas depois também estava calor e o sol a pôr-se nas montanhas ali à frente, o tempo parado, e no telemóvel dele a música a tocar e a minha filha de sete anos a trautear o refrão.

 Só há uma forma de amar: cuidando.

 A Ana sabe-o melhor que ninguém e eu sei que o sabe, mesmo que inconscientemente, mesmo que por mero instinto, tive a certeza no meio da serra de Grazalema, este Verão.

E juntei-me a eles no refrão. 

 “Gracias a la vida” era, tão oportunamente, a canção.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Uma espécie de Oásis (Cueva del Gato)


Já estávamos cansados e já tínhamos 17 Pueblos Blancos no passaporte das nossas memórias.

 Já tínhamos muitos quilómetros de alcatrão acumulados, muitas montanhas com sol a nascer e a pôr-se decoradas nas retinas, muitas aldeias e vilas feitas noivas, alvas, brancas e puras cravadas em tudo o que vivemos, como se tivéssemos apanhado 17 bouquets sucessivamente que nos dessem acesso ao novo Pueblo, que fôssemos os próximos a que os barqueiros de lagoas, rios, ribeiras e barragens deixassem passar.

 Já tínhamos jamon, tapas em restaurantes e esplanadas, tintos de verano em varandas de hotéis e pensões em noites a dois enquanto a Ana já dormia, já tínhamos granizados, pão estrafegado em tomate, gaspacho frio, queijos e azeitonas compradas à beira da estrada e um desprezo enorme pela dieta durante todo o trilho.

 Já tínhamos o calor da cidade, o borrifar dos aspersores nas ruas de Mérida e o fresco de tantas fontes e fontanelas tatuados na pele. Já tínhamos o cheiro aos olivais e às árvores da serra, ao pó da terra árida e às dezenas de pássaros que voavam conosco sob o mesmo céu, abutres até. Já tínhamos casas brancas, azuis e a memória de uma cor terracota que marcou toda a viagem como os abanicos encarnados com bolas porque os clichês são para se perpetuarem.

 Já tínhamos a Carolina Deslandes, o Jorge Palma e a Luísa Sobral mais o Sérgio Godinho e a Mariza a tocarem na pen do carro e o Despacito na Radiolé e outras estações espanholas com ritmos de verão, pelo menos para nós. Já tínhamos noites estreladas em vales profundos e noites dormidas os três em camas apertadas e manhãs de lutas de almofadas só porque sim.

Faltáva-nos um oásis, daqueles à filme, um presente fresco numa longa travessia num deserto que não é metafórico, pois há muito que não nos sentíamos tão selva.

 Encontrámo-lo, perdidos na serra de Grazalema, e mergulhámos, enfim, nas águas geladas da Cueva del Gato.

 Podem googlar mas o Google nunca vos conseguirá explicar isto assim.

 Isto assim.

Na aldeia azul (Júzcar)


O GPS tinha-nos enganado.

 Nós não stressamos com imprevistos e até sabemos que é dos enganos que muitas vezes se chega a sítios inesperados e ainda melhores. Mas estávamos num trilho terrível, curvas e contra curvas, numa serra que não conhecíamos e num caminho de terra demasiado estreito para o nosso carro com penhascos lá em baixo.

 A Ana cantarolava lá atrás no banco, completamente alheia ao perigo que corríamos. Eu estava em pânico, a ansiedade no pico máximo, com arritmia e completamente descontrolada. Queria parar, voltar a pé, sair do carro e gritar, chorar, ligar para o 112 e pedir socorro, ai que se vem um carro de frente e nós não temos qualquer visibilidade, embatemos, caímos no penhasco e morremos. A Ana continuava a tagarelar, eu estava perdida em orações e a pensar que estava a segundos de ter a primeira crise de ansiedade da minha vida e não podia. Não podia mostrar descontrolo à minha filha, não podia entrar em pânico, tinha que permanecer segura e aparentemente sob controlo. 

Olhei para ele, ali ao lado, pálido e calado, com os maxilares tensos, a transpirar por todos os poros, corpo rígido. Ele estava a conduzir-nos, tinha a vida de nós os três nas mãos, não dizia nada. Não podia mostrar desconfiança na condução do meu marido, tinha que me manter optimista e controlada, tinha que o ajudar a tirar-nos dali.

 Então, respirei fundo-muito fundo- e fui buscar energia, serenidade e gestão das emoções à menina que ficava, aos 5 anos, internada no hospital meses seguidos, a sentir-se sozinha e perdida quando acabava a hora da visita e a minha mãe tinha que sair e a noite chegava e eu só me podia valer a mim mesma. Eu ainda sou essa Liliana, progressivamente segura e controlada, racional e objectiva: tens que ficar, é para teu bem, isto vai passar, não tarda muito tens alta e vais para casa. 

Abri os olhos e comecei a falar com ele: este caminho vai acabar, não sabemos daqui a quanto tempo, mas vai acabar, vamos com calma, somos uma equipa, buzina duas vezes em cada aproximar de curva para que nos ouçam, está quase, vai correr bem. 

Correu. Chegámos à aldeia azul da cor dos olhos deles. Vivos, unos, equipa. Família. Respirei fundo, enfim

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

[ Um grão infinito de mil bocados do Mundo]



Durante muito tempo fui bairrista, regionalista, quase ruista que toda a gente sabe que a minha rua é a mais bonita do Mundo só porque é a minha. 

Nasci em Cascais, mas sou Minho nas raízes, Poiares, Barcelos e Ponte de Lima a palpitarem-me nas veias, sangue do Norte galopante como o ritmo dos acordeãos e dos cavaquinhos. Sou de Aveiro por adopção de verões inteiros a ver os toiros arrastarem as redes de peixe na Vagueira e ovos moles comidos à colherada com vista para as casas piratas da Costa Nova. E sou Açores por afinidade, sou caldeira de Santo Cristo por amor, a Horta por paixão e Ponta Delgada e o pico do Pico porque os afectos de quem nos quer e trata bem passam a fazer parte de nós.

Eu sabia que o meu amor por uma terra que constrói de forma sólida a minha essência encontrava-se entre esta quadratura: Cascais, Minho, Aveiro e Açores, azul e verde na minha alma.

Mas depois cresci e quis mostrar o Mundo à Ana e passámos a ser os caretos de Podence e Trás-os-Montes com danças celtas e nós a pular à volta da fogueira a queimar o Judas. E passámos a ser o Porto e um bairro que habitámos e continua a fazer parte de nós, Francelos e o senhor da Pedra como fundo de gargalhadas bebés. E passámos a ser a Cúria colorida como o papel de parede do Hotel do Parque e barcos a remos e nós lá dentro a sorrir. E passámos a ser Marvão e um picnic sob um tecto de estrelas no castelo nós a rodopiar sob a lua. E passámos a ser Fátima da fé e da renovação de votos de casados como um roteiro de esperança que também se renova. E passámos a ser Tomar porque sim. E passámos a ser o Algarve da casa da meia lua, da prova de amizade sincera, de Cacela velha e corpos bezuntados de areia e pele a saber a sal. 

Talvez deixemos de ser tanto uma ou duas terras e nos vendamos ao Mundo. Talvez deixemos de ter a essência apurada e passemos a ser uma caldeação de sítios que tatuamos nas memórias mas acredito agora no poder libertador de se estar espalhado por tantos sítios e sermos o melhor de cada um deles: um grão infinito de mil bocados do Mundo. 

Sejamos.]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Road trip -dia 5 (Pueblos Blancos)



Há dois anos planeámos fazer esta viagem: perdermo-nos pelo sul de Espanha na rota dos Pueblos Blancos, pequenas aldeias, lugares e vilas em redor da serra de Cadiz e da serra de Grazalema com povo Serrano e casas brancas, esconderijos secretos, pedaços de história guardados, gastronomia caseira, longe do rebuliço, numa viagem de aventura a três.

 Teria acontecido no ano passado se eu não tivesse ficado doente, depois na penúria e em convalescença e por fim não tivéssemos rumado aos Açores, onde fazíamos falta. A Ana teria seis anos acabados de fazer e seria uma viagem marcante para assinalar esse marco, antes da entrada na escola primária.

 Mas a vida trocou-nos as voltas e mesmo que eu não tivesse estado na penúria, mesmo que os Açores não nos tivessem chamado, a verdadeira questão é que as minhas pernas e o meu corpo nunca me teriam permitido ser andarilho com a minha família por aqui. 

 Este ano, a Ana já tem sete anos, já lê sozinha no banco traseiro do carro e já nos ajudou a fazer o mealheiro durante todo o ano para estas férias. Eu já consigo andar mais de um km seguido, já lhe consigo pegar ao colo encaixando-a na anca quando os seus pés estão cansados e precisa de mimo, já consigo nadar nos rios, piscinas e mar sem me cansar à quinta braçada, já lhe consigo ensinar flamenco improvisado e dançar de forma atabalhoada com ela pelas Calles e já percebi - relembrei-me à força de não a ter- que saúde é tudo.

 É tudo e este ano, por estar rica de pés, pernas, anca e coxas, por conseguir novamente andar, correr, saltar, nadar, subir, descer e dançar- por tudo isto!- é altura de comemorarmos estarmos vivos e com corpos a funcionarem bem e realizarmos os nossos desejos.

 O nosso era o de explorarmos os Pueblos Blancos e tornou-se, sempre a tempo, numa maravilhosa e “preciosa” realidade.

 Olá Pueblos Blancos: vamos criar memórias felizes?!

domingo, 18 de agosto de 2019

Road trip - dia 3 e 4 (Sevilha)



De Sevilha muitas aprendizagens pela primeira vez: aprender que os adultos também precisam de colo e o importante que foi dormirmos os três naquela noite em que recebemos a notícia triste da partida da tia Ascensão, aprender que a tristeza pode ficar aninhada a um canto da alma e a vida prosseguir e sem culpas, sem cobranças sem remorsos porque a vida é de quem a vive, aprender que poucas coisas fazem mais feliz uma criança que lhe permitirmos experimentar ser quem quer ser mesmo que para isso baste um vestido às bolas, um leque e uns sapatos de salto, aprender que a fantasia não pode ficar refém do Carnaval e que o jogo simbólico é das aquisições mais mágicas da infância, aprender que basta passar uma fronteira para ser normal partilhar comida do mesmo prato e que as tapas não são apenas comida mas especialmente amor partilhado, aprender que remar de barco parece fácil mas que só lhe sobrevivemos com bom ritmo, inteligência, estratégia e trabalho em equipa como afinal acontece com quase tudo na vida, aprender que viajar em família só tem sentido se respeitarmos os gostos, vontades, desejos, ritmos e características de cada um e que ceder para ver o outro feliz não é chato mas apenas uma oportunidade de dele ficarmos mais próximo, aprender que as melhores viagens não têm horários nem rotinas e que férias são para se irem vivendo devagarinho e sem planos, enganando-nos no caminho para nos surpreendermos com a surpresa do desconhecido e do jamais planeado. 

 De Sevilha aprendemos que os três somos os melhores companheiros de viagem uns dos outros, a dizer “olé” acentuando na tónica certa e que abanicos de 3 euros podem fazer-nos ainda mais felizes.

Óle.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Road trip- pausa a meio do dia 2 (Sevilha)




Sou uma inconsequente e ensinei a música do genérico “Juego de la Oca” à minha filha, que a canta em looping e isto se fosse mesmo como nos anos 90 eu dava o cabelo ao manifesto no barbeiro aqui do burgo só para ela se calar.


 Socoooooorrrrrooo!

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Road trip - dia 1 (Mérida)



De Mérida a procura em vão de referências à princesa da Disney com o mesmo nome.


 De Mérida little Roma ao virar de muitas esquinas, as primeiras palavras em castelhano da Ana, calor que nos abraça e nos sufoca, abanicos às bolas porque muitas vezes os clichés são sempre as melhores ideias. 

De Mérida tinto de verano em salas climatizadas, o primeiro gazpacho da Ana, pontes romanas, a procura da próxima loja com ar condicionado, o templo de Diana, o circo romano, o museu, a lembrança que trazíamos no carro o borrifador que usamos para engomar roupa e, a partir daí, a diversão completa pelas ruas quentes e boas, boas e quentes. “E se andássemos no comboio e visitássemos os monumentos todos à turista?” e logo a seguir Mérida vista do amarelinho, o aqueduto dos milagres, o teatro romano, a ponte romana a dar-nos o tom da metáfora, pássaros em voos picados no céu.

 Mérida que acolhia os veteranos romanos depois de muitas lutas e batalhas na pele (para nós também), Mérida cidade de compensação, Mérida no coração.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Road trip- dia 0



Saímos depois de almoço: uma mala de roupa para cada um, um saco com os sapatos de todos e uma mochila de higiene. Um cesto com comida e bebidas, uma mochila para cada um com termos cheios de bebida. Uma pen com música que a minha mãe gravou ao gosto de cada um de nós, uma almofada de pescoço para a Ana e ála.


Acreditamos que aos sete anos podemos partir numa aventura no asfalto: temos uma rota definida, reservas de dormidas para os primeiros três dias (depois logo se vê quanto tempo queremos ficar em cada sítio que não gostamos de coisas muito rígidas), duas máquinas fotográficas para mim e a Ana, um diário de viagem para a Ana e papéis e aguarelas para o Rui, este instagram para mim. Aos sete anos vamos celebrar a descoberta, a emoção do desconhecido, a imprevisibilidade da vida e a família.


 A união merecida sem horários rígidos, compromissos, stress e afazeres: a liberdade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Aos 9 de Agosto de 2019, à Ana por ocasião do seu 7º aniversário



Há sete anos não dormi ansiosa por tu chegares. 

Esperei-te como quem espera todas as estações do ano: esperei-te como quem espera a primeira flor de cera no vaso lá fora que só brota uma flor por ano, esperei-te como quem espera o primeiro dia de praia com o mergulho silenciado por outono, inverno e primavera e o sabor do sal a abraçar-nos a pele, esperei-te como quem espera o primeiro chá quente e scones a sair do forno em tardes de vento e chuva, esperei-te como quem espera a meia noite da véspera de Natal. 

Esperei-te, Ana, como quem espera o amor completo. 

Ontem, depois de quase uma semana de ausência, depois de reclamares a atenção que é tua por direito, depois de pedires colo, beijos e abraços, cafuné e chamego, depois de empurrares cadeiras de rodas, ajudares a transportar tabuleiros no refeitório, de brincares sentada no chão porque se eles não podem usar as pernas tu também não queres usar, depois de teres abraçado a menina que caiu, depois de teres ajudado a pentear outras meninas mais velhas que tu e ajudares a calçar o menino que teve um surto, achei que te tratávamos como uma adulta. 

Olhei-te de fora e vi-te, crescida e madura como as primeiras cerejas, os primeiros figos de setembro, os dióspiros mais melosos e as laranjas mais sumarentas. E chamei-te, culpada por esperar tanto de ti e abracei-te, era meia noite e estavas de vassoura a varrer a sala de formação: “Parabéns, meu amor! Desculpa não nos temos conseguido despachar mais cedo! Desculpa não estares ainda a dormir! Amanhã o dia é só para ti!”.

 E tu, cansada e ansiosa por virmos passar este dia a casa, abraçaste-me: “não faz mal, mãe: eu gosto muito de te ajudar a ajudar os meninos da colónia!” 

Esperei-te há sete anos e admirei-te em todo o esplendor de uma natureza completa como nesta noite de vassoura nas mãos e a doçura de todas as frutas maduras no coração. 

Esperei-te há sete anos como quem espera o amor. Obrigada por mo trazeres inteiro e completo. 

Sete anos, Ana. 

Há sete anos saiu-me o sete no Totoloto: és o meu jackpot. 

Parabéns, meu amor!

sábado, 3 de agosto de 2019

Não exijo nada menos que uma tatuagem a dizer "Amor de mãe" quando ela for adulta

Há meses que a Ana insiste em que este ano seja eu que faça o seu bolo de aniversário.

 São duas de amanhã e ainda não fiz malas para levar para o campo de treino que começa esta manhã e que me obrigará a estar uma semana ausente de casa mas fiz o ensaio geral do bendito bolo.





Que o Santo Buddy Valastro me proteja!


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ana, a geógrafa

A jogar ao stop electrónico com a Ana e sai a categoria “rios ou lagos” e a máquina ordena “letra joooota”. Eu e o pai ficamos num impasse a pensar e a Ana dá uma traulitada no botão e responde muito assertivamente: 


“Duuuh! Janeiro: Rio de Janeiro!”

domingo, 30 de junho de 2019

Ana, a empreendedora

A Ana e a melhor amiga andam há duas semanas a preparar este dia: foram apanhar limões ao limoeiro da minha tia, juntaram dinheiro para comprar açúcar, copos e ainda fizeram dois bolos. Montaram a sua primeira banca de limonada e estão na rua mas até agora zero clientes.

 Está uma ventania desgraçada e nada de calor. 

 A ver se chegam a alguma conclusão

sexta-feira, 21 de junho de 2019

21 de Junho: solestício de Verão



Ando a escrever um livro para a Ana, avô. ´

Já vai com muitas páginas e conta as histórias da nossa família para ela um dia ter certeza de que sangue e fibra é feita, de onde vem (de onde “bem”), que histórias a trouxeram até ao meu ventre, que adn moldou o seu carácter, espírito, coração.

 Reparei que muitas pessoas de cujas histórias lhe relato chegaram até mim em farrapos de momentos e cujas histórias de vida lhe resumo num parágrafo, dois se tanto. A tia Isaura que morreu com uma apendicite e que foi enterrada vestida de noiva de véu e flor de laranjeira depois do namorado confirmar que morria virgem e imaculada. A tia Maria que escondeu uma gravidez concebida no meio do milho e que foi mãe solteira para vergonha de toda a gente, sem nunca mais ter conhecido outro homem que não o cretino pai da filha que nunca a perfilhou. A tua mãe, minha bisavó Ana, que morreu queimada porque teve uma crise de epilepsia enquanto se aquecia à lareira. 

Decoramos e transmitimos de geração em geração as pessoas assim: por acontecimentos invulgares ou excepcionais, por feitos não normativos. Nunca resultam em mais de um parágrafo. 

No entanto, a ti avô, dedico várias páginas deste livro e tu eras tão normativo e previsível, tão certinho e normal e ainda assim o homem mais importante da minha história, luz e calor, referência securizante e óbvia, solstício de Verão na minha vida. 

A tua vida e o verão com que iluminou as nossas davam um livro cheio de amor, ternura, dedicação e bondade. Hoje fazes 89 anos. 

Continuas a fazer enquanto não fores apenas um parágrafo resumido na história dos teus descendentes futuros. F

azes 89 anos porque não és passado em mim, nunca me passarás, querido avô, presente de presença e presente de prenda, presente ao quadrado para sempre em mim. 

Parabéns!

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Sobre liberdade no dia de hoje e fugindo um bocadinho além das questões patrióticas




Quando o Papa Francisco esteve em Marrocos foi homenageado com um espetáculo em que um muçulmano canta uma oração em árabe, um judia em hebreu e uma cristã canta a Ave Maria de Caccini. Ao fim, a mistura das vozes numa sintonia perfeita, relembrando que a liberdade religiosa é possível. 

Nada me parece mais perfeito para relembrar no dia de hoje. 

terça-feira, 23 de abril de 2019

Ana, a confiançuda

Mámen em reunião até tarde. Eu e Ana jantamos, tomamos banho e enroscamo-nos no sofa

Ouço uma vozinha; "E agora um drinkezinho. mamã?!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Anúncio do apocalipse

"Mãe quero falar-te sobre o meu aniversario."

" Xinapá, Ana, ainda falta muito : é só em Agosto. "

 “A pergunta é: Vais tu fazer o meu bolo de aniversário, não vais?

#fml

sábado, 13 de abril de 2019

Ana, a sismóloga

Entrei no quarto dela e estava um caos.

 Preparada para a repreender atiro: “Ana, que vem a ser isto?!” 

Apanhada, riposta: “Um simulacro?

terça-feira, 9 de abril de 2019

Quem define o que é preconceito terá que ser sempre o alvo deste

Começou no Carnaval: a mãe de uma pessoa para quem trabalho (gosto muito de ambas) queixava-se no facebook de que as pessoas estavam muito sensíveis a propósito dos comentários indignados e cheios de razão face a uma notícia de uma escola que tinha mascarado os seus alunos de negros, com peles pintadas, saias de palha e artefactos tribais. 

A senhora indignava-se e quando lhe expliquei sobre apropriação cultural recusou-se a aceitar os meus argumentos, contrapondo que agora se vê “racismo em tudo”. Falei-lhe de racismo flagrante e racismo subtil com toda a boa vontade. 

Continuava irredutível: que era uma forma de se mostrar a diversidade étnica e cultural, dizia a senhora e batia o pé. Contrapus para a realidade que eu e ela conhecemos: se numa escola decidissem mascarar os alunos de pessoas com deficiência, espetando-os em cadeiras de rodas ou dando-lhes canadianas, ela que é mãe de uma pessoa com deficiência, como se sentiria? Que era incomparável, que toda a vida nos mascarámos de chineses e indianos e qual era o mal. Eu continuava: porque não mascararem-se de pessoas com deficiência? Não era, pela mesma lógica, uma forma de sensibilização para a diversidade funcional? 

Às vezes as pessoas têm que se remeter à sua insignificância face a temas que não as melindram, sendo humildes o suficiente para respeitarem os assuntos que melindram outrem. Não interessa se a intenção é ou não racista (normalmente é, mesmo que velada e inconsciente, é muitas vezes racismo subtil e está tão enraizada que nem damos por ela...), a questão é que se ofende, se melindra, se tem impacto generalizado na população de negros: é racismo. Mesmo que não compreendamos. Não temos que compreender (quem não consegue compreender). Temos que ser humildes e aceitar. E pedir desculpas, retratando-nos. 

Isto a propósito do boneco negro que hoje jazia no iscte para gestão da raiva. “Ah, o boneco podia ser Branco”. Ah, mas não era. “Ah, mas é irrelevante, para o efeito, até podia ter sido um saco de boxe”. Mas não foi. “Ah, é apenas um ser inanimado de uma cor”. Pois mas a cor não é laranja ou roxo: representa uma figura humana negra. “Ah vocês vêem racismo em tudo!” Não está centrado no sujeito, isto do racismo, mas no objecto.

 Nós podemos vê-lo ou não, desde que eles o sintam: é racismo. 

Tal como seria discriminação se o boneco, de todos os bonecos que se pudessem ter escolhido para o efeito, estivesse sentado numa cadeira de rodas. 

Aceitem. 

Retratem-se.

quarta-feira, 27 de março de 2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ana, a mercenária

Estamos a caminho da consulta com o pediatra e reparo que carrega a pasta com as receitas do bolo de cenoura que anda a vender:

“Que é que foi? Pensavas que o Dr. Mário ia escapar-se a comprar-me uma?!”


...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Ana, a valente

A Ana veio trabalhar comigo no sábado. Estava chocha desde a véspera e quando lhe toquei ardia em febre. A tosse tinha dado lugar à febre e eu tinha a certeza que vinha aí a terceira amigdalite do último ano e arranquei para o hospital. 

Falo sempre com ela de igual para igual “Ana: és capaz de ter uma amigdalite e os bichos que moram na tua garganta têm que morrer de vez. “ Ela começou a chorar baixinho e a murmurar que não queria outra injecção de penincilina. 

Eu abracei-a e olhei-a nos olhos: ”se se confirmar a amigdalite e havendo a alternativa do antibiótico durante uma semana e no pressuposto que ficas boa de uma maneira ou de outra, tu podes decidir, Ana” 
Que decidirias tu, mãe?
 “A injeccao porque nunca tive medo de agulhas e porque sempre tive pressa de deixar de estar doente. Mas tu é que sabes de ti, Ana. Tu é que decides, mesmo. 

 E quando entrámos nas urgências o médico simpático fez uma zaragatoa e confirmou a amigdalite. 

“Agora vem a pergunta chata, mãe...” e eu pedi-lhe que perguntasse à Ana e ele olhou-me com desdém “por amor de Deus, mãe, a criança ainda não tem maturidade para decidir” e a Ana interrompeu-o e disse “a injeccao de penincilina!”

 E ele ficou com os olhos muito grandes de espanto e admiração. “Tem que ser para passar rápido! Dói muito mas é o melhor” e a enfermeira disse que nunca tinha visto nada assim, e o médico colou-lhe um autocolante na camisola e deu-lhe uma luva cheia a imitar um balão em forma de pica-pau e eu dei-lhe a mão enquanto ela chorava com a agulha a entrar-lhe na pele e no fim ela aterrou no meu colo quieta e cansada e deu-me um dos momentos mais orgulhosos da minha existência como mãe.

 Isto de ser mãe também dói muito e muitas vezes mas é sempre o melhor.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Desistir nem sempre é fracassar


A Ana falava das suas aulas de música no conservatório. Estava entusiasmada a falar desta nova linguagem que eu não domino: breve, semibreve, mínima, colcheia. Eu sorria, enternecida, quando a minha amiga que partilhava a conversa connosco acrescentou “Oh, Ana, tu começas tão entusiasmada nas actividades. Vê lá se desta vez não desistes!” 

E eu fiquei ali a pensar nessa conversa de toda uma vida que insiste, persiste e não desiste e esse filho da puta de otimismo tóxico que me enoja horrores de tu vais conseguir, só energia positiva e de insiste, persiste e não desiste. Eu não quero que a minha filha se sinta obrigada a não desistir.

Se o desporto a faz sentir frustrada, não lhe dá prazer, lhe baixa a auto-estima ela pode e deve desistir. E procurar outro onde se sinta confortável e feliz. Ou parar e não procurar nada.

Se escolher uma área académica no décimo ano que perceba que não é afinal a praia dela, em que tenha que aprender disciplinas que não lhe digam nada, que a orientem para um caminho que não é o que ela espera, que desista. Que volte atrás e recomece. Ou só que páre.

Se um dia tiver um trabalho em que se sinta miserável, em que não lhe apeteça levantar-se de manhã para ir trabalhar, então, que se foda e desista.

Se um dia tiver um namorado ou um marido que não a trate condignamente, que não preste, então que ganhe coragem e desista.

Desistir não é covardia. Desistir não é falhar. Desistir é decidir.

Decidir que chega, que não se quer, que se quer melhor ou apenas diferente. Decidir que se quer mudar. 

Decidir o curso da nossa vida.

Portanto se a Ana achar que as breves e semicolcheias não lhe dizem nada e que não respondem à sua curiosidade e à necessidade de conhecer e compreender o Mundo, então que desista. E recomece. Ou só pare. Pare apenas. Todas as vezes que for preciso.

O encanto da vida passa por começar, experimentar, desistir, recomeçar, continuar. Parar.

E decidir sempre com a alma e o coração. Com coragem e bravura. Mesmo que seja decidir que desiste. 

Que desista, pois então.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Porque hoje é dia 13...

Somos de datas simbólicas embora, na realidade, todos os meses, desde o primeiro, assinalamos o dia 13. Digo assinalamos porque nem sempre festejamos. 

Houve dias 13 de festa, claro, a maior parte deles, mas também houve de cansaço extremo, de chegar ao fim do dia de trabalho e de sermos engolidos pela rotina e só desejarmos feliz mesário já deitados na cama, antes de dormir. Houve dias 13 miúdos, de estudo, vésperas de frequências, de férias escolares dele nos Açores e minhas em Monte Gordo, de jantares de refeições macrobióticas na cantina velha da cidade universitária. Houve dias 13 dele sair tarde do café Chocolat em Cascais ou da Zara onde teve que trabalhar depois das aulas para pagar as propinas e a sobrevivência durante os últimos anos da faculdade . Houve dias 13 de desemprego, de trabalhos duros, de salários em atraso e de flores roubadas em quintais de vizinhos, de não sabermos como ia ser a nossa vida no mês seguinte. Houve dias 13 na primeira casa alugada e na segunda e um dia 13 numa casa vazia com um bebé de um mês no colo, olhos marejados, depois de nos assaltarem a casa e nos levarem tudo. Houve dias 13 sem dinheiro para o fim do mês e dias 13 de aumentos salariais e jantares em sítios que sempre sonhámos ir como o 100 maneiras. Houve dias 13 a guardar o segredo excitante de que tínhamos um bebé na barriga e o dia 13 de Agosto de 2012 em que passámos finalmente a ser 3 numa bolha de amor, pais: nós. Houve dias 13 separados, zangados, desiludidos um com o outro, apartados e sem sermos marido e mulher e dias 13 de reencontro e reconciliação. Houve dias 13 de aliança de namoro no dedo e depois aliança de casados e até sem aliança antes de tudo voltar a ser como é agora. Houve dias 13 na primeira casa comprada e a partilharmos uma hipoteca, dias 13 de luto e de dor de pessoas que fomos perdendo e dias 13 banais, de esparguete com carne guisada sem glamour porque a vida não é sempre purpurinas. Houve dias 13 em NYC num rooftop no dia em que comemorámos 13 anos e casámos os anos de namoro.

 E houve aquele dia 13 no terraço do bar do ISCTE em que ele me roubou um beijo e mudou os meus dias 13 para sempre. Venha o próximo. 

São 20 anos de dias 13. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Ana, 2012




A minha avó tinha morrido na antevéspera do Natal anterior, Ana. 

Nesse último Natal tínhamos ficado com um presente por abrir debaixo da árvore e (mais) um lugar vago na mesa. A minha mãe ficou órfã e num desgosto profundo que só o anúncio da tua vinda conseguiu atenuar. A tia Cinda também e os tios ficaram perdidos como só Freud conseguiria explicar. 

Era o quinto Natal sem o meu avô e o primeiro sem ela, um Natal esvaziado daquela linha geracional. Eu e a Daniela só agora conseguimos falar deles com aquela saudade boa sem nós na garganta e com recordações divertidas para partilhar. 

Mas aquele Natal de 2012 foi mágico porque tu tinhas chegado sem maneiras, sem bateres à porta dos nossos corações e sem limpares os pés às nossas resistências e medos, chegaste com o encanto de quem chegou para ser adorada, a nossa menina Jesus. E trouxeste o renascer do Natal contigo, as memórias por construir para além das memórias por recordar, uma infinitude de possibilidades e sonhos e vida por viver: a tua e a nossa contigo. 

E enquanto te escrevo este #dezlembro para te lembrar de onde eu venho tu teces uma teia de afectos para cimentares histórias novas em que nós passamos a ser os protagonistas do passado e do presente para um dia te lembrares a ti e aos teus filhos de onde vens tu. 

Vens de um sítio mágico onde o amor é comunitário e família é uma mistura de vidas que se interligam e cruzam e são tão dependentes e ainda assim livres e é tão bom. Vens de um sítio onde os Natais passaram a ter novos rituais: um presépio por cada Natal vivido contigo, agora já à laia de colecção, vidros de janelas pintados com canetas de giz e uma estrela com o nome de cada um de nós na árvore de Natal e o tio Hugo a fazer todos os anos de Pai Natal e o Kubrick a correr com a cauda a dar a dar, e espectáculos de Natal com cenografia da tua autoria e músicas de Natal na televisão e a minha mãe e tu a distribuírem presentes. E calor. 

O passado tem que se preservar mas és tu a nossa estrela guia que nos garante a luz para o futuro, o caminho do amor que continuará. Que se perpetua. 

Obrigada por nos devolveres o Natal, querida Ana. A estrela no topo e no firmamento serás sempre tu.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Necas, 1955



O primeiro Natal em que me lembro dele teria uns onze anos, Ana. 

Tinha emigrado tinha eu cinco e a sua memória era distante, do tempo em que eu tinha uma prima da minha idade que brincava comigo no pátio da minha avó. Depois eles separaram-se e eu via a minha prima de vez em quando, nos anos e no Natal até que a vida nos separou de vez e ela não seja agora sequer uma estrela nesta árvore. 

Até lá ele era o tio emigrado e que não voltara, o tio que visitava a Europa que nós nem sonhávamos que existia, que aprendia receitas e comidas estranhas, mandava postais de outras capitais, o tio que corria o Mundo. 

Um dia ele voltou casado com a Maria, a minha nova tia polaca de 23 anos com quem aprendi que curva era um palavrão em polaco e que me fazia máscaras de pele com batata cozida para me acalmar o acne. E trouxe receitas de spaggetti carbonara, lasanha e sanduíches estranhas, o meu tio que dizia “saaandwwwwishhh” em vez de sandes e que as dispunha em travessas enfeitadas com flores feitas com casca de tomate. 

O tio porreiro que foi a primeira pessoa da família a conhecer o teu pai, o tio porreiro que traz sempre aventuras para contar, que pintou as paredes de todas as casas em que vivi e que nunca me diz não a nada. O tio trapalhão e bonacheirão que deixou de beber e fumar depois de um ataque cardíaco e que traz agora uma enésima tia cabo-verdiana para a família, porque sempre foi ele, o tio Necas, que trouxe o Mundo e os ingredientes mais exóticos e divertidos para esta família.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Nato, 1958



E veio um Natal e ele nunca mais chegou, Ana. 

Bem sei que não é um começo de história bonito mas alguém tem que te explicar que aquilo do “e viveram felizes para sempre” pode não ser bem assim. O tio Nato viveu anestesiado, bem ao estilo Shakespeariano, trocando o desgosto amoroso pelo prazer do álcool. Primeiro o prazer, depois o vício, no fim a doença. Para nós sempre a inevitabilidade. Eu pedia sempre ao menino Jesus que ele chegasse sóbrio e bem disposto, talvez por isso sempre preferisse o pai Natal, esse ao menos nunca me defraudava. 

O Natal só começava quando nos sentávamos todos na mesa e isso só acontecia quando ele chegava, mesmo que ele demorasse a chegar e nós não conseguíssemos prever se teríamos a bebida também sentada à nossa mesa ou se ele viria sóbrio. Ninguém se sentava enquanto não estivéssemos todos e ele era, inevitavelmente, o último a chegar. A minha avó atrasava a panela das batatas, lembrava-se que as couves afinal não chegavam e engonhava a ir pedir umas emprestadas à vizinha ou às vezes deixava-as cozer demais propositadamente, para ter que deitar as couves moles fora e meter uma segunda panela ao lume, só para ganhar tempo e permitir que ele chegasse. 

Às vezes, nas noites em que tardava mais, ia despejar o balde do lixo lá fora ao contentor e ia uma segunda ou terceira vez, mesmo que o balde já estivesse vazio e não houvesse nada para despejar, na esperança de o avistar ao fundo da rua. 

Às vezes ele não vinha sozinho e comia em silêncio e ia deitar a tristeza embrulhada em álcool ainda antes dos mexidos e da aletria pousarem na mesa. Outras vinha sóbrio e era o mais entusiasta a aplaudir os meus espetáculos e os da Daniela e no fim da noite era o único que tinha pachorra para jogar connosco monopólio ou batalha naval ou dominó com o meu avô Amândio. 

Os nossos Natais não foram cem por cento felizes por causa dele mas era quando ele chegava e se sentava que começava o nosso Natal e foi com ele que aprendi que o amor de mãe manda no tempo e no acontecimento dos dias, sempre que a minha avó deixava queimar as couves só para lhe dar tempo para ele chegar.
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