terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Quando alguém me diz que o feminismo mimimimi






"Era agarrar-lhe por um colhão, cortá-lo como se fatia a picanha e depois ir ao outro e depois ir por ali acima, tudo aos bocadinhos!"



A frase é da Dona Alda, a senhora do café aqui da Zona J, onde trabalho. É uma senhora discreta e calma, sempre sorridente, que hoje ficou perplexa quando assistiu na CMTV, sempre ligada no café, à reportagem que dava conta que o pai da criança que matou a sogra num episódio de violência doméstica, acabara também de matar a menina de dois anos. 

Talvez as palavras escolhidas choquem pela dureza, pelo vernáculo, pela crueza mas pudesse eu conseguir expressar a revolta que sinto no peito desta forma tão sincera. 

Estamos a 5 de Fevereiro. Em 36 dias que leva o ano foram mortas nove mulheres (oito adultas e uma criança) às mãos de homens que continuam a achar que têm o poder, a razão, a legitimidade de lhes tirar a vida, como se as vidas delas lhes pertencessem. 

Sou mãe de uma menina.

Todos os dias nos deparamos com uma cultura machista, mesmo que velada, com uma cultura em que as pessoas ainda se riem quando alguém parabeniza um homem que vai ser pai de uma menina com um "eh lá, agora tens que comprar uma caçadeira!" ou em que ainda se acha que a rapariga que subiu para o quarto do Ronaldo e que depois se recusou a fazer sexo "estava mesmo a pedi-las!" ou em que passamos pelos quiosques de revistas e levamos com capas de "ponha-se bonita para o seu homem!". 

O machismo é real.

Mesmo que subtil e está tão enraizado que embora já vejamos muitas mães comprarem cozinhas para os filhos pequenos brincarem ao nível do jogo simbólico, ainda não vemos mães de meninas comprarem-lhes uma bola aos dois anos e deixarem-nas treinar chutos e passos.
Damos passos no sentido de capacitarmos as nossas raparigas para gostarem dos seus corpos mas continuamos a falar da sua aparência e a fazer disso um assunto ("já te disseram que és muito bonita, Ana?"). Continuamos a obrigar crianças a darem beijinhos aos adultos porque se não derem estão a ser mal educadas como se os corpos delas afinal lhes pertencessem mas não tanto. Continuamos a inscrever as meninas no ballet, com tutus e carrapitos e a vibrarmos com os miúdos mesmo pequenos nos treinos de futebol, mesmo que pingue, mesmo que chova, enrijece. 

Continuamos a dizer às meninas "não ligues, ele deve é gostar de ti" quando um colega da sala passa a vida a embirrar com ela como se o amor se demonstrasse com provocação, como se fosse aceitável "quando mais me bates mais em gosto de ti". Continuamos a ensinar às miúdas a evitarem zonas escuras, que "mulher séria não tem ouvidos" e que quando têm o período "já és uma senhora, agora comporta-te como tal". Continuamos a achar que ter descomplexos com o corpo, que mudar de namorado, que vestir roupas destapadas faz as meninas parecerem umas "putas".

Putas. 

Continuamos a telefonar às mães quando as crianças estão doentes na escola porque os pais têm empregos importantes, sei lá, e quando estão doentes "os meninos querem é as mães". Continuamos a perguntar nas entrevistas de emprego se as candidatas são mães, se têm filhos, se querem ter mais e se têm rede social de apoio. Continuamos a despedir mulheres grávidas. Continuamos a perguntar às mães como equilibram vida pessoal e profissional sem fazermos a mesma pergunta aos pais e continuamos a achar que há mulheres com "muita sorte" porque os maridos as "ajudam" nas tarefas domésticas, como se fossem elas as personagens principais da lide e eles colaborantes figurantes. Continuamos a piscar o olho às mulheres e a dizer-lhe que "estoure o cartão de crédito do marido" como se ela não tivesse potencial para ter o seu próprio cartão de crédito para estourar. Continuamos a desvalorizar assuntos importantes das mulheres e as suas emoções e a dizer "deves estar é com o período!" ou "pfff, gajas!"

Continuamos a trabalhar para capacitar cada vez mais as nossas filhas mas continuamos a achar que é delas a obrigação de serem diferentes, de se emanciparem, de se defenderem, de não se exporem, de se protegerem, de se insurgirem ou de não ligarem, de não compactuarem, de existirem.

De existirem. 

Continuamos a pôr o ônus da questão de tudo nas mulheres. 

Continuamos a dizer "eh valente!" quando um homem anuncia que está à espera de um filho homem. A dizer a meninos pequenos que quando caem que "vá levanta-te: um homem não chora!" e a chamá-lo de "mariquinhas e menino da mamã" quando precisam de colo. Continuamos a torcer o nariz quando os meninos na escola não se juntam aos que gostam de jogar futebol e a vaticinar a sua orientação sexual quando eles preferem brincadeiras mais calmas ou juntarem-se a meninas, chamando as meninas que fazem o inverso de "marias-rapaz" e a eles de "tão pequenino e já com um  piquinho a azedo" (true story: ouvi eu no outro dia no parque!). Continuamos a mascará-los de piratas, zorros, tartarugas ninja e cowboys e figuras valentes e estóicas e nunca de joaninhas, bailarinos ou de príncipes da Branca de Neve. 

Continuamos a rir-nos quando um adolescente diz que apalpou a miúda gira da escola no recreio e achar que a testosterona é tramada e que "a carne é fraca", "um homem não é de ferro" e que "homem que é homem não vira a cara à luta". Continuamos a não deixar que homens se cumprimentem com o beijo na face  porque "estás-me a confundir ou quê? Não gosto dessas paneleirices". Continuamos a querer que os nossos filhos virem Ronaldos e sejam jogadores de futebol e rezarmos para que algum olheiro repare neles e a torcer o nariz quando vemos rapazes no ballet que "isso não é coisa de macho". Continuamos a achar que os rapazes não ligam nada a coisas de beleza, a perpetuar aquela coisa máscula do "porco, feio e mau", que mudar de namorada faz deles viris e "garanhões".

Garanhões. 

Continuamos a achar que um homem que divide as tarefas com a mulher é meio "panhonha" e que por isso "lá em casa é ela que usa as calças". Continuamos a rirmo-nos de homens que não sabem quem é o treinador do Sporting nem acompanham o campeonato, devem ser "intelectuais, pfff!". Continuamos a ver as mulheres sorrirem enternecidas quando vêm nas urgências uma criança acompanhada pelo pai e a olhar de lado para a mulher que em licença de maternidade não acorda a noite toda para cuidar do recém-nascido e não deixa o marido dormir porque "amanhã ele vai trabalhar", desprezando o trabalho que dá a uma mãe ficar em casa a cuidar do bebé a tempo inteiro durante a sua própria licença de maternidade e a recuperar de nove meses e de gravidez e de um parto. Continuamos a achar aceitável que uma mulher decida ser "mãe a tempo inteiro" e a abrir os olhos de espanto quando sabemos de um caso muito esporádico de um homem que decide ser "pai a tempo inteiro". Continuamos a usar a expressão "chefe de família" e nunca a atribuímos a uma mulher. Continuamos a dizer que um homem "quer comer" uma mulher, pondo-o no papel de comedor e ela de comida. 

Continuamos a não saber educar. 

Nem homens nem mulheres. Continuamos a achar que "quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro" e que entre "marido e mulher ninguém meta a colher". 

Continuamos a normalizar casos de crimes passionais, como se a paixão e o crime pudessem sequer conviver numa mesma frase e isso fazer sentido. Continuamos a ler as notícias dos jornais e a ver os números e os números a crescerem e nós indiferentes- são números na nossa cabeça, não são caras nem pessoais reais e tudo bem (tudo bem?)- a fazer scroll down e que venha a notícia seguinte, o Benfica ganhou e já se sabe que quando o Benfica ganha há menos violência doméstica que os homens andam mais felizes e rimos.

E rimos. 

Enquanto escrevo este post o alegado assassino da sogra e da filha matou-se. Este já foi o bebé, o rapaz, o filho adolescente de alguém. Matou-se. Depois de matar a mãe e a filha da ex-mulher e de, assim, a matar viva a ela também.

Falhámos todos enquanto sociedade. Todos. 

Até quando?


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O nacional copulo-entretenimento

Os Portugueses fazem, ao nível do panorama do entretenimento internacional, muito poucas coisas bem. A melhor que fazem, sem dúvida, é o nacional copulo-entretenimento, a.k.a. foder formatos televisivos de sucesso internacional.

Ora, é preciso alguma mestria nesta arte do nacional copulo-entretenimento: não basta investir capital em adquirir os formatos,  O grande segredo vem depois dessa fase e está envolvido numa grande mestria e consiste em - atentai!- fazer escolhas erradas. Tipo todas as escolhas erradas.

Escolhamos alguns exemplos aleatórios para demonstrar esta mestria:

Masterchef

O Masterchef é um dos programa de mais sucesso no Mundo e o Masterchef Australia, em particular, o preferido em toda a esfera internacional.
O conceito é simples: três cozinheiros reconhecidos e de sucesso avaliam pratos de cozinha confeccionados por cozinheiros amadores. Essa avaliação é feita com empatia, sem nunca se esquecerem que estão diante de amadores, com humildade e sugestões de oportunidade de melhoria.  Há subjacente uma relação de mentoria mas de igual para igual, de mestre que ensina a pupilo. Os concorrentes sabem que estão numa competição mas nunca se esquecem da decência e da ética em casa nem da empatia com os colegas em igual circunstância. De caminho há umas master-Classes onde se partilham receitas, técnicas e é tudo fluido e bom.
Eu sigo vários ex concorrentes do Masterchef Austrália no Instagram e é bonito ver como depois do programa acabar eles mantêm os laços entre si e se apoiam nos novos projectos, incluindo os jurados, mostrando que a relação não foi apenas circunstancial e funcional mas que, de facto, se tornaram cúmplices e próximos pela partilha daquela experiência.

O Masterchef Portugal é o exemplo do que pior se fez em termos de adaptações de formatos em Portugal. Os três jurados eram Manuel Luis Goucha, ex-cozinheiro do tempo em que a única concorrência televisiva que fazia era concorrência ao bigode do Luis Pereira de Sousa; chef Rui Paula num tom arrogante e burgeso e chef Miguel Rocha Vieira num tom presunçoso e altivo.
Foi doloroso ver o que fizeram ao Masterchef: agarrar num formato tão jeitoso e colocarem expressões gouchistas como "Tendes 30 minutos para confeccionar esse prato" e ninguém aguenta o tom eloquente e erudito do ex-cozinheiro, reacções mal criadas aos pratos e Rui Paula ou ainda cuspidelas de comida nos guardanapos do Miguelinho, todos com uma postura de "meistres"-divas-mania-que-sabem-tudo-cretinos. 
Não se aguenta! 
Às tantas quase que tinha pena dos concorrentes, não fosse também eles todos serem escolhidos a dedo e os produtores portugueses insistirem sempre dar mais protagonismo às personalidades e às tricas entre eles que propriamente ao esforço na confecção ou mesmo à qualidade final dos seus pratos.
Lágrimas. Lágrimas de sangue.


Casados à primeira vista


O Casados à primeira vista também na sua edição australiana é um formato engraçado. Mesmo numa edição em que colocaram uma mãe solteira gorducha a casar com um troglodita insensível e troll, o nível nunca baixou. Houve inclusive um par de gémeas que se casou, uma teve um parceiro super compatível, a outra nem por isso e mesmo perante os desafios colocados pela produção a desgraçada da gémea infeliz continuou sempre colaborante, facilitadora e respeitosa com o marido que lhe calhou na rifa. Sem baixarias, sem desrespeito, sem estrilho. 

O Casados à primeira vista português teve a Sónia que achou que ia encontrar um Ken e que nem deixou o pobre do novo marido abrir aboca e já o odiava por defeito. E tinha o Hugo que, pelo contrário, antes de conhecer a Ana e já a amava profundamente por defeito. E um Conde da Cedofeita e uma Graça que mostrou toda a sua graça até se terem lembrado de lhe atribuir o título Miss Ninfomaníaca MILF. E uma Eliana que fazia de reencarnação da Elsa do alpendre e do "beijinhos para a Segurança Social" do Big Brother 2 porque uma "loira burra" estereotipada como personagem-tipo calha sempre bem. E tinha o Daniel que, enfim, assusta-me mais que a Exorcista na cena em que esfaqueia o farfalota pimpinela. 
Como se isto não bastasse e porque a receita não era ainda suficientemente catastrófica adicionaram um extra que foi "especialistas" na área do amorrrr, tendo dois deles tirado a amorosa especialidade nessa grande Universidade que é a Universidade da Vida. Love coaching que seja, se há life coachings que se abra a coachingangada ao amor. 
Suspiro. Suspiro muuuuuito profundo. 

Lip Synk


O Lip Synk original é americano. Tem famosos a sério que fazem shows de karaoke a sério,sendo que o topo do topo foi alcançado pela Anne Hathaway. Tem dois apresentadores que têm graça, pertinência e presença e uma senhora que está ali a fazer de DJ a enfeitar que, mesmo na versão original., é completamente indispensável. Mas perdoa-se porque há espectáculo a sério. Já falei da Anne Hathaway?

O Lip Synk Portugal é constrangedor. Causa-me verdadeira vergonha alheia. Foram buscar de arrastão o João Manzarra que baby isto não é ter exclusividade e receber todos os meses a transferenciazinha do salário para andar aí a vegan-evangelizar as 'ssoas em viagens em sítios paradisíacose nada de dar o corpo ao manifesto na tevê. Nã, nã, nã, nã. E o Manzarra apresentou o seu protesto em forma de ninho de cegonha no cimo da cabeça e camisas havaianas. E juntou o César Mourão que é óptimo no improviso e no género comédia mas que aqui está tão à vontade como peixes no Trancão. Se a senhora que está a fazer de DJ na versão original já é sofrível, não consigo qualificar a prestação da Débora Monteiro e das suas gargalhadas de pequena hiena.
Isto tudo poderia ser absolutamente irrisório se Anne Hathaway mas não: toca de convidar pessoas para reproduzirem prestações fabulosas (sim, Sara Mato: tu mesmo!) mas que acabam assim tipo atuações de pechisbeque e ainda reforçar com jogadores da bola e actores e travesti-los. Em bom?
Tipo o Tom Holland a representar a Rihanna?

           

Não. Tipo matrafonas de Torres Vedras. Não barbeando o Raminhos e enfiando-o num vestido de tule e tecido rasca da Elsa ou oferecendo um José Raposo bardajão a mexer a boca sem saber sequer a porra da letra da música. Vómitos. 
Se querem matrafonas de Torres Vedras: assumam. Chama-se o coreógrafo daquilo e a malta assiste aos ensaios e é um conceito nacional e não importado. É original e tudo. Agora matrafonear o Lip Sync é só, mais uma vez, dar corda e alimentar a máquina de copulo-entretenimento tuga.

Como diria o meu amigo Pedro:  "Filhas, Lip Sync Portugal? Vão antes ao Finas apoiar as verdadeiras artistas!" 


             

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

E agora, que tal o desafio dos 50 anos?


A LEGO alinhou no desafio dos 10 anos com algum paternalismo porque, no fim de contas, é das poucas marcas que até podia alinhar no desafio dos 50 anos.

Sim! Hoje celebra-se os 50 anos do dia em que a LEGO apresentou o primeiro tijolo grande, para mãos pequeninas. Sim, o número é uma espécie de premonição pois foi em 1969 que o homem foi à lua e a LEGO lançou a primeira peça, numa alusão às vezes em que iríamos pisar as mesmas e íamos dizer palavrões relacionados com cópula.

Adiante.

A LEGO fez as minhas delicias em pequena (dava o dedo mindinho da mão esquerda para voltar a ter os mini vasos e as mini janelas com persianas com que enfeitava as minhas mansões feitas de legos) e as da Ana, pelo que aqui em casa temos dificuldades em decidir o que foi mais importante para a humanidade, mas deixamos a questão: o Apollo 11 podia ser desmontado e transformado num carro de corridas? Ah, poizé?

Para assinalar a efeméride, deixamos aqui alguns dos pontos altos de meio século de diversão de construção… em grande.

Parabéns LEGO: és fantástica, estás igualzinha e nada velha, não mudaste nada!

E ainda bem!

 

domingo, 27 de janeiro de 2019

Ana sobre o derby



Benfiquista convicta- filha de um sportinguista e de uma portista- ontem, antes do jogo, a Ana pergunta com a maior sinceridade:

"Não podem perder os dois?"

sábado, 26 de janeiro de 2019

Gente quadripolar que vale a pena conhecer


Em 2014 tinha a cabeça a mil e a fervilhar cheia de ideias, projectos e de gente gira à minha volta e a minha actividade online vivia uma fase desenfreada e lembrei-me de fazer um projecto em que partilhava pessoas que eu considerava interessantes,que tivesses histórias de vida, testemunhos ou apenas ideias interessantes e que eu achava uma pena que o Mundo inteiro não conhecesse. 

"Gente" era uma série de pequenas histórias, ao jeito dos Humans of New York, que eu coleccionava numa página de facebook. Era uma ideia que me entusiasmava mesmo até ao dia em que o Pedro, um dos intervenientes do projecto- actor que me foi apresentado pela Eunice- se suicidou. 

Com o seu desaparecimento, a ideia perdeu o brilho e eu o fôlego. 

No início deste ano, na sequência deste post e do imenso feedback que recebi de quem me lê, decidi que ia regressar a este blog (sem pressões, nem obrigações) e que ia voltar aqui a reunir todo o conteúdo que tenho produzido ao longo dos anos e que anda espalhado por grupos e páginas de facebook, instagram e blogs paralelos. Afinal, este é o meu canto. 

Amanhã encerro o grupo "Gente" lá no facebook, depois de hoje ter transcrito para aqui todos os posts que lá jaziam, agora todos arquivados na etiqueta "100 quadripolares que vale a pena conhecer". 

Que este ano me traga mais pessoas inspiradoras e inspiracionais, normais e humanas, cheias de virtudes e vícios: gente. 

The show must go on. 

#shorthairdocare




Sempre usei cabelo comprido. I mean: sempre. Nunca me lembro de ter usado cabelo curto, aliás, houve dois momentos: um no fim da faculdade e outro quando me separei, estava o meu avô doente e achou que estava pavorosa. E quando digo "cabelo curto" refiro-me ao comprimento da melena sempre abaixo da linha dos ombros. Também houve um episódio triste em que, antes de engravidar, fui com a minha melhor amiga ao cabeleireiro fazer franja e, à custa de um remoínho que quis desprezar e que tenho desde que nasci, fiquei com uma espécie de palmeira plantada na mona até a miúda nascer. 
Tirando isto sou muito conservadora no que toca ao meu cabelo: já experimentei ser ruiva e não gostei e acho que com cabelo castanho fico mortiça e sem salero, de forma que acabo sempre loira. E, obviamente, com o cabelo comprido. Um tédio, bem sei. 
Em 2018 ano tive aquele ano do caraças que já aqui falei e com as prioridades todas alinhadas com a questão clínica caguei um bocado nas coisas mundanas, entre as quais as idas ao cabeleireiro. Ora, o meu cabelo cresce a uma velocidade vertiginosa a modos que, nas fotografias de Roma, agora em Janeiro, constatei que parecia uma sócia da Sandália Moreira de forma a que, na última sexta, arranquei cheia de coragem e fui ter como meu cabeleireiro. 
Mal entrei no atelier o estupor Bruno estava a atender uma outra cliente de tesoura na mão. Disse boa tarde, alegremente, ainda de casaco vestido e mala na mão e queixei-me do comprimento do cabelo dizendo à toa qualquer coisa como "desta vez podes cortar o que quiseres, que isto está uma miséria!". Depois aconteceu tudo muito rápido: ele disse-me qualquer coisa como "vira-te lá para ver quanto é preciso cortar!", eu virei-me na posição de pé em que estava desde que chegara há 50 segundos e ele avança um "olha, tens que cortar mais ou menos isto!" e quando me virei para ver o gesto da medida que era necessário cortar, o que vi foi o carrasco da Maria Antonieta, com quase 60 cm de cabelo nas mãos que não percebi, de imediato, que eram os meus. 
A seguir ia desfalecendo. Literalmente. 
A Ana, mámen e a minha mãe que estavam a estacionar quando me deixaram à porta do atelier há 2 minutos entraram no dito cujo e eu estava de cabelo curto. Curtinho. Um bob ou lá que porra vem a ser esta. A minha mãe nunca me tinha visto de cabelo curto e a Ana ficou com os olhos muito, muito arregalados. Mámen começou a rir-se mas acho que era dos nervos. 
O resto já se sabe. Têm sido dias difíceis: ora porque vislumbro o meu reflexo nas montras e não identifico de imediato que sou eu,ou porque ponho um litro de shampoo para lavar o cabelo e fico com dois terços de litro por usar, ou porque não tenho pontas onde pôr o amaciador porque as pontas são o que me resta de cabelo ou porque sinto, pela primeira vez na vida, frio no pescoço e é estranho ou porque não me sinto mesmo eu. 
O meu cabelo nunca alinhou em modas: é mesmo uma questão de identidade. E sinto-me diferente-menos eu- com o cabelo curto. Apesar da maioria das pessoas achar que pareço mais miúda, sinto-me mais adulta (faz sentido, uma vez que uso cabelo comprido desde pequena e prolonga de forma contínua essa sensação de infantilidade). E,apesar de não precisar porque isto penteia-se em três escovadelas e está sempre com bom ar, uso muito mais o secador e a escova alisadora porque é tudo muito rápido e fácil. E uso mais brincos para ver se encho um bocadinho este espaço que ficou por preencher sobre os ombros. E maquilho-me mais, não sei porquê, ou porque me sinto mais adulta ou porque a cara está menos escondida e precisa de um toque de cor. 
Os dias passam e ainda estou numa capilar-nostalgia, um hair blues, uma coisa parva. Tenham paciência e partilhem comigo que também se sentem assim para não me sentir tão solitária e drama queen. 

A modos que é isto: sansona. 

É assim que- por enquanto- estou. 



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...