quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Aquele nível basicozinho de maturidade

A minha comadre vem à minha janela entregar-me um bolo de café com leite (minha ryca comadre!):
Ela: Com'assim estás sem sabor?
Eu: É para que vejas. Agora é que está a barraca montada...
Ela: E o estás a pensar fazer?
Eu: Vou ali emborcar o whisky Talisker que trouxe da Escócia e que nunca consegui provar. Assim como assim aquilo não me vai saber a nada...
Ela: Não sabe a nada mas bate!
Eu: Isso é que é visão...

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

domingo, 23 de janeiro de 2022

Tenho uma amiga

 

Tenho uma amiga a quem a primirmã deu uma maquineta para aparar sobrancelhas no Natal.
Tenho uma amiga que, até ontem, não mexeu na profissional do sexo da maquineta mas que ontem, depois de uma semana adoentada e num dia de febre e sem nada com que se entreter, decidiu testar a máquina.
Tenho uma amiga que achou que a máquina não estava boa, deu--lhe uns safanões e em vez de testar a máquina noutra pilosidade corporal qualquer, decidiu testar na sobrancelha esquerda.
Tenho uma amiga que está, em pânico desde ontem, a ver tutoriais de maquilhagem com lápis de sobrancelhas porque já mandou mensagens a várias meninas das micropigmentações (todo um mundo que ficou a conhecer ontem) e dizem que o melhor é dar com o lápis mesmo até os cílios da sobrancelha voltarem a crescer.

domingo, 16 de janeiro de 2022

A estrela da serra



Subimos a serra devagar. Era fim de tarde e tínhamos esperança que quando o sol se pusesse ficasse mais frio e pudesse nevar de verdade. À medida que íamos subindo e os graus descendo, vimos que o que havia de neve era miserável, à excepção de numa pequena encosta que vislumbrávamos. Chegados à Torre percebemos tudo e fomos fazer tempo a beber um chocolate quente enquanto as senhoras faziam o fecho do café e o sol, realmente, se punha. Fomos os últimos clientes. O trânsito para descer a serra intensificava-se e nós a vê-los todos, um a um, partir.

Quando só restávamos mesmo nós ligaram os aspersores gigantes de água para que a mesma gelasse assim que batesse na dita encosta. Neve à força mas, ainda assim, neve. Neve para no dia seguinte alimentar a escola de ski. Neve, ainda assim.

E, nesse instante, em que a neve era fabricada à força da vontade do homem à nossa frente por aspersores gigantes e holofotes- e já sem nenhuma alma em redor- subimos a pista vazia, com sacos de plástico do lixo e descemos uma, duas, dezenas de vezes a encosta, com tombos e gargalhadas, escorregadelas e corridas para ver quem chegava primeiro lá baixo.

A minha filha gargalhava tão alto que era como se a Serra se fechasse para a ouvir, lua cheia no céu, três graus abaixo de zero, eco, neve e estrelas. Não perguntou porque os aspersores faziam chover água, o que eram os holofotes, porque não lhe tínhamos comprado um trenó e lhe tínhamos dado um saco de plástico para a mão. Não perguntou nada. Escorregou, subiu, voltou a escorregar, gargalhou sempre. Ininterruptamente.

Já cansados e de barriga cheia de neve, sozinhos no alto da serra e no caminho para o carro abraçou o pai. Eu fiquei para trás para os fotografar e, logo a seguir a este click, esperaram por mim e ela abraçou-me também: "Agora já descobri porque se chama serra da Estrela, mãe!". Porquê, Ana? " Porque a neve mágica é só mesmo a esta hora da noite, à luz das estrelas, não é?" Sorri e acenei. "Faz sentido. Por isso é que não fica aqui ninguém até à noite: deve ser mesmo um mistério bem guardado. Podemos combinar uma coisa os três?" Conta! " Este fica o nosso segredo: não contamos mesmo a ninguém!"

Shiiiiuu!

sábado, 15 de janeiro de 2022

A Ana quer criar uma petição, ó srs. de Viseu!

 

Devolvam a espada ao Viriato, que o homem parece que está a atirar o pau ao gato ou a jogar petanca ou o caraças, pá: não há direito!



quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Borboletas na barriga

 


Preciso de me rodear de coisas bonitas (e confortáveis). Não quero saber se está na moda (odeio o conceito de moda), se os outros gostam, se é consensual: se eu cismo com uma coisa, eu vou atrás.
Vale com tudo, também com objectos. Eu gosto de objectos, mais pela simbologia que pela utilidade, pelos gatilhos emocionais que me provocam.
Então eu cismei que queria redecorar a sala para enterrar 2021: trocamos os móveis de sitio, pomos coisas na arrecadação e trazemos outras que por lá andam, reforçamos as estantes porque livros é aquela coisa do first things first e, já com tudo nos novos sítios, percebemos que sobrou a parede da mesa de jantar e, de repente eu queria uma parede de pratos decorativos. Ah, está demode! Who cares? Eu quero muito.
Fui à feira da ladra e comprei dois, a Manuela de Guimarães disse que me dava uma série deles mas eu cismo com pratos com um tema específico: fauna e flora. E eu, a dizer que, caraças, não me chamasse eu Liliana se não haveria de ter um prato com uma borboleta azul.
Procurei por todo o lado e nada do bendito prato. Existia apenas na minha cabeça.
Hoje ele trancou-se no quarto à tarde, enquanto eu reunia em teletrabalho e, quando já quase noite vim à tona de trás do computador, ali estava na parede da minha sala: o prato com a borboleta azul.
O meu marido decidiu, a um dia de comemorarmos 23 anos de namoro, criar a fauna, a flora e pintar o princípio do Mundo em pratos na parede para mim.
Começou, como há 23 anos, a criar para mim uma Primavera completa.
Obrigada, Rui.

O Mundo divide-se...

 

...entre quem arruma os livros por ordem alfabética de autores e os outros

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Ten years challenge

 


Há dez anos tinha sabido há dois dias que estava grávida. Estava em Nova Iorque, a comemorar 13 anos de namoro no dia 13, porque casar os anos de namoro equivale a bodas de algodão doce.
Há dez anos conheci a Eileen e o Florin, e não imaginava que ia ganhar uma amiga irmã para a vida. Percorremos a quinta avenida a cantar a concrete jungle, fizemos a rota do sexo e a cidade com cosmopolitans e tudo a que tínhamos direito e tive um jantar romântico num rooftop com a cidade que não dorme inteiramente aos nossos pés. Nevava e era mágico.
Há dez anos era eu e a minha circunstância, tudo girava em torno de mim, egocêntrica e auto-centrada, a tentar encontrar quem eu era, como funcionava o Mundo e deslumbrada com a vida, a liberdade, os trinta acabados de completar.
Hoje sou eu, aos quarenta anos, na minha sala, num subúrbio de Cascais, depois de jantar bochechas de porco cozinhadas muito lentamente em vinho tinto, aquecimento ligado, gata a fazer tropelias, a minha mãe a fotografar o melhor ângulo da neta, a Ana a brincar com pedaços de madeira presos em fitas de cetim, a Ana a beber o seu "café", depois de ter dormido com tranças porque sonha ter o cabelo aos caracóis.
Talvez isto seja uma espécie de ten years challenge mas hoje, aqui, sou mais feliz que em Nova Iorque há dez anos, especialmente porque cada vez mais é tudo menos sobre mim e mais sobre o Mundo, a incrível normalidade da vida, enfim. O amor em mim

O Mundo divide-se...


... entre quem ama livros e os outros.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A pessoa tenta sr modernaça e acompanhar as tendências e tudo e tudo

 

A rapariga é linda de morrer, o miúdo é fofo que dói mas... que quarailho de maneira de arrumar os livros é esta?






Alguém me explique como se eu fosse a suburbana saloia que sou...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Sim, mostrámos a Casa de Papel à miúda

 

Ana ouve na televisão comentário político onde se diz que "Rio afirma-se nos debates eleitorais"
Esbugalha os olhos e pergunta-nos, incrédula:
"O Rio vai-se candidatar às eleições?"
Sim? (Nós, confusos)
Suspira, com os seus botões: "A Lisboa é que dava uma boa presidenta..."
...

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Parabéns tia Cinda!

 É por sua causa que começamos o ano sempre em festa. Foi a última dia meus tios a nascer mas foi sempre a primeira tia a chegar em todos os momentos da minha vida. É aparentemente serena mas interiormente ansiosa mas tem o condão de fazer com que nós achemos que tem sempre tudo sobre controlo. Na verdade, tem.

É como uma segunda mãe para mim e sempre que imagino como deve ser ter uma irmã tenho como referência a relação dela com a minha mãe. É uma segunda avó para a Ana, que não podia ser mais cúmplice dela, mais compatível, mais tudo. É a Titocas da Ana, a minha tia Cinda.

É doutorada em comida pré feita nos corredores dos hipermercados mas é a melhor costureira do Mundo. Quando era pequena preparava-me sempre banhos de espuma com gel da Avon e deixava-me ficar na banheira até ter as mãos engelhadas. Deixava-me comer delícias do mar directamente do congelador e fazia a melhor salada russa do Mundo, inundada de maionese. Na adolescência encobriu-me namoros e curtes em Monte Gordo e tem o condão do chantilly dela nunca falhar. Deu-me a minha prima, aos nove anos e meio, que foi a melhor coisa que me podia ter dado.

Adora dióspiros, lia livros de cordel quando éramos as duas miúdas, afinal só temos 18 anos de diferença, desenhava-me umas bonecas que eu adorava mas que deixariam Picasso às voltas na tumba, dava-me sempre a mão quando dormíamos juntas, até eu adormecer. Mesmo que ficasse com as mãos dormentes.
Na verdade nunca deixou de dar.

Há um ano não lhe pudemos cantar os parabéns e tivemos medo de nunca mais o podermos fazer.
Mas este ano, aos sessenta acabadinhos de estrear, cá está forte, gira e plena. Ela diz que teve sorte mas a sorte foi toda nossa!

Parabéns, minha tia!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Andorinha

 Em 2021 senti-me profundamente triste. E aflita. E impotente E devastada. Tive terror em perder a minha tia e perdi o meu tio num momento de terror. Confortei a minha prima. Alimentei o meu outro tio. Percebi definitivamente que nunca mais retomarei relações com a minha outra prima Tomei conta de muita gente e pouca de mim. Fui promovida na pior altura para o ser. Trabalhei horrores. Tive muitas mudanças no trabalho até que apareceu a Ana Lúcia para me serenar. Serenou. Ajudei a organizar uma manifestação pela vida independente. Gritei num megafone. Fiz uma vigília e dormi à porta da Assembleia da República. Reforcei a certeza de que o meu casamento é para sempre e que há amores para a vida toda (até podem não haver casamentos, mas amor há!). Perdi a Joana. Dei centenas de horas de formação. Vi a Monalisa. Tive o melhor jantar do ano aos pés da Torre Eiffel. Vi, finalmente, toda a Casa de Papel. Tive pouco com amigos. Voltei a organizar campos de férias. Diverti-me tanto na Isla Mágica. Fui vacinada. Falhei nos exames de rotina da mama mas compenso em breve. Passei o dia da mãe com a minha mãe sem máscara e viseira. E com a Ana. As três na Lx Factory. Vi um espectáculo de flamenco ao vivo. E comemos tantas tapas, os três felizes em Sevilha. Comovi-me na Eurodisney. Namorei muito no Verão com tinto de Verano e Manchego. No meu aniversário um conjunto de bandalhos bons juntou-se no mato para me cantar os parabens. Foi tão importante para mim. Comi marisco em São Martinho do Porto. Fui feliz em Elvas com a Inês e o Bruno. Recebi os meus sogros em tranquilidade. Li pouco. Fui a Itália em trabalho e conheci gente incrível A Ana fez a sua primeira comunhão. A minha mãe esteve sempre por perto e isso é tudo para mim. Fui feliz com a Eillen a cantar a banda sonora da Tieta. Fiz yoga no Moinho de Maneio. A Ana cresceu, cada vez mais pessoa inteira e boa. Aprendi a jogar Rummy. Permiti-me a falhar e abracei a vulnerabilidade com auto-compaixão. Em 2021 fui uma andorinha sempre em vôo numa constante tentativa de regresso a casa.

Tudo o que importa reter de 2021



quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Foi um ano tão mau

 Foi um ano tão mau. Não me apetece fazer redução da minha dissonância cognitiva e dizer que não foi mau, que afinal foi apenas duro, desafiante, de crescimento, difícil. Não foi. Aliás, até pode ter sido isso tudo mas foi, sobretudo e sobre tudo, mau.

Perder pessoas, mas perder a sério, não o deixar ir, não o decidir cortar relações, perder sem escolha e definitivamente, nunca pode fazer de qualquer ano que seja algo menos do que terrível.
Tudo o que possa ter sido bom e que muitas vezes damos por adquirido- estou com saúde e a minha mãe e filha também, tenho emprego e salário, tenho casa e não tenho contas por pagar, tenho uma relação amorosa saudável e um marido com saúde e emprego- é um alívio mas não apaga o terror que foi este ano.
Sinto-me em catarse, como no fim de uma tragédia onde tens que lutar cheia de adrenalina, sem dispersar, sem tempo para merdas, e no fim, campo de batalha vazio, podes finalmente sentar-te e chorar.
Comecei o ano a perder a minha tia e eu não sei perder gente e acho que nunca irei aprender. Quando ela voltou, do lado de lá do covid nos cuidados intensivos, lembrei-me do dia em que ela emigrou. Eu tinha 5 anos e fui levá-la ao aeroporto. Ela despediu-se com lágrimas nos olhos e começou a subir as escadas rolantes. Eu, cá em baixo, segurada por um adulto que não me lembro quem era, a gritar: " não vás, tia, não me deixes, tia!". E ela foi. Foi talvez o primeiro trauma da minha vida, esse dia, embora tivesse tido tantos motivos para trauma, as hospitalizações, as noites sozinha internada, as saudades da minha mãe, o meu pai que nunca mais voltou, esse por opção. É a falta de escolha que me mata por dentro. A inevitabilidade da vida. Quando a minha tia voltou do covid senti que estávamos, finalmente, de contas saldadas: ela tinha fintado o sentido das escadas rolantes e voltava finalmente para trás, para não me deixar sozinha. 

Em Julho, o meu tio subiu nessas escadas para sempre. E eu nem consegui gritar "não vás, tio, não me deixes, tio!" nem ninguém me segurou.

2021 foi um ano de merda, desculpem o discurso depressivo. Para 2022 não quero nada. Só que mais nenhum dos meus parta sem poder regressar. Escadas rolantes paradas.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Dores (maternais) de crescimento

 A gente anota o primeiro dia em que se sentam, em que lhes nasce o primeiro dente e depois em que lhes cai também, em que dão os primeiros passos, do primeiro dia de creche e depois, todos os anos, de escola. A gente anota a primeira palavra dita e a primeira escrita, o primeiro desenho de figura humana e o inaugurar de tantos estadios.

Há sempre o encanto desmesurado nos inícios, nos princípios, nos começos, nas primeiras vezes.
Mas são muitos os dias que são os últimos dias em que fecham ciclos.

Este foi, provavelmente, o último dia em que a Ana assomou à janela para esperar o Pai Natal.
Há uma beleza nostálgica no fim de ciclos. Foi incrivelmente bom viver a magia do velho de barbas nove anos com ela: ser o pai, acompanhá-la a escrever-lhe, ir de mãos dadas com ela aos CTT por as cartas, ano após ano, tocar o sino escondido da na cozinha, segui-la na correria de tentar vislumbrá-lo, ouvi-la a jurar que o viu no céu porque só os olhos das crianças vêem o invisível.

De janela aberta anoto aqui a luz do balão para sinalizar o spot, a caixa de take away com bolachas e cenouras porque há covid e ele tem que levar o repasto porque já não se come ao postigo e o sorriso de quem desconfia que não é real mas que escolhe em acreditar.

A magia não fechará a janela, mesmo que tenha sido esta a última vez.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Tudo sobre controlo

 

É Natal, é Natal
Estou na cozinha
Tem tudo pra correr mal
Se correr, como sozinha
Falta-me ovos aqui
A receita de Azevias está acolá
Se tudo ficar uma bosta
Ainda sei fazer um chá
É Natal, é Natal
Quanto tempo levedam as filhós?
Dúvidas quem não as tem?
Ah! Não têm as avós!
É Natal, é Natal
Na cozinha não tenho um dom
Mas estão todos feitos ao bife
Se não comerem e disserem que está bom!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Crescemos sempre até ao fim


Quando nos morre alguém, como no dia de hoje há dez anos, sentimos que não vamos sobreviver. A garganta fica com um nó, o coração apertado, os olhos pequenos de tanto chorar: tudo em nós encolhe, minga, sufoca.
O grande desafio de se crescer (eu não acredito em envelhecer, acho que crescemos até ao fim) é este: crescer implica expandir, abrir, ocupar mais espaço, ficar maior e a morte dos que amamos faz precisamente o contrário, diminui-nos, fecha-nos, insignifica-nos face à grandeza do amor. Por isso, dizia eu, o grande desafio de crescer é fazermos o pino e, com o mundo de pernas para o ar, encontrarmos o equilíbrio novamente sem as referências do amor que nos guia na vida, voltarmos a endireitar os quadros nas paredes, a olhar sem lágrimas as fotografias nas molduras, a endireitar a vida com o peso estranho da ausência que levita.
Cada pessoa que parte esvazia-nos, entristece-nos para sempre, numa tristeza que aprendemos a convidar para comer connosco à mesa e dormir e acordar ao nosso lado na cama, porque negar, evitar não a vai fazer desaparecer, porque aceitar ajuda a crescer, ainda assim. Um dia, desgostos somados, crescemos tudo e fazemos contas ao amor, às memórias felizes, à saudade e, outra vez, aos desgostos somados.
Crescemos a acreditar em finais felizes mas só há tristeza em qualquer fim.
Eu achava que não se sobrevivia à morte, há treze anos, há dez no dia de hoje, há cinco, neste Julho que passou e como estava enganada.
As pessoas dizem que se envelhece porque crescer deixa de ser bom e em expansão e passa a ser duro, com perdas e a mingar mas, ainda assim, trata-se sempre de crescer.
Crescemos até ao fim porque sobrevivemos sempre à morte.

É a vida que acaba. É à vida que não se sobrevive e esse é, talvez, o grande paradigma da humanidade. Do amor. 

sábado, 18 de dezembro de 2021

Electra



Os avós tinham chegado dos Açores, depois de uma distância de dois anos. A avó fala com ela muitas vezes por semana- num esforço que me enternece- para alimentar a relação, para acompanhar o crescimento da neta. Faço questão da Ana ligar de volta, contar sobre os seus dias, alegrias e inquietações. Sei a importância que os avós podem ter na vida dos netos, os meus continuam, depois de mortos, a orientar-me o caminho.
A minha mãe é a maior: ninguém a bate, ninguém está à sua altura nesta tarefa. A Ana diz sempre que é a avó aventureira e isso diz tudo sobre a relação delas, cheias de aventuras e afectos, riscos e segurança.
O meu pai não conhece a Ana, por desamor, incapacidade de se vincular.
Mas estes avós vivem longe, o caminho não se faz por estrada nem cacilheiro nem comboio nem bicicleta.
A avó liga várias vezes por semana, dizia eu, mas o avô nem por isso. Talvez por essa razão, estávamos curiosos para perceber como iriam interagir, a Ana e este avô distante e menos presente.
A meio da semana a avó perguntou insegura: "Gostas mais de mim ou do avô?" A Ana, colocada injustamente naquela posição frágil, não hesitou: "Do avô." E rematou " tens que perceber que estou a descobrir como é ter um avô e é alegre e divertido!".
Depois, foram até à feira de Natal e a Ana agarrou as mãos de dois dos homens da sua vida e pediu que atirassem ao alvo para lhe conseguirem um peluche gigante. Vibrou, torceu e no fim não ganhou o peluche.
A pontaria era má mas eles não sonham como é certeiro o sentido de orientação que estão a deixar na Ana, amada, querida, importada. A vinculação, o sentido de pertença e até a cena freudiana são mais valiosos que qualquer peluche gigante. E nunca ganham pó, por mais tempo que passe.
Ganha-se sempre no jogo do amor.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Com força e baixinho

 


Quando o avô morreu eu entrei na sala e tu choravas baixinho. Quando me viste choraste mais, com mais força, mas simultaneamente mais baixinho, e tapaste o rosto com aos mãos como se tivesses vergonha da fragilidade, embaraço da vulnerabilidade. Tinhas sido sempre crescida, durante toda a minha vida, era a primeira vez que te via pequenina, com as mãos a tapar os olhos verde azeitona, verde louro, verde teus avó, como uma criança que esconde a cara com o bibe quando fica assustada e tem medo do Mundo.

Eu também tive medo, avó, desse Mundo que veio depois do avô e que nunca mais foi o mesmo e também chorei baixinho e com força, acho que foi contigo que aprendi a chorar sem histerias, baixinho e com força, como quando tinha muitas dores e, já adultas - as duas- tu vinhas para a minha cama e te deitavas ao meu lado a embalar-me para me adormeceres a dor.

Naquele dia o avô morreu e tu não quiseste ir ao velório, nem ao funeral e ninguém percebeu porquê. Ficaste em casa a fazer comida, e tu mal conseguias fazer comida, a mão que me embalava tinha sido silenciada pelo AVC, continuava porém a fazer comida e a embalar-me, no Minho as mulheres alimentam os vivos que choram os mortos.

E nunca mais abriste a porta do teu quarto e do avô, já não havia vocês os dois, só a porta fechada, como o Mundo fechado ficou e talvez, por isso mesmo, tu tapavas o rosto como uma criança com medo tapa a cara com a fralda do bibe. Três anos depois adormeceste na sala, olhos verde louro fechados, nunca mais tinhas entrado no quarto, fizeste comida até à última refeição, a mão com o AVC, e dessa vez não acordaste, assim com força e baixinho partiste, talvez para ires fazer comida para o avô que te esperava, botas de borracha e sorriso com dentes tortos.

E eu fiquei, e deixaste-me a Ana na barriga, segredo que só descobri dias depois, para poder ter quem embalar, para me abrir as portas do teu quarto e do Mundo, para usar bibes sem tapar o rosto, para poder continuar a chamar Ana como te chamava a ti, vó Ana, para me deitar ao seu lado hoje, ela já dorme, e embalá-la, com força e baixinho, para ver se adormeço a saudade que, agora crescida, trago em mim.

Amanha faço comida eu.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

É bacalhau espiritual


A melhor amiga da Ana agora mesmo, na primeira comunhão:
"Liliana, vamos comer bacalhau santificado?"

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

A melhor música de Natal

 

Começo eu: "Noite Branca" dos Anjos *
Agora vocês!


[* Não mete coca mas mete casacos de cabedal fake com cortes miseráveis dos anos 90 e se é para azeitices antes o bonzão do Sérgio que os trinados da Mariahzinha]

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Moinho do Maneio

 



Há um lugar com casinhas de pedra que parecem de brincar. Com redes espalhadas à beira rio a convidarem-nos a baloiçar ao sol, à sombra, às estrelas, ao amor e à paixão, ao colo e à intimidade. Aos afectos. Com uma piscina onde podemos ser piratas e sereias em água doce e lagartixas e camaleões ao sol. Com pequenos socos com o melhor bolo de chocolate do Mundo, sumo de framboesas naturais e figos da Índia descascados, iogurtes com granola bons e pão a saber a pão e queijo de cabra e uma vista sobre o rio. Ah, o rio!

Há um lugar com um rio e uma canoa à espera de ser estreada, mesmo que já a tenhamos estreado antes, porque são sempre novas águas a correrem em direcção à pequena represa e os sapos assustam-se à nossa passagem e mergulham à nossa frente - flop!- e somos os três na canoa a cantar alto e a rir às gargalhadas ou é só ela, Pocahontas de Penamacor a remar em direcção a um mar que sabemos que existe lá longe mas que existe, e estamos sempre a caminho dele, mesmo que o rio seja no interior.

Existe um lugar com burros a zurrar e que correm quando lhes acenamos cenouras e cães amigáveis e educados a abanar a cauda, que recompensamos às escondidas com sobras do jantar. Onde pomos a tocar nas aparelhagens antigas de CD Maria Callas e Tom Jobim e as noites são,também por isso, mais estreladas.

Há um lugar onde cozinhamos comida caseira e sopa de tomate para comer nas mesas fora da porta e fazemos chá para beber ao serão, enquanto jogamos jogos de tabuleiro sem sentir falta de televisão nem rede de telemóvel porque o tempo e o silêncio são presentes dos céus.

Há um lugar onde nos recebem e se despedem de nós com o mesmo sorriso aberto e verdadeiro e onde damos por nós a cantar muitas vezes baixinho, a trautear músicas, porque quando estamos felizes cantar faz parte de quem somos. Há um lugar único em Portugal onde a minha família entra família e sai ainda mais família, mais conectada, mais íntima, mais simbiótica.

Há um lugar chamado Moinho do Maneio

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O Mundo divide-se...

... entre as pessoas que, mal espreita o Outono, ainda andam de chinelos e as que passam logo a andar de calçado fechado/botas

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Ana explica à avó como dá a volta ao pai...

"Sabes, avó, não pode ser asim à bruta. tem que ser assim tipo jazz..."
A minha mãe: "Como assim tipo jazz?!"

"Começa assim devagarinho, sem darmos por nada e quando avança é que ganha ritmo, entendes? 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Ana com febre*

Eu para mámen: "o pediatra mandou intercalar Benuron com Brufen: começamos com qual?"
Ana, em modo drama Queen: "misturem os dois na Bimby, velocidade dez e façam um cocktail..."




*É uma gastroenterite. 

"Do que gostaste mais do fim-de-semana fantástico, Ana?"

Da música que tu e a tia cantaram da Tieta daquela parte "Tieta do agreste, lua cheia de tesão, é lua, estrela, nuvem, carregada de paixão"
(faz uma pausa)

O que é tesão, mamã?" #anaamaior 

Gostava de morrer velha.




Gostava de morrer velha. Velha, velhinha. Ainda melhor, gostava de morrer velha e de velhice. Como se a vida quisesse pedir a conta final e fechar a despesa, satisfeita e de papo cheio, pronta a levantar o rabo da mesa e sair de mansinho, olhos fechados, memórias arrumadas, papo cheio, sensação de fecho da loja.

Contas feitas, fecharia os olhos, papudos e enrugados, com aquele esverdeado que todos os olhos dos velhos ficam, verde árvore para se poder regressar à terra com a copa a tocar no céu e largariam a VT, acho que se diz assim nos programas de televisão, com os momentos mais felizes que acumulei.

Nesse pequeno trecho, de uma vida longa, apareceriam os burros do @moinhodomaneio, as ondas do mar negro do cabelo da Anabela sem mariquice nem nhonhozice a darem-nos as boas vindas de verdade, o ribeiro que desbravamos com a canoa azul e gargalhadas amarelas de sol, os saltos da minha filha no trampolim e os risos a chegarem bem alto no espaço, caudas de sereia na piscina, agora a Eillen e eu a gargalharmos, à ceia, enquanto cantamos a banda sonora da Tieta do Roque Santeiro depois de jogarmos Remmy a beber chá de caramelo e a comer broas de mel e estas manhãs preguiçosas em que quero sair para o pequeno almoço e a Ana dorme no meio de nós, as persianas de madeira azul a rebentarem para nós deixarmos entrar o sol e a vida que é vivida no presente, que deve ser vivida como um presente. Uma cauda de sereia a secar à porta, no fim.

Queria morrer velhinha agarrada ao papel colorido da vida que desembrulhei, contemplando o passado que foi um presente, mete-lo debaixo do braço e dizer adeus, estava tudo óptimo, obrigada, sim?

domingo, 26 de setembro de 2021

O Mundo divide-se...

 ...... entre as pessoas que acordam com o humor certo e não querem conversa de manhã e as outras.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Merdas que vocês fazem aos vossos filhos para serem nomeadas para ganharem a "grã ordem de mérito da maternidade abnegada, sacrificada, carmelita descalça, cheia de culpa judaico-cristão, freudiana" e que nunca pensaram que um dia descessem tão baixo ao inferno-maternal de tal modo que batessem no fundo.


Começo eu: maçãs, cortadas e presas com um elástico, não vá a menina não ter dentes para morder uma porra de uma peça de fruta e fruta oxidada é que nem por sombras. Ali, taco a taco, com palitos de cenoura magistralmente cortados para o lanche. Repito: palitos de cenoura.

Agora vocês.
[Sem julgamentos, tá? It's my daughter and eu estrago if I want it...]

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Apartas o cabelo ao meio

"Apartas o cabelo ao meio, agarras um pedaço de cada vez e penteias devagar. Depois das duas partes penteadas, juntas tudo e penteias por inteiro, de uma só vez". Sempre que me vejo em frente do espelho da casa de banho, a pentear o cabelo, sempre sem excepção, oiço a voz da minha avó nesta ladainha: "apartas o cabelo ao meio...".

Eu era adolescente e as hormonas tinham tomado conta do meu cabelo, outrora liso, agora cheio de jeitos e rebelde, muito fino e muito basto, sempre a enriçar e a fazer nós. Às vezes pensava em cortá-lo para me poupar ao trabalho de o desembaraçar todas as manhãs, enervava-me, irritava-me, apetecia-me escová-lo à bruta, partir os nós e o cabelo com ele mas depois a voz, paciente, da minha avó: " apartas o cabelo ao meio...".

A minha avó sempre me pediu que não cortasse o cabelo e sempre que eu desesperava em frente do espelho vinha por trás e tirava-me a escova da mão impaciente e começava a pentear-me: "apartas o cabelo ao meio".

Um dia, era eu universitária e numa manhã de bad hair matinal a minha avó penteava-me, sem pressa e dizia-me a ladainha "apartas o cabelo ao meio..." e eu sorri e atirei "esse conselho dos cabelos aplica-se a todos os problemas, 'vó: temos sempre que os apartar e desembaraçar aos poucos, pedaço a pedaço e depois, com tudo com menos nós e embaraços, dar uma escovadela final, né?" E a minha avó riu e disse "nos cabelos e na bida, tem que ser sempre assim: apartar sempre ao meio, agarrar um pedaço de cada vez e desembaraçar cada pedaço para depois juntar tudo e passar uma escovadela no fim e ficar tudo certinho".

Tenho saudades das mãos da minha avó na escova, da escova no cabelo, da expressão "apartar" e da vida ser dita com "b" de bela e de boa. E talvez seja por isso que eu nunca corto o cabelo: para nunca me esquecer como se resolvem os problemas na vida ou talvez apenas para, sempre que me olho ao espelho, nunca deixar de ouvir a voz da minha avó pela manhã. 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Inventámos o nome de uma síndrome

Tenho uma amiga cujo ex-namorado, ressabiado, passa os dias no Speaker's Corner do seu mural de facebook a destilar ódio, indirectas e bocas que dão um bocadinho de pena para ver se a atingem ou se ela se pica.
O engraçado é que ela não o bloqueou no facebook mas fez-lhe aquilo de não aparecerem no seu mural os status dele e prossegue a sua vidinha, sem curiosidade nenhuma sobre o que ele escreve e sem sequer lá ir, fresca e fofa na sua vida.
Ele- attention seeker- continua a esbracejar muito, acreditando que chega até ela- mas só somos mesmo nós, azamigas dela, a assistir de camarote àquele triste desempenho.

Referimo-nos agora, entre nós, àquela verborrea como a "Síndrome Alexandreeo". Estamos "assim" de a registar e pedirmos que a incluiam no DSM-V 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Primeiro dia de aulas do 4º ano





Podia fazer quarenta graus à sombra, haver uma parada de camelos e todo um desfile cénico de cactos, podia haver uma escola de samba com bailarinos desnudados e sensação térmica de deserto do Sahara que ela hoje levaria, sob qualquer circunstância, o vestido novo dos corações.
Quatro anos para conseguir uma fotografia de primeiro dia de aulas irrepreensível com data certa e todas as peças de roupa vestidas e nos livramos de unicórnios na mochila but... aqui está ela!

Quarto ano da Ana! Desejem-lhe boa sorte!  

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

As fitas


Ele perguntou "também lá estiveste internada?" e eu disse que sim, confusa. É uma névoa na minha cabeça todo o tempo em que lá estive internada, uma névoa sobreposta pelo que a minha mãe me conta, as memórias felizes que ela assistiu, o dia em que a RTP lá foi e me filmou e os domingos em que as irmãs incluiam sempre batatas fritas no menu e a Lai, a educadora, única memória de afecto que guardo. Tinha na minha memória as memórias da minha mãe a ocuparem o lugar das minhas, não sabia para onde teriam elas voado. 

Mas depois ele continuou "e as fitas? Lembras-te das fitas?" e um portal de memórias recalcadas se abriu, como se fosse uma epifania do passado, uma visão de dor que enterrei num poço da minha memória- a psicologia explica- acabava a hora da visita a seguir ao jantar que era dado demasiado cedo, acho que pelas 19h, e a minha mãe e todas as visitas iam embora e vinham as irmãs, vestidas com o hábito creme, com as fitas. 

Às vezes eu choramingava, tinha 4 anos, 5, 7, 8, era pequena, choramingava "não quero as fitas! Tenho comichão e não me consigo coçar" e elas não me respondiam, não me explicavam, não me consolavam, limitavam-se a apertar as fitas à volta do meu corpo pequen ino e prendiam com firmeza e eu ficava sem me mexer toda a noite, às vezes durante muito tempo a olhar para o tecto da enfermaria e a pensar que a comichão iria passar e que a minha mãe chegaria no outro dia e ouvir os gritos de outras meninas: "tirem-me as fitas! Tirem-me as fitas!", depois passos delas e o silêncio a calar os gritos das outras meninas. 

Eu desisti de pedir, percebi que não me ouviam, não queria que os passos se aproximassem e se pedisse apertavam com mais firmeza, nem uma palavra, às vezes eu enchia o peito de ar para ficar com mais folga e poder mexer-me melhor até mas tirarem de manhã, muito cedo, acordavam-nos as sete para lavarem o chão com lixívia e umas máquinas que aspiravam e enceravam, tudo tinha que cheirar a limpo, a doença cheira mal. 

Nunca ninguém me abraçou, consolou ou alargou as fitas, em noites apertadas e silenciosas à espera de manhãs asséticas e da minha mãe chegar outra vez. 

Ele carregou com o dedo na ferida cicatrizada em vão"lembras-te das fitas?" e eu lembrei e perguntei, agora, à minha mãe se era real ou se o sonhara. "Era para vocês não caírem das camas!" e eu sei que ela acredita nisso, as irmãs diziam e ninguém questionava as irmãs- é a memória da minha mãe sobre as fitas mas não é a realidade e eu nem me lembrava que havia esta realidade mas ele perguntou pelas fitas e agora não me consigo esquecer de dormir de colete de forças grande parte da minha infância naquele hospital, do cheiro a lixívia e de tudo o que mais queria no Mundo era a hora em que chegava a minha mãe.

domingo, 12 de setembro de 2021

Tudo o que aprendi na gravidez foi com o Lobo Antunes



"Que livros leste durante a gravidez da Ana?"- na feira do livro, lembrei-me da pergunta feita tantas vezes, por amigas grávidas e por leitoras do blog grávidas, ao longo destes anos. 

E eu sempre meio envergonhada a responder a verdade: não li nada, excepto as Crónicas do Lobo Antunes, porque estava internada e sem me poder mexer e não tinha nada que fazer. Minto, li um manual de uma enfermeira inglesa, Gina Ford, que era a guru da minha amiga Xana mas li mais por amor - para não desapontar a Xana- que por crença, que a senhora dizia que devíamos deixar os bebés dormirem sozinhos e deixarmos os putos chorarem até se calarem e se não se calassem lá poderíamos ir ao pé dos berços mas nada de acendermos as luzes para eles não nos verem e não quererem folia e voltarem a adormecer. 

Por isso digo que não li nada, mas li Gina Ford para não desapontar a Xana, por amor, nunca lhe disse que odiei a enfermeira inglesa maluca que fazia bíblias sobre bebés sem nunca ter sido mãe. 

E quando a Ana nasceu e fui fazer o primeiro biberão perguntei ao Rui "a misturar isto ponho primeiro o pó do leite ou a água?" e nenhum de nós sabia o que se punha primeiro, nem se fazia diferença a ordem com que se misturava aquilo. "Num biberão pomos primeiro o pó e depois a água e no seguinte fazemos o contrário e logo vemos se faz diferença para a miúda"- concordámos. 

Nenhum de nós leu livros e fomos fazendo sempre tentativa-erro, com a certeza, porém, que a trariamos para dormir no meio de nós, que não a deixaríamos chorar até desistir e que lhe acenderemos a luz todas as vezes que fizer escuro e ela precisar de ver o nosso rosto a dizer que tudo vai ficar bem. 

Tudo o que aprendi sobre livros na gravidez foi com o Lobo Antunes, talvez por isso ontem só tivesse comprado o seu último livro de crónicas, com a esperança que na sua arrogância para inglês ver me ensine mais sobre o mundo e sobre os afectos que enfermeiras inglesas que toda a vida trabalharam com bebés.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

E estava óptimo. Mas hoje sinto-me a lamber todas as salinas desde Aveiro a Rio Maior.

Depois do périplo do almoço vou jantar a casa dos meus amigos Ines e Bruno que fazem o quê para jantar?

Bacalhau à Brás. 

Pode ser o último post deste blog

Fui comer uma pasta ao almoço ao Basílico no Corte Inglês.

Agarrei numa daquelas cenas de metal que costumam ter queijo ralado e carreguei. Saiu um pó e achei que eram coentros. Era pimenta.

Praguejei.

Agarrei na cena ao lado, outra coisa de metal igual com os furinhos e pensei que iria carregar no queijo. Carreguei. Era sal.

Não quis dar parte fraca, sorri e comi tudo como se nada fosse.

Acho que os meus rins vão parar, a tensão disparar e sinto que a minha boca se afogou no mar salgado e não sinto a língua como da última vez que tinha nove anos e achei que devia lamber a cuvete de gelo.

Sou menina para falecer.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Materno skills aos 9 anos e um mês da miúda

Saber qual a quantia exacta que a fada dos dentes coloca debaixo da almofada quando lhe cai um dente- checked

Saber o ângulo que os olhos devem arregalar para impor respeito à miúda quando lhe abrir os olhos sem parecer que acabei de fumar umas ganzas nem que sou um carneiro mal morto- checked

Saber o tipo de bolachas e de leite que o Pai Natal come para lhe deixar na varanda na véspera de Natal- checked 

Treinar a cadência da expressão “che-gan-do a ca-sa con-ver-sa-mos”- checked

Saber sempre o nome da melhor amiga actualizado para poder usar com legitimidade a frase “não penses que falas comigo como falas com a tua amiga Joana”- checked 

Saber que ela está com febre sem usar termómetro e apenas encostando os meus lábios à sua testa- checked

Ter lenços de papel na carteira que aguentem saliva para poder limpar caras badalhocas da mesma forma que odiava que a minha mãe me limpasse a mim- checked 

Saber o tempo médio de um castigo para não ser rígida demais nem branda em demasia- checked 

Bater palmas com convicção na plateia de cada teatrinho da escola mesmo que ela tenha tanto jeito para as artes cénicas como eu- checked 

Saber exactamente o timing da contagem progressiva do "uuuuum, doooooooois...." e nunca chegar ao "trêêêês!" dando-lhe tempo para ela sair de onde está sem eu ter que me descabelar com ela- checked

Dizer com ar convicto “não te deixo comer gelados de água que isso é uma porcaria, escolhe antes um de leite”- checked 

Não me esquecer de reparar em como vai agasalhada e acrescentar, invariavelmente, um “não te esqueças do casaco, que vai fazer frio!”- checked 

 Nunca a deixar entrar no portão da escola sem lhe dizer que a amo, mesmo que às vezes, sem querer ou de propósito, a possa vir a embaraçar- checked

Conseguir abrir a puta da tampa do Ben u ron- checked



So far, so good...

It's Wednesday and I'm not in love

Bom dia a todas as pessoas menos aos patrões que decretaram o fim do tele-trabalho e que contribuem para o regresso das filas de trânsito.

Que a Nossa Senhora do IC19 ou a Santinha Padroeira da VCI vos acompanhe, sim? 

Am I alone?

 

Era eu a única criança no Mundo que pedia uma "pirâmide" na pastelaria e a minha mãe dizia que não porque era um bolo que era feito com os restos dos outros bolos e eu achava que era com os restos que as velhotas deixavam nos pratos e não com os restos da massa dos bolos?


Update 1- Acabei de perguntar a mámen e ele diz que sim: que eu era a única!


Update 2- Em boa verdade mámen diz que na ilha dele só havia Paninnis e não é uma fonte fidediga....
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