sábado, 29 de agosto de 2020

Pandemia files

 

"A vida só é possível reinventada"- Cecília Meireles


Adoptei uma gata. E dois guppies que agora são uns três mil. Aprendi que é possível o tele-trabalho. E por isso a trabalhar no zoom e no teams. Aderi à netflix e abençoada a hora. Deixei de fazer dieta porque só consigo passar uma provação de cada vez. Li muitos livros. Aprendi a fazer um tear e fi-lo. Desliguei-me do telemóvel e desgostei do Facebook. Ouvi mais música e descobri mais cantores. Aprendi a fazer pão. Não deixei de comprar flores porque a beleza também alimenta. Lavei mais vezes as mãos em meses do que no resto da minha vida. Ensinei uma data de coisas à Ana. Arrumei a arrecadação. Fiz sestas. Comprei tecidos para a minha tia me costurar almofadas novas. E comprei loiça nova. Passei a andar sempre descalça em casa. Deixei crescer o cabelo e passei a seca-lo ao ar. Aprendi a fazer doce de ovos e bolo de noz. Vivi várias situações de ansiedade e nenhuma provocada pela pandemia. Não fiz nem uma única compra online. Poupei dinheiro até, que depois me serviria para as férias. Escrevi mais e melhor e não mostrei a ninguém. Concorri a um concurso de escrita que sei que não vou ganhar mas já ganhei só porque dei o passo de o tornar público. Precisei de desligar as notícias e reduzir o ruído de informação. Precisei de me afastar de muitas pessoas para me concentrar nos verdadeiramente meus. Comprei um termómetro. Deixei de ter certezas sobre a incerteza e reafirmei a minha convicção de que cada um faz o melhor que sabe com os recursos que tem. Adoptei um bonsai e ainda não o matei. Bebi menos café. Mantive vivos um vaso de amores perfeitos e um manjerico. Plantei uma horta cá em casa. Dormi mais. Pensei pouco nas desgraças. Redecorei os quartos. Senti saudades do mercado de fruta e flores. Mudei muito. Deixei de me sentir uma traidora comigo mesma ao assumir que mudei. 


Não sobrevivi apenas. Consegui a proeza de poder dizer que vivi.

É um avião?

É um unicórnio morto e esculachado? É um arco-íris com problemas hormonais? É uma farfalota pimpinela que nunca se depilou depois de ter corrido naquelas corridas que atiram tintas para o trombil dos participantes?


Não: é a mochila da minha filha.


Ponho água fresca numa jarra


Antigamente odiava todas as rotinas: eram chatas, aborrecidas, previsíveis e enfadonhas. Eu sou feita do imprevisível, do flexível, do não planeado, da surpresa da vida, do improviso. 

 Depois, tal como uma criança que vê um infindável número de vezes o mesmo filme de desenhos animados, comecei, devagarinho,a apreciar saber o que vai acontecer. Gosto de saber que regra geral encontro pessoas civilizadas que usam máscara e não põem em risco a saúde pública, de comprar legumes sempre numa banca e fruta noutras duas, de visitar as peixeiras que acham que eu tenho sempre cara de quem compra sardinhas (e, na verdade, eu prefiro carapaus), que o senhor dos ovos dê sempre um ovo à Ana e o das flores a tente corromper com uma geribera para mudar de clube de futebol, de beber um café da Luísa e no inverno de comer pão com chouriço. 

Em psicologia chama-se “segurança do previsível” e eu gosto muito de chamar mercado a este mercado e saber que para a Ana é e será sempre o “mercado das flores”. 

 Há uma felicidade segura em viver aqui e uma previsibilidade encantadora em ter flores frescas em jarras espalhadas pela casa todos os fins de sábados de manhã.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Mapa astral: recomeço em Pólo Norte com lua em Jorge Palma e sol em Sérgio Godinho




O desafio de crescer (envelhecer?) é a inevitabilidade de nos confrontarmos com o fim. 
Quando somos jovens é só começos: o início da escola, o início das férias, o início do desporto novo que se quer experimentar, a primeira vez que se sai para dançar com os amigos, o primeiro estado ébrio, o primeiro beijo, o primeiro amor e o primeiro desgosto de amor seguido de um segundo amor que sabe sempre a primeiro porque todos os novos amores são primeiros. 

À medida que crescemos ficamos com menos perspectiva de novos começos porque há muitas continuidades e isso pode ser incrivelmente seguro, contentor e bom mas não é o espanto da descoberta, da sensação da primeira vez. 

À medida que crescemos há mais fins e menos inícios. Cada vez mais. De fases, de relações de amizade ou de amor, de projectos profissionais, de crenças, de certezas, de vidas. E muitos destes fins sem continuidade, apenas com o deserto do vazio ali à espreita. Morrem-nos sonhos, morrem-nos desejos, morrem-nos pessoas. 

O principal desafio de crescer é tentarmos encontrar continuamente inícios. Por isso estes não são dias de fim de Verão, são dias de início que eu ainda estou para descobrir de quê. Mas são de início porque eu estou a crescer, sinto-o nos ossos e na alma. Crescer e não envelhecer. 

Procuro o início.

Procuramos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

#deusétuga | Castelo Branco e a surpresa do umbigo de Portugal

 Não sei exactamente se o distrito de Castelo Branco é o umbigo de Portugal mas, de repente, estávamos perto de tudo. 

Estacionámos o nosso quartel general durante três dias em Cernache do Bonjardim na Quinta do Portugo. A Quinta do Portugo é um conceito assim meio híbrido new age entre glamping, parque de campismo mesmo e turismo rural. Chegámos à Quinta (um bocadinho far, far away) e a dona, uma garborosa holandesa, falou-nos de forma muito objectiva: aqui fica a vossa caravana (são umas caravanas de madeira super giras), a casa de banho para necessidades e duches é partilhada e é ali em cima, se precisarem de água para cozinha têm aqui uns instagramáveis jerricans, passem para cá o dinheiro e tomem lá uma factura sem validade contabilística (soubemos depois), se quiserem mergulhar na piscina podem vir e goodbye Maria Ivone. Estávamos de férias, somos uns fixes, o valor da diária era realmente barato (40€/noite) e estávamos num mood "tá-se bem". 


De Cernache do Bonjardim a Proença e viva a Ti Augusta da Joana

De Cernache partimos para um sem número de sítios. Começámos por Proença-a-Nova, onde tratámos de carimbar logo o Centro de Ciência Viva da Floresta. Foi nesta fase que percebemos que não iríamos resistir em parar em todas as estações e apeadeiros dos Centros de Ciência Viva e percebemos que deveríamos comprar o cartão família dos Centros (tem validade de um ano, dá para uma família de dois progenitores e dois filhos, as visitas são ilimitadas e custa 50 €). Dito, feito! No Centro de Ciência Viva da Floresta divertimo-nos imenso a aprender sobre o tempo de vida das árvores, os vários tipos de madeiras, observámos formigueiros e descobrimos imensas coisas sobre o perigo dos incêndios. Mais uma vez o Centro estava vazio e éramos os únicos visitantes (não percebemos porque 

E às tantas renovamos votos numa capela montados numa vassoura e o padre é o Hagrid

Faço anos de casada para a semana. 

Estou de férias (aguentem e não enguicem!) e começo a ver sítios fixes: 

"Ah, podemos ir para Santa Cruz! Olha mas em Montargil também não se está mal... E se formos doidos e arrancamos para o Gerês? Fixe, fixe, já viste as promoções das viagens para a Madeira? Porto Santo também fica logo ali ao lado. "


 Não tarda muito estamos em Hogwarts.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O meu nome é Pólo Norte ...

... e combinei picnicar ao almoço com a madrinha da minha filha uma coisa simples porque só tinha panados e ela rissois à mão mas depois podíamos ir tomar café e um pão com chouriço ali à praia das maçãs mas estava tanta gente que as Azenhas do mar são já ali e um café no spot novo é que era e se, já agora, fôssemos molhar ali os pés ao Magoito mas não arranjamos lugar para estacionar e assim como assim a Foz Do Lisandro é já ali e a água estava uma sopinha e por falar em sopinha bora jantar à Ericeira? 

 Digam olá à Pólo Norte.

sábado, 22 de agosto de 2020

Não sou médica. De nada.

Durante os últimos meses algumas pessoas têm-me perguntado qual a minha opinião sobre a covid e porque não escrevo sobre ela e a partilho. 

Aqui vai a síntese em 5 pontos: 

 1- a covid é um facto. Factos não são susceptíveis de opiniões.
 2- a haver pontos que possam levantar questões que carecem de opiniões, elas devem ser dadas por especialistas. De saúde, tendo em conta que a covid é uma doença. Neste caso médicos.
 3- não sou medica. 
 4- cinjo-me à minha insignificância e leio de fontes seguras: não de bloggers, opinion makers ou influencers. 
 5- já disse que não sou médica? 


De nada.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Não me lixem: é desporto!

Vir à ikea num dia com mais gente do que o expectável a 45 minutos de fechar conta como caminhada, marcha ou corrida de obstáculos?

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

This could be the end of everything





 I walked across an empty land

I knew the pathway like the back of my hand

I felt the earth beneath my feet

Sat by the river, and it made me complete
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
I came across a fallen tree

I felt the branches of it looking at me

Is this the place we used to love?

Is this the place that I've been dreaming of?
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
And if you have a minute, why don't we go

Talk about it somewhere only we know?

This could be the end of everything

So why don't we go

Somewhere only we know?

Somewhere only we know
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
And if you have a minute, why don't we go

Talk about it somewhere only we know?

This could be the end of everything

So why don't we go?

So why don't we go?
Ahh

Ohh
This could be the end of everything

So why don't we go

Somewhere only we know?

Somewhere only we know

Somewhere only we know

Como envolver o marido na decoração da casa? A Pólo Norte explica.

"Queres papel de parede de que cor?" 

 "Azul anil com relevo." 

"Azul anil? Não gosto nada..." 

"Sabes que o azul anil estimula a líbido e o papel de parede é para o nosso quarto?" 






Ali está ele, alegremente, a procurar papel de parede azul anil com relevo.

Os filhos das outras

Os filhos dazoutras escolhem ficar doentes no primeiro dia de férias e boicotam as férias todas.

A minha, como é a mais fixe, escolhe o último dia de férias e boicota-me o regresso ao trabalho.

Como não amar esta miúda?!


[É uma gastroenterite: espero que me pegue para ver se perco peso!]

O fim das férias




O fim das férias, como quase tudo na vida, traz-me uma frasezinha do velho Millôr Fernandes: "Trabalho não mata. Mas vagabundagem nem cansa!" 

domingo, 16 de agosto de 2020

Mudanças

Acabados de chegar de viagem comento, cheia de energia e optimismo irritante:

"Apetece-me mudar tudo"

"Tudo o quê?"

"De decoração, de cor e corte de cabelo, de alimentação, de hobbies, de blog, de livros para ler, de planos, de tuuuuddooooo..."

"Olha: a mim não me apetece fazer nada"

"... de marido."


Ali está ele, alegremente, a ver papéis de parede num site coiso fofo.

Electra, essa puta

Mámen faz o jantar e carrega na pimenta.
Durante o jantar faço um reparo aos bifes que estão um bocadinho para o picantes.
Salta a pequena em defesa do progenitor: "E Vasco da Gama foi para a Índia para nada?"
...

Por outro lado

Por outro lado, a minha inside bitch voice é a da Inês Castel-Branco.

sábado, 15 de agosto de 2020

Bater no fundo

 Sou a proprietária não de uma mas de duas geleiras de pantone azul-bimbo.

Escuta com atenção a mãe

Tenho que desabafar: o narrador que mora no meu pensamento tem a voz da mãe do urso Tao-Tao.

Tumbas, já disse.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Férias nas Caldas # III acto

“Tu explicas-me sempre as coisas, mãe! Explica-me porquê? Tu dizes sempre que “não” não é resposta. Então porquê?!” 

Porque não, Ana. 


“Mas porque é que não podemos levar chupas de pilinhas de presente para a avó e a tia? Porquê?” ...

Férias nas Caldas # II acto


Ainda nas Caldas da Raínha:

"Sabes o que era fixe, mãe?
Espetavam um corno na pinha da pilinha e criavam pilascórnios para vender de recordação às crianças..."
...
...
...

Férias nas Caldas # I acto

 

O meu nome é Pólo Norte, estou a passar férias próximo das Caldas da Raínha e a minha filha não quer trazer nada de recuerdo para além de um pénis com as cores de arco-íris e uma coroa no topo.

Obrigada, artesãos das Caldas!
...

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

#deusétuga | Ai, eu estive quase morta no deserto e Santarém aqui tão perto

 A música é com Porto e a voz profunda do Sérgio Godinho mas "perto" é mais que um state of mind: é uma dimensão física também. E o distrito vizinho é Santarém e tirando a capital do Gótico, o lavar de vistinhas com os agro-betos da Feira do Cavalo da Golegã, um namorado que tive em Almeirim e que me apresentou as caralhotas (é um pão regional,tá? Mas é também uma chalaça brejeira e a pessoa completou 40 anos mas continua uma adolescente que se ri com piadas parvas: aguentem-me!), a paixão platónica que tenho com a cidade de Tomar e um torricado que me ficou para sempre na memória comido com a minha amiga Clarisse em Benavente, nunca me tinha dedicado a explorar as entranhas do distrito de Santarém. Posto isto, para efeitos de estilo literário o título do post faz muito sentido, sim?

Alcanena: a capital da pele

Fomos directos a Alcanena. Não sabíamos nada de Alcanena mas queríamos ir ao Centro de Ciência Viva da Foz do Alviela, pelo que, metemo-nos a caminho e chegámos num dia especialmente duro. Na verdade é especialmente "mal-cheiroso" mas "duro" fica menos ofensivo para o alcanenenses. Percebemos que a culpa é da indústria dos curtumes aliada ao mau funcionamento da estação de tratamento de águas fluviais, segundo nos contou um senhor com quem metemos conversa num café. Demos uma volta pela cidade e descobrimos que em Minde, uma localidade pertencente ao concelho, há uma língua própria: o minderico e ficámos com mais curiosidade de explorar "a capital da pele" mas num dia com menos calor e odor. 

Seguimos, então, para o nosso destino programado: o Centro de Ciência Viva da Nascente do Alviela, também conhecido por Carsoscópio. Comprámos bilhete para este centro (erradamente, como viríamos a descobrir depois mas lá chegaremos) e começámos a visita. O tema principal do centro aborda as nascentes dos rios, as águas subterrâneas, o impacto da poluição e... os morcegos. O que prova que karma is a bat, tendo em conta a minha experiência traumática com morcegos há uns anos (não chamem o SOS animal que o crime já prescreveu, por Deus! E eu já sou uma mulher crescida e madura: se fosse hoje surtava sem reação mesmo.) A Ana adorou o simulador gigante (embora eu e mámen consideremos que a linguagem devesse estar mais adaptada ao público infantil), colocar óculos 3D para assistir ao filme e fazer todas as experiências sobre o impacto da poluição nas águas subterrâneas e depois foi o delírio com toda a informação sobre morcegos. Para mim foi bom porque oscilei entre a náusea e a vontade de bolsar e fiquei sem apetite até ao jantar, o que dá jeito para a dieta.

Saímos do CCV que fica mesmo ao lado da praia fluvial de Olhos d´Água (sim, confesso: o Toy fez um concerto na minha cabeça o tempo todo!) e ... mergulhámos. E que spot fantástico, caramba! Adorei, adorei, adorei! Água limpíssima e fresquíssima, peixes a passarem entre nós, gente civilizada e a respeitar a distância social, casas de banho e acessos dignos e bar de suporte e staff disponível. Não só recomendamos como queremos voltar antes do Verão acabar!


Olhos d'Água (o Toy é um sábio!)

Tancos, Almourol, Vila Nova da Barquinha e Constância

Chegámos a Tancos e não resisti à piadola de que deveriam ter por lá à venda t-shirts a dizer "I went to Tancos and all I didn't get was a lousy military weapon" mas, ironias à parte, Tancos é um lugar super arranjado e bonitinho. Mas o nosso objectivo era ali ao lado: Almourol. Estacionámos o carro e fomos a correr para a pequena embarcação que nos ia levar até ao Castelo (4€ por bilhete de adulto e a Ana não pagou. O bilhete inclui a travessia de barco que demora uns 4 minutos e a entrada no castelo. Há um acesso por terra mas, pelo que percebi, é proibido chegar de outra forma que não seja via rio). 

Mega "ohhhhhh" à aproximação do barco ao castelo, numa vista tão bonita como instagramável. Tudo lindo. Quarenta e cinco minutos dentro das muralhas e de visita ao castelo e voltámos para terra. Constatámos, nesta altura, que tínhamos deixado o carro aberto, com o cartão-chave lá dentro e que não tinha sido sequer tocado por nenhum transeunte. Tenho, agora, um belíssimo contra-argumento para sempre que o meu marido quiser armar-se em recalcado e referir-se ao carro como "a minha bomba" explicar-lhe que se calhar não e bem assim, já que fomos a Tancos e nem por misericórdia lhe roubaram o bote... (desculpem! Eu sei...)

Era hora de almoço e alguém nos tinha recomendado a Tasquinha da Adélia, em Vila Nova da Barquinha. E que excelente sugestão! Comemos imenso os três - por um preço obsceno de barato (16€) - grelhada mista no ponto, bebidas, sobremesas e cafés. Demos uma volta pela zona ribeirinha (que bonita!) que tem um parque verde muito giro com vista para o Tejo e seguimos para Constância

Constância (que antigamente se chamava Punhete!) é muito catita de um determinado ângulo. Só que depois há o ângulo das indústrias que descaracterizam aquilo tudo e a vista da ponte é tão bonita e uma pessoa vai ali tão feliz quando, de repente, leva um chapadão de realidade ao ver milhares de troncos no chão e as chaminés altas das fábricas de celulose e produção de pasta de eucalipto. Glup!


Acho que se percebe de onde vem o nome original...
Acho que se percebe de onde surgiu o nome original...


Mas decidimos explorar a vila e começámos pelo Jardim Horto de Camões (1,5€/entrada por adulto). Uma senhora simpática tratou de nos cobrar a entrada e logo se afastou para podar algumas das trepadeiras do jardim, deixando-nos explorar à nossa vontade. Regra geral apreciamos esta liberdade mas desta vez foi estranho porque nos sentimos perdidos e não havia uma narrativa explícita e congruente que nos fizesse viajar pela epopeia do filho mais famoso da terra e de toda aquela flora que representava essa viagem. Claro que aproveitámos para falar de Camões à Ana mas sentimos que havia tanto potencial e estava um bocadinho mal explorado. Valeu-nos o canteiro com uma coleção imensa de trevos de quatro folhas que fez as delícias da miúda. 

Seguimos para o Centro de Ciência Viva- Parque de Astronomia que estava fechado para o almoço e só voltaria a abrir passadas duas horas, o que nos fez desistir mas prometer que aqui voltaríamos. O borboletário tropical era ali ao lado e estava também no nosso roteiro. Só que não: está fechado temporariamente por causa da covid e tivemos que nos contentar com uma actividade sobre insectos na ecoteca pública, que estava um bocadinho confusa. A esta altura estávamos um bocadinho desiludidos com a "vila -poema"(sim, o tejo e o zêzere abraçam-se mas estava tuuudo fechado!) e decidimos, num impulso, ir refrescar as ideias ao açude de Santa Margarida ali ao lado mas ficámos pelo caminho e tratámos de chafurdar num tanque público ali ao lado. Foi genial!

Estávamos "auguados" de rios e barragens e águinha em geral e ... Ferreira do Zêzere e barragem de Castelo de Bode. Mega wow! A Ana já não queria ir embora ("e se dormissemos no carro, mamã?") e foi a muuuuuito custo que a arrastámos para o nosso próximo destino, só depois de prometermos que vamos passar um fim-de-semana a Castelo de Bode mais para a frente. 

Acabámos uma das tardes na Praia Fluvial da Ortiga e, meus amigos: fabulosa! Pouca gente, super limpinha, sem confusão. Super mas super mesmo recomendamos!

E no caminho para um novo distrito despedimo-nos do distrito de Santarém com a visão, até então, da vila mais bela de Portugal: Dornes (é de mim ou tem nome de terra de Game of Thrones?). O que é aquilo senhores? Tanta mas tanta mas tanta mas tanta mas tanta beleza! Já disse tanta beleza? Agora era eu que já perguntava a mámen se podíamos dormir no carro e ficar ali mais dois ou três dias ou o resto das férias, vá...O homem não cedeu, mesmo que eu lhe tivesse acenado com a ideia de pintar a torre templária pentagonal e a igreja maravilhosa e para isso ele precisaria de algum tempo, mas mesmo assim resistiu e eu fiquei como a santa padroeira de Dornes: num pranto. Agora só penso em voltar!

Seguimos viagem para o distrito de Castelo Branco com a certeza de que somos uns totós e não exploramos como deve ser lugares deslumbrantes que temos mesmo aqui no distrito vizinho e a certeza reconfortante de que identificámos lugares que queremos voltar e explorar como destino principal durante escapadinhas de fim-de-semana. Voltaremos: é uma promessa. 


Almourol


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Top do distrito de Santarém:

Pólo Norte- Dornes

Mámen- Ferreira do Zêzere

Ana- Ólhos d'Água


[Fotografias, dicas, segredos e detalhes do nosso #giroquadripolar é no instagram.com/quadripolaridades: batam à porta, sim?]

#deusétuga: prelúdio

 

                   


Etapa 1 | Lisboa- Évora- Santarém- Portalegre- Castelo Branco- Guarda- Bragança- Vila Real- Viana do Castelo-Braga- Porto- Aveiro- Coimbra e Leiria (os outros quatro serão picados antes do final do ano)


Havia muitos planos para as férias deste ano: eu faria 40 anos, a festa seria de arromba, estaria obviamente mais magra porque estaria focada na dieta, na Páscoa teríamos ido à feira de Sevilha com a Ana e agora em Julho receberia o subsídio de férias depois de quase um ano num trabalho tranquilo e do qual gosto muito e partiríamos- os três- para Nova Iorque abraçar a minha soul sister Eileen. Depois road 66 e seria um Verão inesquecível. 

Mas veio a pandemia e lá se foram os planos. 

Eu tenho muita resistência à frustração (aliás, frustro pouco porque nunca dou nada por certo e garantido: sou das que nunca compra bilhete de ida e volta) e não planeei mais nada. Logo se vê. 

Então ele propôs-me, até ao final do ano, darmos um giro quadripolar, uma espécie de volta a portugal de bólide e mostrarmos todos os distritos do país à miúda, uma road trip como adoramos, com improviso e aventura mas em Portugal. Começaríamos em força agora no Verão a cumprir 14 distritos do total de 18 (a esta hora, de certeza que estão a dizer baixinho o nome de todos).

Pensei que era fixe a título de prémio de consolação mas, afinal, a ideia pareceu-me cada vez mais emocionante. 

No instagram do Quadripolaridades criei umas stories com o esqueleto do percurso que planeávamos percorrer e fomos pedindo e anotando as centenas (foram mesmo centenas) de sugestões que as pessoas que vivem ou conhecem bem cada sítio por onde iríamos passar nos iam dando. Ou seja, a excitação começou ainda antes de apertarmos os cintos. 

Planear uma viagem é sonhar no plural. Eu recolhi todas recomendações, ele anotou e organizou e a Ana projectou tudo no mapa, que lhe comprámos na Bertrand. Mapa em papel: a loucura. Eu ouvi pessoas, ele estruturou os dias, ela tornou tudo realidade.

E, logo após o meu aniversário partimos. Foram um quase 2000 Km percorridos, muitos dias na estrada, muitas aventuras, muitas stories, diretos e posts de partilha no instagram e agora, na recta final da road trip e já a curtir o descanso dos guerreiros, arranjo tempo para deixar aqui tudo registado. Para quem quiser aproveitar algumas das dicas mas, sobretudo, para que eu não me esqueça. 

Para a Ana construímos um diário de bordo com o roteiro detalhado, as histórias todas, com aguarelas dos sítios pintadas pelo pai e cartas escritas à mão por mim. Acho que lhe oferecemos um pequeno tesouro que resume a herança maior que lhe queremos deixar: mundo vivido. 

Apertem os cintos: a saga quadripolar #deusétuga vai começar. 

[É escusado dizer que custeámos esta viagem porque, como sempre, a nossa opinião não está à venda. Assim sendo, estamos à vontade para dizer o que gostámos e o que nem por isso, sítios mesmo imperdíveis e outros que benza-a-Deus. Agora não é uma realidade absoluta: é a nossa opinião. Mas, como sempre, é uma opinião livre. ]

terça-feira, 11 de agosto de 2020

o meu nome é Pólo Norte...

... e a mais recente personagem que a minha filha decidiu idolatrar é a duquesa de Alba. A falecida. Essa.

 Digam olá à Pólo Norte.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Allegro ma non troppo

 

Já não vinha ao blog há meses mas nem me lembrei do blog. Ir de férias dá-me sempre um boost de energia e criatividade, as mesmas que me fazem falta quando não estou de férias e preciso de produzir e de trabalhar para sobreviver e, nessas alturas, escasseiam. Celebrei 40 anos e ainda não m'acredito. Tenho um trabalho muito fixe que não me desgasta nada emocionalmente e sinto falta de mudar o Mundo e de me desgastar. Encontrei a melhor colega de trabalho e descobri que há soul mates para tudo na vida: até para atender pessoas zangadas e mergulhar em papéis. O meu primo, que tem um défice cognitivo, oferece-me sempre livros eróticos de pornochachada pelas festividades. Decidi deixar de me zangar com o Mundo, não porque tenha alcançado um estado zen e elevado, mas porque não curto gastar energias com o que não muda. Ou seja, acabei de desistir do Mundo. "É o que é!"- é o meu novo mantra. É um bocado poucachinho mas, olhem, "é o que é". Perguntam-me, várias vezes e várias pessoas, porque desisti de tentar ser uma blogger famosa e respondo que não desisti, na medida que nunca quis ser blogger. Muito menos famosa. Gosto de públicos pequenos e seleccionados, escreveria sempre num palco tipo Olga Cadaval, os Campos Pequenos desta vida serão sempre para os toureiros. Ou para os touros. Estou assim de fechar a minha conta de facebook porque há muito ruído e pessoas a acharem-se muito, como se alguém se importasse. Gosto do instagram porque lá também não me acho muito. Gosto de ver os bonecos. A vida se calhar faz-se mais de imagens do que de palavras. Ou, pelo menos, as imagens selecionam melhor a audiência: quem não interessa vê as fotografias e faz scroll down como no tinder só que para baixo. Quem interessa pára e lê o post: as pessoas que me interessam têm menos motricidade fina com os dedos polegares. Coloco o mesmo post sobre o espanto de nos vermos em Serralves: no facebook acusam-me de apoiar a equipa que gere Serralves e que despediu trabalhadores precários, no instagram perguntam-se se a miúda se deslumbrou com os jardins. Gosto cada vez mais de menos gente. As pessoas continuam a usar máscaras com o nariz de fora e eu juro que fico perplexa. Percebi, na minha grande long trip, que era capaz de viver em montes de sítios e que nos podemos sentir em casa em vários lugares: Dornes, Tomar, Vila Velha de Rodão, Rio de Onor, Sortelha, Belmonte, Braga, Foz d'Égua, Viana do Castelo, Gimonde. E Aveiro, sempre Aveiro. O melhor do mundo são as pessoas. O pior do mundo são as pessoas. Comer bem, rodeada de pessoas seleccionadas com o mesmo rigor com que se escolhem os vinhos, é provavelmente o melhor hobbie do Mundo. Chega a uma idade da tua vida que não te importas de pagar mais e beber menos por um bom vinho e percebes, aí, várias respostas existenciais. Estou mais gorda e menos preocupada com isso. Deixei de seguir as redes sociais de todas as pessoas que advogam que temos que aceitar o nosso corpo e beca-beca, desde que o corpo seja magro. Recuso-me a prescindir ou a ter que fazer contas se posso ir a jogo ou não a um bom jantar entre amigos só porque tenho que fazer o sacrifício para a sociedade me ver magra. Entreguei a alma à netflix e adoro abobrar em frente ao sofá. Percebi que família é tudo: uma tragédia e uma benção. Preocupação constante e amor infinito. A miúda celebrará 8 anos e escolheu como tema "picnic da Barbie" e pediu-me para estrear um vestido pirosíssimo de 7 euro sda H&M. A minha primeira tendência foi sugerir que não e encaminhá-la para a Lanidor Kids para ficar igual às meninas dos catálogos. E depois percebi que a incongruência é tramada e que entre ela estar feliz e todos lhe elogiarem o vestido trendy e super in, quero mais é que ela se sinta feliz com o vestido e não esteja a servir de cabide a um vestido para que a sociedade a veja vestida segundo os padrões de beleza instituídos. A minha mãe ofereceu-lhe umas sabrinas douradas. A Ana sabe mais da vida aos 8 anos que nós juntas. A evolução das espécies está assim, quadripolarmente, provada. Estou a escrever um livro para ela com o resumo da nossa viagem de mais de 1000 Km. Não lhe deixo casacos de vison mas deixo-lhe palavras e acho que são capazes de ser mais úteis, até porque não faz assim tanto frio nos invernos por aqui. A não ser que me mude para Rio de Onor. E se tudo falhar o Rui voltou a pintar aguarelas. Já disse que a vida se calhar faz-se mais de imagens do que de palavras? Descubro que tinha saudades de escrever aqui no blog, sem limite de palavras. Entre facebook e instagram, se calhar, o melhor ainda são os blogs. O pior são as pessoas.

É o que é. 

Veio que nem ginjas, tão a tempo, três semanas depois de celebrar, contrariada, 40 voltas ao sol

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