quinta-feira, 8 de março de 2018

Ainda sobre equidade e vindo da Suécia

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"Swedish dads".
Créditos fotográficos: Johan Bävman.

Do Luxemburgo a minha melhor amiga diz de sua justiça


Ainda sobre o dia das mulheres: a reflexão vinda de Espanha

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Levantava-me e não havia Ana. Não havendo Ana, não daria pela falta da educadora e da auxiliar, peões essenciais no meu dia-a-dia.
A padaria fecharia por não ter nem um empregado homem. No café a Fátima não me serviria a bica em chávena escaldada. Ninguém me venderia o jornal da manhã porque a Luzia já não estaria na papelaria. Na farmácia a Isabel não saberia exactamente o meu avio mensal.
Na gasolineira do Jumbo não poderia passar as cancelas para fazer o pagamento, nem ninguém me receberia o valor das portagens na A5.
Haveria menos trânsito. E à minha volta um cenário muito mais homogéneo de homens a tirarem cocotas do nariz enquanto conduzem.
Trabalharia sozinha com o Filipe. Não haveria enfermeira, nem assistente social, nem terapeuta ocupacional nem a Susana, a pessoa que nos organiza o trabalho. Mais de metade das pessoas para quem trabalho desapareceria e isso seria a maior seca da minha vida.
Não haveria telefonemas da minha mãe, nem a minha mãe- caraças!- e como o meu pai zarpou, seria orfã. Não haveria a minha tia nem a minha prima que são só as pessoas mais importantes da minha família alargada.
No café do bairro a Dona Alda não me faria as melhores sandes de presunto cortado a canivete a 1,80€ nem ninguém para me fazer brushings à pressa no mítico salão "A princesa do Condado".
Não existiria a minha amiga Catarina (nem a Lara) nem a Xana (logo, nem a Catarininha e a Mariana), nem a Rosa nem a Cláudia, redes de suporte emocional do meu coração. A minha amiga-advogada MEP não me safaria de mil cambalachos e a ausência da minha amiga-TOC Vanda já me faria ter sido presa pelas Finanças há que séculos.
A minha amiga Ana Margarida não existiria nem a Laura e embora goste muito do Paulo, a minha vida seria muito mais secante. As histórias da Ana Luisa não existiriam para me entusiasmarem, a Ana de São João não me aguentaria em tardes de sangria à desgarrada e o que faria eu sem a Paula, a Marta Guerra e a Nonô?
Não seria a mesma pessoa sem conhecer a Eileen, minha alma gémea, soul sister que me abre, todos os dias, novas perspectivas para o Mundo.
Não teria lido todos os livros da Alice Vieira na infância, nem os da Isabel Allende na adolescência, nunca me teria emocionado perante quadros da Paula Rego e não teria como hino de vida o "Gracias a la Vida" da Violeta Parra.
Não ouviria Jacinta no youtube, não poderia ser fã da Merryl Streep e da Rita Blanco e o "This is Us" sem a Rebecca e a Kate não teria a menor graça. Não leria blogs, absolutamente, nenhuns.
Sem as minhas mulheres o meu, definitivamente, que sim. Sendo eu uma delas, nem haveria mundo para mim.
Gracias, El Pais.
[Ok, não haveria a minha sogra mas não havendo a minha sogra a minha vida seria muito mais sensaborona. E, não digam a ninguém, mas eu até gosto dela...]

Da Noruega: quando as crianças vêem mais longe que os adultos

"Quero ser claro: isto não é um favor às mulheres. A igualdade de género é uma questão de direitos humanos"*


Num dia em que se assinala o Dia da Mulher, ligo de manhã o rádio do carro a caminho de uma reunião e oiço que a Rádio Comercial convidou homens cantores para interpretar canções habitualmente interpretadas por mulheres. 

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher tentaram oferecer-me flores à saída do comboio, no Colombo, no stand de automóveis a que fui à hora de almoço (e onde o vendedor sugeriu que comprasse um carro mais "feminino" porque, enfim, pelos vistos os carros também têm género e tumbas, não te vou comprarcarro só por causa das tosses) e ainda são só duas da tarde.

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher um amigo manda-me uma mensagem de "parabéns" (wtf? parabéns por ter dois cromossomas x?), a Companhia dos Perfumes manda-me uma sms a oferecer-me desconto na compra de uma água de colónia e no meu facebook vejo movimentações de mulheres a combinarem jantares temáticos em que "menino não entra":

Sou só eu que acho que seria muito melhor para a sensibilização das questões do empoderamento feminino que a Rádio Comercial pedisse a mulheres que mostrassem que sabem interpretar igualmente músicas tradicionalmente cantadas por intérpretes masculinos?

Sou só eu que estou uma beca farta que desvirtuem o dia homenageando as mulheres, apelidando-as de "especiais", "maravilhosas", dignas de receberem flores e descontos e saldos (ah, as mulheres e os saldos: viva o cliché!), pedindo a homens que empatizem, a marcas que sejam simpáticas, a um tratamento diferencial com discriminação positiva uma vez por ano?

Eu não quero ouvir homens cantarem músicas de mulheres (na verdade, nem quero ouvir mulheres cantarem músicas de homens) porque a música não deve ter género, a música é universal, é para todas as vozes, não tem pipi nem pilinha e, Rádio Comercial, a sério, homenagens faz a FunAlcoitão, façam-nos é rir com New Yorks New Yorks da Bobadela, tá?

Eu não quero mensagens de parabéns no dia de hoje, quero discursos e relações de respeito e igualdade todos os dias.

Eu não quero descontos na Sephora, nem de depilação para ficar sexy para "o meu homem", nem "jantares só de meninas" no dia de hoje.

Quero que todos os dias o meu salário seja igual ao de um homem que desempenhe a mesma função, a mesma categoria e que possa ter um poder de compra igual ao dele sempre, todos os dias do meu ano para comprar sem descontos que têm como critério a posse de um pipi. Quero que a sociedade não me pressione a depilar-me para quem quer que seja, nem para mim mesma quanto mais "para o meu homem". Quero que não seja expectável que eu adapte o meu corpo, a minha roupa, os meus modos, a minha postura e o meu dia-a-dia aos padrões que se atribuem como tradicionalmente femininos. Quero jantar com as minhas amigas só mulheres quando me der na real gana, ou jantar como os amigos só homens sem ser olhada de ladex, ou jantar com casais ou com quem me apetecer sem que isso seja assunto.

Quero que não me perguntem porque não gosto de me maquilhar, que não me olhem de lado quando não uso saltos altos quando vou a festas, que não achem que podem dar palpites sobre o meu peso, que não achem que o meu corpo é assunto.

Quero que "feminista" não seja uma ofensa, que "feminista" não seja a nova "bruxa" para se caçar.

Quero que não digam à minha filha que "esgrima" não é um desporto para meninas (ela adora: ide-vos foder!), que não me critiquem por ser uma mãe demasiado flexível que não obriga a miúda a dar beijinhos aos crescidos porque educar é obrigar a que ela corresponda ao que a sociedade espera dela, do corpo dela e do espaço pessoal dela, quero que não lhe estejam sempre a dizer como ela é bonita em vez de lhe elogiarem a personalidade firme, a valentia e a capacidade de concentração, que não digam ao pai dela que "daqui a uns anos tens que andar de caçadeira" como se ela fosse objecto deste sistema patriarcal e que não se riam quando ela diz,convicta, que quando for grande quer ser cientista ou empregada de limpezas.

Quero que os brinquedos, os livros, as roupas, as brincadeiras, os desportos, as profissões, não sejam categorizados como "de menino e de menina".

Quero que, daqui a uns anos, ninguém se atreva a oferecer-lhe geribérias ranhosas por ela ter nascido menina. Quero que não lhe prestem- na verdade, nem a a ela nem a mim- dizia eu, quero que não nos prestem homenagens: queremos igualdade de oportunidades, igualdade de tratamento, igualdade.
Eu não quero que me comprem flores hoje. Quero que me deem respeito.

Todos os dias da minha vida.

[* Título da crónica de António Guterres: aqui].

Adivinha: "Qual a relação entre os impostos que pagamos e o Dia da Mulher?"

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Resposta: Não deveriam servir para financiar eventos destes.
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