segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Mundo divide-se (edição mete-nojo)

O mundo divide-se entre quem é mãe e continua a acordar às onze da manhã ao sábado e as outras. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Artur (37)




Conheci-o no dia da festa pública do primeiro aniversário da Ana: a ele e a toda a família- e não são poucos- loucos o suficiente para se enfiarem os seis num dia de calor extremo e virem dar-me um beijo a Lisboa directamente vindos de Tavira.

Nunca mais me esqueci.

A mãe- a Fátima- é uma mulher ímpar: mãe de (agora) cinco filhos, educa-os com o mesmo rigor, exigência, cuidado, disciplina e amor desde o mais velho- este Artur- ao mais pequeno Valentim, com um ano acabado de completar. E é um exemplo de educadora, o que se reflecte em todos eles mas hoje o post é para o Artur, o meu "sobrinho" chef, afoito e corajoso, destemido e criativo, bravo e rigoroso.

O Artur começou a interessar-se por cozinha no secundário, tendo concluído o Curso de Gestão e Produção de Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro, ao qual se seguiu um primeiro estágio curricular em grande, no The Oitavos na Quinta da Marinha como parte da equipa do então Chef  Pasteleiro Joaquim Sousa (o Chef que criou aquela sobremesa da flor negra que abria no prato e correu todos os facebooks, instagrams e masterchefs deste Mundo). 

Em 2014 acabou  o Curso e entrou no Belcanto do José Avillez onde estagiou  durante 3 meses, seguindo-se de um estágio no El Celler de Can Roca em Girona, que tem 3 estrelas Michelin e era naquele ano o “Melhor Restaurante do Mundo” pela 50 Best Restaurant. 

Foi aqui que começou a entrar mais na parte "salgada" da cozinha e trabalhou em quase todas as secções do restaurante incluindo o Laboratório. Regressou a Portugal e em 2015 foi pela primeira vez até Copenhaga para experimentar uma semana intensiva no Relae, e onde, mesmo em tão curto espaço de tempo,  despertou para a importância da origem do produto, a sua caminhada até chegar ao restaurante, à sustentabilidade e ao “foraging” (consiste em recolher plantas, ervas, frutas, cogumelos selvagens).



Claro que nem tudo são rosas, ou não fosse isto a vida, e foi também neste ano que teve uma experiência péssima que quase o fez desistir desta área e onde o chefe queria servir lavagante com 3 dias de cozido e onde não havia qualquer sentido de hospitalidade, respeito pelos ingredientes e sobretudo, respeito pelos clientes. Este episódio afectou bastante o Artur, um tipo franzino e sério, sem tempo a perder e em 2016 pensou como alternativa o ensino, tendo começado a dar aulas na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro. No entanto, Artur é "hands on", não é galinha de capoeira, é de campo e das bravas e logo, logo, começou a trabalhar no Restaurante Vistas no Monte Rei Golf & Country Club, tendo na sequência desta colaboração sido seleccionado para a final ibérica do San Pellegrino Young Chef of the Year 2018, que reuniu os 10 melhores jovens cozinheiros de Portugal e Espanha (com a participação de apenas dois portugueses). 

Rumou novamente à capital, o Artur intrépido, tendo ajudado a abrir a Confraria do Polvo, que aqui recomendei e cuja colaboração ter-se-ia mantido se não tivesse sido chamado pelo Noma, o melhor restaurante do Mundo, onde se encontra a estagiar há quatro meses. 

Durante os 2 primeiros meses esteve na produção e em algumas das estações a ajudar no serviço e preparações para serviço, que a vida de cozinheiro não é só glamour.  No entanto, o Artur brilha por onde passa, e no final do segundo mês foi convidado por um dos Sub-Chefs a fazer parte do Laboratório de Fermentação, Investigação e Desenvolvimento e ainda por lá anda, feliz e contente. Neste momento está a desenvolver produtos novos para o Menu de Peixe e Marisco que será servido a partir de 9 de Janeiro de 2019.
Se por um lado assisti orgulhosa e embevecida, como uma tia a sério, ao pulsar do Artur pelas cozinhas deste Mundo, por outro, não vejo a hora dele voltar a Portugal e marcar um jantarinho parolo e saloio à tuga e cozinhar só para mim!

Artur. Nome de Rei. Anotem que ainda vão ouvir falar muito dele.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Começar o dia a (Eslo)vacalhar

"Boa noite :)

Aqui vai a Quadripolarização da Eslováquia. Tenho de confessar que já vivi lá uns meses... Mas foi passando, passando e vim embora sem a Quadripolarizar! Espero estar perdoada x)
As duas primeiras fotos são do Lago Kuchadja, a paisagem não é a melhor mas dado que o lago estava todo congelado eu achei apropriado. Na terceira foto era eu que já estava congelada, mas o "ovni" é daqueles pontos imperdíveis e merecia ficar registado.




Não sei se precisavas, mas Quadripolarizei também Viena, no Palácio da Princesa Sissi (sim, e com mais um lago congelado!) :)



Espero que gostes das fotos e peço desculpa pelo papel tão pequeno, mas foi o que consegui arranjar.

Beijinhos
Raquel"


Xinapá, Raquel! Já me enviaste isto há tanto tempo que se calhar já tens filhos a entrar na universidade e já usas o cogumelo do tempo! Tu desculpas.me? Tu desculpas-me?

Eslováquia e Áustria quadripolarizadas! Yeahhhh!





[O planisfério está actualizado aqui
Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!]

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Uma aventura na IKEA (Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: botem os olhos nisto!)



Uma pessoa está em desmame de medicação fortíssima. 
Uma pessoa tem como efeitos secundários da medicação prisão de ventre. 
Uma pessoa tem como efeitos secundários do desmame da medicação a libertação desenfreada de ventre. 
Uma pessoa precisa de ir comprar umas coisas à IKEA. 
No meio do labirinto da IKEA o ventre duma pessoa decide começar a ter um espasmo, uma mistura de samba e wrestling. 
Uma pessoa grita ao marido "Já venho, toma aí conta da miúda", atira o carrinho pelos ares e começa a fazer marcha até ao wc que fica nos confins da IKEA. 
Uma pessoa repara que a filha de uma pessoa decidiu segui-la porque também está "com vontade de fazer xixi" . 
Uma pessoa começa a correr mas a filha de uma pessoa não a acompanha, o que faz uma pessoa ter que abrandar o passo e ter medo de se finar escatologicamente. 
Uma pessoa começa a surtar, pega na filha ao colo, espeta-na ao colo na anca e regressa ao treino de marcha. 
Uma pessoa avista a casa de banho. 
Uma pessoa irrompe a casa de banho aflitivamente. 
Uma pessoa pousa a criança e começa a desapertar o próprio cinto à velocidade da luz. 
Uma pessoa ouve uma vozinha "Mas mãe, eu preciso primeiro de fazer xixi"
Uma pessoa respira fundo, limpa o suor da testa e começa a ajudar a filha de uma pessoa a despachar-se. 
A filha de uma pessoa começa, muito lentamente, a cortar pelo picotado quadradinhos de papel higiénico e a forrar o tampo da sanita com toda a calma e precisão do Mundo para "se sentar sem tocar na tampa, mamã!". 
Uma pessoa começa a perceber que o seu ventre está a dançar a rumba e que provavelmente está prestes a dar-se uma tragédia. 
Uma pessoa continua a observar a filha de uma pessoa a forrar de papel higiénico meticulosamente a tampa da sanita. 
Uma pessoa lembra-se do Mr. Ben a embrulhar presentes naquela cena do "Love Actually". 
Uma pessoa grita "tu por amor de Deus despacha-te, Ana*!"
Uma pessoa ouve a filha "shhhhhhh"
Uma pessoa começa a controlar a respiração e a filha interrompe o "shhh" para fazer uma pergunta parva. 
Uma pessoa grita em surdina para não se ouvida em toda a casa de banho da IKEA "Faz xixi depressa já imediatamente!"
Uma pessoa vislumbra o fim do "shhhh"e pensa que tem que falar ao pediatra da capacidade tétrica de retenção de urina da bexiga da filha da pessoa.
Uma pessoa limpa a filha de uma pessoa e - finalmente!- consegue aliviar-se. 
Uma pessoa ouve uma vozinha "Preciso de oxigééénio!"
Uma pessoa abre os olhos e "shhhuttt! cala-te!"
Uma pessoa continua a ouvir "Cheira muito mal, mamã! Já disse que preciso de oxigénio!"
Uma pessoa ainda está a articular uma resposta quando dá pela filha da pessoa a abrir violentamente a porta do seu cubículo da casa de banho, deixando uma pessoa de ceroulas pelos joelhos sentada no real trono à vista de todas as utilizadoras da dita casa de banho. 
Uma pessoa agarra na filha de uma pessoa pelo cachaço e puxa-a para dentro, fechando a porta. 
Uma pessoa ouve risadas silenciadas do lado de fora da portinhola. 
Uma pessoa volta a ouvir numa voz flautada "Ó mãe, porque é que tens a sanita toda suja?!"
Uma pessoa atira um "Shuuut, não se diz isso, pá!"
Uma pessoa ouve de resposta " Ó mãe, porque é que tens a sanita toda limpa?"
Uma pessoa revira os olhos e manda a criatura calar-se, por favor. 
Uma pessoa volta ouvir a ladaínha "Mas eu preciso de respirar! Socooorro! Preciso de oxigénio!"
Uma pessoa acaba o serviço e vai para se limpar convenientemente. 
Uma pessoa dá conta que a filha de uma pessoa gastou todo o papel higiénico a forrar a sanita para fazer xixi. 
Uma pessoa pede à filha que vá à cabine sanitária do lado buscar papel higiénico. 
Uma pessoa fica outra vez na montra de toda a casa de banho, sentada e de ceroulas pelos joelhos, à custa da filha escancarar a porta toda para ir buscar papel higiénico à cabine do lado. 
A filha de uma pessoa regressa... com um quadrado de papel higiénico. 
Uma pessoa pondera suicidar-se com o fio do autoclismo quando percebe que o autoclismo está dentro da parede. 
Uma pessoa pede à filha que volte para buscar mais papel higiénico. 
A filha de uma pessoa suspira "ainda bem, assim respiro outra vez!"
Uma pessoa volta a arregalar os olhos. 
A filha de uma pessoa volta com mais dois quadradinhos rasgados meticulosamente pelo picotado de papel higiénico. 
Uma pessoa percebe, nas trezentas vezes, em que já ficou exposta de cuecas a tira colo à vista de todas as pessoas que frequentam a casa de banho, que há uma empregada de limpezas no espaço partilhado.
Uma pessoa instrui a filha de uma pessoa a pedir papel higiénico à empregada de limpezas. 
A filha de uma pessoa sai da cabine da casa de banho muito assertivamente. 
Uma pessoa ouve: "Olá, a minha mãe está toda borrada ali dentro, podia-nos arranjar papel higiénico?"
Uma pessoa pensa que se não morrer ali de vergonha, nunca mais morrerá. 
Uma pessoa vê a filha de uma pessoa entrar, de forma derradeira, com dois rolos de papel higiénico, daqueles industriais, um enfiado em cada pulso, como se fossem pulseiras e com os braços erguidos à laia de Dom Quixote a salvar o Sancho Pança.
Uma pessoa ouve risadinhas. 
Uma pessoa fica quinze minutos fechada dentro do cubículo à espera que saiam todas as eventuais testemunhas de tamanho vexame. 
Uma pessoa sai, finalmente, com a miúda de esguelha, e ouve o marido de uma pessoa na parte de fora da casa de banho a perguntar: "Que raio se passou ali dentro que tem saído toda a gente dali a finar-se a rir?"
Uma pessoa questiona-se porque não se dedicou à vida religiosa e viveu uma vida de clausura sem marido nem filhos. 
Uma pessoa sofre muito. 
Dos nervos. 

[* Nome fictício para efeitos meramente exemplificativos]


segunda-feira, 2 de julho de 2018

O outro queria um Ferrari amarelo



Eu queria uma camisa amarela, a modos que no Natal a minha mãe ofereceu-me uma muito gira da Primark.

No entanto, fiquei doente e foi em Maio que, a propósito de uma reunião importante com um parceiro chique, com sede ali no Marquês de Pombal, a estreei. 

Típica camisa da Primark: simples, tecido leve e com botões meio soltos. 

Sou uma nódoa a andar de canadianas, pelo que, quando cheguei à sede do parceiro todo eu era uma instalação desconchavada tipo Joana Vasconcelos: camisa de fora, mala sempre a cair do ombro e a empecilhar na canadiana, a outra mão a segurar uma pasta com papéis toda amarrotada também a empecilhar na outra canadiana e o ar mais esgroviado do Mundo. 

"Respira fundo e compõe-te, Lilana!"- pensei eu, enquanto chamava o secular elevador, daqueles com gradeamento. 

Dou o primeiro passo para entrar no famigerado elevador e não sei como, parece que ainda estou a ver o momento em câmara lenta, a canadiana enriça-se num botão, o botão solta-se e cai, em slow motion, para o exacto espaço entre o
elevador e a entrada, caindo para sempre naquele fosso.

Qual dos botões, perguntam vocês? O de baixo? O de cima? Nããã!
O do meio, pois está claro: o botão principal, o que tapa as mamas, precisamente, lá podia ser outro?!

E ali estava eu, a ver subir o cabrão do elevador e a pensar, piso a piso, como iria resolver o facto de aparecer com o mamaçal todo de fora (para quem não me conhece,eu sou "amiga do peito"!) a uma reunião onde as pessoas se cumprimentam só com um beijo.

Ao sair, tentei compor a camisa, enquanto me equilibrava nas canadianas e... cai segundo botão (eram três) e nesta altura estava boa para ir para o Meco, não para uma reunião num parceiro chique. 

Pensei que a única solução era andar com os braços mesmo coladinhos às costelas, de forma a apertar violentamente as "meninas" e tentar cobrir-me com o tecido, anteriormente conhecido como camisa, e agora uma espécie de lenço inútil.  

Entro, ninguém dá por nada (ou fingiram muito bem) e quando me perguntaram se queria um café, aceitei de imediato, para ganhar tempo enquanto a secretária se afastava e me deixava sozinha uns minutos até o meu interlocutor chegar. 

E foi assim, que aos 37 anos, tive uma reunião espectacular com a minha poderosa camisa amarela toda agrafada com um agrafador de mesa que ali jazia. 

Estou assim, capaz de patentear a ideia!
Ou só de mandar a Primark para o amarelo que a pariu!

domingo, 1 de julho de 2018

Da Ópera do Chiado à Lyrica de Arroios ou há ironias verdadeiramente quadripolares.

Disclaimer: eu sou a pessoa que nem sequer bilhete de ida e volta no comboio compra, porque conheço de ginjeira o potencial para me acontecerem imprevistos na puta da vida e não quero arriscar.

Odeio projectos a longo prazo porque acho sempre que isso me vai deixar refém das coisas e limitar-me caso me apeteça mudar de ideias.

Portanto, a compra da prenda de Natal do meu marido só se pode explicar pela facto de eu, à altura, já estar doente e a achar que ia quinar, portanto, que tinha que me despedir dele partilhando com ele experiências há muito adiadas e cumprindo um date por mês, com bilhetes comprados, lugares reservados e tudo planeado com uma antecedência que hoje, à distância de meio ano, ainda me deixa, como diria a minha avó "barada" (se não sabem o que é, perguntem ao minhoto mais próximo!"). Ou então explica-se porque estava já doente e com falta de imaginação e numa ida à FNAC tratei de tudo duma sé vez e despachei o assunto. 

Durante os últimos sete meses arrastei-me, primeiro com dores, depois com o efeito arrebatador da medicação, portanto, neste momento sinto que estive numa espécie de coma e lembro-me das coisas muito ao longe, meio difusas e, a esta distância, nem sei como consegui ir aos sítios e fazer coisas. Mas diz que fui, há fotografias que o provam e tudo. 

Assim,em Janeiro fomos comemorar o nosso aniversário de namoro ao Cooking and Nature Hotel (não gostámos muito e nem tem que ver com eu estar doente, foi mesmo uma desilusão), em Fevereiro adorámos o visionamento do Harry Potter em concerto (foi uma altura em que tive uma ligeira melhoria e deste lembro-me bem!) na Altice Arena, em Março (no auge das dores) consegui fazer a "aventura na serra" com mámen sabe-Deus-como porque estava no auge das dores e em Abril já estava praticamente e enlouquecer de dores. Em pura agonia.
Claro que era em Abril que tinha que estar marcado o programa mais desejado pelo homem: a ida à ópera. Pronto vocês têm maridos fits e desportivos, urbanos e coiso: a mim saiu-me um betinho erudito. É que o temos. E como é das ilhas, de uma em particular bastante pequena onde a vida cultural resume-se ao encontro de bandas filarmónicas, assistir à ópera no São Carlos era um desejo há muito adiado. Claro que eu em Dezembro, na loucura, comprei um camarote inteiro (onde estava com a cabeça?) e foi, claramente, o espectáculo com que ele mais delirou quando recebeu o presente de Natal. E claro que tinha que estar marcado para Abril, o pior mês que tive em termos de dores. 

O rapaz que, não desfazendo os das outras, é o mais fixe disse que não se importava de não ir, que haveria de haver outras oportunidades, o que importava era eu estar confortável. Mas, perante a fixeza do homem e mais a minha culpa judaico-cristã (e vá, porque gosto mesmo dele e sabia que era uma coisa que ele tinha tanta vontade de fazer comigo) enfiei uma data de comprimidos no bucho, estiquei o cabelo com a escova de esticar o cabelo que recebi no Natal, pus base a rodos para ver se disfarçava o ar doentíssimo e pálido com que estava, enfiei o único vestido de gala que me servia, todo ele preto e cheio de pedras tcharan- um Mango A/W 1999- enfiei as canadianas (a.k.a. muletas) no braço e lá fui. 

Claro que em Abril, água mil. Claro que chovia a rodos. Claro que o meu cabelo ficou um merdum 5 minutos depois e, de repente, achei que aquele era look para o Harry Potter dois meses antes pois eu estava tipo a Hermione e claro que andar de canadianas, com as borrachas dos ponteiros a escorregar sem parar fizeram logo com que o meu mood ficasse espectacular. Claro que ao chegar, o empregado me conduziu a um elevador de mil oito troca o passo e claro que o camarote que eu tinha reservado era super longe e senti que estava a fazer o triatlo de São Carlos, depois da molha que tinha apanhado já tinha nadado, agora estava na parte da corrida e não tarda muito ia pedalar dali para fora, mais de dez minutos a andar sobre a alcatifa almofadada de São Carlos e a perna a doer-me e eu de vestido a empecilhar-me, cabelo lambido e o ar mais miserável do Mundo. O homem todo feliz no seu fato piu-piu e o cabelo ligeiramente molhado, só paradar aquele ar blasé. 

Chegados ao camarote respirei fundo. O pior tinha passado. Havia três lugares: um para cada um de nós e uma para a minha perna (abençoada ideia peregrina em ter comprado o camarote inteiro!).O ambiente no São Carlos é épico e o homem estava ali a realizar o seu sonho de tenor frustrado. 

Começa a ópera.


Ok, tem legendas, boa! Dá para ir acompanhando a história e eis que entra o Romeo (ler "Rrrrrrróóóómeeeeeooooo!") mas epá...
- "Ó Rui, o Romeu é uma gaja?"
- "Shut, não sei! Deixa-me ouvir!"
- "Epá, ó Rui, isto não pode ser da medicação: quem está a fazer de Romeu é uma gaja!"
- "Shut, não interessa, é mesmo assim que a ópera foi escrita..."
- "Não interessa?! Era virmos ver um musical sobre a Tieta do Agreste e aparecer-te a Guida Scarlati, gostavas? O Romeu tem que ser um homem. Um homem cheio de pêlo, muito macho e italiano, pá!"
- "Liliana, estamos na ópera, importas-te de te abstrair desse detalhe?"
-" Com'ássim abstrair? Isto faz algum sentido? Não me consigo abstrair agora..."
E foi assim que eu, que como toda a gente sabe sou pela liberdade sexual, cada uma sabe da sua camae tudo e tudo que, aos 37 anos e nove meses, percebi que isto tudo é perfeito e fantástico: mas não ponham uma mulher a fazer de Romeu e a beijar a Julieta que eu não me consigo abstrair do potencial lésbico do momento, ok?"

Intervalo. Vou espreitar o telemóvel. Uma mensagem da minha médica neurologista já reformada mas que pedira a um colega ortopedista de topo o favor de olhar para uns exames meus e dar o seu parecer a perguntar se tinha os exames comigo,  pois o colega estava de banco no Hospital Dona Estefânia e tinha ali um furinho entre cirurgias para me dar uma opinião. 

E, de repente, ali estava eu, para espanto de muitos pais na sala de espera das urgências de um hospital pediátrico, a entrar ofegante, vestida de gala e a rigor, acompanhada por um gajo vestido de gala e a rigor, a entrar numa consulta de um hospital pediátrico... sem estar acompanhada por nenhuma criança!

A cara das pessoas era impagável e eu lá me dei conta do plus da maquilhagem entretanto esborratada (esfreguei muito os olhos para conseguir ver bem o palco, que o camarote era tão bom que era de lado e tínhamos que fazer ginástica para ver algumas partes da cena) que me fazia parecer um guaxinim e do cabelo à Hermione,entretanto seco mas em mau. 

O ortopedista não teceu nenhum comentário. Disse que não era nada da poda dele mas aconselhou-me a mudar de medicação. Em 5 minutos prescreveu-me daquelas receitas modernaças que vão descarregar no nosso telemóvel e deu-me alta. 

Já não fomos a tempo de apanhar o fim da ópera (assim com'assim se eu quiser ver cenas lésbicas vou ao Youporn e Romeu de pipi não é para mim) e voltámos para casa cabisbaixos: mámen estava desgostosíssimo porque não conseguiu ver o espectáculo até ao fim (e não achou graça quando eu lhe expliquei que aquilo morria tudo no fim,que não se apoquentasse) e eu particularmente desanimada porque era mais uma especialidade que se descartava de mim e não me apontava nenhuma orientação. 

Fizemos a A5 em silêncio, a caminho de casa. Parámos na farmácia de serviço e eis que vem a nova medicação:




A minha vida é uma trágico-comédia.
E estávamos a assistir de camarote.  

[Fuck my life!]


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Carta à auxiliar da sala do Jardim de Infância da minha filha



Querida Fernanda,

No fim do ano lectivo, o último da Ana antes de ingressar no primeiro ciclo e, por isso, o último em que acompanha a minha Ana queria agradecer-lhe.

Sabe, é que muitas vezes as pessoas- os pais incluídos- se esquecem do papel das auxiliares. Eu- às vezes- também mas hoje não.


Queria agradecer-lhe o papel que teve durante este ano na vida da minha filha. Não foi um papel auxiliar nem secundário, foi um papel insubstituível e principal.


Foi a Fernanda que acolheu. todas as manhãs, a minha Ana na sala. Que lhe deu bons dias risonhos. Colo nos dias em que estava mal disposta. Que a conduziu à reunião de tapete. Que lhe ajeitou ganchos a escorregar no cabelo liso e escorrido.

Foi a Fernanda a primeira a alertar-nos para o impacto que a minha doença estava a ter no comportamento da Ana. A dizer-nos que a sentia triste, preocupada, meia deprimida.  Foi a Fernanda que resolveu muitas birras da Ana não querer ficar na escola de manhã, sabendo-me doente e de cama em casa e querendo ficar comigo, a tomar conta de mim, numa parentalizacao precoce que nunca lhe permitimos. Foi a Fernanda que lhe deu colos, que a abraçou, que limpou uma diarreia somática, que lhe fez companhia quando a tristeza da Ana não lhe apetecia brincar com os outros meninos, que nos atendeu todos os telefonemas - sem se mostrar enfadada ou aborrecida - depois do pai a deixar na escola para nos certificarmos que tinha, enfim, serenado. Foi a Fernanda que introduziu a Ana nas brincadeiras das colegas sem a forçar, que a juntou e foi facilitadora na sua relação com as meninas com um perfil comportamental semelhante ao dela, que a incentivou a escalar e a saltar à corda, que lhe desinfectou esfoladelas nos joelhos, arranjou penteados porque o pai não tem lá muito jeito e foi a Fernanda que se mostrou sempre de coração partido face à reação da Ana à minha incapacidade de ter uma vida normal, de regressar à nossa vida normal, de termos a vida virada do avesso.

No tempo lectivo foi a Fernanda que a virava sempre do lado certo, que conversou com a Ana na hora do recreio, que a escutou e ouviu, que a serenou e lhe prometeu que isto tudo ia passar. A Ana contava-nos isso e garantia-nos o quanto acredita em si.

E a Fernanda nem sabia que ia passar (nem nós ) mas passou. 
Também graças a si.


À Fernanda que anteontem, depois de dois períodos lectivos difíceis, de um 2018 particularmente duro para toda a nossa família e perante a falta de talento desportivo da Ana, crashou a prova de corta-mato a meio para a resgatar do último lugar.

Obrigada por tudo e por tanto, Fernanda. Nenhuma palavra consegue transmitir a gratidão que o meu coração de mãe lhe dedicará para sempre. Obrigada por amparar a Ana num ano em que lhe doeu tanto na alma crescer.


Cresceu mais forte e segura, muito graças a si. Não é o seu trabalho que aqui enalteço: foi a sua capacidade e generosidade de cuidar e amar a Ana quando e onde ela tanto precisou. Obrigada por lhe ter limpado as lágrimas, feito sorrir e lhe ter dado, todas as vezes sem nunca o negar, o colo que a minha ausência não me permitia e nem em casa, muitas vezes, tinha força anímica para compensar. 

Nem sempre foi fácil mas nunca a vi de má cara e sabemos que a Ana não é uma miúda simples e fácil de compreender. Oh como a admiro! Ensinou-a pelo exemplo de amor, generosidade, humanidade e afecto e deu continuidade ao trabalho que tentamos fazer em casa. É tão boa nesse papel, sabe?!



Foi uma excelente companheira de equipa juntamente com a educadora mas- principalmente- connosco. Aceitou o compromisso de fazer da minha Ana uma menina melhor, todos os dias, sem ter expectativas do que era ser melhor, apenas respeitando a direcção, os gostos, interesses e personalidade que ela foi demonstrando. Respeitando e apoiando a Ana na sua essência, sem a querer mudar. 



A Ana é a nossa semente, minha e do pai. Todos os dias a regamos para que cresça saudável e feliz. Mas foram ambas- a Fernanda e a Helena também- que todos os dias úteis, das nove às quatro da tarde, na nossa ausência, lhe abriram a janela da infância e lhe mostraram o sol. Porque o vosso amor foi fotossíntese para esta Ana, a minha Ana, agora mais forte e em flor.


Obrigada por tudo. Por ser exactamente a pessoa em quem a minha filha procurou o colo que a minha ausência não permitia ser eu a dar. Que a minha doença não estava a ser capaz de providenciar nas doses necessárias. O seu colo não é auxiliar, foi educador, de amor e afecto e teve um papel principal.

Um papel que nunca esqueceremos.

Um beijinho nosso. Um beijinho com sabor a colo de mel. A um colo principal.
Liliana- mãe da Ana“

sábado, 21 de abril de 2018

Inter-rail hospitalar- Ser optimista mas a culpa é da puta cadeira



Chegou Dezembro e as coisas não melhoravam. Médica de família diagnostica hérnia discal  (detectada numa TAC numa ida à urgência do hospital) e compressão do nervo ciático.

Nesta altura as idas às urgências com dores alucinantes eram tantas que as empregadas do Hospital já atribuiam desconto de funcionário do Hospital a mámen. 

Farta de injecções de voltarem e relmus e com uma overdose de mentol de Transact experimentei o quiropata, que não se revelou eficaz no meu caso. 

As compras de Natal foram feitas num só dia e, numa fase final, já usando a cadeira de rodas do Cascaishopping, o que- vendo o copo meio cheio- me deu prioridade numa série de filas das lojas. Noite de Natal a ganir baixinho (de dores até porque os presentes correram muito bem) e tirando o facto de mámen ter levado a minha Bimby para arranjar para vir a tempo de confecionar a ceia de Natal, que este ano era cá em casa, e de lhe terem assaltado o carro e roubado a bicha, pronto, tirando isto e as dores foi um Natal pois. 

O ano novo foi simpático, com amigos do coração cá em casa sem me deixarem mexer um dedo sequer para me pouparem- beijinhos Margarida, Luna, Paulo, Laura- queijo, enchidos,marisco e vinho (para os que não tomam medicação).

Com medo que a medicação me desse sono e eu me viesse a esquecer daquela noite entre 2017 e 2018 a minha filha e a sua melhor amiga lançaram aqueles canhões de confettis às doze badaladas. Resultou. Cada vez que faço limpezas à casa, e já passaram 4 meses, encontro cabrões de confettis nos sítios mais recondidos, tipo a boiar dentro do autoclismo casa de banho do meu quarto, que fica assim a 3 km da sala ou na gaiola do coelho que fica a 5 km da sala. 


E foi, de facto, uma meia noite inesquecível pois estava na casa de banho às doze badaladas, saí disparada para a sala (tão disparada quanto me permitiam as dores nas costas,  portanto, cheguei quase a tempo de 2019) e esquecida da miséria em que me encontro fiz ali uma tentativa para cumprir a superstição e subir para uma cadeira com uma nota, num momento trágico-cómico, pois para além de não conseguir movimentos que me permitiam subir para a dita, o meu marido tinha-se esquecido de levantar dinheiro e só tinha uma nota que- cretino!- orgulhosamente ostentava no pedestal das minhas cadeiras da AREA, que foram caras, se eu não subo ninguém sobre e... cagaram-se todos para mim. 

Ali estava eu, início de 2018, por pouco não passei a viradinha numa posição escatológica, sentada à mesa a segurar uma nota de Monopólio (que tínhamos jogado antes do Party) e mais marreca que o Bruno Carvalho naquele meme a sair do banco de suplentes.
Na verdade, acho que esse era o verdadeiro presságio para o ano de 2018: um ano quase de cagada, sem subir nem descer,na realidade sem me mexer, e com uma vida financeira tão promissora como a de um investidor do Monopólio. 

Que viesse Janeiro. Assim com'assim já tenho passe V.I.P nas urgências e mámen descontos na cafetaria do hospital.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

It's just another manic Monday, I wish it was Sunday

Fim de semana do caraças: sábado lá bati com os costados outra vez nas urgências, ao que parece os rins não estão a gostar muito de tantos anti-inflamatórios, uma pessoa não morre do mal, morre da cura e puta que pariu isto tudo. A miúda teve três festas de aniversário num só dia e uma pessoa fica a pensar que a vida social da pequena de 5 anos dá 10 a zero à sua, para este ano nem um casamento, logo nós, que gostamos de casamentos. Mámen diz que sabemos que ficamos velhos quando passamos Verões sem ir a nenhum casamento, já está tudo casado, divorciado, amantizado ou só cansado, agora festas é que pastel.
Mámen perdeu o cartão multibanco, finalmente a EDP se decidiu a arranjar a minha máquina de lavar loiça, pus em dia a cozinha, a semana passado foi tão intensa que nem vi o episódio do "This is us" e só dei conta disso agora de manhã. Nos últimos dias- ontem especialmente- estive rodeada das minhas amigas, nem sempre consigo estar com elas mas sempre que preciso delas- e preciso muitas vezes- elas vêm sem que as chame, cheias de vontade e risos, ferramentas e mangas arregaçadas, gargalhadas e colos não físicos que elas sabem que não sou uma pessoa de  colos apertados. Sou uma gaja de sorte.
Às vezes páro e impressiono-me com a capacidade que meia dúzia de pessoas que conheço têm de mudar o Mundo, uma espécie de esquadrão do bem e sinto-me afortunada, não fosse esta dor constante e fininha, parece que já não é da hérnia extrusa, parece que não é da ciática, tenho uma ressonância magnética para fazer e a lista de espera do SNS é de um ano e meto mais um comprimido para o bucho. Penso em alternativas: vou mudar a alimentação, cortar de vez os lacticínios, pensar antes de comer sem pensar, vou arranjar um exercício de que goste- e eu acho que não gosto de nenhum. Suspiro e colo um transact na perna.
O boicote à "Super nanny" soube-me pela vida e, às tantas, nem teve efeito nenhum nas audiências, nos sharings e nessas coisas que medem o sucesso dos programas. Teve em mim que gosto de saber que não compactuo, que não me importo de remar contra a maré, que não sou de largar os remos. Teve em muitas pessoas à minha volta e isso é o melhor de tudo: saberes que não podes limpar o oceano mas não desistires de limpar a tua praia, a praia onde se banham os teus filhos e os teus amigos e os filhos dos teus amigos, as pessoas com quem convives e com quem partilhas o areal, estares certa que contribuíste para a mudança daquele bocadinho de mar, aquele pedacinho de areia. A Corine de Farme retirou o patrocínio ao programa e a ´minha amiga Patrícia, companheira de luta e de inconformismo, diz que retirar valor ao programa é um indicador de que os protestos de quem não compactua surtem efeito.  Fazer a tua parte é sempre uma forma de mudares o Mundo.
Saio de casa de táxi e são sete da manhã. O taxista queixa-se do PS, que é tudo à larga, dão tudo a toda a gente, repuseram tudo, só não contrariaram o PSD naquilo de agora se pedir factura para tudo, queixa-se do Professor Beijinhos e do que ele já gastou em viagens, conta-me que no sábado foi a Loures fazer aquela coisa do furinho na orelha para deixar de fumar e que no domingo foi ao Pingo Doce com a  mulher e ainda não eram nove da manhã e já não se podiam ver um ao outro e vai daí, fumaram 5 cigarros, "ó doutora" - e eu nem tenho cara de doutora- "um gajo sabe que era para não fumar mais nenhum, que larguei 80 biscas naquilo mas no primeiro dia fumei cinco em vez de quarenta, até nem é mau, pois não?" e conta-me que também lhe mandaram cortar no café e álccol e "ó doutora"- e onde é que terá ele ido buscar esta coisa do doutora?- "eu e a minha mulher não dispensamos um copinho de vinho ao almoço, vá e uma amêndoa amarga para digestivo, até a minha mais pequena, a que tem 14 anos que a outra já abalou para o Porto para estudar, mas dizia eu, a que tem 14 anos também dá um golinho, a minha irmã fica danada da vida quando vê mas olhe, eu cá sou sincero, antes ela provar amêndoa amarga comigo que com os amigos e também um golinho por dia não é a morte do artista, nós nem temos genética para vícios".
Deixei o meu cartão multibanco com mámen e enquanto me vestia de manhã ele foi ao ATM levantar-me dinheiro. Chego à Estação do Oriente e percebo que tenho uma nota de cem euros, o taxista não tem troco, saio para tentar destrocar a puta da nota e não me safo em lado nenhum, a fila na bilheteira é imensa. Entro num café e peço uns 20 euros em comida, só há coisas desgraçadas à venda, trago pães de Deus mistos, coxinhas de frango, pão de queijo e ice-teas e- foda-se- hoje é segunda feira e tinha prometido começar a comer diferente. Volto ao táxi, pago a corrida e peço factura,noto uma "amarguinha " de boca e a esta hora o senhor pode passar a distribuir o ódio entre o PS e o Passos Coelho, assim com'assim distribui-se o mal pelas aldeias.
Corro para o comboio e percebo que fico sem dados nem saldo no telemóvel. O bilhete é electrónico e não consigo sacá-lo. Não tenho multibanco para carregar que deixei o cartão com o estupor do meu marido e respiro fundo. A cinco minutos de chegar ao comboio estou no apoio ao cliente e explico a situação que, sim senhor, me imprimem ali o bilhete, basta eu apresentar o meu cartão de cidadão.
Que ficou esquecido nas urgências do hospital anteontem.


Uma boa segunda para todos. Que a santa padroeira dos piretes me proteja.



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Zâmbia e Zimbabwe? Checked.




"Bom dia Ursa! Estive de férias na Zâmbia com o meu marido, que trabalha lá, e não podia deixar de contribuir para a cruzada. Aqui vai uma foto das cataratas Vitória, na fronteira com o Zimbabué. Beijinhos, Maria João"


Obrigada, querida Maria João para ti e marido! <3



O planisfério está actualizado aqui e é- prometo!- este ano que eu ponho as quadripolarizações tooooodas em dia.


Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sala de espera da consulta de Neurocirurgia, Hospital de São José, 15h23

No desespero, tiro o telemóvel do bolso e constato que existe wi-fi grátis no Hospital. 

Como se fosse salvar o Mundo viro-me para mámen e digo - alto e a bom som para toda a gente ouvir e apanhar a deixa: "Olha: há internet grátis no Hospital!" 

Nem uma reacção. Continuou tudo nos seus desabafos e conversas tétricas de sala de espera de hospital. 



Pérolas a porcos, é o que vos digo. Pérolas a porcos. 


[Lá na França é que é, aposto que se deviam entreter, primeiro mundistas e caladinhos, a ler blogs.]


Sala de espera da consulta de Neurocirurgia, Hospital de São José, 14h23

Entra um senhor e começa a distribuir fotocópias de uma associação que ninguém conhece:

"Boa tarde meus senhores. Estimo as vossas melhoras. Infelizmente tenho que vos dar esta notícia de que sofro de HIV, para os senhores mais velhos SIDA. Nunca me droguei, nunca fiz amor sem camisa de Vénus, foi quando estava na barriga da minha mãe, a placenta rebentou e ela transmitiu-me o vírus. Podem ler esse papel, é com a ajuda de senhores como vocês que este Natal a Associação onde eu trabalho nos pôde dar bacallhau com batatas para a ceia em vez de pescada. Agradeço o  vosso auxílio. É melhor pedir que roubar. Nunca roubei nada a ninguém, agradeço..."

Auxiliar interrompe-o: "Não se pode mendigar na sala de espera. Já estou farta de o avisar todos os dias, não queria ter que chamar o segurança..."

"Ai é? Ai é? Vou mazé roubar. E digo-lhe mais: de cantar não me podem impedir!"- e começa a sacar, de forma agressiva, as fotocópias anteriormente distribuídas das mãos das pessoas da sala de espera, enquanto trauteia em altos decibéis:

"Ai senhor doutor que me dói a testa
Ai senhor doutor lá em baixo é que é a festa
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói a o nariz
Ai senhor doutor lá em baixo é por um triz
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói a boca
Ai senhor doutor lá em baixo é que está louca
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói o pescoço
Ai senhor doutor lá em baixo é que está grosso
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói o peiro
Ai senhor doutor lá em baixo é que está a jeito
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

"Ai senhor doutor que me dói o pipi
Ai senhor doutor páre tudo que é aí
Trás, catrapás, de rabo e canela..."


Auxiliar em fúria: "Vou chamar o segurança!"



[Como não ser fã do SNS?! ]

Sala de espera da consulta de Neurocirurgia, Hospital de São José, 13h47

"Isto é que vai para aqui uma vergonha. Sabe, eu tive a sorte de estar emigrado num país como deve de ser, não era nada disto. Lá uma pessoa tem tratamento hospitalar de primeira. Desconta-se e bem mas é à séria. Aqui uma pessoa desconta uma vida toda e leva uma reforma de 240 euros, perdão, 280 euros para casa. Tá quieto, ó preto! 'Tá bem que tive uns anos ali num táxi em Chelas por minha conta e não descontei mas isso também foram meia dúzia de anos, não justifica esta miséria. Um dia encontrei o ministra ali no Chinês das Olaias, já o tinha transportado no taxi e ele disse-me "Olá Felisberto, como está?" "Como estou, doutor, estou numa miséria, descontei aqui uma vida toda e levo 280 biscas para casa, acha que estou bem?" "Olhe que não é nada mau" "Não é nada mau, estive na França meia dúzia de anos, a mais a minha Maria, e trazemos mais do que isto da reforma de lá." E ele que não era possível. Então, não vou de modas, agarrei na minha mulher e no outro dia de manhã fui ao café onde ele vai e vai de sacar os papéis para ele ver com os próprios olhos. "Ai, Felisberto tem razão, sim senhor!" E ficou com um melão que só visto. Aqui uma pessoa está de baixa ou  reforma-se e ainda por cima pode trabalhar. Em França, não. Um dia estava de baixa e apereceu um inspector e foi um ver se te avias: "Monsieur, ali toda a gente se trata com cerimónia, não é cá estas confianças aqui de Portugal, e perguntou se eu estava a trabalhar porque alguém me tinha visto a dar de comer à criação e foi dar com a língua nos dentes e eu que não, não senhor inspector, estava só a contar as cabeças, uma pessoa lá não pode pôr o pé em rama verde, não é como aqui que tive 7 meses de baixa e ainda fazia uns biscates ali na Picheleira. Lá é à séria. Lá trabalha-se de sol a sol mas vale a pena que uma pessoa tem um tratamento que é uma categoria. A minha filha é engenheira na Câmara de Lisboa e bem nos conta que são uns 7 numa obra de rua e só o pobre que escava é que trabalha e leva 500 biscas para casa, é uma vergonha. Este país nunca vai chegar a lado nenhum. Por isso é que eu tenho saudades de França, eu mais a minha mulher, só voltámos porque aqui, assim com'assim temos a vida facilitada e aqui sempre se dá para dar um jeito nas coisas, não há aquele controlo do Estado, é tudo à balda, mas quando venho aqui ao hospital e estou assim estas horas à espera, arrependo-me tanto de ter voltado como de ter vendido o táxi, mas pronto, foi um bom negócio, declarei menos que o que vendi e ainda meti algum ao bolso, o mundo é dos espertos já se sabe. Mas lá é fora é que é bom, não é nada disto que aqui se vê. Já foi a França, menina?"

"Já, sim senhor, Mas desculpe que lhe pergunte, Sr. Felisberto, se lá é melhor, o que é que está aqui a fazer a aumentar-nos a fila de espera?"

Sala de espera da consulta de Neurocirurgia, Hospital de São José, 13h06

“Despacito. Hino do Benfica cantado pelos UHF. Uma valsa. A vida toda. Outra vez despacito. Nothing else matter. Amar pelos dois. “Atende, atende. Ateeende. Atende o telefone, quarailho” (versão não musical). Pacman. Mais despacito.



Diz-me qual o teu toque de telemóvel, dir-te-ei quem és.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Como se sente uma pessoa medicada até à medula quando atende telefonemas, recebe visitas em casa, ouve o marido a falar ininterruptamente quando chega do trabalho e afins?

                 

O Mundo divide-se...

Egipto quadripolarizado




"Olá, Pólo Norte 😊

Tinha enviado esta foto através do instagram, mas reparei agora que pede para enviar por e-mail. Assim, aqui está o Egipto quadripolarizado (Agosto de 2017) pelas irmãs Carla e Cláudia Oliveira, no Templo de Hatshepsut."

Obrigada, manas! 


O planisfério está actualizado aqui e é- prometo!- este ano que eu ponho as quadripolarizações tooooodas em dia. 



Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!

domingo, 7 de janeiro de 2018

Quase que juro que vi um DOT colado nas televisões




Eram sofás plastificados daqueles mesmo bons para se pôr uma colcha por cima que só se tira quando chegam as visitas que a vida não é isto e a sala tem que estar fechada para quando chegam as visitas que a malta cá de casa convive é na cozinha. Mesas de centro de vidro e com pés de mármore do equivalente a Estremoz lá em França, donde isto vem, provando que se "de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos", "de França nem bons fósseis nem bons móveis" (não faço ideia de como é a paleontologia francesa mas a rima era urgente, não me lixem o post!)

Camilhas, bares de canto, muito mogno, quartos de solteiro com alçado e luzes incrustadas. Ainda abri umas gavetas a ver se estavam forradas de papel de embrulho colorido e procurei se a música ambiente vinha de cassetes da aparelhagem. Encontrei louceiros muito jeitosos para pôr o serviço de copos de Cristal D'Arques ou a colecção de bonecas de porcelana. ´


Sentada num maple, pensei cá para mim que para ser perfeito o chão tinha que estar alcatifado e que assim com'assim faltava papel de parede e eu deveria ter trazido um blusão com chumaços e uns óculos de cartão com lentes azul e vermelha para ver "O Monstro da Lagoa Negra" naqueles futuristas écrans de televisão planos, tão modernos que destoavam. 

Não, não fiz uma viagem ao passado.



Mas foi uma tarde bem passada na Conforama. 

sábado, 6 de janeiro de 2018

Chipre





"Olá Pólo Norte, quadripolarizei o Chipre, mais um país para acrescentares à tua lista! As fotos são da Petra tou Romiou ou Rocha de Afrodite. Segundo a mitologia é o local de nascimento da deusa Afrodite! M."

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Resolução de 2018: pôr em dia as quadripolarizações desde 2015




Quando tens um jantar marcado há meses e a tua filha adoece e tu tens que fazer o que tem que ser feito e ficas naquela ambivalência de "tem que ser" mas "Oh que merda", de "paciência" mas" fosga-se que timing do camandro" e resignas-te e pensas "cabrão de azar: pão de pobre cai sempre com a manteiga para baixo..." 

Mas eis que as tuas amigas, lá a jantar, mostram que não tens azar nenhum: o melhor do mundo são as tuas pessoas. E isso é sorte. Melhor sorte no mundo não há. 

O que aprendeste em 6 semanas de dor ciática, Pólo Norte?




[Passa com frio. Passa com calor. Passa com descanso. Passa com caminhadas. Passa com osteopata. Para com quiropata. Passa com endireita. Passa com emplastros. Passa com alimentação macrobiótica. Passa com alimentação vegetariana. Passa com alimentação paleo. Passa com alimentação holística. Passa se não comeres. Passa com os pés de molho em vinagre de maçã logo de manhãzinha. Passa com ozonoterapia. Passa como messoterapia. Passa se deixares de beber leite.  Passa com reiki. Passa se comeres tudo sem glúten. Passa com shiatsu. Passa com auriculoterapia. Passa com aromoterapia. Passa com sexo. Passa se não disseres vernáculos. Passa com abstinência. Passa com massagem de relaxamento. Passa com massagem tui-na. Passa com acupunctura. Passa com moxabustão. Passa com fitoterapia. Passa com Naturopatia. Passa com homeopatia. Passa com pilates. Passa com piretes. Passa com caminhadas. Passa com ioga. Passa com uma promessa a nossa senhora de Fátima. Passa com um mergulho no mar gelado dedicado a Iemanjá. Passa com a perna esfregada com óleos essenciais, azeite quente (mas do bom, nada de azeite do LIDL) ou tang. Passa com lambidelas de cão (wtf?). Passa com um secador de cabelo a projectar calor na zona afectada. Passa com massagem ayurvédica terapêutica. Passa com plantas medicinais. Passa com chá de salva. Passa com erva. Passa com coca. Passa com reflexologia. Passa com o método das 3 agulhas do Professor Jin Rui. Passa com ventosas. Passa com epidural. Passa com dança de ventre. Passa com dança do varão. Passa com drenagens linfáticas. Passa se cortares o cabelo que parecendo que não isto está tudo ligado. Passa a entoar mantras. Passa a ouvir discursos do Donald Trump sem revirar os olhos. Passa sacrificando uma galinha velha. Passa com meia elástica. Passa com a almofada de massagens da Decathlon. Passa com rebuçados do Dr. Bayard. Passa com o bálsamo chinês da Tiger. Passa com bolas chinesas (!). Passa com mercúrio-cromo. Passa com Vicks. Passa com Voltaren. Passa com morfina. Passa com bagaço. Passa com tinto, branco, verde e jerupiga com peixe frito. Passa com botija de água quente. Passa com almofadas com caroço de cerejas aquecidos no microondas. Passa com chiclet. Passa comendo gindungo. Passa indo à Maya. Passa indo ao professor Mambo. Passa se te tirarem o quebranto. Passa se usares uma figa, um corno, uma mão de Fátima e um olho atrás da porta. Passa se leres a Bíblia. Passa se abrires a porta a testemunhas de Jeová. Passa se deixares de comer sushi. Passa se souberes de cor as músicas todas do Toni Carreira. Passa se vires um directo da Casa dos Segredos sem teres um AVC. Passa se saltares ao pé coxinho (esta é fácil, estás quinada da perna, remember?). Passa se te lavares com sal. Passa se deres um mergulho no rio Trancão. Passa se te filiares no PSD. Passa se te cruzares na rua com a Maria Vieira e não fizeres um esgar de riso. Passa se leres os livros da Rebelo Pinto. Passa se cheirares gasolina. Passa se gostares do que escreve o Chagas Freitas. Passa se usares o #deusnocomando. Passa se disseres "amen" depois de cada post partilhado contendo gatinhos. Passa se ouvires rádio Amália e um taxista ao mesmo tempo e de sorriso no rosto. Passa se não invejares os glúteos pós parto da Georgina. Passa se meteres na Bimby. Passa se receberes a conta da EDP sem vociferares. ]


Não passa com nada, quarailho. 
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