quinta-feira, 31 de março de 2022

Hospital de Santa Maria

  


Para se ser um bom profissional são precisas muitas coisas: formação, experiência, dedicação, interesse, motivação, disciplina, competência, brio, capacidade de entrega, inspiração. Acredito que para todas as profissões mas em particular para os médicos.

Não se trata de ser a profissão mais nobre, que isto não é uma competição de ego e estatuto mas, especialmente, de ser a profissão que segura as vidas de todos nós, com cuidado, nas mãos.

Conheci dezenas de médicos ao longo da minha vida: sou uma paciente com doutoramento. Talvez por isso, na óptica muito experiente do utilizador, consiga perceber o que faz de um bom médico um médico excepcional. Seja em que especialidade for.

Quando entrei pelas urgências do Santa Maria com a minha mãe tive o pior dia da minha vida. Para além das notícias e do prognóstico difícil , sair dum hospital distrital como acabávamos de sair (onde conhecemos os cantos à casa e profissionais lá dentro) para um central, gigante e labirinto, assusta e desorienta.

Foi esta médica que me acolheu. À minha mãe mas especialmente a mim, em pânico e desvairada, cheia de medo e de tristeza e me deu tempo para falar, para perguntar, me esclareceu todas as dúvidas, me apazigoou, me permitiu acompanhar a minha mãe, não fez nenhum juízo de valor, nunca deixou de encontrar um espaço para vir falar comigo e me orientar. E percebi que é isto e só isto que faz um médico excepcional: o serviço às pessoas, a sensibilidade, a atenção e, sobretudo, a humanidade.

Diz-se que quem nossos filhos beija, nossa boca adoça. Eu acrescento que quem nossas mães trata com respeito e humanidade, aos nossos corações dá colo.

Chama-se Mariana Caetano, é médica otorrinolaringologista do Hospital de Santa Maria e, por mais vidas que viva, nunca lhe conseguirei agradecer.

Talvez este texto nunca lhe chegue às mãos mas fica aqui para que todos decorem o seu nome: Mariana Caetano. Mariana Caetano: médica mas, sobretudo, pessoa.

Obrigada pelo amor. É sempre de amor ao outro que se trata.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Melodia de só desgostos em estrogénio maior*

 

"Estou assim, mãe, asssim- e junta o indicador com o polegar- de me tornar uma fashionista. Vais ter que lidar com o desgosto. Estas meias são mesmo wow, não picam nada. Estou mortinha por usar saltos altos e batom encarnado e vestidos de lantejoulas e glitering. Quando for adulta vou para todo o lado de lantejoulas, vais ver. E vou continuar a ter um Instagram de costas mas com todas as minhas roupas. A tua amiga diz que eu tenho as costas mais famosas da internet. Imagina quando nas minhas costas forem só lantejoulas, imaginas? Lantejoulas douradas sempre. Vou parecer um globo de ouro igual aqueles da SIC... "
Ana, 9 anos e picos


(* Foi karma lançado pela minha amiga Mónica Lice )

terça-feira, 29 de março de 2022

Só para nascidos nos anos 80

 


Tenho a rencarnação da viúva Porcina em casa...






FML

Ah, o sabor da pré-adolescência pela manhã

 

"Mãe, vamos ter que ter esta conversa: podes parar de me comprar collants de lã que eu gosto mesmo é daqueles de mousse macia na pele?"
...

domingo, 27 de março de 2022

Se calhar tenho que a inscrever numa arte marcial

 

A Ana quis ajudar-me a amaciar uns bifes de alcatra com o martelo da carne.

O almoço vai ser bolonhesa...

quinta-feira, 24 de março de 2022

São Jorge

 Há um povo corajoso que vive numa ilha em forma de dragão. É um povo tímido e reservado, sem excentricidades e recatado que vive em cima de rochas vulcânicas e da pedra faz jardins, lagoas, pastos, muros de hortenses e até uma praça central com um coreto encarnado. É um povo sossegado e low profile que pescou baleias, que enfrentou piratas, e que diz-se que quando os Felipes invadiram Portugal morou no único pedacinho de terra onde, à socapa, continuou a circular a moeda portuguesa. Isso fez com que, no arquipélago, fossem conhecidos como os "patacos falsos".

Há um povo que não reclama com a chuva ininterrupta, com a humidade sempre alta, com o calhau em vez de areia nem com as estradas estreitas a descer as fajãs. Adapta-se e segue
Há um povo generoso que oferece comida a quem passa, que toca viola da terra, que adivinha a metereologia dependente de se o pico do Pico está a usar um chapéu branco, que brinda com angelica e para quem o Natal só é natal quando o "menino mija"
Há um povo crente no Espírito Santo, a quem dedica promessas, comida em mesas postas na rua ou procissões com bandas filarmónicas a tocar e crianças pequenas com coroas na cabeça.

É também da fibra deste povo da terra e do mar que descende a minha filha.
Deste povo e de um faroleiro, um carpinteiro, um comerciante, uma feminista e muitos pescadores que descende a Ana, metade açoriana, metade Jorgense.
Há um povo corajoso que não tem medo de sismos com origem tectônica ou vulcânica porque tem no seu sangue lava, céu, mar e poesia

Bravos Jorgenses: vai passar! Nada vos consegue derrubar!

segunda-feira, 21 de março de 2022

sábado, 19 de março de 2022

Como vive uma criança sem pai?

 

Como vive uma criança sem pai? Pergunto-me muitas vezes, olhando para os outros que conheço sem pai, mas olhando especialmente para dentro.
Eu tinha um pai. Era divertido, presente, falador e extrovertido, brincalhão mas, acima de tudo, era o meu. Um dia ele foi embora e eu fiquei com um espaço vazio para sempre.
Cresce-se sem pai. Sobrevive-se sem pai. Aprende-se sem pai. Até se pode ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo.
Mas cresce-se a pensar que não se é importante o suficiente para o pai ter escolhido ficar. Sobrevive-se a pensar que um dia talvez se consiga compreender o porquê, se consiga explicar como aconteceu, entender razões, não ser culpa nossa que os adultos confundissem conjugalidade com parentalidade, atirar as culpas para quem escolheu não nos escolher; sobrevive-se a tentar preencher esse espaço vazio com outras figuras de referência, a mãe que também é pai mas que nunca consegue ser, coitada, é um puzzle e o formato dela não encaixa naquele buraco, o avô que até é homem mas que nunca consegue ser pai por ternura a mais, gap geracional, os avôs nunca conseguem ser os mais fortes. E aprende-se que esse espaço vazio nunca se preenche porque é uma amputação no crescimento e tudo o resto são próteses para a alma, e a alma aprende a andar mas o campeonato é outro, não é a mesma velocidade, a mesma estrutura emocional, não é a mesma certeza de amor inabalável. Não se cura. Não se preenche. Não se substitui.
Aprende-se a ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo. Sou uma pessoa feliz, contente com quem é e com o modo como a vida vai correndo.
Quando os vejo - Rui e Ana- percebo o bom que deve ser esse amor que vocês falam, os posts com as fotografias dos vossos pais no dia do Pai, essa estrutura firme e rochosa do amor entre pais e filhos (ah, e filhas ..) e fico com pena.
Não apenas de não viver isso igual mas com muita pena do meu pai ter escolhido que não queria viver isso comigo. Não foi só ele que perdeu. Fomos os dois.
Mas eu ganhei a minha mãe que também foi pai, o meu avô, os meus tios. E agora o Rui. Foram todos eles que me ensinaram a ser feliz, querida, amada, importada e importante mesmo sem pai. O amor regenera.
Obrigada.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Não há forma certa de lidar com a guerra

 Não há forma certa de lidar com a Guerra porque fomos feitos para a Paz.

Primeiro não conseguia dormir, remexia-me na cama, levantava-me, ia à cozinha beber água, via notícias no telemóvel, ia ao Twitter, ia ao quarto da Ana olhar para ela, imaginava se fossemos nós, abandonar tudo de material, no limite só nós temos uns aos outros, tudo o resto é matéria, mas a matéria dá conforto, calor, dá afecto, somos feitos de amor, por isso não sabemos lidar com a Guerra, porque fomos feitos para a Paz.
Doia-me a cabeça, as notícias na televisão sempre ligada, as actualizações pop up no telemóvel, as crianças nas imagens, a Ana em cada uma delas, é sempre sobre nós, nós nos outros, a empatia é sempre egoísta, o trabalho mais pesado, eu mais lenta, a cabeça a doer.
Decidi abrandar os estímulos, ver só televisão o fim do dia, desligar as actualizações do telemóvel, estaria a ser covarde? Estaria a fazer evitamento? A entrar em negação?
A guerra existia para além do que eu decidia, do que eu controlava- o que posso fazer para acrescentar sem me doer a cabeça, sem querer que a guerra me dê cabo da saúde mental?
Experimento diferentes estratégias, tento encontrar uma forma de lidar com isto, ponho mãos à obra, percebo como sempre que não consigo mudar o Mundo mas consigo ajudar devagarinho, uma pessoa de cada vez, coisas práticas, não preciso de fazer nada grandioso, pequenas coisas, pequenas ajudas, uma de cada vez, fazer o dia a dia de algumas pessoas avançar, já não me dói a cabeça, não vale de nada- bem sei...- a Guerra não acaba mas ao menos não me mato por dentro, isso não salva ninguém mas salva-me a mim, nos aviões ensinam-nos sempre que antes de metermos uma máscara de oxigénio às crianças que estão ao nosso lado temos que as metermos primeiro a nós.
Não há forma certa de lidar com a Guerra porque fomos feitos para a paz.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Ana, a pré-adolescente

 

Comprei-lhe tops. O corpo está a mudar e quero proporcionar-lhe conforto e suporte, quero fazer tudo certo, agora que eu já estava veterana em ser mãe de uma criança, tenho que aprender de novo a ser mãe. Duma pré -adolescente.
Sinto-me insegura mas quero tentar fazer tudo certo como quando comprei os biberões mais anatómicos, a cadeirinha do carro mais segura. Mas não há lojas @babyblue_pt para mães de pré -adolescentes, não há cursos de preparação para a adolescência, não há livros que nos guiem e eu só quero tentar fazer tudo certo.
Comprei-lhe tops e isso foi um gatilho de irritabilidade: começou a escalar, a embirrar com coisas triviais, a chorar, estava confusa e zangada e não sabia explicar o que sentia nem porque se sentia assim. Eu abracei-a: "foi por causa dos tops, Ana? Não tens que os vestir já, ficam só ali na gaveta para um dia que te apeteça vestir, quando te apetecer, sem pressão, pode ser no tempo que quiseres". Ela choramingava sem motivo aparente. Abracei-a com mais força: "És o meu bebé, serás sempre o meu bebé..." e ela ia desarmando, parando de choramingar progressivamente, rendida no meu colo.
"Mas tem algum mal usar um top?" - perguntava o pai em surdina, confuso no meio de tanto estrógeno. Não era o top.
Fui capaz de conhecer o choro da minha filha e diferenciá-lo quando parecia apenas guinchos aos ouvidos dos outros: havia o da fome, o do sono, o da fralda suja e o das dores, o mais aflitivo. Aprendi sozinha a conhecê-la. Agora tenho que fazer de novo. Perceber cada emoção, cada gatilho emocional, o que está por detrás de cada explosão, o não querer crescer, o querer continuar a ser pequena. Aprender a reconhecê-la enquanto cresce.
Não era o top. Eu percebi este choro, agora também.
Por isso, tal como quando era pequena, dei-lhe o meu colo, o meu regaço e embalei-a: "és o meu bebé, serás sempre o meu bebé..."
E o coração dela serenou. E com ele o meu, o desta mãe.
Os tops esperam na gaveta.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Ana, a ecológica

 

Estamos, em família, a falar de ecologia e sustentabilidade. O pai para a Ana: "Qual a ação mais ecológica que fazes, Ana?"
Diz a Greta de Alcabideche: "Dahhh! Xixi no duche, claro!"
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