terça-feira, 31 de março de 2020

Digam olá à Pólo Norte

O meu nome é Pólo Norte e sou a única não covidóloga do mural do meu facebook.

The hills are alive with sounds of quarantine

Preciso de quarentena da quarentena

Sou só eu que tenho que interagir com mais gente por dia durante a quarentena do que antes dela?


Quarentenacoisas bonitas para cacete # 7

« Como posso convencer a minha mulher de que, enquanto olho pela janela, estou a trabalhar? — perguntava-se Joseph Conrad no início do século passado. Eu, em vez disso, pergunto-me: como posso explicar à minha filha que, quando olho pela janela, vejo o fim de uma era? A era em que ela nasceu, mas que não conhecerá, a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da Humanidade. Vivo em Milão, até ontem a mais evoluída, rica e brilhante cidade de Itália, uma das mais desejadas do mundo. A cidade da moda, do design, da Expo. A cidade do aperitivo, que deu ao mundo o Negroni Sbagliato e a happy hour e que hoje é a capital mundial do Covid-19, a capital da região que,sozinha, soma trinta mil contágios confirmados e três mil mortos. Uma taxa de mortalidade de 10 por cento, os caixões empilhados à frente dos pavilhões dos hospitais, uma pestilência vaporosa que paira sobre as torres da sua catedral como sobre as cidades amaldiçoadas das antigas tragédias gregas. As sirenes das ambulâncias tornaram-se na banda sonora dos nossos dias; as nossas noites são atormentadas por homens adultos que choramingam no sono: “O que é, sentes-te bem?”; “Nada, não é nada, volta a dormir”. Milhares de amigos, parentes e conhecidos seus tossem até cuspir sangue, sozinhos, fora de todas as estatísticas e sem qualquer assistência, nas camas dos seus estúdios decorados por arquitetos de renome.

 Se, neste momento, olhar pela janela, vejo uma pobre loja de conveniência gerida com admirável diligência por imigrantes cingaleses. Até ontem, era uma singular anomalia neste bairro semi-central e, ao seu modo elegante, uma nota dissonante. Hoje é um lugar de peregrinação. Na fila para o pão em frente às suas vitrinas despidas, vejo homens e mulheres que até ontem o desdenhavam por não ter a sua marca preferida de farelo. Ficam, apoiados pela disciplina do desânimo, a um metro de distância uns dos outros, ao mesmo tempo ameaçadores e ameaçados, com máscaras improvisadas, feitas de pedaços de tecido com os quais, até ontem, protegiam as plantas exóticas do seu roof garden, gazes desfiadas penduradas nos seus rostos com a melancolia mole dos restos de uma era acabada. Vejo estes homens e estas mulheres tristes, incongruentes consigo mesmos. Olho-os. Não tenho nenhuma intenção de os diminuir ou de troçar deles. São homens e mulheres adultos, contudo por cima das máscaras mostram o olhar assustado das crianças carenciadas. Chegaram totalmente impreparados ao seu encontro com a história e, no entanto, precisamente por este motivo, são homens e mulheres corajosos. Fizeram parte do pedaço mais abastado, protegido, longevo, bem vestido, nutrido e cuidado da Humanidade a pisar a face da Terra e, agora, na casa dos cinquenta, estão na fila do pão.

 A sua aprendizagem na vida foi uma longa aprendizagem da irrealidade televisiva. Tinham vinte anos quando assistiram, a partir das suas salas de estar, à primeira guerra da história humana em direto na televisão, trinta quando foram alvejados através dos televisores pelo terror mediático, quarenta quando a odisseia dos condenados da terra aterrou nas praias das suas férias. Todos encontros fatídicos que não poderiam perder. As grandes cenas da sua existência foram consumidas em eventos mediáticos, foram guerreiros de sala, banhistas nas praias dos migrantes, veteranos traumatizados pelas noites passadas em frente à televisão. E agora estão na fila do pão.A sua infância foi uma manga japonesa, a sua juventude uma festa de piscina — lembram-se? Era sábado à noite e íamos a uma festa; era sempre sábado à noite e íamos sempre a uma festa —, a sua idade adulta é um tributo a uma trindade insossa e feroz: o frenesim do trabalho, os verões no outlet, o sublime do spa. Viveram bem, melhor do que qualquer outra pessoa, mas quanto mais viviam mais inexperientes eram na vida: nunca conheceram o terror da guerra, nunca foram tocados pelo sentimento trágico da existência, nunca uma questão sobre o seu lugar no universo. E agora, aos cinquenta anos, com os cabelos já brancos, o abdómen prolapso e a ânsia que lhes incomoda os pulmões, estão na fila do pão. Turistas compulsivos, correram o mundo sem nunca sair de casa e agora a sua casa marca para eles os limites do mundo; sofreram quase só dramas interiores e agora o drama da história catapulta-os para a linha de fogo de uma pandemia global; têm uma casa na praia e um telemóvel de última geração, mas agora estão na fila do pão; tiveram mais cães do que filhos e agora arriscam as suas vidas para levar o seu caniche a mijar. 

 Olho-os da janela do meu estúdio enquanto escrevo. Observo-os enquanto o número de mortes sobe para quatro mil, enquanto a abcissa do contágio cresce exponencialmente, enquanto sustenho a respiração para não inalar o ar do tempo. Olho-os e compadeço-me deles porque foram a geração mais sortuda da história humana, mas, depois, tocou-lhes viver o fim do seu mundo justamente quando começaram a ficar demasiado velhos para esperar um mundo vindouro. Porém, terão de o fazer, fá-lo-ão, estou seguro. Vão ter de imaginar o mundo que têm sido obrigados a experienciar nestes dias: um mundo que se questiona sobre como educar os próprios filhos, sobre como preservar um ar respirável, sobre como cuidar de si e dos outros. Uma era acabou, outra começará. Amanhã. Hoje estamos na fila para o pão. Hoje os jornais titulam: resiste, Milão! E Milão resiste. Lanço um último olhar pela janela sobre os meus contemporâneos dos cinquenta anos, os meus concidadãos milaneses, os meus rapazes repentinamente envelhecidos: como são grandes e patéticos com os seus ténis de corrida e as suas máscaras cirúrgicas. Tenho piedade, compreendo-os, compadeço-me deles. Dentro de alguns segundos estarei na fila junto deles." 

 Antonio Scurati 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Covifado

Depois do incrível samba da quarentena do Brasil e da fabulosa ópera da quarentena de Itália, temo o faduncho colectivo de homenagem à luta pela Covid-19.

A mim também me faz espécie, Pedro.




Quarentenacoisas bonitas para cacete # 6

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar, xiripiti.

De nada.

domingo, 29 de março de 2020

Vou "rezistar" a ideia: REVENGE OF THE QUARANTINE

Brainstorming:

Uma rave em que substituímos:

...  os brincos de plástico da matutano por outfits que não incluam máscaras e luvas;

... música grunge por períodos de 10 segundos sem estarmos ligados a ventiladores portáteis;

... cerveja a rodos por 10 segundos de brindes de copos vazios só com o pretexto de nos tocarmos sem pânico de apanharmos peçonha;

... gíria tipo bué pela proibição das palavras "quaretena", "covid-19", "isolamento social" e "coronavírus";

... ganza por segundos de aconche social, abraços e beijos de língua.

Serviço de informação quadripolar




Ontem tive uma insônia.

A modos que há twitter (@quadripolaridades), há instagram (@quadripolaridades ), há tik tok, há house party e só não há tinder porque sou uma batata casada.

Querem-se motivar para se manterem fortes e firmes durante o período de quarentena? Perguntem-me como.


1- Rapa as sobrancelhas

2- Engravida (durante os próximos três meses estarás com tantos enjoos que só te apetece ficar abraçada à sanita)

3- Corta tu mesma a tua própria franja. Não te esqueças de não retocares as raízes e esse louro passará ao pantone "louro barracas" em três tempos. Não ignores o facto do teu cabeleireiro estar fechado. 

4- Engravida (há uma fase em que se fica com muuuuuito sono e muuuuito sono pede cama e casa. Já disse que é mesmo muuuuuito sono?)

5- Faz uma tatuagem com fósforos queimados como se fazia no Ultramar. Na testa. Ou no pescoço.

6- Engravida (os corpos não ficam propriamente no auge da sexura e assim como assim em casa as leggins rulam)

7- Parte um dente. Dos da frente, de preferência. E lembra-te que os médicos dentistas podem ser requisitados e é possível que só tenhas consulta para colocar implantes depois de Maio. 

8- Engravida (as tuas hormonas vão preferir estar em casa que na montanha-russa do Mundo)

9- Faz o buço em casa. Com as bandas de cera fora do prazo que tens guardadas há séculos no móvel do wc. Não te esqueças de te queimar e ficar com um bruto escaldão na bigodaça. 

10- Engravida (e entretém-te dois meses a fazer compras online de coisas para bebé. Recomendo-te o site da loja "Babyblue")

11- Vai para a varanda apanhar sol no trombil e acorda o herpes labial que há em ti. 

12- Se fores gajo: engravida a tua mulher. Entre enjoos, sono, hormonas e cenas maradas várias vais ter muito com que te entreter em casa. 

De nada. 


O melhor e o pior da quarentena

O melhor: já não precisamos de inventar desculpas esfarrapafas para nos esquivarmos de convites para eventos sociais aborrecidos.

 O pior: já não temos convites para eventos sociais aborrecidos. Nem eventos sociais aborrecidos. Nem eventos sociais. Nem...

 Oh, well.

Quarentenacoisas bonitas para cacete # 5

Querida revista Maria,

Aos 18 dias de quarentena ainda não fiz pão.

Será que estou grávida?

Ideia para casais que também sejam pais à beira da quarenteno-depressão

Os meus sogros viveram num T0 grande parte da infância de mamen e do meu cunhado.

 Uma vez na palhaçada, perguntei-lhes perante a evidência de que havia o meu cunhado e tal, como é que eles se orientavam.

 Resposta imediata da minha sogra: “Atarax. Nos dois. Tinham muitas alergias...”








Não fui eu que disse, ok?

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: erva.

 De nada

sábado, 28 de março de 2020

sexta-feira, 27 de março de 2020

Quarentenacoisas bonitas para cacete # 4

Aparentemente sabiam muito a pão

Hoje ao pequeno almoço, pergunta-lhe o pai o que quer comer.

"Olha, podes abrir uma almôndega das da mãe ao meio, por na torradeira, barrar com manteiga, que eu como..."


...


Escuso de fazer Orientação Vocacional à miúda, que já percebi que vai ser humorista

Karma is a Queen



Adivinhem quem está com corona?!

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: pipocas de microondas.

 De nada

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar : Papa Figos.

De nada

quinta-feira, 26 de março de 2020

O meu nome é Pólo Norte e sou vítima de cozinho-bullying

Mámen e Ana voluntariam-se, muito diligentes e solícitos, para fazer o jantar (idiotas!).

Ouço-os aos risinhos na cozinha.

Abeiro-me e a Ana pergunta-me, muito séria: "Sabes qual foi o último filme de terror que eu e o pai vimos, mamã?"

Aceno que não.

Responde-me com ar de gozo: "Chovem almôndegas!"



Estão há vinte minutos a rirem-se da minha cara.

Petit noms fofinhos que mámen me chama

O meu excelso esposo brinda-me, regularmente, com uma lista imensa de petit noms fofinhos.


Vale tudo: Li, Lilica, Licas, Lica, Lilicosa, Grunguinha, Grungui, Grungosa e, quando eu estou furibunda, sai-lhe sempre uma interjeição que eu oiço como Jumarruá, e cuja origem nunca percebi nem nunca lhe perguntei porque, enfim, quando ele me chama isso eu estou sempre puta da vida.

Hoje à hora de almoço, depois da cena das almôndegas e de eu ter usado a cartada do "vocês são uns ingratos, eu dou o meu melhor, beca beca", ele virou-se para a Ana e disse "não cutuques a Jumarruá" e eu voltei atrás e esclareci, de uma vez por todas, onde raio tinha ele desencantado aquele petit nom fofinho.




É Juma Marruá.

Preferia ter-me mantido na ignorância. [Cabrão!]



Hoje é a minha vez de dar o corpo ao manifesto em matéria de home school


A matéria de matemática são fracções...

Ana, a ingrata quase vegetariana

Tenho sobras de frango e quero aproveitá-las de alguma maneira. Tenho a ideia peregrina de fazer almôndegas de frango. Não ficam, propriamente, geniais (que toda a gente sabe que não fui bafejada com o talento da mão para a cozinha). 

Ponho o almoço na mesa. 

Mámen dá uma garfada, arregala os olhos e continua a comer em silêncio, para não me cutucar. 

Ana mete a primeira almôndega de frango à boca, mastiga durante muito tempo, enrola a comida na boca e, finalmente, engole, fazendo uma expressão de puro enjoo. 

Arregalo-lhe eu os olhos. 

Defende-se de imediato: "Tens noção que morreu uma galinha para isto, mãe?"


...


...


....

Don't accept: it's a trap!



Como se já não nos bastasse o corona.


Quarentenacoisas bonitas para cacete # 3



Da maravilhosa ideia "Poetry in the wild" no instagram.

Se alguém alinhar em fazermos uma página igual com declamação de poesia em tempos de quarentena: I'm in.

Receita única para ter um início de dia feliz em tempo de quarentena..

...  deixar os putos vestirem o que quiserem.


Hoje aqui no palácio quadripolar a Ana veste uma saia prateada e uma camisola com purpurinas imensas.

Tenho a casa com purpurinas em todos os sítios onde ela toca.

 Temo a chegada da brigada da lixívia encabeçada por mámen.


 Lixívia e purpurinas e uma visão de criança em tons prateados bola de espelho de discoteca.


(suspiro*)



 Não sei se não preferiria o corona.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Ana, a sopeira católica

Mámen e Ana a fazerem o jantar.


Sopa na bimby a terminar. Apita a bimby e mámen destapa a tampa e verifica, com uma concha, a consistência da sopa, verificando a necessidade de juntar mais água para diluir a dita. Vira-se para a Ana e estende-lhe um copo, instruindo-a:

"Vai ali buscar água para baptizar um bocadinho a sopa"

Ana, olha confusa para o copo, destapa outra vez a bimby, olha muito séria para a sopa e arrisca:

"Eu te baptizo em nome do pai, do filho e do espírito santo. "






Estamos há uma hora a chorar a rir.

Hino de todas nós

Home-schooling # dia 853245

"Ana: não te estou a ouvir a trabalhar"

 "E não estás a ouvir muito bem, pai!"



 ...

Todas cabras

Já recebi de outra a dizer "Suplente de primeiiiras".


...

As minhas amigas prestam menos que as vossas

Depois de ler o meu último post aqui uma das minhas melhores amigas envia-me uma mensagem de whatsapp. 

"Se isso do mámen passar a ficar disponível em breve for para a frente, digo já: Primeiiiiiras".













 Putas.

Não há duas sem três

Más notícias: não sei se quando acabar isto não me divorcio*

Boas notícias: Tenho experiência em casamentos e até apreciava repetir com a Ana a assistir ...


 [* foi ele quem me bloqueou o PIN desta porra e agora não sei do PUK]

Ora venham daí os vossos sinais de fumo, 'nha gente!

Como tornar ainda mais radical a experiência de isolamento social?

 Bloqueando o telemóvel e não saber onde se meteu o cartão do PUK.

Quarentenacoisas bonitas para cacete #2

Uma atividade quarentenadripolar por dia # Estantificados Unidos de Portugal

Para dar resposta aos vários pedidos de uma ou duas fãs continuamos com a proposta de uma série de atividades socialmente úteis para alimentar a quadripolaridade em tempos de quarentena.

 Preparados? ACTIVIDADE 2- ESTANTIFICADOS UNIDOS DE PORTUGAL

 Objetivo: Exibir, com cagança, a sua pretensa cultura geral através de uma fotografia de uma estante cheia de livros

Material necessário: uma estante com livros e com aquelas caixas que imitam livros por fora e são tipo guarda-jóias por dentro, telemóvel com câmara fotográfica e computador com facebook ou instagram

 Plano de sessão:

 1- Dirija-se à estante mais próxima

 2- Se não tiver estante, empilhe livros de forma blasé

3- Fotografe-se em frente à estante (lembre-se que serão tão mais culto e respeitoso quantos mais livros mostrar)

4- Publique nas suas redes sociais com os #atividadequerentenadripolar #estantificadosunidos

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Exemplo ilustrado pela minha amiga Raquel:


 

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: sandes de bolacha maria com manteiga.

De nada

terça-feira, 24 de março de 2020

Mercúrio retrógrado de quarentena

Ao fim da primeira semana os signos de aquário (dele) e leão (dela) não devem estar minimamente compatíveis e o mercúrio retrogrou-os.


Preferia estar de quarentena com a Pomba Gira.

For real.

E agora a verdadeira questão

Há quantos dias não usam soutien, meninas?

Quem não tem cão, caça com unicórnio

Mamen não sabe onde meteu a embalagem e começa à procura de uma máscara para sair à rua. 

 Sugestão da Ana, muito séria e solicita : “se não encontrares podes usar a minha máscara de unicórnio..."


Relembro:




sexta-feira, 20 de março de 2020

Quarentenacoisas bonitas para cacete #1

"Texto bonito, do presidente da AORP - Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal:

"Na joalharia, trabalhamos todos os dias com materiais de grande resistência. Que são imunes ao tempo, à erosão, às tendências. E aprendemos a ser, tal como o metal, resilientes e dificilmente vergáveis. Vão-se os anéis, ficam as mãos."

Via Susana Esteves Pinto na sua página de facebook.

E o que mais apoquenta mámen na fase de isolamento social?

Que um de nós fique doente? Com os pais que vivem longe? Que nos faltem alimentos?  Que decretem recolher obrigatório?

Não.

Que caia mais um dente à Ana e nós não possamos sair para comprar o presente da fada dos dentes.



...


Uma actividade quarentenadripolar por dia # Isto é teu?

Para dar resposta aos vários pedidos de uma ou duas fãs começo hoje com a proposta de uma série de atividades socialmente úteis para alimentar a quadripolaridade em tempos de quarentena.

Preparados?

ACTIVIDADE 1- ISTO É TEU?

Objetivo: Libertar-se dos monos alheios

Material necessário: mãozinhas, telemóvel com câmara fotográfica e computador com facebook ou instagram

Plano de sessão:

1- Dirija-se à sua cozinha.

2- Reviste todos os armários e procure objetos esquecidos por visitas ou outras PENI (Pessoas Esquecidas Não Identificadas).

3- Fotografe os objetos encontrados com o seu telemóvel.

4- Publique nas suas redes sociais com os #atividadequerentenadripolar #istoéteu #freemonos

5- Procure pelos mesmos hashtags monos seus esquecidos pelas casas dos seus amigos.

6- Se for audaz, repita noutras divisões da casa

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Exemplo ilustrado pela minha amiga Paula:



(isto era meu, btw)








O verdadeiro BILF da blogosfera voltou a blogar



O mundo divide-se entre... (edição quarentena)

... os casados que dentro de nove meses serão pais e os que serão divorciados.

"Sigurem-me!" que vou-me a ela

Coisas que tenho medo de começar a fazer por conta do tédio que acarreta a quarentena:

Ir arrumar a garagem e descobrir que quero que o minimalismo se foda
Decidir ser eu a fazer uma franja à miúda
Experimentar a máquina de costura e fazer roupa a.k.a. estragar tecido
Começar a organizar os álbuns de fotografias da miúda e perceber que não tenho nem uma fotografia imprimida
Começar a ver a "Cristina" e gostar (aqui corro sério perigo pois já vivi isto durante a gravidez de alto risco e quase que já gostava dela e do Goucha)
Decidir fazer unhas de gel em casa (a minha mãe tem o equipamento por estrear)
Começar a ver tutoriais para aprender a pintar a.k.a. estragar tinta
Apurar a minha receita de bolo de bolacha e acabar isto com obesidade mórbida
Começar a arrumar os meus 383653443 livros por ordem alfabética e ficar com O.C.D.
Cortar o cabelo de mámen
Começar a ver tutoriais para aprender a bordar a.k.a. estragar linhas
Dar o corpo às balas e ler os livros do Pedro Chagas Freitas e do Raúl nheca d'alma que são os únicos livros que tenho guardados na garagem e nunca li
Começar a ver tutoriais para aprender a cantar e ser fuzilada pelos vizinhos
Começar a pintar o cabelo em casa e com o jeito que tenho inventar acabar com ele pintado no pantone "loiro barracas"
Adoptar um animal de companhia nesta altura
Começar a ver tutoriais para fazer sushi em casa e dar cabo do arroz que me sobra
Começar a ver tutoriais para aprender a fazer yoga e acabar isto sem coronavirus mas toda quinada
Gastar o dinheiro que não tenho com compras online
Decidir que quero dar um irmão à Ana porque já não me sobra nada para inventar
Abrir o meu próprio vlog ou canal de youtube para expor as minhas misérias
Continuar a fazer bolos desenfreadamente
Perder a minha sanidade mental e começar a construir teorias da conspiração sobre o coronavírus
Ver qualquer género de tutoriais
Cortar o meu próprio cabelo
Perder o sentido de humor

quarta-feira, 18 de março de 2020

Coping em tempos de cólera


Há pessoas que quando estão assustadas, com medo, ansiosas ou frágeis congelam. Ficam ali a cismar, sem conseguir agir, enterradas nas preocupações, com insónias e falta de apetite. A maioria das pessoas que conheço ficam assim e acho que, por serem a maioria, se considera que esta é a forma socialmente desejável de se sentir (mostrar?) sofrimento. 

Já eu quando estou triste, angustiada, preocupada, perdida ou ansiosa tenho duas respostas: primeiro começo a ser hiperactiva e exploro todas as opções que consigo controlar de forma desenfreada até as esgotar; segundo não dispenso nenhuma gota extra de energia sobre coisas que não controlo. E durmo, muito, como se o meu cérebro se quisesse poupar, numa espécie de reboot e armazenar energia para quando ela for mesmo útil. As pessoas não são muito empáticas por quem não se mostra down, na merda e - muito menos- por quem dorme durante o caos. 

Eu durmo. 

Pensei que seria essa a minha resposta a este stress que o vírus trouxe à vida de todos mas, Maslow existe, e fiquei doente ( e não foi somático: fiquei mesmo doente). E por isso (e por ser grupo de risco) estou em isolamento e numa serenidade que complica a maioria das pessoas que conheço. As estratégias de coping são as respostas de cada pessoa para lidar com situações extremas de stress externas ou internas. 

Não há estratégias padrão ou universais para lidar com o stress. Tal como há diferentes formas para se fazer bolos. 

Não julguemos quem se orienta para a regulação da emoção como não julguemos quem adopta estratégias de resolução do problema. É, mais que nunca, a altura de aproveitarmos o período de isolamento para nos conhecermos melhor uns aos outros, com o tempo que o dia a dia, o trânsito, os relógios e o que fazemos para jantar, não nos permite. 

Mas, sobretudo, aproveitemos este tempo para nos conhecermos melhor. A nós próprios. 

E seja qual for a forma que tenhamos disponível para nos auto-regularmos e pormos o bolo no forno. Há poucas coisas melhoras na vida que o cheirinho a bolo quente a sair do forno. E a certeza de que somos capazes de ultrapassar o stress e sairmos ilesos disto. E comermos o bolo sem culpa. Com o prazer de estar vivos. 

Estaremos.

Marcelo: don't!


terça-feira, 17 de março de 2020

Nobody sait it was easy but caralho, men!






Há uma semana fomos almoçar ovos rotos ao rubro e eu ofereci às minhas amigas os presentes de Natal  atrasados:  umas canecas tolas feitas por mim. Adiamos encontros, andamos sempre de agendas desencontradas e damos por garantidas novas oportunidades de estarmos juntas, de nos abraçarmos, de partilharmos comida na mesma mesa, de rirmos cara a cara. 

No dia seguinte voltámos a estar juntas num momento tristíssimo de uma de nós e mais uma vez suspendemos todos os planos e priorizámo-nos. 

Eu, que não acredito em premonições, olho para as mensagens toscas que escolhi para cada uma delas. e para o facto de uma fatalidade nos ter juntado um dia depois, como um prenúncio dos tempos que, hoje, vivemos. Vai passar.

 Nobody said it was easy (But caralho, men), vamos ter que gritar namastoda-se muitas vezes, mas enfim, sobreviveremos porque, no fim de contas, somos todos paleolitic survivers. Não vai ser fácil mas vamos superar. Vamos ter que viver dentro de casa, experimentar big brothers familiares duros e vamos ficar insuportáveis. Mas vivos, que é o que se quer. 

Enquanto escrevo este post olho para a caneca que ficou por entregar à querida MEP e sorrio. A caneca que reza assim “Jesus ama-te porque não convive contigo”. Que com este convívio não nos deixemos de amar. Pelo contrário: que sobrevivamos com mais amor, mais sentido de urgência no amor, menos adiamentos de planos, de afectos, de beijos, abraços, olhos nos olhos e gargalhadas ao vivo que nunca mais daremos por garantidas. 

A vida dá-nos sempre hipóteses de fazermos melhor. 
Faremos.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Ana, a confusa

"Ai mãe, a minha vida é uma confusão: como a catequese e o yoga são um dia a seguir ao outro nunca sei quando é que é para dizer ámen ou namaste"

...

quarta-feira, 11 de março de 2020

O Mundo divide-se...

... entre as pessoas que sabem o que significa quarentena e os estúpidos.

Bolachas maria, comunidade e papel higiénico

Há uns anos trabalhava em contexto hospitalar. Um dia, enquanto passava a comer uma bolacha , num corredor de um hospital, fixei os olhos num bebé com menos de 2 anos, acomodado na anca da mãe que esperava ser atendida, e que, também ele, não parava de fixar os olhos em mim. Meti-me, obviamente, com o miúdo com cutxi-cutxis, enquanto perguntava à mãe como se chamava e a idade dele. Era para ser uma micro-interação, daquelas que temos tantas vezes e de que nunca mais nos lembramos.

O bebé tentava, furiosamente, roubar-me a bolacha da mão e eu, privilegiada e a leste do inferno, ainda o chamei de glutão, gulosão e coisas do género, inquirindo a mãe se podia oferecer à criança bolachas, uma vez que trazia o resto do pacote na mala.

A primeira bolacha foi comida com muita, mas muita, sofreguidão. Uma gula que não era gula, uma fome a que nunca tinha assistido, de aflição, de compulsão, de medo de perder o recurso. Tinha menos de dois anos, aquela criança que não era muito sorridente, mas que não conseguia deixar de fixar os olhos em mim, mesmo perante as bolachas maria que comia de enfiada.

Perguntei à mãe se estava tudo bem. Encolheu os ombros e disse que sim. Convidei-os a ficarem com o resto do pacote de bolacha e segui corredor fora. Olhei para trás, o bebé de cabeça virada na minha direção, sem choro sem riso, a ver-me desaparecer ao longe. Os olhos de que nunca me esquecerei, negros, inexpressivos, doridos. Olhos doridos num bebé.

Voltei atrás sob qualquer pretexto que não me lembro bem e fixei eu os olhos na mãe: o bebé está com fome? Que sim. O bebé estava com fome. Só se alimentava com as papas que lhe davam, que misturava com água. Falei-lhe no Banco Alimentar e em como a poderia referenciar. Que não. Que não. Os bebé continuava, alheio à nossa conversa, a devorar as bolachas maria.

Pedi-lhe o nome, a morada. Só para si? Só para mim. Quero lá ir-lhe entregar um saco de comida. Deu-ma, a medo, mas deu-ma.

Falei com uma amiga evangélica e fomos buscar um saco de avio de bens alimentares à "despensa do amor" da sua igreja. Complementei com compras que fiz, especialmente para o bebé. Eram uns três sacos grandes de supermercado cheios de bens alimentares. No dia seguinte fomos lá, as duas, à morada que eu guardara na mala. Dei-lhe um toque no telemóvel e ela desceu. Não nos convidou para subir, trazia o bebé à anca. "Não precisa de ajuda para levar os sacos?" Não. Obrigada, obrigada.

Obrigada.

Três dias depois uma chamada: a mãe perguntava-me, constrangida, se tinha mais comida. Como assim? Comeram a comida toda? Que sim.
Torci o nariz. Não era possível. Seria aquela mulher de confiança? Estaria a alimentar devidamente a criança? Porque carga de água não tinha sabido gerir um avio que dava para um mês? Estaria aproveitar-se de mim?
Não me conseguia desligar dos olhos fixos do bebé em mim. És uma parva- diziam-me. Não vês que ela se está a aproveitar de ti? Os olhos do bebé. Os olhos do bebé a ecoarem em mim.

Juntei uma trupe de gente especial e comprámos, em vaquinha, um cabaz gigante de bens alimentares e bens essenciais. Maior. Este dava, seguramente, para um mês. Levei bens que se poderiam rentabilizar mais. Novamente o toque à porta do prédio (ela não me tinha dado o andar em que vivia). Ela a descer e a tentar equilibrar os sacos e a criança. Não pode subir, não pode subir. Desculpe, mas se não me deixar ajudá-la, não volto a poder trazer comida. Tem que confiar em mim. Eu quero ajudar-vos.

O que assisti, num quinto andar de subúrbio, é impossível de relatar. Uma dezena de mulheres, mães, a coabitarem num T2 com os seus filhos bebés ou muito pequenos, todos com uma doença ou deficiência. Cheirava a doença, a falta de água, não havia luz e no chão acumulavam-se esteiras em vez de colchões, onde algumas dormiam por turnos. Olharam-me, todas sérias e assustadas, quando me viram entrar. Tinham sido trazidas de um país estrangeiro com a promessa da cura dos filhos mas o preço a pagar era demasiado caro. Demasiado caro.

E foi aí que eu percebi. Mas, mas, os sacos que eu lhe envio são para si e para o bebé, entende? Se você distribui por toda a gente fica você com fome, fica o bebé com fome. A comida não dura nem chega para os dias todos, acaba num instante. Entende? Entende?

São todos filhos de todas. Somos todas mães de todos. No meu país, pobre, a comida é para todos. E quando não há comida também não há para ninguém.

Estas mulheres- que hoje têm vidas melhores e mais dignas- ensinaram-me, naquele dia, tudo o que é importante saber sobre humanidade, generosidade, partilha e, especialmente, sentido de comunidade.

As prateleiras dos supermercados, na Europa evoluída e progressista, esvaziam-se. As pessoas açambarcam o maior número de massas, arroz e latas de conserva porque os recursos podem ser, pela primeira vez, escassos. Lutam por papel higiénico face à hipótese de uma epidemia.

E eu penso nos olhos fixos daquele bebé, que revisito frequentemente, e que quem vive no terceiro mundo, se calhar, somos nós.


Ana, aos sete anos e bué dias



Chamo a Ana para tomar banho.

"Ó mãe, agora não dá! Estou no meu momento."

Volto a chamar, segunda vez.

"Deixa-me lá momentar mais um bocadinho, vá!"

Zango-me e começo a contar 1,2,2 e meio já para a banheira e ela segue à minha frente, injustiçada:

"Estás a ser momentosa!"

...

terça-feira, 10 de março de 2020

Da mulher mais inteligente da blogosfera: isto






Bem sei que vamos pagar este pânico bem caro. Mas esta conclusão já ninguém ma tira: afinal somos capazes de meter os travões a fundo.
Quando queremos, somos capazes de meter os travões a fundo. Basta que se altere a nossa percepção do risco.



Festival do Euromachão meets Show das Poderosas # Concorrente número 2: Wendeliana Poderosa


Coro com sexteto de cordas em 2020:





segunda-feira, 9 de março de 2020

Festival do Euromachão meets Show das Poderosas # Concorrente número 1: Natasha Minette

Não sei como a RTP não me compra o formato mas eu sou uma alma caridosa e esta é a minha missão.

Depois do meu texto sobre "NÂO ME DESEJEM FELIZ DIA DA MULHER" porque, enfim, é só preciso ter um cromossoma X funcional para se perceber isto (nem exigimos dois nem nada), houve alguns trovadores que decidiram brindar-me com comentários melodiosos e cantigas de trovador.

De seguida, apresento-vos os concorrentes do show das poderosas, na esperança que os jurados quadripolares atribuam a respectiva pontuação.

CANÇÃO NÚMERO 1
Intérprete: Natasha Minette
Letra e música: Quadripolaridades















Ana, a literal

 A professora da miúda reuniu a turma e fez uma brilhante e apaziguadora explicação sobre o Coronovirus, terminando com a recomendação mais inteligente de todas: o importante é lavar as mãos e bem e sem ser a despachar. 

Para ilustrar isto, deu como referência que eles devem lavar as mãos enquanto cantam duas vezes a canção dos "Parabéns a você". 

A modos que cheira-me que não há coronovirus que se cole à Ana pois, para além dela cantar desde a primeira estrofe do "Parabéns a você" até à última "uma salva de palmas", continua sempre com o "Obrigada, meus amigos, do fundo do coração, por me terem cantado esta linda canção", faz a onomatopeia dos aplausos, do sopro da vela olhando- se no espelho e no, fim, já a secar as mãos, reclama sempre com um "devíamos pôr uma vela aqui ao pé do lavatório para pedir um desejo quando acabo de lavar as mãos, não achas, mãe?"

São só 27538 minutos a lavar as mãos, coisa pouca. 

...

Ai vocês querem lá ver ...


A minha vida é um prato de ovos rotos.




Uma espécie de metáfora da minha vida: batatas fritas alinhadas, presunto do melhor, o ovo no ponto certo mas o que mais queres na vida é desmanchar a gema do ovo, remexeres em todos os ingredientes, desalinhares todo o prato e chafurdares-te. 

A minha vida é um prato de ovos rotos.

domingo, 8 de março de 2020

Não me desejem feliz Dia da Mulher



Não me desejem feliz dia da mulher quando exactamente há um ano apareceu a cabeça de uma de nós num saco a boiar num rio. Quando no ano passado um maluco matou a ex sogra e a filha para se vingar da mulher. Quando o número de feminicidio foi em 2019 e continua a ser, absolutamente vergonhoso. 

Não me desejem feliz dia das mulheres quando temos que levar com piropos no meio da rua, com toques “involuntários” nos transportes públicos e fica bem é calarmo-nos porque “mulher séria não tem ouvidos”. 

 Não me desejem feliz dia da mulher quando tem que sair uma lei que obrigue a que haja cotas nos locais de trabalho para haver equidade entre géneros (e ninguém vai respeitar a puta da lei). 

Não me desejem feliz dia da mulher quando uma mulher que exerce o seu direito à liberdade sexual é uma “puta” mas um homem em iguais circunstâncias é um “garanhão”. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando ainda há quem pergunte em entrevistas de emprego se temos planos de ser mãe a curto prazo, se continuam a fazer-nos sentir culpadas porque faltamos por assistência à família e se não nos renovam contratos ou nos despedem mesmo porque estamos grávidas. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando violações em grupo a meninas e mulheres indianas são o pão nosso de cada dia naquele país. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando a maioria dos comentadores de televisão são constituídos por planteis de homem e as mulheres continuam a servir de bibelôs, apontadoras profissionais de prémios de montras finais de concursos desta vida, de umbigo à mostra e roupas sexy a atirarem champanhe de garrafas em pódios de fórmula um ou das voltas a Portugal em bicicleta, com os vencedores com as manitas a cercarem-lhe as cinturas e bonés à campeão. 

 Não me desejem feliz dia da mulher quando as deputadas mulheres continuam a ser uma vergonha minoria. Não me desejem feliz dia da mulher se todos os dias, em dezenas de hospitais, são criados obstáculos a muitas de nós ao optarmos por IVGs. 

Não me desejem feliz dia da mulher se trabalhei nos últimos dez anos com mais de 80% de famílias monoparentais, em que cabe às mães a gestão integral da vida dos filhos com deficiência. Não me desejem feliz dia da mulher quando tenho que comer com mansplanning vindo de cretinos todos os dias. 

 Não me desejem feliz dia da mulher se tentam resumir este dia a bombons e calarem a nossa revolta com flores como se fôssemos tontas. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando acham que o meu marido é maravilhoso porque divide as tarefas da casa, onde ele também vive, e porque trata da filha com a mesma eficácia que eu que, contudo, não faço mais do que é normal porque “mãe é mãe”. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando rotulam a minha assertividade de histeria e quando comentam a minha falta de cu para aturar merdas com “deve estar naquela altura do mês”. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando a percentagem de mulheres em cargos de chefia é vergonhosa. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando é óbvio para todos que a contracepção é uma obrigação nossa e que fazer uma laqueação de trompas é ok mas uma vasectomia “coitadinho do rapaz. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando nos continuam a perguntar como conseguimos gerir família e trabalho e nunca fazem essa pergunta a um homem. 

Não me desejem feliz dia da mulher se continuam a “esterilizar” à força mulheres com deficiência intelectual, se não há empregos para mulheres com deficiência e se a violência sobre mulheres com deficiência institucionalizadas é uma realidade camuflada. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando o bodyshaming é real e está massificado e normalizado e temos que corresponder a padrões de beleza todos ideias. 

Não me desejem feliz dia da mulher se continuam a violar miúdas bêbedas e sem reação depois de noitadas, como se fossem apenas um saco de despejo de esperma. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando crucificam mulheres que decidem não amamentar porque é da natureza da mulher e quando ainda se diz em burburinho que uma mulher com parto natural é que sabe o que é ser mãe. 

Não me desejem feliz dia da mulher se o mercado sexual está todo virado para fazer de nós objectos e se a vulnerabilidade a que o sistema nos veta empurra tantas de nós para ele. 

Não me desejem feliz dia da mulher quando são as filhas que, quase sempre, acompanham os pais velhos às consultas, que assumem a sua guarda na velhice e que são as cuidadoras destes por excelências.

Não me desejem feliz dia da mulher quando há países que elegem presidentes que dizem que a mulher se quer “bela, recatada e do lar”. 

Não me desejem feliz dia da mulher se há tráfico de mulheres no Mundo e mutilação genital feminina (em Portugal também, não sejam inocentes)e tantos crimes hediondos dirigidos a nós todos os dias. 

Não me desejem feliz dia da mulher, não me ofereçam as putas das flores, a não ser que sejam cravos na lapela hoje e amanhã nas marchas e nas ruas. 

E -mais importante- façam um pirete a que vos desejar feliz dia da mulher. Este dia não é feliz: este dia é de luta. É um dia filho da puta porque continuamos a precisar dele. 

 Lutamos?
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