quarta-feira, 27 de março de 2019

O Mundo divide-se

O Mundo divide-se entre quem diz shandy e quem diz panaché.

Sobre a mais recente polémica da Zippy





Imagine-se que as convenções diziam que os pêssegos eram frutas de meninas e os ananáses frutas de meninos
Talvez isto pareça um título ridículo. Só que não.
Imagine-se que Portugal era um país de rapazes e Espanha um de raparigas. E que quem gostasse de passar férias em Portugal fosse masculinizado por isso e que as miúdas estrangeiras que escolhessem vir apanhar o sol dos Algarves fossem conotadas como machonas. Já se fossem a Espanha que delicadas, que princesas, que divas. Rapazes a quererem ir a Espanha: eh láááá, mariconças!
Imaginem que os cães eram animais de meninas e os gatos esterotipadamente animais de gajos. Que às meninas, desde pequenas, nunca fosse dada a oportunidade de escolherem gatinhos como animais de estimação e que aos rapazes os cães não estivessem, por causa dessa coisa maravilhosa e científica que é o senso comum, acessíveis.
Poderíamos continuar: a carne é comida de rapaz, o peixe de menina. Os girassóis são flores de menina e as tulipas dos meninos. O comboio é um transporte de gaja e o barco um meio de transporte com cojones, de gajo! And so on and on.
Estúpido, não é?
E se a minha mãe, desde que eu nasci, não me desse oportunidade de experimentar ananás, de visitar o Algarve, de ter um gato, de andar de cacilheiro, de plantar nos vasos do meu parapeito túlipas ou de me deliciar com um naco de carne. Porquê? Porque nasci com pipi.
E se a mãe de mámen, desde que ele nasceu, não lhe desse oportunidade de comer pêssegos maduros no Verão, de visitar Barcelona, de ter um cão, de espreitar as praias da linha através da janela do comboio, de ter em casa uma jarra de girassóis e de comer peixinho grelhado à beira mar. Porquê? Porque nasceu homem.
Continua a ser estúpido, não é? Ainda mais estúpido, certo? Pois.
Atribuir-se género a seres inanimados é só tolo. Porque não pode a Ana usar roupa azul e o meu sobrinho Pedro cor-de-rosa? Porque não pode a Ana brincar com carros, espadas, usar bigodes quando se fantasia e experimentar o jogo simbólico sem que a "corrijam" como antes se faziam aos canhotos, porque uma menina é uma menina, por quem sois? Porque não pode o meu sobrinho Pedro ter uma casinha de bonecas, uma cozinha e brincar com tachos e um ferro de engomar e imitar os pais (sim, os pais, que o pai dele não ajuda em casa, que não é desses, participa mesmo equitativamente na dinâmica da gestão doméstica) sem que o olhem com ar de terror, vão pôr o menino um panasca, ai Jasus?!
Deixemo-nos de preconceitos tontos! De rótulos, categorias, etiquetas e segmentação. Voltemos ao título do post e afianço-vos que adoro... salada de frutas!
Obrigada Zippy pela colecção sem género! Because I'm Happy!
Que se somem e sigam os exemplos. O caminho faz-se caminhando! #happypromeninoepramenina

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do pai 2019


Tinha uns óculos grossos de massa. Um nariz de papagaio. Olhos pequeninos que tinham boca, só assim se explica que se risse com os olhos. 
Ria-se com o corpo todo, aliás, era feliz. 
Ensinou-me a bondade, a generosidade, a segurança de ser amada incondicionalmente, o orgulho nas raízes, o bom humor, histórias e o folclore do Mundo. Tocava realejo até eu reclamar muito e ninguém lhe tirava o comando da televisão da mão. Tinha cassetes de anedotas e do Mario Gil com a música dos caminhos de Portugal. Ensinou-me os truques da sueca, do dominó aos pontos e o que é um fora de jogo no futebol. Só não me ensinou a amar o Benfica mas divertia-se por eu ser do contra. Deu-me colo até ao fim dos seus dias quando era o seu corpo mingado que já cabia no meu regaço. Tomou conta de mim até ao fim. 
Amou-me sem medida até hoje porque o seu amor mora em mim para sempre.
 Feliz dia a todos os avôs que dão corpo e alma ao clichê de que ser avô é ser-se pai duas vezes. 
O meu foi-o uma: a vez da minha vida inteira

quinta-feira, 14 de março de 2019

E a Primavera sempre cheirará a ti



A natureza é indiferente à saudade. À ausência. À dor. 

A natureza cumpre a sua natureza de nascer, crescer, florir, murchar, morrer sem morrer, morrer adormecendo com a certeza de que o ciclo se repetirá indefinidamente. A natureza a naturezescer. 

Tudo nos sobrevive: as árvores, o céu azul, os meses, as estações do ano, as pedras da calçada. Nós é que- sobranceiros- nos achamos humanamente sobrepostos a tudo isto. 

A árvore é indiferente à saudade. À ausência. À dor. E folheia e floresce a anunciar a Primavera que chega sempre, com menor ou maior atraso, indiferente à humanidade. 

Na fila do trânsito, parada a olhar pela janela, irritam-me, hoje, as flores brancas a anunciar a tua Primavera, o dia do teu aniversário, que sobrevivem indiferentes ao teu desaparecimento. Indiferentes à dor, à ausência, à falta que me fazes. Tenho poucas, quase nenhumas certezas na vida, para além de que esta saudade que ganhou raízes em mim depois da tua morte sobreviverá, como parte da natureza, desflorescida e triste, sobreviverá até mesmo a mim. 

 Noventa anos do teu nascimento: parabéns, ‘vó

segunda-feira, 11 de março de 2019

A ASSISTIR | La otra mirada


Mandaram-me várias mensagens para que eu escrevesse alguma coisa sobre aquilo dos programas do quem quem casar com o carochinho.

 Não vi. Nem quero ver.

 Às televisões interessam-lhes as audiências. Aos concorrentes interessa-lhes a fama. Não alimento nenhum desses interesses.

Estive a ver os episódios em atraso da minha série preferida do momento "La otra mirada"*. Passa na RTP2 num horário pouco nobre e é a antítese do que estes apregoam: questiona a sociedade machista, os costumes sexistas enraizados, a tentativa de mudanças de paradigma e é mesmo, mesmo gira.

 Sim, podia alimentar este buzz vendo os programas dos carochinhos: mas o meu tempo é demasiado precioso para pão e circo.

 Acho que é isto o estar-se a ficar simplória. Ou velha.

sexta-feira, 8 de março de 2019

E metam as flores e os vales de desconto onde o sol não brilha

Cristóbal Escanilla


Não me desejem feliz dia da mulher quando ontem apareceu a cabeça de uma de nós num saco a boiar num rio. 

 Não me desejem feliz dia da mulher quando tem que sair uma lei que obrigue a que haja cotas nos locais de trabalho para haver equidade entre géneros (e ninguém vai respeitar a puta da lei). 

Não me desejem feliz dia da mulher se esta semana saíram notícias de que em vários hospitais públicos foram causados obstáculos a muitas de nós ao optarmos por IVGs.  

Não me desejem feliz dia da mulher se trabalho com mais de 80% de famílias monoparentais em que cabe às mães a gestão integral da vida dos filhos com deficiência. 

 Não me desejem feliz dia da mulher se tentam resumir este dia a bombons e calarem a nossa revolta com flores como se fôssemos tontas. 

 Não me desejem feliz dia da mulher se a percentagem de mulheres em cargos de chefia é vergonhosa.

 Não me desejem feliz dia da mulher se continuam a “esterilizar” à força mulheres com deficiência mental, se não há empregos para mulheres com deficiência e se a violência sobre mulheres deficientes institucionalizadas é uma realidade camuflada.

 Não me desejem feliz dia da mulher se violaram no outro dia uma mulher em coma que acabou por engravidar como se fosse apenas um saco de despejo de esperma. 

 Não me desejem feliz dia da mulher se o mercado sexual está todo virado para fazer de nós objectos e se a vulnerabilidade a que o sistema nos veta empurra tantas de nós para ele. 

 Não me desejem feliz dia da mulher se há tráfico de mulheres no Mundo e mutilação genital feminina (em Portugal também, não sejam inocentes)e tantos crimes hediondos dirigidos a nós todos os dias. 

 Não me desejem feliz dia da mulher, não me ofereçan as putas das flores, a não ser que sejam cravos na lapela hoje e amanhã nas marchas e nas ruas. 

 E -mais importante- façam um pirete a que vos desejar feliz dia da mulher. 

Este dia não é feliz: este dia é de luta. 

 Lutamos?

domingo, 3 de março de 2019

Em calhando já é justa causa para renovar votos



Chove a rodos em Braga.

Ele na surra comprou uma regueifa, vinho verde, salpicão e chouriças de cebola. E pastéis de bacalhau.

 Enquanto eu tomava banho pôs a mesa de forma tosca com a Ana .

A vida pode ser pão, chouriças e amor e não falta nada.

Para nunca me esquecer




Hoje foi o dia em que apresentei a Ana ao início de mim, raiz da família, Minho nas veias para sempre.

sábado, 2 de março de 2019

É a chamada volta ao Minho em 80 minutos.



Uma única refeição em Braga e já cá canta broa, tortilha, arroz de pato, rojões, bacalhau, vinho verde e pudim abade de priscos.

Um patrocinador para o Vasco, já!

A EXPERIMENTAR | Manjar do Marquês



Sentamo-nos ao balcão (para evitar as filas infindáveis para os lugares sentados) e pede-se o arroz de tomate, a especialidade da casa.
O que acompanha pouco importa- por aqui foram umas filetes de peixe que se desfaziam na boca e um bife panado que fez as delícias da Ana- porque o arroz húmido, temperado no ponto e malandrinho é que é o marquês.
No fim: leite creme e não esquecer de trazer beijinhos para o resto da viagem. 
É- oficialmente e certificado pela família quadripolar- o melhor restaurante de beira de auto-estrada de Portugal.
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