segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Mundo divide-se (edição mete-nojo)

O mundo divide-se entre quem é mãe e continua a acordar às onze da manhã ao sábado e as outras. 

domingo, 25 de novembro de 2018

Dez(l)embro



Este ano decidi comprar enfeites de árvore definitivos. 

Parece-me que aos 38 anos, a pagar uma hipoteca, sedentária assumida, casada há doze anos (e juntos há vinte), no mesmo emprego há cinco anos seguidos, já estou numa altura em que posso pensar em criar tradições definitivas, objetos para permanecerem. 

Este ano, na nossa árvore de Natal teremos uma estrela por cada membro da família (os meus avós e tio também lá estarão) a lembrar-nos, Natal após Natal, quem somos: passado, presente e futuro. Inteiros. Unos. Família.

E não é disto que se trata o Natal?!



 [obrigada @zitamina pela concretização desta ideia tão de amor]

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Ana, 1960



Ana como tu, Ana. 

Um dia vais estar careca de ouvir esta história do teu nome que é o nome da minha avó que morreu quando tu decidiste vir morar para a minha barriga e da minha mãe que é a pessoa que mais amo no Mundo e saberás a importância de te chamares Ana, como todas as mulheres da minha vida, tu também. 

A minha mãe é simultaneamente a pessoa mais complexa e simples que conheço: complexa porque é inconformada, subversiva, incorrompível, desobediente, teimosa e nada agradadora, de ideias fixas e firmes, a mulher mais inteligente e justa que conheço, a melhor qualidade que podes vir a herdar dela para além da honestidade, integridade e o nome acabado em “ade” é o sentido rigoroso de justiça e isso é uma coisa bela e rara. 

Dizia-te eu, Ana, que é, simultaneamente, a pessoa mais simples que conheço porque sei-a de cor do ponto de vista de quem já morou nela, conheço-lhe as janelas dos sorrisos, a porta da vida, sei tudo o que ela não lhe apetece contar-me porque os olhos dela ditam palavras para o meu coração e cada silêncio dela é uma narrativa cheia de sentido para mim. 

Um dia nós as duas ficámos sozinhas no Natal e isso, tendo mudado tudo, não tornou nada diferente: sempre fomos as duas sozinhas numa placenta de amor vitalício que nada tem o condão de romper e nesse Natal, de há precisamente 30 anos, chorámos agarradas a ausência do meu pai, lembro-me do abraço apertado e das lágrimas dela a misturarem-se com as minhas e lembro-me que me agachei no seu colo e respirei fundo e tranquilizei-me: éramos só nós as duas e nada ficava, afinal, diferente. 

Nunca mais deixámos de ser só nós as duas porque o Natal é mãe, casa, é colo, é amor umbilical. Agora somos três, matrioskas, unas e é melhor e tu vieste para mostrar porque é o três o número da perfeição. Mas o meu Natal, aninhada, frágil e criança, crente na magia do Pai Natal e eufórica, esse Natal que me pertence será sempre ela.



O meu Natal é a minha mãe.
A minha mãe Ana, a realmente Maior.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Artur (37)




Conheci-o no dia da festa pública do primeiro aniversário da Ana: a ele e a toda a família- e não são poucos- loucos o suficiente para se enfiarem os seis num dia de calor extremo e virem dar-me um beijo a Lisboa directamente vindos de Tavira.

Nunca mais me esqueci.

A mãe- a Fátima- é uma mulher ímpar: mãe de (agora) cinco filhos, educa-os com o mesmo rigor, exigência, cuidado, disciplina e amor desde o mais velho- este Artur- ao mais pequeno Valentim, com um ano acabado de completar. E é um exemplo de educadora, o que se reflecte em todos eles mas hoje o post é para o Artur, o meu "sobrinho" chef, afoito e corajoso, destemido e criativo, bravo e rigoroso.

O Artur começou a interessar-se por cozinha no secundário, tendo concluído o Curso de Gestão e Produção de Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro, ao qual se seguiu um primeiro estágio curricular em grande, no The Oitavos na Quinta da Marinha como parte da equipa do então Chef  Pasteleiro Joaquim Sousa (o Chef que criou aquela sobremesa da flor negra que abria no prato e correu todos os facebooks, instagrams e masterchefs deste Mundo). 

Em 2014 acabou  o Curso e entrou no Belcanto do José Avillez onde estagiou  durante 3 meses, seguindo-se de um estágio no El Celler de Can Roca em Girona, que tem 3 estrelas Michelin e era naquele ano o “Melhor Restaurante do Mundo” pela 50 Best Restaurant. 

Foi aqui que começou a entrar mais na parte "salgada" da cozinha e trabalhou em quase todas as secções do restaurante incluindo o Laboratório. Regressou a Portugal e em 2015 foi pela primeira vez até Copenhaga para experimentar uma semana intensiva no Relae, e onde, mesmo em tão curto espaço de tempo,  despertou para a importância da origem do produto, a sua caminhada até chegar ao restaurante, à sustentabilidade e ao “foraging” (consiste em recolher plantas, ervas, frutas, cogumelos selvagens).



Claro que nem tudo são rosas, ou não fosse isto a vida, e foi também neste ano que teve uma experiência péssima que quase o fez desistir desta área e onde o chefe queria servir lavagante com 3 dias de cozido e onde não havia qualquer sentido de hospitalidade, respeito pelos ingredientes e sobretudo, respeito pelos clientes. Este episódio afectou bastante o Artur, um tipo franzino e sério, sem tempo a perder e em 2016 pensou como alternativa o ensino, tendo começado a dar aulas na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro. No entanto, Artur é "hands on", não é galinha de capoeira, é de campo e das bravas e logo, logo, começou a trabalhar no Restaurante Vistas no Monte Rei Golf & Country Club, tendo na sequência desta colaboração sido seleccionado para a final ibérica do San Pellegrino Young Chef of the Year 2018, que reuniu os 10 melhores jovens cozinheiros de Portugal e Espanha (com a participação de apenas dois portugueses). 

Rumou novamente à capital, o Artur intrépido, tendo ajudado a abrir a Confraria do Polvo, que aqui recomendei e cuja colaboração ter-se-ia mantido se não tivesse sido chamado pelo Noma, o melhor restaurante do Mundo, onde se encontra a estagiar há quatro meses. 

Durante os 2 primeiros meses esteve na produção e em algumas das estações a ajudar no serviço e preparações para serviço, que a vida de cozinheiro não é só glamour.  No entanto, o Artur brilha por onde passa, e no final do segundo mês foi convidado por um dos Sub-Chefs a fazer parte do Laboratório de Fermentação, Investigação e Desenvolvimento e ainda por lá anda, feliz e contente. Neste momento está a desenvolver produtos novos para o Menu de Peixe e Marisco que será servido a partir de 9 de Janeiro de 2019.
Se por um lado assisti orgulhosa e embevecida, como uma tia a sério, ao pulsar do Artur pelas cozinhas deste Mundo, por outro, não vejo a hora dele voltar a Portugal e marcar um jantarinho parolo e saloio à tuga e cozinhar só para mim!

Artur. Nome de Rei. Anotem que ainda vão ouvir falar muito dele.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Começar o dia a (Eslo)vacalhar

"Boa noite :)

Aqui vai a Quadripolarização da Eslováquia. Tenho de confessar que já vivi lá uns meses... Mas foi passando, passando e vim embora sem a Quadripolarizar! Espero estar perdoada x)
As duas primeiras fotos são do Lago Kuchadja, a paisagem não é a melhor mas dado que o lago estava todo congelado eu achei apropriado. Na terceira foto era eu que já estava congelada, mas o "ovni" é daqueles pontos imperdíveis e merecia ficar registado.




Não sei se precisavas, mas Quadripolarizei também Viena, no Palácio da Princesa Sissi (sim, e com mais um lago congelado!) :)



Espero que gostes das fotos e peço desculpa pelo papel tão pequeno, mas foi o que consegui arranjar.

Beijinhos
Raquel"


Xinapá, Raquel! Já me enviaste isto há tanto tempo que se calhar já tens filhos a entrar na universidade e já usas o cogumelo do tempo! Tu desculpas.me? Tu desculpas-me?

Eslováquia e Áustria quadripolarizadas! Yeahhhh!





[O planisfério está actualizado aqui
Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!]

sábado, 6 de outubro de 2018

Vamos falar de chá






Tinha onze ou doze anos, lia o Clube das Chaves e as Gémeas no Colégio de Santa Clara e ainda estava a aprender a lidar com as maminhas que me tinham aparecido e ainda a porra da menarca preconce e todas aquelas hormonas parvas que apareceram sem avisar. 

Os rapazes gostavam de jogar futebol mas era inverno, no início dos anos 90 não havia cá pavilhões gimnodesportivos nem campos cobertos e os rapazes-maçados!- tinham encontrado como alternativa à diversão via futebol:apalpar os rabos às meninas que, no intervalo,passavam nos corredores em direcção à sala. 

Eu tinha onze ou doze anos, via o "Agora Escolha" e às vezes o "Já Tocou" mas sentia-me uma miúdinha por dentro e quando, nesse Inverno, olhei para a fila de rapazes perfilados e encostados às paredes de ambas as laterais do corredor da C+S não queria acreditar que me iriam apalpar a mim, nem sequer era uma boazona, meia geek e segui segura. Fui apalpada no rabo, nas mamas e onde mais calhou naquele caminho que me pareceu infinito, enquanto gritava de horror, o coração a palpitar depânico, humilhada e reduzida a distração de rapazes que não podiam jogar futebol porque estava a chover enquanto se riam do pânico em mim gerado. Atrás de mim outras iguais a mim, a serem tratadas de igual forma. 

Abeirei-me de uma  "contínua" que minimizou o episódio, com condescendência para os rapazes "oh filha, já se sabe como são parvos os rapazes desta idade: vocês não liguem!" e me fez sentir ridícula e mariquinhas. Na sala de aula falei à professora que em tom de gozo me sugeriu que "olha, responde-lhes com a mesma moeda: apanhem-nos quando estiverem sozinhos e apalpem-nos todos" e fiquei incrédula: eu não queria apalpar ninguém, tinha onze ou doze anos, ouvia New Kids on the Block, não me interessava o corpo dos rapazes parvos da minha escola, nem castigá-los tocando-lhes arbitrariamente. Em casa falei à minha mãe que- como sempre com a assertividade que a caracteriza- me instruiu para no dia seguinte ir, com algumas das minhas outras colegas que tinham sido apalpadas, ao Conselho Directivo fazer queixa de cada um dos rapazes que conseguira identificar. Na sala do Conselho Directivo as duas professoras que receberam o nosso grupinho ouviram-nos atentamente para nos sugerirem o mesmo "vocês já sabem que os rapazes são mesmo parvo: não lhes liguem! As portas estão abertas para o exterior no inicio e no fim do corredor, vocês saiam e façam o caminho por fora e assim não se sujeitam a que eles vos apalpem". Uma de nós, penso que a Susaninha ainda terá retorquido que estava a chover, contornar o corredor por fora implicaria que nos molhássemos sem termos culpa nenhuma dos apalpões e fomos abafadas por um "mas vocês querem ser apalpadas ou não? Estamos a dar-vos uma alternativa...". 

Nesse dia, em que percebemos que ninguém iria chamar os rapazes ao conselho directivo,que ninguém os ia repreender ao corredor, que só dependia de nós fugir e não deles serem obrigados a conter-se e castigados pela acção; nesse dia fomos reduzidas à insignificância por outras mulheres, contínua, professoras, presidente do concelho directivo.

Tinha onze ou doze anos mas, nesse dia, percebi que as mulheres são as maiores inimigas delas mesmas. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Ana,a literal

Ana agarra num papo-seco e começa a comê-lo.

 A minha mãe reclama: "Estás a comer pão seco, Ana?"

 Resposta da bicha: "Então, querias que o molhasse, não?"

...

Ana, a lógica

Ana agarra num papo-seco e começa a comê-lo.

A minha mãe reclama: "Estás a comer pão seco, Ana?"

Resposta da bicha: "Então, querias que o molhasse, não?"

...

sábado, 1 de setembro de 2018

Hoje choveu

Hoje choveu pela primeira vez desde que cá estamos. Não se avista o Pico no horizonte tal é a neblina. Ficámos por casa a jogar marralhinha em família. Comemos massa sovada com doce de Figo que sobrou dos mais de 2 quilos que um senhor roubou numa figueira alheia e nos veio vender à porta. Fingimos que não desconfiamos. Tenho aftas de tanto queijo ilha comido e acho que esgotei o Stock de kimas de maracujá de toda a ilha! Amanhã há festa na Caldeira e a vila vai ficar mais sossegada e vazia. Estamos preguiçosos e só cozinhámos ovos fingidos para o jantar. Andei a ver mantas tricotadas pela minha sogra e acabei por herdar uma linda, linda. Os cagarros sobrevoam o nosso telhado e ouvimo-los cantar em coro com as gaivotas que anunciam tempestade no mar. Está um calor insuportável e uma humidade típica de que já não me lembrava. Podia ser um dia chato mas não. É um dos melhores dias das férias. Sem pressas nem destinos para onde ir, sem relógios nem rotas. Vir por muitos dia permite desfrutarmos do dia-a-dia, provar esta rotina boa. Ele põe no rádio velho o CD de uma banda da terra que já não existe. No ar ouve-se a minha música açoriana preferida. Está perfeito. Ninguém mexa. 




[Ainda sinto os pés no terreiro
Onde os meus avós bailavam o pézinho
A bela Aurora e a Sapateia
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra

Se no olhar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
No coração a ardência das caldeiras.

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra

É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.] 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A tia Conceição



O meu sogro tinha-nos dado as coordenadas por alto. A casa da tia Conceição, única tia bisavó da Ana do lado do avô paterno, fica numa parte longínqua e alta da ilha, mergulhada em nevoeiro. 

Não avisámos que íamos (eu contrariada que não me parece bem aparecer em casa alheia sem me fazer anunciar) mas a tia Conceição, mais deoito décadas sobre os ossos rijos, recebeu-nos como se nos esperasse há uma vida. Tirou uma cerveja do frigorífico e começou a desfilar histórias de netos, sobrinhos-netos, novas gerações frescas que prometem a continuidade desta linhagem de mulheres de olhos cor de mar. 

Fitou a Ana, trisneta da sua mãe, e marejaram-se os olhos de lágrimas: “são iguaizinhas: os cabelos loirinhos e os olhos. Ah , os olhos! Azuis enormes. Faz impressão, são iguaizinhas!” Limpou as lágrimas com o antebraço e nós estremecemos e sorrimos, comovidos com as memórias a brotarem como as hortenses férteis ali ao lado no quintal. 

Quis-nos mostrar a casa, rebocada rusticamente, pouca mobília, tudo arrumado magistralmente, fotografias de toda a gente nos poucos móveis e nas paredes despidas de acessórios. Casamentos, baptizados, coroações, primeiras comunhões e queimas das fitas da última geração: histórias de sangue numa exposição única que é também a história da minha filha. Um museu de memórias. 

Fitei o quadro com os olhos, sem os conseguir desviar. 

A coroa do Espírito Santo presente em todas as casas açorianas, símbolo de uma fé partilhada e coletiva. Sorri e pensei que um dia teria que levar uma coroa para nossa casa e voltei, atenta, à conversa que se desenrolava, vagarosa e cheia de afectos, na sala de estar com chão de linóleo. 

À saída a tia diz que não tem nenhuma notinha para dar à Ana [ó tia, por amor de Deus, não queremos dinheiro! Só a vimos abraçar!] e vêm-lhe as lágrimas aos olhos enquanto diz que provavelmente já não nos volta a ver. 

Soa a despedida e ele mascara a conversa com um abraço demorado. Vai buscar uma aguardente caseira que oferece ao sobrinho neto. 

Olha para a moldura da coroa e diz-me:”Gostas, não gostas?!” 

Sorrio e aceno, sem nenhuma intenção senão a gentileza do elogio. Tira-a da parede e dá-ma, sem me deixar reclamar: “lembrem-se de mim”. 

Lembraremos, tia!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Aos 9 de Agosto de 2018, à Ana por ocasião do seu 6º aniversário

Seis anos. Fecha-se um ciclo e eu sinto-me expectante pelo que aí vem sem deixar de sentir uma ponta de nostalgia pelo que passou. 

Em ti, Ana, já não há quaisquer resquícios do bebê que foste: não há chuchas, dormes sozinha, não há elementos de transição nem tiques de primeira infância, comse sozinha, a voz já não é de bebé nem no tom nem na articulação de palavras, estás com um timbre natural deliciosamente rouco e já lês tudo. Continuas a procurar o meu colo e a pedir-me beijinhos nas feridas até que a parva da pré-adolescência te traga a mania que és auto-suficiente e crescida demais para o afecto. 

Antes de dormir disse-te: “Estás a crescer tão depressa, Ana! Já sabes tantas coisas do Mundo” e tu abraçaste-me e suspiraste, num tom de fado que só usas comigo, “eu não sei nada, mamã!” Respondi que sabias sim e que cada vez menos precisavas de mim para os rituais do dia-dia. “Já comes sozinha sem ajuda há que séculos” “Mas preciso que tu me cozinhes e sopres a comida antes de vir para a mesa para eu não me queimar” “Também já fazes a cama sozinha!” “Mas preciso que no fim tu dês sempre um jeitinho” “Já lês letras e frases” “Mas preciso que tu leias os livros inteiros porque são muitas frases e me canso” “Já tomas banho sozinha!” “Mas preciso de ti para me tirares espuma do cabelo” Sorrio.

 Tu sorris-me de volta e metes-me a mão no pescoço, abraçando-me. 

Repito baixinho para me convencer “eu serei sempre a mãe que sopra a comida, que lê as histórias grandes quando o sono não permite, que dá o jeitinho na cama, que tira a espuma no fim do banho, a mãe que compõe”. Não te quero fazer sentir este peso. “Mas sabes, Ana, não tem mal nenhum não precisares da mãe! Quando crescemos é normal!” “Sei, mãe. Mas também não tem mal nenhum continuar a precisar para sempre...” 

Estás a crescer, Ana, depressa e ainda bem porque és tu quem me ensina, agora, tantas coisas do Mundo, enfim.

terça-feira, 3 de julho de 2018

E agora vamos lá falar de coisas sérias. Muito sérias.



"KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO

Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta. O que concluí é absolutamente kafkiano.
Ora atentem:

- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.


- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.

- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos comentários).

- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados. Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.

- No seu estilo tão típico, o Trump assinou uma executive order para pôr fim à separação de famílias. Ou seja, é um herói porque vem resolver o problema que ele mesmo criou. O mais provável, segundo as ONG no terreno, é que essa executive order permita a detenção conjunta de pais e filhos enquanto os pais aguardam julgamento. O que é bom porque, uma vez que essa prática é ilegal, isso dá a quem está no terreno um ato jurídico concreto para atacar. E continua a colocar-se o problema da reunião familiar: não há nenhum sistema no terreno para o fazer. É inacreditável mas é mesmo verdade: os EUA separaram estas famílias sem terem um plano sobre como as reunir novamente. As ONG no terreno relatam que às vezes conseguem localizar as crianças porque os processos de entrada no país têm números sequenciais aos dos pais. Mas nem sempre. As crianças estão já espalhadas pelos EUA e ninguém sabe muito bem onde. Ou seja, isto está longe de estar resolvido e a batalha jurídica destas famílias está longe de ter acabado! Além de tudo isto, têm ainda pela frente a batalha pelo estatuto de refugiados.


- Não, o decreto executivo do Trump não resolve absolutamente nada. Significa, "na melhor das hipóteses", que as famílias passam a poder ficar detidas em conjunto indefinidamente, enquanto os pais aguardam julgamento penal e enquanto não são ouvidos por um juiz de imigração sobre o seu pedido de asilo. Não sei bem em que mundo paralelo isto pode ser uma boa notícia...

- O motivo pelo qual as famílias estavam a ser separadas na fronteira é o chamado Flores Settlement, que determina que um menor não pode ser detido em instalações destinadas à detenção de adultos por mais de 20 dias. Este acordo contém toda uma série de proteções para os menores detidos pelas autoridades de imigração que a administração Trump quer assim fazer cair. Estamos a falar da proibição de estes partilharem quarto e casa de banho com adultos que não conhecem, da obrigação de terem acesso a cuidados médicos dignos, entre muitas outras normas de proteção. Revogar isto não é solução para nada! Não se deixem iludir pela propaganda do Trump! As ONG no terreno vão certamente litigar contra isto.

- Acresce que este decreto executivo só vale para o futuro, ou seja, impede novas separações familiares. Quanto àquelas que já aconteceram, nada se prevê quanto à reunião familiar. Aliás, nem se sabe bem como fazê-lo em termos práticos porque, muito simplesmente, está o caos instalado e ninguém sabe bem onde estão as crianças. A maior parte dos pais e das mães desconhece o seu paradeiro. Para aqueles que se apresentaram num posto fronteiriço e pediram asilo, sendo depois detidos por entrarem ilegalmente no território (sim, isso mesmo que leram!), geralmente os processos de asilo dos pais e dos filhos têm números sequenciais e por isso as ONGs no terreno conseguem localizar as crianças de forma mais ou menos simples. Para aqueles que foram detidos já em território americano e só depois separados, sabe Deus!

- Tudo isto para dizer que nada está resolvido, que a batalha jurídica destas famílias e das demais que venham a ser detidas em conjunto vai durar meses ou anos e que não podemos desmobilizar. Estar atento, estar informado, contribuir na medida das nossas possibilidades para ajudar quem está no terreno a lutar contra a barbárie -- é esta a nossa "to do list"!

- O nosso interesse e contributo continuam a fazer todo o sentido! Não desmobilizar até que TODAS as crianças estejam de volta aos braços dos pais!

Aqui fica o link para ajudarmos estas famílias: 

Da minha amiga Inês Melo Sampaio Antunes que trabalha no Tribunal de Justiça Europeu 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Ana, a fashionista



Ninguém sabe o que é um pré-AVC até acordar com a filha de sabrinas de Verão com collants grossos de Inverno, saia de ganga fina de Verão, camisola de manga comprida, óculos de sol e chapéu de chuva na mão a gritar, entusiasticamente, "Já estou vestida, mamã!"

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O Mundo divide-se...



... entre as pessoas que jogaram SIMS e as outras. 

Poliamor clubístico da Ana



Mámen- "Não, Ana, se tu és do Benfica como podes ficar contente por o Porto ter ganho?"

Ana- "Eu também sou um bocadinho do Porto como a mãe!:"

Mámen- "Ah,isso não vale. Só se pode ser de um clube!"

Ana: " Isso não vale. També sou tua..."

Mámen: "Estás a comparar a mãe ao Benfica e a mim ao Porto?"

Ana: "Ou ao Sporting. Tu também nunca ganhas nada..."

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Feliz ano novo, mámen!

Rui aos 39 anos: será sempre loiro mas está cada vez mais grisalho, gosta de vinho tinto às refeições, não perde um livro ou uma série histórica, sabe tudo sobre Reis e rainhas e arte, gosta de viver em Cascais mas será açoriano com orgulho até morrer, adora crianças em geral e é louco pela Ana em particular, se pudesse tinha mais dez filhas, acorda todos os dias antes de todos para ir à padaria comprar pão fresco para nós, se fosse uma cor seria azul, já não fuma e às vezes não sabe o que há-de fazer com os dedos enquanto bebe uma bica, acredita muito no seu Deus, lê sempre antes de dormir, adora passar a ferro e diz mesa de passar, chócolate e caixinha de leite, tem uma gargalhada alta mas é discreto e low profile, despreza dinheiro e bens materiais, pinta bem, canta bem, adora séries de detectives, é desconfiado e não é facilmente conquistado, conduz mal, é refém da Electra e quando se refere a mim diz sempre “a minha loira”, chama-me Lilica e grunguinha, ressona mas dorme em conchinha como ninguém, tem o melhor abraço do Mundo e é o farol desta casa. 

Celebra hoje o seu aniversário e nunca saberá o quanto o amamos a ele por tudo o que ele é. 

Feliz ano novo, grunguinho!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Porque hoje é dia 13

             

E (hoje) cada post meu será para te dizer que eu sei que vou-te amar por toda a minha vida. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ana, a todo o terreno

- "Avó, há uma menina na minha escola que tem gesso na perna e anda de canadianas ."

- "Pois,deve ter caído e partiu a perna..."

-"Ai avó, eu também gostava de partir... mas era para andar de cadeira de rodas eléctrica! "


...

...

...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

First world problems

- "Precisas de alguma coisa?"- pergunta-me ao telefone uma das minhas melhores amigas, que me ligou para se inteirar do meu estado de saúde.

. "Assim de repente de ir arranjar as sobrancelhas para não parecer o Álvaro Cunhal, de pintar o cabelo que está igualzinho ao da Madonna e que não me receitem mais nenhuma injecção de cortisona sob pena de no meu aniversário me confundirem com o Fernando Mendes..."



Quem diz a verdade, não merece castigo.

Zâmbia e Zimbabwe? Checked.




"Bom dia Ursa! Estive de férias na Zâmbia com o meu marido, que trabalha lá, e não podia deixar de contribuir para a cruzada. Aqui vai uma foto das cataratas Vitória, na fronteira com o Zimbabué. Beijinhos, Maria João"


Obrigada, querida Maria João para ti e marido! <3



O planisfério está actualizado aqui e é- prometo!- este ano que eu ponho as quadripolarizações tooooodas em dia.


Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Mundo divide-se...

Egipto quadripolarizado




"Olá, Pólo Norte 😊

Tinha enviado esta foto através do instagram, mas reparei agora que pede para enviar por e-mail. Assim, aqui está o Egipto quadripolarizado (Agosto de 2017) pelas irmãs Carla e Cláudia Oliveira, no Templo de Hatshepsut."

Obrigada, manas! 


O planisfério está actualizado aqui e é- prometo!- este ano que eu ponho as quadripolarizações tooooodas em dia. 



Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!

Ana, a Christmaskiller

Aproveitámos para desmontar a árvore de Natal e arrumar a quinquilharia natalícia enquanto a Ana estava a brincar no quarto. 

Entretanto chega à sala e vê tudo "desnataliciazado" e grita, indignada:

- Hey, vocês mataram o Natal sem me chamarem?!

sábado, 6 de janeiro de 2018

Chipre





"Olá Pólo Norte, quadripolarizei o Chipre, mais um país para acrescentares à tua lista! As fotos são da Petra tou Romiou ou Rocha de Afrodite. Segundo a mitologia é o local de nascimento da deusa Afrodite! M."

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Resolução de 2018: pôr em dia as quadripolarizações desde 2015




Quando tens um jantar marcado há meses e a tua filha adoece e tu tens que fazer o que tem que ser feito e ficas naquela ambivalência de "tem que ser" mas "Oh que merda", de "paciência" mas" fosga-se que timing do camandro" e resignas-te e pensas "cabrão de azar: pão de pobre cai sempre com a manteiga para baixo..." 

Mas eis que as tuas amigas, lá a jantar, mostram que não tens azar nenhum: o melhor do mundo são as tuas pessoas. E isso é sorte. Melhor sorte no mundo não há. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ana, em crise de idade

"Eu quero muito crescer para depois mandar em mim e já ninguém me obrigar a usar chapéu."




*Suspiro*

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Uma 'ssoa escreve um post de japoneses...

... e logo um leitor deste blog consegue provar que as coisas podem sempre piorar:




[Obrigada, Marco, sim?]

Ana, a colocadora de dedos nas feridas

Ana: "Mãe, o que quer dizer "maluquinha de Arroios?"

Eu: "Quer dizer que a pessoa é doidinha de todo, muito maluca mesmo."

Ana: "Ah. Onde é que é Arroios, mamã?"

Eu (engolindo em seco): "É o bairro de Lisboa onde a mãe nasceu!"

Ana (com ar esclarecido): "Ahhhhhhh!"

...

...

...



sábado, 2 de setembro de 2017

Ana, a filósofa

Ana a fazer ginástica em cima da prancha de bodyboard no chão da sala.

- "Que estás a fazer, Ana?"

- "Reflexões..."





[No instagram do blog podem ver a cena in loco]

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Aos 9 de Agosto de 2017, à Ana por ocasião do seu 5º aniversário

 No dia em que fizeste 5 anos não consegui tirar os olhos de cima de ti.

Antecipo-te cada gesto, cada mordiscar de lábio quando estas nervosa, cada arregalar de olho quando estas excitada, cada gargalhada quando estás pronta a fazer um disparate.
Ando neste namoro há cinco anos, de te (re)conhecer, de aprender quem és e como devemos gerir a nossa relação e o nosso afecto, de como te educar e amar, de como viver contigo aqui.
Nem sempre tem sido fácil, não te minto. As maiores dificuldades tem sido gerir as minhas expectativas e projeções, fazer o luto da filha que idealizei e passar a amar a filha que tu és e eu gosto tanto de ti assim tão diferente de tudo o que eu estava habituada a lidar. Não és uma Mini me e hoje sei que ainda bem. Não és uma extensão de mim nem sequer temos traços de personalidade semelhantes. Somos diferentes e complementares e todos os dias aprendemos a vida uma com a outra. E ainda bem.
Aprendi a observar a tua segurança de seres quem és e a incentivar a exploração de todas as tuas características tão únicas e a não cederes só porque os outros constroem, projetam ou esperam de ti. Ninguém tem que esperar. Porque tu és nova, fresca e única.
Não és extrovertida como eu, nem sociável nem eufórica. Não és tímida como o teu pai, nem loba solitária nem introvertida.
Seleccionas bem tudo: a quem entregas o teu afecto, a quem dedicas a tua atenção, as piadas que merecem a tua gargalhada. Não és agradadora nem fazes nada para alimentar o ego dos adultos em teu redor. Estás demasiado ocupada a seres tu.
Aprender-te tem sido melhor desafio da minha vida e fico assim-como nesta foto-como neste dia- espantada e deslumbrada por tudo o que de novo me apresentas com cinco anos: essa segurança, essa confiança, essa certeza de não te quereres dobrar pelos outros quando os outros não te importam, essa firmeza de seres quem és e de esperares- com toda a naturalidade do Mundo- que nem questionemos ou aceitemos mas que simplesmente te amemos assim. E amamos. Tal e qual assim.
Com este deslumbramento no olhar. Há 5 anos que somos mais felizes por tua causa. Não por causa da filha que projetámos ou construímos mentalmente. Mas por causa de ti. Real. Assim.

sábado, 15 de julho de 2017

Olh'á Croácia fresquinha!

                             



"Aqui vai a Croácia quadripolarizada. 
Mais concretamente, as cascatas do parque natural de plitvice. 
Beijinhos "

Filipa Guimarães


Obrigada, Filipa! Adorei!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Ana, a bacon lover

Ana a trautear a música do AGIR: 

- "Ela é linda sem bacon, yeahhh!"

...

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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Ana, a anatómica

Ana está com uma entorse. O médico mandou-a repousar o pé e ir colocando gelo.

"Mãããããe, podes-me trazer outra bolsinha azul gelada para eu pôr na maminha* do pé?"

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(*peito do pé)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ana, a guarda segredos

"Mãe, a avó comprou-te um presente de aniversário surpresa mas nem penses que eu te vou dizer de que cor é o vestido..."

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sábado, 1 de julho de 2017

O Mundo divide-se... (edição fonética)

... entre as pessoas que conhecem esta música como a música da Lasanha e as que a conhecessem como o hino da Liga dos Campeões.


             
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