sábado, 31 de agosto de 2013

Rúben Patrick, o meu amor está p'ra Norte...



Foi o Ruben Patrick que tirou. Casa de Grieg, em Bergen. O meu honey bunny Pipoco, quadripolarizou a Noruega. 



domingo, 25 de agosto de 2013

Férias 2013- dia 3: Paris está a arder

No terceiro dia o nosso amigo deixou-nos à nossa mercê e o programa das festas foi todo feito a três: Quartier Latin, crepes de nutella, Jardins do Luxemburgo, crepes de chocolate preto, Panteão, gauffres, até que mámen se lembrou que na véspera não tinha visto em detalhe Notre Dame e quis voltar. Em péssima hora. 
Chegados a Notre Dame o rapaz teve o seu orgasmo católico: estava a haver uma missa ao vivo na catedral. Emocionado, avisou-me que ia comungar com a filha ao colo e pediu-me que o acompanhasse ao lado, munida do iPhone para registar o momento com a câmara do meu telemóvel. Assim fiz. 
Chegados à frente do padre, eu de telemóvel em riste, ele com ar muito compenetrado, vira-se o padre, aponta a hóstia e sussurra um "Le corps du christ"... para mim. 
Completamente apanhada de surpresa, olhei para a hóstia e fiquei uns 30 segundos a pensar nos pecados todos da minha vida e que não me tinha confessado desde o tempo em que pesava 50 Kg. Ok, eu sou uma católica não praticante mas, caraças, sei as regras da coisa: não pidia tomar a hóstia, caramba! O padre, ao ver a minha cara surpresa, não foi de modas e empurrou-me a hóstia pela goela abaixo. Tumbas!
Meio perturbada, afastei-me para um dos poucos cantos menos atafulhados da catedral e fui orar, juntamente a mámen que já orava de forma concentrada. Com a cabeça toda quinada e a ideia dos pecados todos por confessar, estive ali uns bons 2 minutos a auto-flagelar-me até me cheirar a esturro. Literalmente. 
Mámen continuava a orar e eu só sentia calor e um cheiro a porco queimado.Pensei que era castigo divino, psicossomatização até que uma japonesa me alertou, com um ar muito aflito: o meu cabelo estava a arder. 
Ou seja, depois de um maravilhoso e eficaz alisamento marroquino, o cabelo ardia-me e encaracolava com o calor do fogo das putas das velinhas a que me tinha encostado, inadvertidamente. 
Mámen, de olhos arregalados, desviou-se com a miúda para evitar algum acidente e só dizia: "pára de dar saltinhos e apaga isso com a mão, caramba!". Olhamesta, han? Para além de queimar o cabelo o estupor ainda me queria queimar as manitas? Tá legal... Vai tu!
A japonesa a esta hora arrastava-me uns dois metros, para ser prestável, com um ar nipónico-aflito assistindo à minha histeria misturada com o auto-controlo para não largar uma série de palavrões cabeludos, pois ainda tinha hóstia colada nos dentes e estava dentro de uma igreja. Só me saía um "fo...rra! fo...rra! fo...rra!" até, finalmente, sentir água na marmita. Nunca a expressão água benta foi tão literal como naquele dia. 
Saímos de Notre Dame num ápice. Mámen foi a cantarolar para a miúda a canção idiota dos GNR até chegarmos às Plages de Paris para um final de tarde fabuloso. Calou-se, quando o ameacei que era menina para o fazer aparecer morto a boiar no Sena.
A mim só me vinha à ideia do título do maldito livro que tinha trazido na mala. De facto, "Paris já está (va) a arder!.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Férias 2013- dia 2: novas tradições sobre as pontes do Sena e mentiras corcundas

Acordar em Monmartre com uma vista fabulosa sobre Paris é indescritível. Baguete fresquinha na bancada de kitchenette, um petiti dejeneur simpático e rumámos a Sacré Coeur. Escadarias infindáveis, nicles de monsierus gentiles a oferecerem-se para ajudar a subir com o carrinho do bebé e percebemos porque é que a basílica se chama de sagrado coração: com o cansaço com que chegámos ao cimo das escadarias tem mesmo que ser um coração sagrado para aguentar a arritmia.
Ouvimos um harpista maravilhoso a tocar o "Imagine" sob protestos de mámen que achava que com tanta música francesa era trés estúpido o homem tocar Beatles e seguimos para a Place du Terte, onde por cada metro quadrado um artista de rua queria, à viva força, recortar-me o perfil do rosto e emoldurar, Imagine-se... logo a mim, cujo pior perfil é, exactamente, o de ladex! Descemos pelo funicular e fomos até ao Trocadero e embarcámos num passeio a pé que nos rendeu umas boas horas, junto à rive gauche, estreando os quase 2,5 Km de paredão entre o Museu d'Orsay e a Ponte de l'Alma, reservado aos peões e cheio de actividades ao ar livre para se ir fazendo. Muito cool, mesmo!
Entretanto, saloios, vimos a Pont des Arts e os famosos cadeados do amor e decidimos que queríamos cumprir o ritual. Subimos, tínhamos a Ana ao colo, veio uma rajada de vento e em vez de ser a chave do cadeado que foi atirada ao rio, foi mesmo o chapéu da Ana que lhe voou da cabeça e se mergulhou. Como somos uns trengos, começámos a bater palmas e os três (nós e o nosso amigo) a fotografar o chapéu a boiar no rio. Logo, ditámos uma tendência e saímos da ponte a gargalhar, enquanto víamos dois casais de chineses a sacarem dos chapéus das suas crianças e a seguirem o nosso ritual. Acreditariam que era uma forma supersticiosa de garantir juízinho na cabeça às crianças para sempre?
Chegámos a Notre Dame, cansados, eram 18h45m e... a catedral tinha acabado de fechar a porta da entrada. Como mámen ficou catolicamente desolado eu resolvi a questão: sugeri-lhe que mentisse ao segurança que estava na porta da saída e lhe pedisse para entrar pela saída, pois perdera o chapéu da miúda. Mámen disse logo que isso não era uma cena lá muito católica, mentir para entrar na catedral, mas eu contra-argumentei que não se tratava de uma mentira: nós perdêramos mesmo o chapéu, era verdade. O facto do porteiro subentender que perdêramos o chapéu lá dentro já não era responsabilidade nossa.
Quinze minutos depois mámen e Ana voltaram, encantados da vida, da sua visitinha expresso a Notre Dame. Os sinos tocaram eram sete horas, num rebater imponente. O Corcunda deveria estar zangado comigo e com a treta que eu arquitectei para possibilitar a visita, pelo menos foi a história que ouvi mámen, divertido, a contar à Ana, sempre sonso, para me fazer sentir culpa judaico-cristâ pela mentira que lhe deu jeito.. a ele. Ainda o ameacei que ia chibar-me ao porteiro e acusá-lo da trafulhice e que a mentira tem perna curta. Ele acrescentou "tem perna curta e... é corcunda".
Estuporê!

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Férias 2013- dia 1: La cucaratcha em Paris

Terceira directa para fazer malas, colocar roupa a lavar e a secar às 3 da manhâ e eram seis da matina e estávamos a caminho do aeroporto. Na mão da Ana, já cheia de pica, jazia o presente que a Pat dos Bicharocos Carpinteiros lhe oferecera na véspera: umas maracas falantes que cantam la cucaracha, falam mexicano e arriba por aí fora. O brinquedo é mesmo giro mas tem um pequeno senão... não tem botão de on e off, activando-se com o movimento. Fomos, portanto, a ouvir mexicanices durante o percurso Cascais-Lisboa. 
Chegadas ao aeroporto  primeira surpresa: as coriscas que vieram em representação do arquipélago açoriano à festa da Ana, com o patrocínio da SATA, tinham perdido o avião devido a valores muito altos que se levantaram. Mais concretamente, 20 centímetros de altura de valores, garanto-vos, que quando vi os sapatos que uma e outra compraram fiquei com vertigens. Lavoisier é que tinha razão: nada se cria, nada se perde e tudo se transforma e a chatice de um voo perdido e de um voo de substituição atrasado valeu-nos gargalhadas e muitos dedos de conversa com sotaque micaelense na esplanada do aeroporto da Portela. Opá, amamos aquelas duas atoleimadas! (sigam o périplo das suas aventuras aqui: é de chorar a rir!)
Fizemos o check in, alegremente, sorrimos face à iminência de termos prioridade em todas as filas dali em diante à custa da miúda, despachámos toda a bagagem, excepto o carrinho da miúda, a mala com os seus pertences e as maracas, para se entreter. 
A saga começou logo no primeiro tapete: tirar todos os tatarecos da mala da Ana e- novidade!- beber um bocadinho de todos os líquidos, para mostrar que não eram substâncias nocivas. A esta hora, mámen já tinha avançado com a miúda e coube-me a mim ser a escanção de serviço: umas golfadas de 5 qualidades de sopa, 2 bocados de duas garrafas de água distintas, um gole de xarope de maçã reineta e juro que temi que eles me obrigassem a testar ali, ao vivo e a cores, os supositórios de benurom que também levava, para um caso de emergência. A esta hora mámen ria-se da minha cara aziada.
Dentro do aeroporto, o mundo maravilhoso das filas prioritárias: podia-me habituar a isto para sempre! À chegada do avião, despachámos o carrinho da Ana e lá dentro enfiámos a maraca falante, numa pequena bolsa e entrámos num avião da companhia aérea mais assustadora da história das companhias aéreas lácoste. Fixem este nome para não reservarem voo aqui: Air Meditérrené. 
Assim que entrámos, receberam-nos com os rebuçados de mentol e eu devia ter suspeitado que era por causa das tosses mas não: comi e calei. Durante todo um voo de horror: cadeiras apertadíssimas, um corredor minúsculo, ar mega saturado intervalado de rajadas de ar condicionado (don't ask!), a recusa de uma mantinha quando a pedi ao comissário de bordo e o pior de tudo: não se viu um dente nem um esgar de sorriso em qualquer membro da tribulação. Pensei que ia dormir sossegadinha o resto da viagem, fazendo companhia aos meus dois emplastros que assim que sentaram o rabo nos bancos, adormeceram de imediato mas não... Fiquei com vontade de fazer xixi. Levantei-me e maldizi as sopas da miúda, as garrafas de água e até o golaço de xarope de maçã reineta que, ainda antes de eu ter tempo de chegar ao minúsculo wc, deu de si. Foda-se, aquilo é para a prisão de ventre da miúda e ela só toma uma colher de café! Eu tinha acabado de deglutir um grande golo. 
Estávamos quase a aterrar quando desocupei a casa de banho. A vantagem é que todos os doces que ingeri nas véspera da viagem a propósito das festas de aniversário da Ana não me terão engordado uma grama, garanto-vos. 
Charles de Gaulle recebeu-nos com uma temperatura amena. A partir de agora tudo iria correr bem. Fomos para as passadeiras aguardar pela bagagem e eu fui para a passadeira de bagagem fora de formato para recolher o carrinho da Ana, quando um francês me chamou. Eu falo francês tão bem quanto mandarim, portanto, imaginem a cena deplorável para eu tentar perceber de que reclamava o homem. Às tantas, com muita linguagem gestual à mistura, lá entendi que me pedia para desapertar todos os fechos da bolsa do carrinho e então percebi: o monsieur tinha apanhado um cagacê com a maraca falante, pudera... Lá lhe acenei com aquilo, apontei para a miúda ao longe no colo do pai e tenho a certeza que o homem me chamou nomes feios assim que eu virei as costas. 
Mámen, às gargalhadas, continua a dizer que o homem teve medo que eu tivesse um anão mexicano evadido no carrinho da miúda, tal a quantidade de vocabulário hispânico que tem a porra da maraca. 
Mas, enfim, estávamos em solo parisiense! Uh lá lá! Ou seria: arrriiiibbbaaa?


A SATA no meu coração!

Assim, a recolha de sangue da SATA, no dia de anos da Ana foi, de facto, um verdadeiro sucesso e contou com a colaboração de cerca de 52 funcionários e familiares. No final do dia, a SATA contribuiu com 17 litros de sangue para o banco de sangue do Hospital do Divino Espírito Santo (cerca de 37 pessoas conseguiram doar)!
E sim, a Ana não é continental-muggle, é half-azorean-blood, pelo que toda a família ficou tocada com a generosidade da companhia área e dos seus colaboradores. Agora promovidos a quadripolares sata-honorários!
Obrigada, coriscos mal amanhados e beijinhos da família pataca-falsa!

Imagens gentilmente surrupiadas à Corisca Ruim que juntamente com a Carlinha foram as embaixadoras SATA na festa da Ana. 

Imagem da tela testemunha da generosidade dos colaboradores da SATA, gentilmente gamada à Corisca Ruim

Judite, Lorenzo, Gestalt e não resisti a arrotar a minha posta de pescada

De besta a bestial ou de bestial a besta, neste caso- foi o processo sofrido por Judite de Sousa após a entrevista feita a um rapaz luso-brasileiro multimilionário. 
De acordo com a teoria gestáltica, não se pode ter conhecimento do "todo" por meio de suas partes, pois o todo é maior que a soma de suas partes. Mas o gestalt é interessante à luz conceptual da Psicologia e nas redes sociais de nada vale.
Nas redes sociais é simples, rápido e instantâneo: mete-se tudo num mesmo saco, cria-se uma opinião sobre uma pessoa com base num episódio isolado, faz-se poupança cognitiva e sumariza-se todo o percurso da jornalista a partir de um episódio, cria-se um estereótipo, de caminho exorcizam-se demónios interiores e aplica-se a teoria da frustração-agressão, metem-se informações soltas, ou melhor ainda, interpretações empíricas e confabulações sobre a vida pessoal da senhora ao barulho e voilá: Judite de Sousa na fogueira!
Vamos por partes: foi lamentável a prestação da senhora durante a entrevista. A começar pela expressão não verbal, pelo sorriso irónico e sarcástico, pelo tom de voz condescendente, inquisitivo e acusador, pela formulação de perguntas retóricas ("você tem noção?" ou "você sabe que é um privilegiado?", "é verdade que tem o sonho de ser piloto de F1?"), pela fraca gestão emocional, pela formulação de juízos de valor ("você é um verdadeiro consumista!" ou "você é muito excêntrico+") pelas perguntas fechadas não isentas e direccionadas ("porque é que você não ajuda as pessoas que lhe pedem ajuda?") e a acabar pelo não respeito pelo tempo de resposta do entrevistado ("você vai continuar por Portugal/é verdade que tem o sonho de ser piloto de F1?") e um rol de péssimas intervenções menos éticas e deontológicas por parte de Judite de Sousa.
Outra questão é o herói em que se tornou o rapaz. Lorenzo é o que lhe apetece ser, o melhor que sabe com os recursos que tem. Daí a tornar-se um herói nacional, "pôamorrrdocrrrissstoredentô", passem-me um x-acto. Em Janeiro- ai que heresia!- uma menina burguesa com sotaque de Cascais foi achincalhada em praça pública por aspirar a uma mala Chanel. Aspirar, atenção. Desejar. Sonhar com. Que era fútil, que ousava sonhar com objectos materiais em tempos de crise, com tanta gente a passar fome. Em Agosto, afinal, um rapaz que tendo dinheiro para concretizar ao invés de apenas sonhar, já é um herói por conduzir ferraris às piruetas e beber champagne francês como quem bebe águal del cano. E a liberdade de cada um sonhar ou ser o que quiser, desde que não prejudique os demais, han? 
Eu não sou a favor da Judite nem contra o "pobre" Lourenço. Eu só acho que, tal como no Gestalt, não se deve julgar o todo pelas partes. A Judite de Sousa, para mim, continuará a ser uma jornalista que me merece respeito e admiração, não ignorando que trabalhou no terreno em situações duras como no Ruanda ou na Sérvia, sem os Louboutin com que as mesmas pessoas que defendem o champagne do Lorenzo a acusam agora. Continuará a ser uma pessoa com um percurso profissional digno e que, apesar das origens humildes, subiu na vida a pulso e foi destacada, sem ser em vão, por um Presidente da República com uma Ordem de Mérito. Também é a Judite de Sousa que teve uma prestação lamentável na última sexta-feira mas- repito!- para mim, isso não a define como o todo que é. 
Já o Lorenzo é um rapaz que gasta o seu dinheiro da forma como mais lhe dá prazer. Nem herói nem ser abjecto, é um milionário a quem não reconheço mérito por ter chegado onde chegou mas a quem respeito, da mesma forma, que gostava que me respeitassem se ganhasse o Euromilhões e contratasse um sushiman particular para me cortar sashimi sempre que me desse na real gana. Não o conheço muito para além do que vi na entrevista, não conheço o seu percurso como conheço o de Judite de Sousa, pelo que, não o consigo julgar como um todo, optando assim, por não o categorizar, no meu julgamento, como um herói ou uma vítima, mas como um homem rico que tem o livre arbítrio de fazer o que quer com o dinheiro que tem, sabendo que, com toda a certeza, na realidade será um todo muito mais que isto.
Dizem que é da silly-season e misturam a má prestação episódica de Judite de Sousa com a parelha de cornos que, hipoteticamente, levou do Fernando Seara e eu sopro e reviro os olhos, querendo acreditar que não é a season que é silly: são mesmo as pessoas. 
E, respiro fundo e volto a relembrar para mim mesma a teoria do gestalt: o todo é mais que a soma das partes. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Falha minha, auto-flagelação e tentativa de remissão

A Cláudia, autora do e'ventar foi uma peça essencial na organização da festa da Ana, membro do núcleo duro desde o dia 1, só não pode estar presente porque valores mais altos se levantaram: teve que ir beber um kima, com o pretexto de compromisso laboral, directamente a S. Miguel!

Obrigada, Cláudia! Do coração.

(E tem um blog tão giro, e é tão gira e magra e bronzeada e desportiva e em forma que a seguir aos agradecimentos largo já um: falece!!!)

Férias 2013- dia 0: We'll always have Paris

Domingo de madrugada, a sair do Clube VII, da segunda festa de aniversário depois de dois dias ininterruptos de festas da Ana. Pólo Norte esfalfada, mámen esgotado, chegamos à carrinha, emprestada pelo meu tio, e percebemos que se escafodeu o vidro lateral do carro numa das viagens de carga e descarga de coisas para a festa. 
Colocamos a carrinha na garagem, preocupados pelo facto de, nesse dia à tarde, termos que devolver a carrinha ao seu dono e este ser picuínhas. 
Os planos de domingo eram ir almoçar com a Luisinha e mummy a Lisboa, para matar as saudades que não conseguimos na festa, ir buscar os restos do lanche da festa de sexta-feira ao local onde o mesmo decorreu, arrumar os 3526 brinquedos que a Ana recebeu, limpar a casa que estava num caos, fazer malas, tudo isto em 24 horas, já que o voo para Paris seria pelas 06h da manhã do dia seguinte. No meio disto tudo queríamos dormir mais que a média de 3 horas que tínhamos feito nos dois dias anteriores. Mas nada disso, eram oito da manhã e estávamos de pé por causa do cabrão do vidro do carro. 
Encontrar uma oficina aberta a um domingo de manhã é tão "fácil" como encontrar um símbolo da Hello Kitty em qualquer divisão da minha casa. É puramente conceptual: não existe!
Tentámos a Midas, a Precision e o Diabo a quatro.: nada! Aparentemente, ao domingo, as pessoas que fazem esse tipo de arranjos não estão disponíveis. 
O meu tio é um picuinhas do caraças e eu tremia só de pensar na fita que ia ser quando visse o estado do vidro, todo quinado para dentro da porta. Já mámen pensava que iam arder os seus planos de pedir a auto-caravana emprestada ao senhor, depois de termos feito aquele bonito servicinho à carrinha. 
Fomos às oficinas mais recônditas que possam imaginar, em armazéns com ar chunga recomendados por amigos de amigos. Nada. 
Duas da tarde e liga-me o meu tio a avisar que ia buscar a carrinha às seis. A esta hora, já dominava todo um curso de mecânica e bate-chapas intensivo e perecebera que não fora o vidro que se escafodeu mas, sim, o elevador do vidro. Sistema eléctrico, portanto. Encontrámos um mecânico numa tasca do Cabreiro, recomendado por um conhecido de um compadre do irmão de um amigo, que nos deu uma esperança: bastava encontrarmos um elevador compatível num ferro-velho, que ele faria o favor de o substituir e arranjar o estrago. 
Cinco e meia da tarde e tínhamos batido todos os ferro-velho de Cascais, Oeiras e Sintra: tudo fechado ou por ser domingo ou por ser Agosto, mês das férias. A esta hora já eu soltava mais palavrões que uma peixeira do Bolhão, exausta, cheia de pó de ter que andar em voltas e reviravoltas em sítios inóspitos de janela aberta (claro que o elevador avariado tinha que ser o do lado do pendura- of course!- para ser eu a comer com o pó!) e aborrecida de termos que sair do carro à vez em sítios como a Rinchoa (não gozem!), a Abrunheira e Cabra Figa, para que ficasse sempre um de guarda dentro da puta da carrinha, de ar condicionado natural ligado, com a janela sempre escancarada. 
Foi o meu outro tio que nos arranjou uma solução provisória, eram 17h45: desmontou a porta, colocou o vidro para cima, colocou ali uma engenhoca com um prego a segurar o vidro e fechou-o, dando-nos ordens que nos calássemos bem caladinhos e forjássemos que o vidro se "avariasse" quando fosse o dono da carrinha a tocar no botão de abrir o vidro. Assim esperávamos que acontecesse. 
Eram 19h, chegou o dono da carrinha, já atrasado. Nós mais pálidos que as roupas da Simara quando mete lá os búzios dela a Iemanjá e com um sorriso altamente amarelo. 
O meu tio pega na chave, despede-se e já na porta pergunta: "Olhem lá, o vidro da carrinha não caiu? É que esqueci-me de vos avisar que o elevador está estragado e que o prendi com um pauzinho, provisoriamente, para a janela estar sempre fechada. Como esqueci-me de vos alertar, se tentaram abrir a janela, de certeza que ela caiu, não? Não é grave, foi só uma solução provisória para poderem usar a carrinha no sábado, já comprei um elevador num ferro-velho e vou substitui-lo hoje... Caiu ou não?"
Duas directas em cima, um dia inteiro a comer pó, mil oficinas ilegais e ferro-velhos duvidosos visitados, percebi que sou capaz de transfigurar o meu rosto de uma maneira que qualquer guionista de filmes de ficção científica me contrataria sem casting.Só não espumava da boca literalmente porque, de resto, toda eu parecia um monstro apático e em choque.
Mámen, meio anestesiado, sorriu, com ar de quem levou com uma cena na cabeça, ainda abananado. 
Só o ouvi murmurar, a poucas horas de embarcarmos, com restos de comida em mil tupperwares na bagageira do nosso carro por distribuir, tristes por não termos conseguido ir ter com a Luisinha, uma torre de caixas de brinquedos a atafulharem o quarto da cria, uma casa num verdadeiro caos, um dia inteiro ardido e três malas por fazer (e roupa por lavar e sacar antes de ir lá para dentro) um sussurrante: "We'll always have Paris".
...

sábado, 17 de agosto de 2013

A festa da Ana serviu para angariar cerca de 300 doações de sangue e de potenciais dadores de medula

Serviu para perceber a amizade que as pessoas me dedicam. Para me emocionar com a dedicação e o empenho e a energia e a força de trabalho da Sandra, da Bé, da Laura, da Catarina e da Sílvia. Para dar um beijo emocionado à minha Luisinha e mãe que vieram de Guimarães para a festa. Para conhecer o Zouk, o melhor DJ do Mundo, um tipo tão fixe que nem dá para vos explicar o quanto. Para ficar com lágrimas nos olhos quando vi a Zia, o Guilherme, a Matilde e o Manel que vieram do Porto. Para ver o ar cansado da Niki a fazer algodão doce, como se não houvesse amanhã, numa mãquina caseira mas sem nunca perder o sorriso e a boa disposição. Para conhecer a Laia pela mão da Paula. Para ficar fã dos tipos do Mecanismo Criativo, o grupo de teatro mais cool de que há história. Para saber que a Paula apoia sempre a família quadripolar. Para dar um abraço e mil dedos de conversa com o Luis da Confraria da Empada. Para ser reconhecida pelo colar de arco-íris oferecido pela Bé e não por ser a loira com o maior mamaçal da festa. Para ficar enternecida com o spot da Olga, tão mimoso e querido, complementado pelas almofadas oferecidas pela tia Laura. Para elogiar a saia fashion da Rute do Alentejo que trouxe toda a família e espetadas de fruta. Para passar a ser fã da SATA. Para matar saudades da pronúncia micaelense com a Corisca e a Carlinha, vindas directamente dos Açores. Para dar um abraço apertado à Teresinha. Para gostar ainda mais de Aveiro, por conta das 3 metades mercearia. Para saber que conto sempre com a Alexandra-a Grande, o Troll of the North, a Mónica Lice, a Ana do Pedagogia do Terror, a Marta do Dolce Far Niente, a Niki Ansiedades, a Patrícia do Bicharocos Carpinteiros. para ver mámen enfardar batatas fritas da Dalimar que nem um esfomeado. Para rever a Sofia Sengo. Para gostar mais da Zon que da MEO, que nos deu pipocas. Para beber um gin escondidinha com a Silvia do Clube VII. Para dar dois dedos de conversa animados com o casal porreiraço que veio em representação da Padaria D'Avó. Para matar a sede com o melhor granizado de limão do Mundo da Blueberry. Frozen Yogourt. Para perceber que a Ana e esperta e só vai para o colo de mulheres com fibra como a Filipa Catarino. Para que a Cozinha Verde me sensibilizasse para a inclusâo das crianças celíacas e dos convidados vegetarianos nas festas de aniversário. Para ver a Carla Rocha da RFM a arrumar o estaminé no fim da festa. Para saber que Mámen, Pedro, Mário, Samuel (da Olga), António, Andrea, Rui Charroque e marido da Ilze (não me recordo do nome) são os tipos mais fixes da história dos tipos fixes. Para- finalmente!- experimentar as tãos famosas Bolas de Praia. Para ficar embevecida com o abraço da Inês Pessoa. Para fazer uma festinha (consentida!) na barriga da Cláudia só para cutucar a Maria Catarina. Para confirmar que a Dânia é cá da malta. Para me deliciar com os bolinhos caseiros da Clarisse. Para me comover com a dedicação da Ana da Miau Cookies que fez 500 bolachinhas para oferecer aos convidados da festa, Para constatar quem é que escreve que sim e promete mundos e fundos e quem é que, efectivamente, aparece e faz acontecer. Para- estúpida!- não reconhecer ai vivo a Sofia Franco, a Leonor Fernandes e a sara Félix. Para ajudar nos preparativos de casamento da Rossana, que veio do Algarve por nós. Para dar uma gargalhada com a pintura dos olhos da Ângela Vilhena, a Mary Poppins mais gira da festa.  Para perceber a grávida pieguinhas que fui a admirar a Rosália a ajudar freneticamente num dia de quase 40 graus com uma Maria Clara a encher-lhe a barriga. Para ficar com inveja da boa da Ana Para gostar ainda mais da desbocada da Lina, da Rita e da Joana. Para rever sempre, com o mesmo gosto, a minha Leonor. Para abraçar o pequeno João, que comemora nestes dias também um ano sem quimioterapia e gostar tanto da Sandra e da mana, a quem cravo já um post para o mãegyver. Para perceber que a Liliana Para perceber que o destino se encarregou (e bem) de decidir que a Rosa era a madrinha ideal para a Ana. Para me divertir a ver a minha mãe fazer uma coreografia de zumba com a neta ao colo, para delírio da plateia. Para rever a querida Tehur, sempre pronta, sempre disponível, com um sorriso de lua cheia. Para ver a Neuza emocionada por me conhecer, quando eu sou apenas uma rapariga que tem um blog. Para conhecer o Presidente da Junta de Freguesia das Cardosas, de Arruda dos Vinhos. Para ver o bolo de aniversário mais imponente do Mundo confeccionado pela Lourdes, Paulinha, Carla, Cláudia, Elsa, Raquel, Dânia, Telma, Isabel, Sílvia e Joana. para ficar triste pelo motivo que afastou a Sara desta festa. Para sentir que a causa é importante o suficiente para várias pessoas terem interrompido as suas férias e terem arrancado em direcção ao Clube VII, como a Ana e a Teresa Martins. Para beber limonada da H3 como se não houvesse amanhã. Para conhecer ao vivo póletes da Margem Sul (elas existem!) como a destrambelhada da Inês. Para ficar com um nó na garganta quando vi a Fátima e toda a sua maravilhosa prole, entre os quais a pequeníssima Mafaldinha que aguentou, estóicamente, uma viagem do Algarve a Lisboa só para estar na festa da Ana. Para assistir à formação de uma equipa de pessoas que poderia mudar o mundo que, não se conhecendo, geriu toda a parte dos comes e bebes com uma eficiência admirável, liderada pela Ana Santos, Ana Correa, a Susana , Para receber a visita dos meus amigos de cheiro, muito admirados por ouvirem pessoas chamarem-me de Pólo, mas que ali foram para provar que estão connosco em todos os contextos (obrigada Laurinha, Margarida, Paulo, Rita, Marta, Tiaguinho, Manelita, Jorge, Débora, Vicente, Cláudia, João, Sofia, Rui, Afonso, Cristina e Zé Miguel mano!). Para perceber que a minha amiga Luna é tão fixe que leva com duas estuchas seguidas de festas de anos infantil por nossa causa. Para ver a minha tia e a minha prima, tão distantes do mundo cibernáutico, a conviver com pessoas que eu só conhecia virtualmente. Para curtir milhões o ar despachado das meninas dos patins (Lisboa Troopers Roller Derby sois as maiores!). Para ficar um bocadinho invejosa por não ter uma irmã e ser tão próxima e cúmplice como as manas Maximino (Patrícia e Joana, obrigada!). Para dar um abraço à Raquel dos tererés e sentir que já a conhecia. Para ver que há pais que continuam a tarefa de educar os filhos para o altruísmo, quando vi a Francisca e a Mariana a trabalharem na festa a servir gelados de iogurte, numa missão de toda a família. Para ficar embevecida com a minúcia e preciosismo dos detalhes da decoração feitos pela Joana do Valor Fuschia. Para sorrir com o senhor grandalhão, cujo nome não decorei, que ao lado de uma senhora magrinha e com ar frágil, desmaiou a dar sangue. para ter um orgasmo de paladar a provar os suspiros com doce de ovos da Party's & Cookies Para dizer vernáculos quando a médica do IPS me recusou como dadora de sangue porque tinha uma borbulha no sobre-lábio, alegando que poderia ser herpes e ignorando as minhas explicações de que era reacção a todo o chocolate e doces que havia comido na véspera, na festa de casa da Ana.  Para oferecer kimas às pessoas e vê-las entusiasmadas com a pequena garrafinha verde. Para achar que o Andrea, homem de uma generosidade tal, será um verdadeiro PaiGyver para a Maria Clara que aí vem, em breve (e para, por causa dele, passar a gostar só um bocadinho de escoteiros). Para ser fâ de toda a família dos Bicharocos Carpinteiros. Para admirar a dedicação da Teresa que foi para a festa de máquina de costura em riste para coser gotinhas de arco-íris para enfeitar a festa. Para conhecer a menina que estava na porta a acolher os convidados e que, com um passado de leucemia, estudo actualmente medicina para poder servir os que passarão pela mesma situação no futuro. Para conhecer a Tânia, cuja vida foi irónica e trouxe para perto um caso de cancro infatil, já depois de se ter voluntariado como fotógrafa da festa da Ana. Para reafirmar que a Sacolinha é a melhor pastelaria do Mundo.Para me espantar como alguém em Angola consegue ajudar de forma tão próxima (um grande beijo Liliana Delgado!). Para dar um beijinho às meninas dos Moínhos de Maneio que ofertaram kilos de framboesas. Para ver ao vivo a barriga da Sally cuja notícia de gravidez eu acompanhei em directo através do facebook. Para babar com a Ana vestida de arco-íris, obra da mestre Rita Cutxie Cutxie. Serviu para ficar mega fã do Clube VII. Para admirar a capacidade de mobilização da Regina.Para delirar com cada fiada de bandeirolas que me chegava via CTT nos dias que antecederam a festa, obra de mais de 30 habilidosas costureiras. Para dizer à sobrinha da manelinha Colaço, a viva voz, que tem a melhor tia do Mundo. Para conhecer, finalmente, a Mac e babar com os sete bolinhos de gomas que nos preparou. Para comer à socapa uma bolachinha "Keep Calm" da Mo's Sweeties. Para relembrar que o destino foi um fixe quando colocou o Pau, a Sofia (e, sim,a conterrânea Carolina) nos nossos caminhos. Para ver muitas crianças felizes, às gargalhadas, a correr, a sujar-se, a divertirem-se. para ver pais com os olhos a brilhar com a alegria dos filhos. Para receber montes de palavras bonitas e abraços apertados e uma reprimenda de uma senhora mais velhota ("gosto muito de ler o seu blog, às vezes farto-me de rir, outras de chorar, devia era dizer menos asneiras!"). Serviu para fazer felizes as crianças da "Fundação- o Século" para onde foi toda a comidae bebida que sobrou da festa. Para perceber que estou rodeada de gente boa, que faz de mim muito, mas muito pequenina quando comparada com todos e com cada um. Para sentir que eu e mámen estamos em sintonia e numa felicidade sem fim partilhada. Para comprovar que a Ana veio ao Mundo com uma missão: espalhar "anor". Serviu para se fazer história nas nossas vidas. E fazer de mim uma pessoa que tenta ser, todos os dias, um ser um bocadinho melhor. 

Obrigada a todos!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Aos 9 de Agosto de 2013, à Ana por ocasião do seu primeiro aniversário

A vida, minha filha, pode ser como o arco-íris um fenómeno óptico mas, aceita-o, Ana, a vida às vezes é mesmo uma ilusão. Dizem que o arco-íris resulta da separação da luz solar no seu espectro contínuo quando o sol se reflecte sobre gotas de chuva. É assim a vida, Ana, por vezes temos que a dividir em momentos, categorizá-la em emoções, deixar que a luz de dias felizes brilhe sobre as lágrimas que escoam dos nossos olhos, os teus azuis para te lembrar que as lágrimas são apenas ondas de um mar maior, imenso e infinito, que o teu olhar-barragem-oceano é sempre maior e mais valente. 
Eu sei que todos te dirão que o arco-íris, como a vida, se vê, mas eu peço-te, minha Ana, que caminhes mais longe: escuta-o, toca-o, lambe-o, respira-o, vive-o.  Olha-o. de frente, e lembra-te de que cada cor existe para te lembrar do essencial:

Encarnado- cor do coração. Nada vale mais na vida que o amor: o amor que há um ano só me dedicavas mim, que hoje sentes pelo teu pai, avó, tias.  O amor pelo incerto do futuro que pode ser o que tu quiseres, filha, basta só isso: quereres! O amor do Jobim, numa bossa nova ouvida numa noite de Verão enquanto contas estrelas cadentes e um homem que a vida te reservará te sopre uma dessas estrelas nos lábios. como quem pede um desejo. O amor pelo próximo, pelo outro sem que saibamos quem é, o amor pelo igual a ti, o amor desinteresseiro só porque a tua missão é tão banal e especial: fazer do Mundo um lugar melhor.

Laranja- cor do fogo. Na vida, o calor das emoções faz-nos agir. Sente muito, Ana: sente medo, sente ansiedade, sente borboletas na barriga e tremores na voz, sente nós na garganta, sente lágrimas a quererem evadir-se, sente gargalhadas que não consegues silenciar, sente sorrisos involuntários, sente o calor do rubor da face, a voz a querer-te falhar, sente dormente do corpo, sente sismos no coração, sente os pés doridos do bom que é caminhar a descobrir pedaços do Mundo. Sente a vida, filha, nada temas. 

Amarelo- cor do sol. Permite-te ao Verão, não desconfies quando a vida te der sol, fecha os olhos e transforma-te num girassol de Van Gogh, encara-o de frente, sente o calor a bronzear-te a alma, sem que precises de creme protector emocional. Junta-lhe sal, sal de um mar aqui tão perto, o mar de tua mãe, o mar do teu pai, tão diferentes mas o mesmo Atlântico. Sol e mar, sol e sol, sol como quem torna a vida bronzeada e divertida. Solarenga. 

Verde- cor dos pastos dos Açores, cor dos campos do Minho. Rega, todos os dias, o amor pelo passado que eu guardei embrulhado em memórias ternas para te oferecer, devagarinho, como quem oferece uma caixa de bombons que deve, lentamente, ser saboreada. Conserva as memórias do teu bisavô que, todos os dias, percorria metade de uma ilha de piratas, para acender um farol. Conserva as lembranças do teu bisavô a trabalhar, duro, na pedra, risos nos lábios, a tocar realejo, a entrançar vime para os cestos, pés descalços- Conserva as memórias da tua bisavó e os brincos de princesa, no quintal e nas orelhas, o cheiro  a pão aquecido nos bicos do fogão, vou tentar reproduzir para ti, minha filha, o calor do seu corpo junto ao meu em noites de doenças chatas, o cafuné, o embalar, conserva-as através de mim, Ana, vou-tas dar de herança, prometo. Conserva as pronúncias cantadas das ilhas e do Norte. o brilho do ouro dos piratas saqueadores do Atlântico e dos fios nos peitos fartos das dançarinas de rancho, o negro do basalto e das vestes das noivas do Minho, o verde da caldeira e do Gerês.

Azul- cor do mar. Sempre que a vida for dura, Ana, lembra-te de respirar fundo e lembra-te da maior lição que o teu pai nos deu: o mar é já ali.

Anil: a náo-cor- Desconstrói tudo o que dás como certo. Afasta-te do evidente e vê-o de longe. Relativiza. Não queiras saber todos os truques por detrás das ilusões. Não aceites verdades absolutas. Desconfia de quem tem mais respostas que perguntas. Ama Magritte. 

Violeta- cor das flores na beira da estrada. O melhor na vida é o mais simples: um abraço de um amigo, um festinha das mãos enrugadas da tua avó. ligares o rádio ao calhas e estar a passar a tua música favorita, adormeceres numa cama com lençóis lavados, perfumados e esticadinhos, o cheiro da maresia pela manhã, reconheceres o perfume de alguém que ames num desconhecido que passa, beberes água fresca da fonte num dia de muito calor, a tua mãe, eu. a preparar-te de surpresa o teu prato favorito, viajar sem destino, o colo do teu pai mesmo que aches que já não cabes nele, fazer um novo amigo sem contar com isso, o cheiro da lareira numa noite fria de Inverno, chegar a casa e descalçar os sapatos. 

E no fim dos dias, Ana, quando já souberes todas estas lições de cor, minha filha, e não te restar mais nada senão procurar o pote de ouro no fim-do-arco-íris, não deixes de o procurar mas, lembra-te que, tal como o poeta fez com a sua estrela, assim poderás fazer com o pote de ouro da tua vida: põe-no, tu,  lá! 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que nunca receberam uma declaração de amor por blogo-procuração via Quadripolaridades e a Marta.

domingo, 4 de agosto de 2013

Oh fuck, sou, oficialmente, " a mãe da bebé" !

Ali estava elas, 20 anos, não mais. Bronzeadíssimas, coxas sem celulite, barrigas tonificadas e "bordas" sem estrias enfiadas em bikinis brasileiros, cabelos soltos e ar de anúncio de penso higiénico. 
Nos ouvidos os phones dos telemóveis de última geração, percebia-se que a ouvir sons veronis, intercalados com gargalhadas histéricas e um arsenal de raquetes e cartas de Uno para matar o tempo. Falavam alto e chamavam sobre si todas as atenções, enquanto se esfregavam, lascivamente, em cremes de bronzear, as putas giras das pitas. 
Cheguei à praia sozinha, fato de banho (que ainda não me atrevo ao bikini), tão branquela quanto é possível estar-se no princípio de Agosto (vir à praia até às 10h da manhâ e depois das 17h não contribui lá muito para o bronze), cabelo preso num carrapito no alto da pinha e ar da trintona que já sou. Sem phones mas munida com o livro que o Prezado me ofereceu no meu aniversário, óculos de sol de massa e ar de intelectual trintona de esquerda. Olhei-as de soslaio, com ar de superioridade, naquela de "deixem passar a veterana charmosa", quando me lembrei que "charmosa" é só o pior adjectivo-eufemismo ever para "velha".  Deitei-me na toalha e durante umas duas horas fui transparente para elas. 
Pensei: "raios das miúdas, giras, magras, as peles tão frescas, grandes cabras, já fui onde of them, mas há tanto tempo, caraças!" Tentei resolver o ressabiamento interno pensando que estou em vantagem, já fui assim, já estou noutro patamar da vida e tal, não tenho horas para chegar a casa nem uma mesada que me obrigue a dividir, como elas, um maço de tabaco para dez, não tenho trabalhos de casa para fazer, nem férias de frete com os meus pais, faço o que me apetece, eu é que mando em mim, tomem, embrulhem e levem para casa". 
Mas depois chegou mámen e a miúda, mais o arsenal de cremes factor 100, "não lhe dispas a T-shirt", encher a pequena piscina com água do mar para ela brincar, balde, pá e ancinho da Imaginarium, pequena lancheira térmica com o iogurte para o lanche,iogurte no cabelo da miúda, no meu, bolacha maria na mão da criança, bolacha maria na água do mar na piscina, bolacha maria salgada, enfim, "não comas areia, Ana!", "não tires o chapéu, Ana!" e a miúda a gatinhar em direcção às raparigas que se desviaram, divertidas, e soltaram um "Deixem passar a mãe da bebé", perante o meu ar desgovernado e comecei a achar que, não vale mesmo a pena entrar em negação: quero o meu rabo rijo, barriga tonificada e os meus 20 anos de volta!
Buáááá!

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Casar por amor. A mais do que um homem.

Quando casei, aos 26 anos, houve duas razões principais para o fazer naquela altura: o facto de estar apaixonada pelo homem que escolhi para casar e de achar que a relação de namoro precisava de um novo desafio e de avançar; e, a segunda razão foi o facto de fazer questão que o meu avô, meu pai do coração, já bastante doente com uma doença degenerativa que o levou à morte menos de dois anos depois dessa data, pudesse assistir àquele momento. E casei.
O meu avô já não me pôde acompanhar na passadeira encarnada rumo ao altar, como eu sempre idealizara. Eu queria, não me importava de ser eu a empurrar-lhe a cadeira mas ele recusou, determinantemente, justificando que preferia ver-me a entrar ao compasso da música e com as mãos livres a segurar o ramo de malmequeres. E ali ficou, junto ao altar na sua cadeira de rodas, a assistir de primeira fila ao que foi um dos dias mais felizes das nossas vidas.
Quando foi a hora de abrir o baile, ele continuava com os olhos brilhantes. Na ausência do meu pai e com a impossibilidade de o fazer com o meu avô, o pai do noivo tomou as honras da casa, dançando comigo enquanto a minha mãe fazia o mesmo com o noivo. Sempre fomos muito desenvencilhados.
No entanto, ainda a valsa tocava, desprendi-me da pista e fui em direcção ao meu avô. Sentei-me no colo dele, sem fazer muita força, de mansinho, abracei-me ao pescoço e juro que senti que ali dançávamos os dois, num ritmo muito lento de pescoço e corações, a música estava dentro de nós.
E é esse abraço que ainda hoje sinto quando preciso do colo do meu avô. O seu respirar quente na minha nuca, as mãos doridas e enrugadas nas minhas costas, o sorriso e os olhos rasos de água a olharem para mim. Agora, por mim.
Por isso, embora tenha já lido imensas críticas a esta filha que, embora não tendo sequer namorado, decide organizar um casamento sem noivo, só para poder ter oportunidade de dançar vestida de noiva com o seu pai, doente oncológico terminal, eu não deixo de me comover. Faria i-gual-zi-nho, no caso dela.


     
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...