quinta-feira, 30 de abril de 2020

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: alcóol dentro de canecas de chá enquanto se participa em videoconferências.

 De nada

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Psicologia social, populismo, 25 de Abril e democracia em tempos de crise sanitária



I.

Sou tendencialmente de esquerda. Digo tendencialmente porque não sou suficientemente interessada por política nem visto a camisola de mangas compridas de nenhum partido para assumir como minhas todas as suas crenças, ideologias e causas. Não tenho pálas políticas nem consigo tolerar baboseiras várias com que, ocasionalmente, me deparo nos programas políticos dos partidos de esquerda (quer os mais extremistas quanto os mais moderados).  E digo que sou tendencialmente de esquerda porque, apesar de discordar com muitas coisas que povoam as agendas políticas dos partidos de esquerda, a discorância face ao número de temas é assustadoramente maior quando me deparo com os temas, as causas, os valores e as soluções apresentadas pelos partidos de direita. 
Serei democrata, se pensarmos no quanto acredito na democracia como forma de organização de uma sociedade. E socialista se ponderarmos no quanto defendo como valor máximo a igualdade de oportunidades. Sou, sobretudo, a favor do humanismo, da igualdade e da liberdade. 

II.

Tenho vindo a acompanhar o crescimento de movimentos de extrema direita no Mundo. E em Portugal, também, com o inqualificável do André Ventura a saber tirar partido desta onda populista como ninguém.
A sociedade portuguesa mudou: quem lutou pelo fim da ditaduras e pela democracia, pela liberdade está, agora, na geração acima da dos meus pais. Eu e os da minha idade- os da geração Y-crescemos com a liberdade como uma verdade inquestionável, herdada sem mérito próprio, um dado adquirido. Somos os das conquistas rápidas, do imediatismo, dos avanços tecnológicos, da facilidade na aquisição de bens, dos créditos e do início da mudança do paradigma da comunicação e da interação social marcada pelo avanço da internet. Somos a primeira geração verdadeiramente nascida num novo mundo tecnológico, com relações de grupo mais rápidas, mais fáceis, mais imediatas, menos profundas. Somos os dos blogs, do hi5, do facebook e do instagram, dos que têm tantos estímulos que privilegiam a informação curta, rápida, directa, com menos texto e mais imagens. Somos, fundamentalmente, os do twitter: 280 palavras que resumam o Mundo e deixem-se de mimimis, que temos mais que fazer.
 O nosso tempo, ritmo e vigor é mais rápido, mais veloz, menos paciente do que alguma vez foi: fazemos juízos de valor por notícias cujo título nos cabeçalhs apenas lemos e nem chegamos a abrir o corpo de texto, formamos opiniões porque vemos imagens bonitas publicadas por influencers e posicionamo-nos face a temas porque lemos discussões nas caixas de comentários das redes sociais, a que deitamos brevemente um olhinho, enquanto vamos ao wc, no horário do trabalho. Não queremos desperdiçar tempo com o que não é necessário desperdiçar: andamos para a frente os anúncios na televisão, pagamos as contas via internet, fazemos transferências por mbway, enviamos mensagens por email que não precisam de selo e de viagem para serem lidas, não esperamos para pagar portagens porque usamos via verde. 
Pese embora me choque, não me surpreende que os Andrés Venturas desta vida comecem a ganhar protagonismo nesta altura, dizendo parangonas rápidas que vão de encontro às frustrações do dia-a dia de cada um de nós, analisando os temas polémicos e posicionando-se sempre no contra corrente para chegar aos que não se revêem nos modelos instituídos, reproduzindo comversas de cafés onde o correio da manhã está sempre em cima do balcão e a CMTV sintonizada, como uma espécie de bíblia populista. Sabe comunicar para a nossa geração no que diz respeito à forma: é rápido, é directo, é controverso, não ocupa muito tempo nem energia. É perigoso exactamente por isto. 
Por isto urge lutar, dia após dia, contra o disseminar destes discursos que apelam à segregação, ao ódio, ao nacionalismo bacoco. Urge mostrar a todos quem é este cretino e o que o move e lembrar os valores da democracia e da liberdade. Como? Com a forma como ele faz exactamente o oposto: rapidamente, de modo directo, sem longos debates, indo precisamente ao encontro desta geração que gosta de tomar decisões de forma rápida e que não quer perder tempo. Adptando, portanto, a mensagem ao público. Simples como isto. 

III.

Os tempos são duros. Para todos. Fui, inicalmente,contra o decretar do estado de emergência. Que vantagens nos traria o estado de emergência ou o estado de sítio num país brando, que até tinha vindo a controlar exemplarmente a epidemia? Iriam retirar-nos direitos antes mesmo de nos pedirem a colaboração voluntária? Mas depois havia gente na marginal lá no Norte e mais bandos de gente inconsequente nos bares do Cais Sodré e as pessoas não estavam bem a perceber o filme e a gravidade do filme: o bom senso não é um conceito objectivo e universal. Assumo hoje que estava errada e ainda bem que o Governo, a bom tempo, agiu e o declarou: a comunicação e a expressão "estado de emergência" foi um abre-olhos para as pessoas, um neón sobre a gravidade do que estava a chegar e funcionou. Funcionou.
E temos assistido ao povo, mediante instruções dos líderes que elegeu, a perceber, a acatar, a perceber, a cumprir e a colaborar, regra geral de forma exemplar nesta fase. Porque percebeu a gravidade da situação.  Porque percebeu. 
Tiro o chapéu a Graça Freitas, a Marta Temido, a António Costa e a todos os que nos governam nesta fase e que, com as falhas esperadas por ser uma situação absolutamente ímpar, nos mostraram todos os dias um esforço incrível para minimizar o impacto desta pandemia. E que, até agora,  nos têm trasmitido uma mensagem generalizada de congruência, consistência, calma, controlo e confiança. 

IV.

Como sociedade temos sido quase exemplares neste cenário e não é porque os jornais alemães, franceses, belgas e americanos escrevam sobre nós: é porque os números e os factos o traduzem. Tem sido o nosso espiro de sacrifício colectivo que tem contribuído para esta realidade. 
Enquanto grupo ("unidade social que consiste em duas ou mais pessoas e que possuem determinados atributos como sejam filiação, interacção entre integrantes, objectivos compartilhados e normas comuns") sabemos que a coesão social é um factor fundamental do nosso próprio funcionamento: sabermos que estamos todos debaixo da mesma tempestade, que está a ser difícil para todos, que as emoções de todos estão ser postas à prova. É esta coesão social faz emergir um sentimento de empatia e a necessidade de todos contribuirmos para a resolução deste problema que nos afecta a todos enquanto colectivo. Não é "com o mal dos outros, posso eu muito bem", é que, desta feita, o mal é de todos e todos podemos com ele muito mal. Por isso nos juntamos e agimos. 
A psicologia social explica: os grupos mais eficazes a atingirem os seus objectivos são os que partilham uma coesão de tarefa maior que os que falham. A maioria dos grupos cria uma série de normas que regula as actividades dos seus elementos, sendo que as normas são indissociáveis de uma ordem de valores que orienta os comportamentos dos indivíduos e dos grupos, no fundo, são regras que definem as condutas individuais e colectivas. Organizadas em sistema, constituem um modo de regulamentação social e têm várias funções:  incentivam a coordenação entre os elementos do grupo para a realização dos objectivos comuns e reflectem o sistema de valores desse mesmo grupo. 
A influência social estuda dois tipos de fenómenos: o conformismo (porque tendemos a ceder a uma maioria mesmo que tenhamos certeza de que a nossa escolha individual está correcta?) e a obediência (porque cede uma maioria às instruções de um indivíduo ou de uma minoria?)
A resposta ao primeiro fenómeno explica-se, resumidamente, que ceder ao conformismo é um tipo de pensamento no qual os membros do grupo partilham uma motivação tão forte para chegar ao consenso que se escusam a avaliar e a ponderar soluções alternativas. Ao segundo fenómento acrescentamos que a posição do líder que é decisiva face a pensamentos divergentes. E é aqui que entra a história da comemoração do 25 de Abril, liderança e Ferro Rodrigues. 


V.

 Num cenário de dependência informacional como o que vivemos face a este tema tendemos a vivenciar um conflito cognitivo em que procuramos reunir as informações pertinentes que nos permitirão resolver a tarefa com a qual estamos a ser confrontados: procuramos notícias, ouvimos os directos da DGS, consultamos sites oficiais e grupos de facebook. Confiamos- porque precisamos de confiar para reduzir a nossa ansiedade- no que nos dizem, no que nos aconselham, na informação que nos vão dando.
Vivenciamos também uma certa dependência normativa. Uma dependência que constitui um conflito motivacional porque, embora seja altamente dolorosa a situação de confinamento e isolamento social. entendemos- e bem!- que devemos estar sujeitosa à adesão às normas do grupo: estamos todos na mesma situação, pelo que, de nada nos vale estarmos em conflito interno, logo, conformamo-nos. O processo de influência normativa está assente em duas bases importantes; as pessoas conformam-se devido ao medo das consequências negativas interpessoais que a sua não conformidade pode provocar  (sermos punidos, ostracizados ou julgados como displicentes e negligentes na gestão desta crise)  e, porque sentimos necessidade de aprovação social, logo, somos compelidos a ir ao encontro das expectativas do grupo.
Então, o que nos tem aconchegado a ansiedade e o pânico é, em grande parte, a sensação de que estamos a fazer o que tem que ser feito  que estamos a fazer a nossa parte face ao que todos os outros também estão a fazer, que estamos a cumprir, a fazer as coisas certas e que, por isso, estamos a ir ao encontro do que é esperado de nós como indivíduos e sociedade.
E há vários factores que influenciam o nosso grau de comprometimento face a isto: a consistência sincrónica ( os membros devem estar genericamente de acordo porque a unanimidade gera uma percepção de coerência), a próximidade com as figuras de autoridade (quanto mais presentes estão, mais cumprimos), a legitimidade das figuras de autoridade (quanto mais for legitimada e reconhecida a autoridade e quanto maior forem os seus estatuto, grau de especialidade ou de conhecimento, mais cumprimos), a identificação com as figuras de autoridade (os sujeitos procuram ser semelhantes às fontes e quanto maior a identificação, maior a empatia e maios o cumprimentos), a consistência da mensagem, que deve ser clara, consistente e sem causar inseguranças ou dúvidas.

VI.

25 de Abril sempre. E não admito que me chamem fascista ou chegófila porque não concordo com este disparate de se abrir excepção de um ajuntamento para se comemorar a data, de forma rígida e sem flexibilizações ou adaptações. A comemoração pode ter outros contornos ou meios e isso- lamento!- não é ser contra o 25 de Abril. 
Sei os argumentos todos de quem é a favor desta comemoração nos moldes de sempre, argumentos que respeito e entendo. Mas não concordo. Não são os deputados do costume: são esses e mais uma mão cheia de convidados. E são as exceopções que tiram consistência à mensagem e que podem impelir a uma mudança do comportamento das massas. 
 Não é tempo de gerar polémicas desnecessárias que dão legitimidade a discursos populistas e ao avanço de aproveitamentos políticos daqueles de quem nós sabemos quem são. O comportamento humano, numa altura de crise, não se coaduna com regras que não sejam claras, objectivas e sem qualquer excepção ideológica.  Não se trata de política ou de ideologia: trata-se de consistência da mensagem e de identificação com as figuras de autoridade, da constência de um comportamento colectivo. 
A excepção abre o caminho a qualquer significado particular e simbolismo a que cada grupo atribuiu. A excepção abrirá os precedentes e não tarda estaremos a assistir a pessoas reclamar para si as suas pequenas excepções individuais: daqui a nada temos que o Campo Pequeno até é bastante amplo e pode ser que, desde que respeitando a distância social, uns pouquinhos amantes da tauromaquia queiram ir ver uma tourada, até porque estão a respeitar as normas mínimas de segurança. É um exemplo parvo?  É. Mas o bom senso é subjectivo e uma conduta exemplar e uma mensagem consistente, sem excepções, era exactamente o que eu esperava que fosse feito. Não é uma questão política nem ideológica: é do domínio da congruência e do bom senso de quem nos governa e de quem esperamos que saiba disto mais que nós.
Não é tempo de se dar uma mensagem de que se podem abrir excepções conforme o quadro de valores de cada um, mesmo que de valores colectivos se tratem, como o valor inquestionável da liberdade. O valor colectivo do luto e dos seus rituais está a ser vivido de forma adaptada à pandemia, o valor colectivo do amor e os rituais de bounding nas maternidades entre mães e recém nascidos, de igualdade na parentalidade em que pais assistem ao nascimento dos filhos e os rituais de matrimónios estão a ser suprimidos por conta da pandemia, de um valor maior: o da vida. Toda a gente acatou as normas do colectivo, não criem excepções para as normas. O povo é brando, porém não é parvo.

VII.

Comemoremos.
Não se trata de não comemorar: trata-se de adaptar a comemoração a outros moldes. 
As celebrações podem existir noutro formato porque é tempo de ser criativo, de flexibilizar, de nos reinventarmos. Foi isso que foi pedido a todos os portugueses que trabalham em teletrabalho, que dão aulas em casa aos filhos, que mudaram hábitos do dia a dia, que só visitam os familiares doentes por chamadas de vídeo, que estão em lay off e com perdas significativas dos rendimentos sem irem para a rua manifestarem-se, sem fazerem greves, sem todos os direitos que sempre conheceram poderem estar ao seu alcance. Não consigo conceber a rigidez com que se trata isto quando nos pedem, dia após dia, capacidade de adaptação e flexibilidade e nós temos respondido em conformidade.
Nesta altura isto não. não se trata de política nem de ideologia e a pala política disto é o que dará força aos Chegas desta vida. Porque o senhor pode ser o que é mas até um relógio parado acerta duas vezes por dia: e a força que isto lhe dará!
Até o Scolari, que não era nenhum intelectual político, sabia como mobilizar as pessoas em torno de uma causa. Esta é a geração que precisa de ser relembrada sobre o valor inquestionável da liberdade, porque não tem memória colectiva de onde ela veio, de como foi conquistada, do que é não a ter e do que todos ganhámos. Mas com congruência e, a atalho de foice, aproveitando para adicionar modernidade, adaptando a mensagem aos novos destiantários, consumidores fast, amantes de imagens belas ao invés de muitas palavras.
 Vi que propuseram fazer uma coisa moderna e actual: às três da tarde todas as pessoas iam às janelas cantar o "Grândola, vila morena" ao invés dos excelsos políticos irem debitar discursos aos microfones, numa de castas com mais privilégios. Todos às janelas: as crianças a aprenderem as letras das músicas com os pais, os adolescentes a filmarem e colocarem nas redes sociais, os adultos e os velhos a prescindirem a descida à avenida mas sem perderem a voz. Todos às janelas, a forma de rua que todos partilhamos neste momento, como povo e da forma colectiva que deve ser. 
Não sei o que vai acontecer. Mas espero que, caso avance nos moldes tradicionais, isto não seja o início da legitimização para se prevaricar, não seja o precedente que nos fará deitar por terra todo o comportamento de cumprimento de grupo que temos vindo a adoptar, que não tenha repercurssões no comportamento das pessoas que resulte indirectamente no aumento do número de mortos. 
 Não comemorar da forma como tradicionalmente o fazemos não tira força nenhuma à liberdade nem é nenhuma ameaça à democracia: é uma forma de manter a mensagem consistente, o exemplo firme, de reforçar o espirito de sacrifício colectivo e de lembrar que estamos todos na mesma tempestade e que não queremos deixar ninguém para trás. De mostrarmos que tudo pode ser reinventado e nós também.
A liberdade existe e resiste. E eu acho mesmo que deve ser comemorada. É a liberdade que nos trouxe direitos e deveres como indivíduos e como povo: desculpem os ofendidos se, neste momento, priorizo o dever de nos protegermos e de travar as possibilidades de contágio que se abrirão com todas as excepões que se seguirão em prol ao direito de comemorarmos sem quaisquer concessões.. 
Porque- sim!- a liberdade é a maior conquista que temos enquanto povo. Mas precisamos de estar vivos, no fim de contas, para a percebermos, vivermos e até comemorarmos.

Vivamos. 


Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: frango de churrasco comido à mão.

 De nada

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quarentenacoisas bonitas para cacete # 10


"Não estamos todos no mesmo barco, estamos todos na mesma tempestade"*




Sou psicóloga social. Já tinha estudado isto mas nunca pensei viver isto. Nasci seis anos depois do 25 de Abril, o tempo da liberdade poder entrar na escola primária, o tempo de amadurecimento necessário para adquirir aprendizagens estruturadas, consolidar conhecimentos, o tempo da liberdade amadurecer o suficiente para se poder alfabetizar. 

Nasci numa família polarizada, até regionalmente: do lado materno avós do Minho, avô analfabeto porque a escola era perda de tempo e tinha mais é que ajudar na venda da família e avó que frequentou um período da primeira classe, o suficiente para aprender a ler e depois foi servir para casa de uns senhores, vieram para Lisboa à procura de uma vida melhor e mal ou bem conseguiram-no, apesar do meu avô trabalhar toda a vida numa serração de pedra e a minha avó ser ama de crianças pequenas, que povoavam sempre a nossa casa; do lado paterno avós algarvios, de boas famílias, burgueses, a minha avô chegou a frequentar Direito em Coimbra, curso que abandonou para casar uma primeira vez com o pai dos meus tios, tendo-se apaixonado, mais tarde, pelo meu avô, por quem deixou tudo e vieram para Lisboa à aventura, o meu avô tinha um cargo alto na Lisnave e um comportamento baixo nas casas de fado e bordéus da capital, ao ponto de hoje as fotografias do casamento deles estarem todas recortadas pela minha avó e só constarem ela e o seu belo vestido para contarem a história. Consta que sambou sobre o seu túmulo. 

Nunca soube o que era pobreza extrema, racionamento de bens, censura nos jornais, escola para meninos e para meninas, cantar o hino de Portugal, ter aulas sob o olhar sordido de Salazar numa moldura e ter que me guardar e ser virgem até ao casamento, sob pena de desonra de toda a família.Quando eu nasci as crianças já tinham escolaridade obrigatória, o trabalho infantil estava criminalizado, as mulheres não tinham que se casar por vontade dos pais nem que suportar casamentos com pulhas, só porque sim.
Sou filha da União Europeia dos doze e depois dos quinze, até que lhes perdi a conta, da promessa de uma vida melhor, da Guerra do Golfo, de anos 90 de prosperidade, do "tens que tirar um curso para seres alguém", do 11 de Setembro, da legalização da interrupção voluntária da gravidez, das viagens baratas pelas Easyjets desta vida, dos homens reclamarem papéis igualitários de parentalidade, das mulheres ascenderem a lugares profissionais de poder e todas as possibilidade são reais para uma grande maioria das pessoas deste país. 

Herdei a liberdade e guardei-a como um dado adquirido, inquestionável e irreversível. 

De repento isto: estamos todos num Big Brother colectivo, confinados a quatro paredes, com relações a desgastarem-se, conflitos a emergirem e a gestão emocional à prova. Só não nos filmam e ainda bem, porque muitos de nós ainda não percebemos bem isto e continuamos a andar de pijama o dia todo, com carrapitos mal engembrados no cocuruto e a comer desenfreadamente, porque a fome emocional é uma realidade. É mesmo. 

Vejo, claramente, a adensarem-se duas facções: a dos optimistas do "estamos todos no mesmo barco" e a dos pessimistas do "isto está pior é para mim e não sei do que eles se queixam, cambada de privilegiados". Que também se traduz no "vamos ficar todos bem " versus o "vamos todos morrer". 

Boas notícias: isto há-de passar (e nessa perspectiva, sim, se o que vier a seguir implicar o extermínio do vírus sem que seja substituído por algo pior ou mais mortífero, tudo há-de ficar melhor genericamente), o que não quer dizer que fiquemos todos bem. Os que morreram ou vierem a morrer entretanto, não ficam bem merda nenhuma, nem as sua famílias, vamos lá deixar-nos de lalaland.

Más notícias: eventualmente, vamos todos morrer. Mesmo que não seja agora, mesmo que não seja disto. A mortalidade é um facto com o qual teremos todos que lidar. Pode é não ser já, já, o que até nos dava imenso jeito que temos uma data de coisas em atraso para pôr em dia, nomeadamente, viver para além de sobreviver. 

No entretanto vivemos uma situação ímpar e excepcional. Temos, pela primeira vez de forma colectiva na minha geração, noção da nossa vulnerabilidade, do pouco controlo que detemos sobre o Mundo e da nossa própria mortalidade. De que, afinal , não somos omnipotentes e que não basta desejar muito para que as coisas se concretizem, porque há o mundo lá fora, alheio à nossa vontade, a borrifar-se para ela. Estamos, pela primeira vez, a passar verdadeiras privações, nós os filhos da década de 80, das fronteiras abertas, da livre circulação de pessoas e mercadorias, da moeda única, da queda do muro de Berlim, das facilidades e do imediatismo. Tumbas: baixem lá a garimpa. 

E se tudo isto nos custa muito, a pior privação de todas é a perda gradual da nossa liberdade. E isso, meus amigos, é transversal para todos. 

Portanto não vamos comparar misérias como os velhotes nas salas de espera dos centros de saúde a dizerem que as suas doenças é que são mesmo, mesmo beras, as dos outros são só mariquices. A mim dói-me mais na pele uma unha encravada que o cancro de quem não conheço. É triste mas é verdade. Como é verdade que estamos todos na merda. 

"Ah, estamos todos no mesmo barco!" Não estamos. Quem está, neste momento, nos cuidados intensivos de um hospital. com a vida em risco e ligado a um ventilador não está no mesmo barco que eu, aqui na minha casa confortável a escrever um post, com uma chávena de chá ao lado. Quem está em lay off ou com uma situação profissional incerta não está, com certeza, na mesma situação que um funcionário público que continua a receber o seu salário por inteiro e com o conforto de saber que o seu posto de trabalho o espera. Quem está em tele-trabalho com filhos pequenos, a quem ainda tem que acompanhar na tele-escola, não está no mesmo barco que o tipo solteito, sem filhos. em tele-trabalho. 

E o inverso. 

Eu, aqui na minha casa confortável a escrever um post, com uma chávena de chá ao lado mas com a minha mãe e a minha tia, enquanto profissionais de saúde, a sairem todos os dias para irem trabalhar e privada do contacto com ela, a ver a minha filha triste que dá dó por não as poder abraçar não estou no mesmo barco que a minha amiga que até vive com os pais e que tem todo o agregado familiar controlado, exposto ao mínimo de riscos e numa unidade contentora. A funcionária pública que não tem que se preocupar com a perda do trabalho pode ser a senhora que é vítima de violência doméstica e que agora está confinada a quatro paredes na presença contínua do seu agressor ou a pessoa com deficiência que teme ver-se preterida na atribuição de ventiladores em caso de escassez de recursos, pelo facto de ter uma deficiência. E o tipo solteiro, sem filhos, em tele-trabalho pode estar a enfrentar todo este stress absolutamente sozinho, num processo angustiante de solidão e sem ter com quem partilhar as angústias e treinar estratégias de coping. 

Sabemos pouco, muito pouco da vida dos outros. Da vida exterior mas, especialmente, da interior. Dos seus termos de comparação, do que se estão a ver privados face ao que tinham como dado adquirido, das suas dinâmicas familiares, personalidades, dos seus dramas pessoais. Do seu quadro de referências e valores. 

Talvez eu não me devesse queixar. A minha avó materna andou descalça toda a infância, o meu avô paterno deu cabo dos ossos a trabalhar toda a vida com botas de cano alto e água; a minha avó paterna desistiu da faculdade porque teve que casar e o meu avô paterno viveu toda vida com o castigo de ser um pulha do pior. 

Mas que me consolam as desgraças deles? Porque dever-me-ia sentir reconhecida por ter acesso a sapatos, a uma profissão intelectual, à possibilidade de completar um curso? Essa não é a minha história. Esse não é o meu percurso. Ninguém sente falta do que nunca teve: sente-se sempre falta do que perdemos. E todos, de uma forma ou outra, estamos a perder coisas: saúde, tempo, emprego, afetos das famílias, controlo financeiro, controlo emocional, qualidade de vida, concentração, capacidade de multitasking, saúde mental, rotina, estrutura, organização, previsibilidade, companhia, segurança. Paciência. 

Não é tempo de juízos de valor. Nem de comparações. Nem de competições de quem leva o prémio do mais miserável. Seremos sempre privilegiados face a outros em determinados indicadores e circunstâncias. Seremos sempre desfavorecidos face a outros face a outros indicadores e circunstâncias. As dores são coisas muito íntimas e pessoais. 

Não precisamos de compreender, apenas de aceitar e empatizar. 

Não estamos todos no mesmo barco. Estamos todos em canoas frágeis e nunca aprendemos a navegar. Crescemos com GPS e ninguém nos ensinou a orientar-nos pelas estrelas ou sequer a ler bússulas. Estamos, sim, todos, todinhos debaixo da mesma tempestade. 

Concentremo-nos em remar. Com foco e resiliência, sem olhar para os barcos e os remos dos outros. 

Não vamos ficar todos bem e vai doer a muitos. 
Mas a tempestade há-de passar. 

[*Obrigada à minha amiga Paula que me deu o mote para este post]



quinta-feira, 9 de abril de 2020

Dia 8464393030272524 de quarentena


Pergunta ele: "Amanhã é sexta-feira santa: o que sugeres que cozinhemos?"


"Estou a pensar faze o meu próprio leite condensado na Bimby." 

Olha-me com desdeém.


"O que é que foi? Não é peixe!"

New great grandparents on the quarantine #1




A tia Dulce é uma das minhas tias emprestadas favoritas: desempoeirada, fora da caixa, despachada e com um sentido de humor requintado.

A tia Dulce, para além de ser minha tia emprestada, é sobretudo avó. E que avó...

E, nesta altura, privada de estar com os netos e em situação de isolamento social, encontrou a maneira mais ternurenta de se fazer presente: criando cenários de filmes para os netos, na companhia do seu comparsa e marido e com uma dose de imaginação ímpar.

Durante os próximos dias vou-vos deixar espreitar pelo buraco da mesma fechadorab que espreito eu, todos os dias sedenta do que lá vem.

E vêm sempre coisas de-li-ci-o-sas!

Obrigada, minha tia Dulce: é a maior!

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: chocolate.

 De nada.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Este blog já teve melhores dias

Mais de 12 horas de post publicado e nenhuma pólete que se digne me quadripolarizou o Tiaguim.



Só desgostos.

Desafio "dicas de beleza quadripolares em tempo de quarentena" # Filipa



A Sofia pediu e a comunidade quadripolar quer que nunca vos falte nada.

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que preferem Lobo Antunes e as que preferem Saramago.

Saramago às voltas na tumba





Dia 9878755642 da quarentena

Apetece-me fazer franja. Sendo que sou aquela pessoa que tem uma testa que é um trem de aterragem e um remoínho à frente gigante. ...

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: leite condensado às colheradas.

 De nada

terça-feira, 7 de abril de 2020

Entretanto, numa galáxia não muito distante chamada Açores

Foto: Raquel Gama do grupo de fb "Fãs do Tiaguim"


Como sobrevivem os açorianos, perdão, as açorianas à quarenta?

Barricam-se em casa?
Fazem receitas de massa sovada e bolo lêvedo e partilham fotografias nas redes sociais?
Empurram kimas de maracujá de penálti?
Vão fazer os seus passeios higiénicos para os pastos verdejantes mantendo as devidas distâncias sociais com as vaquinhas?
Fazem almoços de espírito santo via zoom?
Passeiam na marginal ao largo do perímetro das ilhas?


Não!

Juntam-se em torno de uma causa bem maior: o Tiaguim. 

Como? 


Perguntar-me-ão os incautos leitores continentais quem raios é o Tiaguim? Pois bem, o Tiaguim é o Director Regional de Saúde dos Açores e as açorianas estão loucas por ele, ao nível de o terem decretado healthy sex symbol.

E Dr. Tiago Lopes, doravante designado por Tiaguim (diminutivo micaelense de Tiago, a.k.a. Tiaguinho) serena os ânimos açorianos, entretendo as pequenas com directos a ler os relatórios do dia,gerando debates sobre quais as melhores gravatas, inspirando coberturas de arroz doce e mantendo todo um povo unido em grupos de visualização enquanto faz as melhores recomendações para os tempos de pandemia. 

Numa terra de sismos, vulcões, furacões, tempo instável e muito isolamento social forçado à custa de greves da SATA e do mau tempo no canal, as açorianas não precisem que lhes ensinem como lidar com merdas difíceis. 

Precisam é de festa: e não há festas como as dos Açores!

Quarentenacoisas bonitas para cacete # 9



Acalma.online é um projeto nacional de sessões de apoio online para uma intervenção psicológica em crise, gratuito e rápido para promover a saúde mental durante a epidemia Covid-19.

 Acedam aqui. E disponham. 

A montanha



[São tempos difíceis de pudor porque há outros com tempos ainda mais difíceis e não nos resta nada senão afirmar, à laia de redução da dissonância cognitiva, que ainda assim somos privilegiados por mantermos o trabalho, o salário, a família nuclear junta, por estarmos saudáveis e vivos, embora vivamos em gaiolas gigantes num Mundo onde sempre voámos livremente.

 Ele é introvertido. Dizia-me que sente falta de estar sozinho e eu, extrovertida assumida, dizia-lhe que sinto falta de estar mais acompanhada. Discutimos, curiosos, esta diferença tão gigante que nos define. Como podia ele querer estar sozinho se só interage comigo e com a filha, um grupo restrito de 2 pessoas? Como poderia eu, que não passo um minuto sozinha, sentir falta de mais elementos humanos, mais micro-interações, mais ruído? “Porque sentes tu a falta disso?”- perguntámo-nos mutuamente. E ele respondeu: para me organizar internamente, para organizar ideias, estruturar pensamentos, situar-me no espaço e no tempo, reorganizar-me e projectar-me a curto e médio prazo. Só o consigo fazer sozinho, sem a companhia de ninguém. “E tu?”

 E eu sorri.

Para me organizar internamente, para discutir ideias e chegar a conclusões, estruturar pensamentos, situar-me face aos outros no tempo e no espaço, reorganizar-me e projectar-me a curto e médio espaço. E só consigo isso com a multiplicidade e a cor das pessoas imensas com quem me relaciono habitualmente, com a diversidade de micro-interações que tenho diariamente. 

 Queremos no fundo, os dois, exactamente a mesma coisa. Marcarmos com um pin onde estamos no mapa do mundo e organizar as emoções, pôr trela numas, libertar outras, sentirmos que as temos sob controlo. Não temos o mundo lá fora mas queremos ter essa sensação de controlo do nosso mundo interior: ele em silêncio, sozinho e intenso, por um tempo securizante e sem pressas; eu, acompanhada e cheia de estímulos diversos, em pequenas interações fugazes que não cansam. 

 “Há diversas formas de ver o Pico”- diz-me ele, na metáfora que mais gosto que ele repita. “O Pico visto do Faial é mais próximo e vibrante. Mas visto de S. Jorge é mais longínquo e melancólico” A montanha, porém, é sempre a mesma. 

 Subamo-la.]

Máxima de mámen em tempos de quarentena

Mámen lê o meu post a reclamar que ele me está a engordar propositadamente e comenta:

"Não percebes nada. Tenho apenas uma única máxima para sobreviver a isto da quarentena..."

Ah, sim? Então qual é?"

"Happy wife, happy life".




...

Actually, he knows things.

Desafio "dicas de beleza quadripolares em tempo de quarentena" # Marco

O Marco respondeu ao repto da Sofia.





Quem se segue?

Os maridos das outras são o pináculo da perfeição

Que fazem os maridos das outras em tempos de quarentena?

Treinos de crossfit em casa. Danças em casal no Tik Tok. Pinturas dos muros do quintal (sim, Ana Veiga: esta é para ti.). Visionamento de séries. Pequenos arranjos em casa. Constroem pequenos móveis. Jogam playstation (Tostas: eu bem vejo!).


O que tem feito o meu?

Engorda-me.*




[ * Batatas selvagens. Bolo de cenoura. Pão da Titá. Bola de carne. Pão da Filipa Gomes. Ovos rotos. Bolo de bolacha. Broa de milho. Red velvet. E ainda só vamos na terceira semana disto...]

Só Deus me pode julgar

Se tudo falhar: lasanha congelada do LIDL. De nada.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Ana, a mercenária

A Ana decidiu ocupar o tempo de quarentena criando pequenos caça.-sonhos. Vende-os (obviamente!) às minhas amigas, numa de juntar dinheiro para as férias (foi assim que no ano passado pagou as entradas de toda a família na Isla Mágica). É a pessoa mais poupada do Mundo.

É, também, super empreendedora e orientada para a tarefa.

Acabou uma série de caça-sonhos e decidiu publicá-los na sua conta de instagram. Uma seguidora decide fazer o quebra-gelo.

Apreciem:


Juro que sou mãe dela!


Tarefa do dia da Ana: transformar a sua biblioteca da sala num arco-íris. 

Não sei o que me mais espera mas tenho medo...

O mundo divide-se entre...

... quem organiza os livros na estante por tamanho dos livros e quem organiza por ordem alfabética de autores.

Dia 46454545 de quarentena

A minha filha está a organizar a estante por cores de livros.


...

Desafio "dicas de beleza quadripolares em tempo de quarentena" # Sofia


A ideia é da Sofia e é tão boa que não podíamos deixar de a partilhar com o Mundo, para além da sua timeline do facebook. 

O desafio é que mais quadripolares possam partilhar as suas "dicas de beleza quadripolares em tempo de quarentena". 

As dicas mais quadripolares ganharão uma sessão de coaching ou de psicoterapia da alma. Ou uma receita de pão melhor que a da Filipa Gomes. Ou um rolo de papel higiénico. 

Venham daí os vossos contributos. 

Quarentenacoisas bonitas para cacete # 8

Obrigadinha, professora!

A professora da miúda seleccionou, como tarefa para as férias da Páscoa a plantação  de um pé de feijão.

 A Ana, obviamente, tratou de me perguntar quantos dias demoraríamos a ter um feijoeiro digno de assim ser chamado.

 "Várias semanas. Talvez mais que um mês"- respondi.

 Está a chorar há mais de quinze minutos porque acha que é uma indirecta da professora para o tempo que a quarentena ainda vai durar...

FML.
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