quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O Natal é já aqui.

Poucas coisas nos situam mais sobre quem somos e onde estamos que o Natal, talvez por isso tradições sejam tão importantes, as que herdamos e as que criamos, para que não deixemos esquecer de onde vimos e para perpetuarmos quem somos a quem vier para continuar esta linha invisível de afectos que faz uma família. 
 Na nossa casa há muito barulho, como boa família do Minho que somos, vozes que se atropelam, gargalhadas sem maneiras, bacalhau com batatas e ovos cozidos e couves portuguesas para não nos esquecermos que o nosso sangue é folclore e realejo, acordeão e concertina. 
Na nossa casa há morcela de arroz com ananás dos Açores e telefonemas com fusos horários diferentes para se desejar feliz Natal e as saudades sentam-se à mesa dos que ainda vivem longe e dos que morreram perto. Uma viola da terra que chora baixinho. 
 Na nossa casa há estrelas com o nome de cada um de nós na árvore de Natal. Na nossa casa há uma orgia de presentes para que a geração antes da minha compense o recalcamento de uma infância pobre e com poucos recursos. 
Na nossa casa há flores-couve que ele me oferece todos os Natais. E há tradições que criámos nós por influência de pessoas de quem gostamos como o bolo reco da Ana de São João à mesa ou porque, de repente, percebemos que somos um ramo autónomo e uma unidade familiar distinta e começamos uma coleção de presépios, um por cada ano da Ana na nossa vida, no Mundo. 
Na nossa casa os destinatários da lista de presentes são cada vez menos porque se vão afunilando os verdadeiros amigos e vivendo-se bem com isso, porque a reciprocidade é cada vez mais rara e valorizada. 
Na nossa casa recebe-se quem não é da nossa família e não há perguntas nem necessidade de contextualizar os de casa porque nós somos de muitos lados e iremos para muitos lados mas somos, especialmente, do Minho onde pode faltar tudo menos pão em cima da mesa para quem chega e nós somos, especialmente, dos Açores onde da porta para dentro de tudo se faz cama. 
E de Cascais onde a baía, o mar, o Mundo é já aqui. Aqui.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Have yourself a merry little christmas



Quando há um mês não sabíamos como iria ser do Natal do Paulo e do pai liguei-lhes e prometi-lhes que tudo iria correr bem e de caminho atirei um “e vamos comemorar a nova vida na mesa de Natal da minha casa e vocês serão os convidados especiais”.
 
Eu às vezes prometo impossibilidades e nesse dia senti-me uma imprudente intrujona e pensei o contrário “se tudo correr mal ao menos o Natal passarão em conforto”.
 
Depois escrevi com o coração o medo que eu sentia deles terem que ir para um abrigo temporário e a injustiça que eu sentia porque este pai trabalha tanto, porque esta família tenta tanto , porque este miúdo merece tanto. Eu sei fazer poucas coisas bem, talvez a escrita seja a única arma que tenho, eu uma imprudente, inconsequente, intrujona até. E escrevi.
 
E depois aconteceu magia: apareceu primeiro um anjo (obrigada P.) que assegurou um ano de renda à família, permitindo que façam um belíssimo pé de meia, que recomecem. A mãe juntar-se-á em Janeiro, agora que a casa está praticamente completa com os donativos que tantos e tantos leitores enviaram.
Ontem os dois à nossa mesa, a olharem para mim como se eu tivesse feito realmente magia, enquanto via-se cumprir a promessa de que no Natal comemoraríamos a nova vida, prestes a acontecer.
 
A minha vizinha tocou à porta para entregar o presente da Ana e atirou um “eles tiveram muita sorte em encontrar-vos!”. Mas enquanto via os olhos da minha mãe marejarem-se quando o Paulo disse “hoje é o dia mais feliz da minha vida!”, os olhos da minha tia alagarem com a cara do Paulo em facetime com a mãe lá longe em São Tomé a desejar uma noite feliz; os meus primos Tiago e Hugo felizes a colocarem pilhas nos carrinhos telecomandados que o Pai Natal trouxe ao Paulo, o meu marido a brindar um copo do seu vinho preferido com o Sr. Fernando e a minha filha a abraçá-lo no seu novo pijama da Marvel enquanto lhes fazíamos a cama no sofá da sala, percebi que, apesar de imprudente, inconsequente e intrujona, foi a mim que apareceu um anjo, dois, vários. Foi a mim que aconteceu a magia de conseguir fazer cumprir a minha palavra.
 
A sortuda, nesta história, serei sempre eu.
 
Obrigada a todos por este meu, nosso Feliz Natal.

sábado, 21 de dezembro de 2019

2019 como o meu cabelo




Cortei e andei meses seguidos a chorar porque ele demorava a crescer e queria voltar a ser igual a sempre e chego ao fim do ano com ele comprido e a suspirar que se calhar deveria cortá-lo outra vez para experimentar voltar a ser diferente.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Chove, como na rua, em mim.

Ali estava eu: diante do meu próprio velório. 

No marido dela o Rui: desorientado, perdido, vazio, arrasado como se o vento da morte da mulher tivesse vindo com a tempestade que atrasava a vinda de mais gente a prestar as últimas homenagens. 50 anos. Tinha 50 anos e uma velhice pela frente que nunca chegou a viver e eu agora não sei como vai ser, ela foi sempre primeiro, abria sempre o caminho, contava-me como era, sem romantizações nem pessimismos: a realidade. 

A filha ia-nos recebendo um a um, com cortesia e uma maturidade que não se encontra em ninguém com 20 anos. A minha projeção da Ana na filha dela: ser filho de uma pessoa com deficiência torna os miúdos em seres diferentes. Não especiais: apenas diferentes. A Rita nunca corria desenfreadamente quanto era pequena e um dia com a Ana ao colo perguntei-lhe como tinha conseguido ela essa proeza da miúda nunca lhe fugir, que sorte que tinha, imagina que fugia, a aflição que seria não poderes correr para a apanhar à custa da cadeira de rodas e eu, que não sou veloz na corrida, que não aguento tempos infinitos em pé com ela ao colo, como vou fazer? “Os filhos fazem-se aos pais que têm”- disse-me a Dulce, agora ali à minha frente num caixão frio de madeira. 

Na Rita a Ana: madura, pragmática, objectiva, com uma força que não reconheço em mais filhos de ninguém. Os meus amigos a chegarem: o Filipe, o Luis. 

A Dulce tornou tudo possível quando o futuro de mulheres com deficiência era uma incerteza: era possível trabalhar e ser auto-suficiente, era possível viver sozinha, era possível casar, era possível ser mãe. E agora que eu já sou tudo isso, porque a Dulce confortou a minha ansiedade, porque estreou todas as possibilidades, quem me vai contar o futuro? Não sei, agora, como é possível ser velhinha, como se gere o síndrome do ninho vazio, como é ser avó, como é viver com corpos enrugados e artroses e no fim como é pensar que a morte vai chegar porque a vida já está cheia, preenchida, completa. 

A Dulce morreu e não tenho a minha referência e em quem me projectar. E, pela primeira vez, o futuro parece-me desconhecido e incerto. A Dulce morreu e já não tenho quem me faça spoiling à vida. 

Chove, como na rua, em mim.

Am I alone?

Sou só eu que tenho almoços e jantares de Natal até à Páscoa?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O nosso Natal



Há mais ou menos 9 meses o pai entrou-me pelo gabinete sério e calado. Convidei-o a sentar. Tossiu baixinho, a tentar encontrar a voz. “Dra. o meu país não financia mais as nossas vindas. Fiquei desempregado em Fevereiro, depois das eleições. Era funcionário público e quando mudou o governo, deixou de haver lugar para mim”. Ajeitou-se na cadeira, olhos baixos. “Cada vez que vimos a Portugal para consultas tenho que pedir empréstimo no banco. Agora sem financiamento do estado e sem trabalho, não vou conseguir voltar. Ontem falei com a minha mulher e decidimos...” parou, começou a chorar baixinho, soluçou e escondeu a cara com ambas as mãos. “Vamos deixar cá o menino: antes sozinho e vivo do que lá connosco e morto”. Não parava de chorar e eu senti-me tonta, gelada. “Vocês são os únicos que nos deram a mão, podem ficar a tomar conta dele? Mesmo que fique num orfanato, a senhora pode ir lá todos os dias dar um olhinho por ele? É o nosso maior tesouro...” 

Pedi-lhe calma e algum tempo. O tempo suficiente para os tirarmos do sítio pouco digno onde se alojaram temporariamente, para arranjamos emprego ao pai, para ativármos a refood, arranjarmos casa emprestada quando teve que sair da casa anterior, arranjarmos escola, atl, roupa e vaga no campo de treino. 

Finalmente arranjámos a casa: a deles. Falo no plural que são vocês. 

Foi há nove meses. Sinto que parimos uma nova vida. 

Obrigada por nos ajudarem. A nossa parte é sempre a mais fácil. Obrigada por acreditarem em nós. Prometo que continuarei a deitar o olhinho. E a Ana a ajudar a lavar a loiça. O Paulo e o pai vão passar o Natal a casa. 

À sua casa. 

[obrigada maior ao P. pelo final feliz. E à Sofia porque sim. E claro à Sandra, à Rita, à Marta, à Elsa e ao João que nos salvaram antes deste final feliz. E a tantos que se importaram e concretizaram ajuda. Vocês sabem.

sábado, 14 de dezembro de 2019

vinte vinte

Sabes que trabalhas com projectos cofinanciados pelo FSE quando lês o novo ano sempre da mesma forma

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

AçoriANA

 “O Pico continua a ser a minha ilha preferida, mãe!”

 “Porquê, Ana?” 

“São Jorge cheira a casa, a Terceira cheira a mel, São Miguel cheira a àgua mas, ó mãe, o Pico cheira a nuvens!”

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Vamos lá actualizar a Bíblia #3

Já depois de muitas gargalhadas sobre esta história do ex-namorado da Nossa Senhora, começo a picar a Ana: "Ah, toda a gente tem ex-namorado, muito me contas: como se chama o meu, já agora?"

"Sérgio"  e acerta e eu quero desarmá-la e pisco o olho à minha mãe, certa que vou deixá-la sem resposta...

"E o ex-namorado  da avó?"

Olha para mim com a maior cara de espanto e ironia e responde: "É um tal Rui*. Duuuh, devias saber, não?"





(*É o meu pai.)

Vamos lá actualizar a Bíblia # 2

Nós chegamos a casa e a minha mãe conta-nos a história do presépio com o ex-namorado.

Pergunta mámen: "Olha, está certo e, por acaso, tem nome o ex-namorado?"

Reponde a personagem: "Tem. O ex-namorado é o Jorge Deus. Não sabes que o filho é do Deus?!"

Continua o pai: "Ah, bem lembrado! E Jorge porquê?"

Finaliza a Ana: "Se há um Jorge Jesus porque é que o ex-namorado não pode ser o Jorge Deus?"

...

Vamos lá actualizar a Bíblia # 1




A Ana a construir o presépio em argila com a minha mãe.

Fez a Maria, o José e o menino Jesus. A seguir faz outra figura.

- "Quem é esse, Ana ? É um rei mago ?"- perguntou a minha mãe.

- "Não, avó: este é o ex-namorado da Nossa Senhora e está zangado!

A minha mãe desmanchou-se a rir.

"Porque é que te estás a rir? Toda a gente tem um ex namorado..."

terça-feira, 26 de novembro de 2019

O meu estado civil de solteira é da era pré-Tinder






Porque se não fosse: com este casava!

Indo eu, indo eu a caminho dos Açores

Os convites vieram há uns meses mas só agora, a dias de embarcar, é que me caiu a ficha que irei aos Açores, em trabalho, a convite do Governo Regional, botar faladura e dizer coisas.


O programa começa para a semana nas Velas, em São Jorge, onde a minha presença será insignificante perante os distintos formadores presentes no "I Encontro de Profissionais com Intervenção na área da Deficiência". Penso que as inscrições se encontram fechadas porque se atingiu o limite mas, pronto, vai que algum leitor deste blog que viva naquelas bandas queiram fazer um crash the event? 

A seguir seguirei para São Miguel, mais concretamente para Ponta Delgada, onde darei o meu contributo no "I Fórum Regional de Voluntariado" falando um bocadinho na forma como capitalizo o alcance que este blog me tem dado para a missão do voluntariado. Aqui, a participação é gratuita mas sujeita a inscrição até dia 28 de Novembro, pelo que, conto encontrar alguns de vocês por lá!


Finalmente concluirei a minha agenda de presenças num jantar qualquer da PDL (isto podem ser as iniciais de Ponta Delgada mas também pode ser outra coisa, tá? ), numa espécie de pré-noite das amigas e das comadres ambas as duas coisas tudo junto, com as minhas amigas coriscas mais fofas, de quem morro de saudades e para quem prometo um repertório de histórias bem fresquinhas. 

As que- a bem da paz mundial em particular e da harmonia familiar em geral- não poderei voltar a partilhar por aqui. 

Babes: estou a caminhooooo!

Ana, a tocar-me nas feridas desde 2012

"Mãe, tens medo de tigres?"

 Não.

"E de alturas?"

 Não.

"E de cobras?"

 Não.

"E de sítios fechados?"

 Não.

"E de ratos e ratazanas?"

 Não.


 (Faz a pausa e um sorriso de quem tem uma carta invencível na manga)

" E da avó?"

Esloane



Há dias assinalaram-se os trinta anos da Convenção para os Direitos da Criança. Foi a minha amiga Marta Botelho, a melhor educadora do Mundo ali do colégio Piloto Diese, que me lembrou num post de facebook, enquanto reflectiamos sobre o quão longe ainda estamos de fazermos valer no Mundo, mas também tanto em Portugal, os direitos plenos das crianças. 

Ontem, 25 de Novembro, assinalou-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e eu queria muito escrever sobre este tema, como do das crianças e veio-me à memória uma leitora do blog que materializa tudo o que eu queria dizer sobre isto. 

A Esloane- é esse o nome da leitora deste blog que chegou aqui não consigo imaginar como- foi mãe adolescente como, aliás, a sua mãe a sua avó, numa cultura onde é comum ser-se mãe antes da idade adulta. 

Esloane tem, antes dos trinta, três filhos e é, provavelmente, a mulher mais resolvida que conheço. Vive no Brasil, de onde é natural, numa cidade de interior daquelas que parecem cidade cenário do Roque Santeiro ou uma espécie de Patópolis dos livros do Tio Patinhas. Filha de uma família pobre, cresceu sem o que- na Europa- consideramos condições de habitabilidade básicas, filha de pais trabalhadores rurais e esforçados, é agora que, trabalhadora e mãe de três filhos, conseguiu ser, finalmente, a primeira estudante universitária da sua família. 

Esloane, menos que trinta anos, filha de uma família pobre, mãe de três, estudante universitária. 

Contava há dias, a Esloane, e atrevo-me a citá-la porque nada do que eu poderia escrever a contar a história dela, seria mais forte e impactante do que as suas próprias palavras:

"Um dos grandes problemas de quem sofre violências doméstica pesada são os traumas 
(aparentemente) eternos. Daí q num dia você ta ótima, tem um dia lindo, vê possibilidades infinitas para o futuro, feliz, focada, safada pensando em amor, sexo, felicidade e putaria (não que tudo isso esteja associado ou siga essa ordem) . No outro você só consegue lembrar do desespero provocado pela ponta de uma faca encostada na barriga, da falta de ar da esganadura, do pavor de ficar trancada sem saber por quanto tempo. 

E no outro dia você ri das vezes q tirou o ferrinho do meio das dobradiças da porta para arrancá-la inteira ou arrebentou o miolo ( o lugar q mete a chave) como se isso fosse o maior ato de rebeldia do universo...

Pelo lado positivo, pelo ao menos a gente aprende a abrir portas sejam elas de casas ou da vida"

E eu- maricas e impulsiva que só eu-  já me apetecia apanhar um voo e ir para nowhereópolis abraçar a Esloane, menos que trinta anos, filha de uma família pobre, mãe de três, estudante universitária e vítima de violência doméstica.

Mas depois um post dela me travou: o filho mais novo de Esloane, com 4 anos e 8 meses, doido por dinossauros rex e legos, ainda não adquiriu linguagem verbal, não aprecia a interacção com outras crianças, sente-se incomodado perante o toque o estímulos tácteis e, depois de avaliado por terapeutas da fala, foi diagnosticado como tendo apraxia da fala e suspeita de síndrome de Asperger. Foi-lhe recomendado que consultasse um neurologista pediátrico para poder analisar com mais minúcia o caso do miúdo, o único profissional no Brasil considerado qualificado para passar um relatório que permitirá à Esloane activar os pedidos de respostas sociais necessários. Foi, ainda, recomendado que o menino começasse, de imediato, a frequentar sessões de terapia da fala com uma periodicidade semanal.

Esloane, furacão que só ela, menos que trinta anos, filha de uma família pobre, mãe de três, estudante universitária e vítima de violência doméstica, mãe de uma criança com diversidade funcional, ficou puta da vida. Não só não tem o dinheiro disponível para encetar este périplo como sabe que a espera por uma vaga de resposta pelo sistema nacional de saúde brasileiro pode demorar tanto tempo a chegar que poderá comprometer o desenvolvimento da criança para o resto da vida, porque a intervenção precoce não pode esperar. 

Uma consulta num neurologista pediátrico custa, no estado da Esloane, 400 reais acrescidos de custas com exames. São mais ou menos 86 euros. As sessões de terapia da fala têm um custo de 160 reais cada. Cerca de 35 euros por semana.

Esloane não tem condições para pagar sequer a consulta inicial. Então, com a força de quem arromba portas, começou por fazer rifas e encontra-se neste momento, a acordar de madrugada e a ir para uma estação de autocarro vender "café fresquinho" aos passageiros que esperam pelo transporte público, ainda antes dela própria ir para o seu trabalho. Eu imagino este "café fresquinho" com aquela pronúncia brasileira doce e trocista que imagino na voz da Esloane, que nunca ouvi nada vida, mas que reconheço na minha cabeça como se reconhecem as vozes dos amigos.

Esloane,
menos que trinta anos, filha de uma família pobre, mãe de três, trabalhadora, estudante universitária e vítima de violência doméstica, mãe de uma criança com diversidade funcional, batalhadora e inteligente, proactiva e lutadora. 

É para ela que este ano quero direccionar todas as minhas prendas de Natal. 

Para a ajudar a abrir portas. 

De casa . Da vida.
Da sororidade que une as mulheres.
Do amor que só sentem as mães.


domingo, 24 de novembro de 2019

sábado, 23 de novembro de 2019

Ana, a anti-discurso motivacional

"A avó disse que bastava eu querer muito uma coisa e tornava-se possível mas é tão mentira: bem que eu podia querer lamber o meu próprio cotovelo que tinha cá uma sorte..."

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A primeira quadripolarização do come back





"Olá Pólo Norte. 

Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt. Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar! Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos. 

 Beijinhos"

Obrigada, Matilde! Grande beijinho.

Conheça todos os países já quadripolarizados aqui.

O Mundo divide-se ...

... entre as pessoas que acham que as piores reuniões da vida são as de pais nas escolas das crias e as que acham que são as de condomínio com os vizinhos de prédio.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Até sempre, Zé Mário Branco!

Crença na Teoria do Mundo Justo

Sete anos depois a desculpa do pós-parto para estar gorda que nem uma porca já estava a ficar assim curtinha.

Então veio a vida e deu-me infiltraçõs de corticóides e tudo bate certo que assim já posso usar a desculpa oficial das velhas gordas.

Coisas bonitas que vi por aí

É um FRIHETEN da IKEA

Encontro uma amiga solteira que sei que lê este blog e que tem conta no Tinder e a propósito deste post mete-se comigo:

"E então já encontraste o sofá? Que tal?"

- Olha, filha, satisfaz todos os critérios de toda a família.

 - "Isso transposto para o Tinder dá o quê?"

- Olha, em Tinderês equivale a um gang bang.







(Vou para o Inferno, não vou?).

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

E por falar em fails religiosos

Uma pessoa reencontra o "homem da sua vida" da adolescência. 
Uma pessoa fica entusiasmada porque coiso, uma pessoa está casada mas não está morta. 
Uma pessoa começa a tagarelar e a pôr a conversa de mil anos em dia. 
Uma pessoa acha que a conversa continua genial e fluída e sente-se com 17 anos outra vez. 
Uma pessoa interrompe os seus pensamentos porque o ex-homem da sua vida tem mesmo pena de interromper a conversa mas é segunda feira e é o dia em que tem agendado o seu curso. 


De estudos bíblicos. 


...

...

...

Ana, o espírito santo dos livros

"Mãe, hoje ressuscitei dois livros da biblioteca da escola"

Post só perceptível por farmacêuticos

Naquela fase do bafo de bode pedi à mámen que fosse à farmácia comprar-me o melhor laxante que conheço.

Ele chegou lá e, fofinho que só ele, pediu à senhora da farmácia um Clyss-Glow*. 



[*Glow: ahahahahahahahahhah!]

I feel your pain, sis




A tentar acordar a Ana:

 "Mãe, dá-me só mais uns minutos.

 (silêncio)

Sessenta."



...

Era para ser Tsumummy


"Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres." (Charles Evans Hughes)


Há um mês a Ana- agora com sete anos- chegou a casa da escola e atirou-me: "a mãe da minha amiga X. mandou-a perguntar-me porque desististe do blog e dizer que gostava tanto..."

Sorri e continuei a preparar as coisas para o jantar, à espera que ela não quisesse, efectivamente, uma resposta. 

Veio ter comigo à cozinha, puxou de um banco, arregalou os olhos azuis e continuou: "então? Explica-me lá isso..."

Expliquei-lhe que quando comecei a escrever aqui a minha vida era quase toda uma outra vida, os meus dias muito diferentes e que tinha muitas coisas para contar e o tempo que tinha disponível também era diferente e que até eu era uma pessoa diferente, naquele ano de 2007. 

"Mas gostavas de lá escrever?"

Claro que sim. Gostava muito. Expliquei-lhe que me divertia imenso e dei por mim a contar um rol de coisas malucas que este blog me trouxe, os inúmeros PPCs, o gelado a que uma gelataria deu o nome de "Pólo Norte", as quadripolarizações e as chouriças de cebola da tia Manuela quando fiz 30 anos. E depois todas as viagens que fiz com gente que conheci através daqui. E o entusiasmo era contagiante e ela sorria. 

E depois rematei com as pessoas de quem ela gosta muito e que fazem parte dos dias dela e que vieram através do "Quadripolaridades": a sua tia Eileen, a MEP, a Paula Vidal, a Marta Guerra, a Elsa e os meninos de arrasto, a Tehur, a tia Laura do Pico, a Ana Veiga e as meninas e por aí fora. 

"Olha, acho que devias voltar a abrir o blog. Não vês que é tão bom? "

Respondi-lhe que não tinha tempo e que os blogs agora já não eram a mesma coisa e acabei por a espantar para o banho e a conversa morreu ali. 

No dia seguinte voltou à carga: "Disse à minha amiga para dizer à mãe que tu tinhas desistido mesmo do blog. E ainda me chateei que ela começou a cantarolar "desistente! desistente!" e parecia parvinha e eu disse-lhe "a minha mãe é RE-SIS-TEN-TE, não é desistente, parvinha!"

"Hey, não se chama de parvinhas às amigas, Ana!"- arregalei-lhe os olhos. 

"Hey, não se desiste das coisas sem REtentar antes!"- devolveu-me. 

E pronto, voltámos. Porque sim. Porque sentia saudades e este nunca foi um blog com uma grande estratégia, sempre decorreu ao sabor dos sentimentos. 

Quando lhes anunciei à mesa de jantar: "vou voltar a abrir o blog!", mámen sorriu e perguntou "vais manter o nome de Quadripolaridades?". Perguntei-lhe a opinião e nesse domingo à tarde, há umas semanas, tínhamos visto o filme "A vida de Pi" e ele sugeriu "A vida de Li", uma espécie de come back do Quadripolaridades, mas edição pré-quarenta. A Ana não concordou, queria que se chamasse "Tsumummy" que é como ela se mete comigo às vezes, a dizer que eu sou uma mãe tsunami. 

No fundo é sempre o mesmo Quadripolaridades mas com um nome diferente só para a mudança ficar registada e com o acréscimo sentimento tsumummy porque a maternidade agora ocupa um espaço gigante da minha vida. Eu mudei de cor de cabelo, de casa, de peso, de trabalho, de humor umas trezentas mil vezes mas a destrambelhice e o a "doença dos nervos" continuam. 

No fundo, mesmo no fundo: tudo mudando, nada mudou. 

Bem-vindos de volta!


[Continua a haver página de facebook e o instagram é para quem vier por bem. Há um histórico que eu tentei recuperar reunindo montes de conteúdos que fui produzindo nos últimos anos e que estava disperso pelas mil e quinhentas redes sociais e afinal concluo que nunca deixei de escrever. Há o email habitual em quadripolaridades@hotmail.com. E continua a haver  quadripolarizações, o mundo divide-se, causas quadripolares e tudo o que nos aprouver. Até o header do Prezado, que me vai acompanhando desde sempre nestes delírios. Sintam-se à vontade, fregueses!]

[Ainda estamos a actualizar o histórico e alguns detalhes, portanto, isto ainda vai levar algumas remodelações: sejam condescendentes!]

[As vossas palavras aqui na caixa de comentários ou no email do blog sobre este regresso são apreciadas que isto foi um parto difícil e hormonal. Feel free para me darem palmadinhas nas costas, tá? Estou precisada. ]

sábado, 16 de novembro de 2019

Deve ser assim que se sentem as minhas amigas solteiras que andam pelo Tinder

Andamos há uma semana em busca do sofá perfeito. 

Vimos todos os catálogos em papel e online. Gostámos de montes deles nos quais botámos as vistinhas. Entusiasmamos-nos com um todo colorido e excêntrico e tudo. 

Na hora do banho de realidade nas lojas sentámo-nos e ou eram rijos, ou moles, ou o design era fatela ou não fazia o nosso género.

 No fim, já nos pareciam todos a mesma porcaria.

 Acabámos por ficar com um cinzento Boring da IKEA e foi porque não nos podíamos mesmo sentar no chão que a idade não se compadece das cruzes.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A COMPRAR | Calendário de empoderamento







Em Agosto, no campo de treino, e antes de imaginar que em Setembro estaria noutro projecto profissional, decidimos falar sobre cidadania inclusiva.


O que é a cidadania? Quais os entraves que a deficiência cria face ao exercício pleno de uma cidadania? Como se imaginariam os participantes no Campo de Treino se não tivessem uma deficiência: seriam cidadãos iguais ao que são? Seriam cidadãos diferentes? Sabendo que a deficiência impacta nas suas realidades do dia-a-dia, podemos inferir que impacta positiva ou negativamente nos seus sonhos? 



Silvia Borralho da Pointfull montou um estaminé de charriots, roupa, sapatos altos (todas elas, as cadeirantes, diriam anteriormente que, se não tivessem uma deficiência motora, andariam de saltos altos na escola todos os dias ...) e maquilhagem. 

E deixámos a coisa rolar numa tarde inesquecível que foi para além destas fotografias (infelizmente não temos autorização de imagem de muitos dos jovens institucionalizados, cujas fotografias ficaram poderosas!).

O calendário de 2020 da ASBIHP reflecte uma tarde de empoderamento. Que empodera para o exercicio da cidadania mas, especialmente, para o exercício de se poder arriscar sonhar. Sem medos. Porque pode ser impossível. Pode ser muito difícil. Mas- caramba!- também pode ser possível. E,desta vez, foi. 


Obrigada às modelos Joana Dias, Cesaltina, Guilherme, Joana Ribeiro, Stephanie, Sara, Gabriela, Carolina Duarte, Diana e Carolina Santos. Obrigada a toda a equipa de produção: Sílvia Borralho, André Arsénio, Maria Esteves Pereira, Joana Santos, Diana Catarina, Catarina Francisco e Juliana Bernardo.

[Por cada donativo de 5 euros a ASBIHP oferece um calendário. Os interessados poderão contactar-nos pelo 218596768 ou sede@asbihp.pt]

sábado, 9 de novembro de 2019

Pólo Norte assiste a um evento numa importante sociedade de advogados: uma experiência em três actos

Prelúdio: a que cheira a Opus Dei?

Entro no imponente edifício e o ar cheira tão bem que desconfio que meteram ambientadores da Rituals nas condutas do ar condicionado. Mal comparando, é mais ou menos como os pobres metem naftalina nos urinóis da casa de banho dos homens: tresanda mas como aroma zara home meets opus dei.

Primeiro acto: o desconhecimento de que lá fora no Mundo nem todos os sobrenomes têm duplas consonantes e a pelintrice existe e é real

“Qual é o sobrenome para confirmar aqui a inscrição? “ 
Respondo: Sintra.
Resto da população procura o meu nome nos "S".
Estes senhores andaram aqui aos papéis a procurar no C. Estou a deixá-los à beira da loucura porque não me encontram e não assumem que podem haver pelintras entre a plateia.


Antes do intervalo: viva a meritocracia

Um rapaz imberbe que diz "imeeenso" três vezes por frase e falta-lhe o fôlego para discursar apresenta-se: “O meu nome é Cristóvão Sebastião Bernardo Casais de Furão e sou o Presidente da Fundação xpto...”

Reações não verbais da plateia: "Uau! Tão novo e já Presidente de uma coisa deste gabarito, vamos lá ouvir com atenção..."

Rapaz no seguimento do discurso: “... a Fundação foi criada pela Dra. Isabelinha Constança Carlota Casais de Furão”.

Reações não verbais da plateia: "Aaaaaaahhhh!"

Segundo acto: também podiam ser injeções nos olhos

No coffee break apontam-me para a mesa dos comes e bebes e perguntam-me o que quero. Não encontro em lado nenhum a opção "x-acto". 

Terceiro acto: tanto arquivo morto em atraso lá no trabalho e eu aqui

Desisto e vou para o trabalho. E eu hoje até estou com baita preguiça e nem me apetecia ir trabalhar.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Três anos de luz

Celebra-se hoje o terceiro aniversário da compra desta casa.

Quando a Ana nasceu vivíamos numa casa que adorávamos e na qual fizemos todo o nesting necessário para prepararmos a sua chegada. No dia em que ela celebrou um mês fomos assaltados e levaram-nos, literalmente, tudo. Nunca mais voltei aquela casa, a primeira depois de sair de casa dos meus avós, a casa da Praceta, a nossa casinha de recém juntos, recém casados, recém país. ´

Alugámos logo a seguir a primeira livre que encontrámos e que, embora tenha sido palco de tantos marcos significativos, nunca nos apropriámos dela, nunca a sentimos definitiva e nossa.

Mas há três anos quando aqui entrámos pela primeira vez e a luz e a claridade nos beijou a pele sabíamos que não valia a pena procurar mais: era esta a casa que queríamos que fosse o nosso lar. A nossa casa.

No fim da visita olhámos um para o outro e ele acenou-me. Eu disse: “ficamos com ela! Não precisa de a mostrar a mais ninguém”. Desde então nunca nos arrependemos. São só paredes de areia, tijolo e cimento mas simultaneamente não são só paredes de areia, tijolo e cimento: é um ninho.

É o nosso lugar feliz. Três anos de luz: parabéns a nós.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Uma visão assustadora de Halloween segundo a minha filha



"Mãe, isto para ser perfeito tu ias buscar o teu fato de Power Ranger cor-de-rosa* e íamos assustar os vizinhos, que achas?"


...


[[Um dia escrevi num status de facebook: Atiram-me com um: "Ah, deixas a miúda ir vestida de princesa para a escola?" Filhas, ofereçam-me um fato e verão se não vou vestida de power ranger cor de rosa pelo menos uma vez por semana para o trabalho..."

A minha amiga Xana ofereceu-me.

Don't ask.]

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Et voilá, Portugal assimilou sem pudores o Halloween

Eu estou com uma virose que pareço a gaja d’O Exorcista.

Três Eurodeputados portugueses votaram contra a vida de refugiados e assumiram os monstros que vivem dentro de si

domingo, 27 de outubro de 2019

Nota-se que não é muito boa a decorar nomes?

Ana antes de se deitar vem ter connosco à sala e percebe que estamos a assistir ao "The Voice", perguntando com genuína e séria curiosidade:

“Então quem acham que vai virar a cadeira: o Diogo PICASSO* ou o António ZAROLHO**?



*Diogo Piçarra

** António Zambujo

sábado, 26 de outubro de 2019

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Fui convidada para ir dizer coisas ao Programa da Cristina

A primeira vez que me convidaram queriam que eu falasse de maminhas. 

Desta vez queriam que eu falasse de partos.

Temo que me peçam para falar nos desafios de integração da minha filha na creche quando ela estiver a entrar na Universidade.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Gracias a la vida que me hay dado tanto

Desde a última vez que aqui vim, doente e deprimida até ao dia de hoje, com uma recidiva, passou um ano e três meses. 

Quem me acompanha acha que este tratamento durou pouco e que as dores voltaram num piscar de olho. Não sinto o mesmo. ´

Neste ano e três meses dancei ao som de Jorge Palma ao vivo, desci a muitas fajãs nos Açores e nadei em muitas lagoas e tanto no Oceano Atlântico até parecer um bacalhau seco, brinquei na piscina com a minha filha, dancei slows com o meu marido, dei muito colo, tanto, imenso com a Ana encaixada nesta anca que tem uma artrose gigante antes de eu ter 40 anos mas que serve de ramo para a minha pequenina gaivota pousar, viajei muito de carro sentada e também sentada trabalhei centenas de horas a fazer coisas que me fazem feliz, dormi noites seguidas, profundamente, sem dores e pude sonhar e fazer co-sleeping com a minha filha em noites de trovoada no Inverno e encaixar-me em conchinha com o meu marido, baixei-me dezenas de vezes no rodapé do quarto da Ana junto às portas de fadas e pude transformar-me numa delas e assim alimentar de fantasia a infância da minha filha, subi à casa da árvore que habitava nos nossos sonhos de família e encaixei o meu quadril em tantas montanhas russas e diversões na Isla mágica onde pude ouvir gargalhadas em uníssono com a minha família, fiz caminhadas por Espanha nos Pueblos Blancos e uma road trip e sentei-me à chinês a ver o pôr do sol e a comer cachorros quentes no meu aniversário, pedalei com a miúda de bicicleta na serra, fiz a gincana dos pais na festa do dia da mãe na escola a custo mas fiz e somei muitos momentos felizes à minha existência neste ano e três meses sem dores. 

Prefiro ser grata por esta máquina que é o meu corpo responder positivamente a tratamentos e ser funcional ao invés de me frustrar por ela não ser sempre saudável e perfeita. 

O corpo é uma flor muito fresca e mortal, nunca me esqueço disso. 

Hoje viemos pedir mais uma temporada sem dores e a possibilidade de mais tempo cheio de experiências memoráveis porque pernas, anca, coxas, gluteos, quadris e pés se entenderão numa imperfeição tal que se sintonizarão para me abençoar com vida. 

Vida é tudo o que se quer.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Alice Vieira

"Faz hoje 17 anos. Às primeiras horas da manhã ligam-me do hospital a dizer que o meu marido tinha morrido. Fiquei parada, sentada no chão ao pé do telefone sem saber o que fazer. O meu filho vivia em Inglaterra, a minha filha estava como eu--salvou-me o meu irmão que foi logo para o hospital e tratou de tudo.Escolheu fato, sapatos, tudo. Mas no meio daquilo tudo esqueceu-se de ver os bolsos do casaco. E no meio do velório um telemóvel desata a tocar. Estava no bolso do casaco dele. Corro para lá, tiro-o e olho a ver quem estava a telefonar.Um velho amigo nosso,que já não ligava há imenso tempo. De seu nome José de Deus. Mas que o Mário tinha, na sua lista de amigos, apenas como "Deus". Eu olhei, sorri e murmurei : "Já lá chegou".


Os encantos de trabalhar na zona oriental de Lisboa (a verdadeira, não a chatice do Parque das Nações)



Para ser melhor tinham acrescentado um "s" e escrito "já fostes!". Ou "Incha Pacheco!" Ou "Tumbas! Vai buscar" ou "É bem feita porque o cão tem a mania que é espertalhão!". Ficam aqui as sugestões. De nada.


"A poizé!Velhinho mas pago, enquanto os nossos estão a crédito!"

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Ainda no cabeleireiro

A senhora da recepção do cabeleireiro disse que eu sou uma sósia da Barbara Guimarães.

Acho que ainda assim sou mais parecida com o xuxu da cabeleireira.
 Ou com o espanador da Neide Aparecida.

Isto é para os apanhados do "Sai de Baixo", tenho a certeza.

Estou num daqueles cabeleireiros de shopping para gente que tem um horário de trabalho incompatível como cabeleireiros de horário regular. 

 A senhora que me cobriu a miséria das brancas chama-me "quérida" e "xuxu". 

O senhor que me faz o brushing diz que o meu cabelo é uma "chiqueza". 

 Sinto-me o Caco e estou à espera que a Neide Aparecida entre por aquela porta com o espanador em riste.

domingo, 6 de outubro de 2019

Democracia também comporta a escolha de não querer democraticamente votar



Durante o dia de hoje vi pejada por essas redes sociais a ideia de que quem não vota, não tem direito nem legitimidade a reclamar.
Não podia discordar mais.
Votar é um direito. Não é obrigatório. E os direitos podem ser reclamados ou não, a liberdade também é isto. Mesmo que não concordemos, mesmo que fizéssemos diferente.
O que a democracia trouxe foi o direito a todos de escolhermos: escolhermos à direita ou à esquerda, ao centro ou para dentro, escolhermos pelas ideias ou pela filosofia de base, escolhermos pelos partidos ou pelas pessoas, pelas causas ou pelos reformados, animais, gente que acredita que deveríamos voltar a ter Reis ou cretinos da extrema direita fascista e execrável e, no limite, escolhermos não escolher.
Eu escolhi o partido que mais e melhor defende o que acredito: na liberdade das minorias terem voz sem ser por caridade ou responsabilidade social ou quotas ou benefícios fiscais, na diversidade, na política feita nas aldeias, nas ruas, nas gentes do povo e não nas universidades de verão dos partidos e que conhecem a vida da maioria dos portugueses. A maioria que é feita pela riqueza diversa de muitas minorias conjuntas.
O ganho da democracia é a liberdade de poder escolher, de haver escolha, de já não estarmos reféns de dois partidos, de emergirem partidos pequenos que colocam na agenda questões diversas e não apenas as “fracturantes” para as maiorias várias. Da maioria absoluta não ser um destino ao qual não se consegue escapar.
O ganho da democracia é a liberdade de escolha. Mesmo que se escolha não escolher, e depois reclamar na mesma porque é possível, porque vivemos em liberdade, porque sim.
Quem não vota escolhe não decidir quem quer que governe o seu país. Não escolhe não reclamar (aliás, vemo-los durante os quatro anos a seguir às eleições fazerem-no e tudo bem). Não escolhe comer e calar. Escolhe não escolher o que comer e, depois, ao comê-lo, pode sempre reclamar. Com a legitimidade que cada um, subjectivamente, lhe pode conferir.
Viver em democracia é maior do que qualquer partido, governo ou legislatura. Que se continue a ter esta liberdade de escolher. Mesmo que se escolha não escolher.
Liberdade, sempre.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Sobre o furacão Lorenzo

... diz o meu marido (açoriano):

“Lembras-te quando estávamos grávidos e só percebemos a quantidade de gente que não gostamos quando foi altura de escolher o nome da miúda?”

Sim.

“Nós nos Açores só percebemos a quantidade de tempestades que vivemos quando todos os nomes de bebés que estão em cima da mesa já foram nomes de furacões...”


...
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