quarta-feira, 15 de abril de 2020

"Não estamos todos no mesmo barco, estamos todos na mesma tempestade"*




Sou psicóloga social. Já tinha estudado isto mas nunca pensei viver isto. Nasci seis anos depois do 25 de Abril, o tempo da liberdade poder entrar na escola primária, o tempo de amadurecimento necessário para adquirir aprendizagens estruturadas, consolidar conhecimentos, o tempo da liberdade amadurecer o suficiente para se poder alfabetizar. 

Nasci numa família polarizada, até regionalmente: do lado materno avós do Minho, avô analfabeto porque a escola era perda de tempo e tinha mais é que ajudar na venda da família e avó que frequentou um período da primeira classe, o suficiente para aprender a ler e depois foi servir para casa de uns senhores, vieram para Lisboa à procura de uma vida melhor e mal ou bem conseguiram-no, apesar do meu avô trabalhar toda a vida numa serração de pedra e a minha avó ser ama de crianças pequenas, que povoavam sempre a nossa casa; do lado paterno avós algarvios, de boas famílias, burgueses, a minha avô chegou a frequentar Direito em Coimbra, curso que abandonou para casar uma primeira vez com o pai dos meus tios, tendo-se apaixonado, mais tarde, pelo meu avô, por quem deixou tudo e vieram para Lisboa à aventura, o meu avô tinha um cargo alto na Lisnave e um comportamento baixo nas casas de fado e bordéus da capital, ao ponto de hoje as fotografias do casamento deles estarem todas recortadas pela minha avó e só constarem ela e o seu belo vestido para contarem a história. Consta que sambou sobre o seu túmulo. 

Nunca soube o que era pobreza extrema, racionamento de bens, censura nos jornais, escola para meninos e para meninas, cantar o hino de Portugal, ter aulas sob o olhar sordido de Salazar numa moldura e ter que me guardar e ser virgem até ao casamento, sob pena de desonra de toda a família.Quando eu nasci as crianças já tinham escolaridade obrigatória, o trabalho infantil estava criminalizado, as mulheres não tinham que se casar por vontade dos pais nem que suportar casamentos com pulhas, só porque sim.
Sou filha da União Europeia dos doze e depois dos quinze, até que lhes perdi a conta, da promessa de uma vida melhor, da Guerra do Golfo, de anos 90 de prosperidade, do "tens que tirar um curso para seres alguém", do 11 de Setembro, da legalização da interrupção voluntária da gravidez, das viagens baratas pelas Easyjets desta vida, dos homens reclamarem papéis igualitários de parentalidade, das mulheres ascenderem a lugares profissionais de poder e todas as possibilidade são reais para uma grande maioria das pessoas deste país. 

Herdei a liberdade e guardei-a como um dado adquirido, inquestionável e irreversível. 

De repento isto: estamos todos num Big Brother colectivo, confinados a quatro paredes, com relações a desgastarem-se, conflitos a emergirem e a gestão emocional à prova. Só não nos filmam e ainda bem, porque muitos de nós ainda não percebemos bem isto e continuamos a andar de pijama o dia todo, com carrapitos mal engembrados no cocuruto e a comer desenfreadamente, porque a fome emocional é uma realidade. É mesmo. 

Vejo, claramente, a adensarem-se duas facções: a dos optimistas do "estamos todos no mesmo barco" e a dos pessimistas do "isto está pior é para mim e não sei do que eles se queixam, cambada de privilegiados". Que também se traduz no "vamos ficar todos bem " versus o "vamos todos morrer". 

Boas notícias: isto há-de passar (e nessa perspectiva, sim, se o que vier a seguir implicar o extermínio do vírus sem que seja substituído por algo pior ou mais mortífero, tudo há-de ficar melhor genericamente), o que não quer dizer que fiquemos todos bem. Os que morreram ou vierem a morrer entretanto, não ficam bem merda nenhuma, nem as sua famílias, vamos lá deixar-nos de lalaland.

Más notícias: eventualmente, vamos todos morrer. Mesmo que não seja agora, mesmo que não seja disto. A mortalidade é um facto com o qual teremos todos que lidar. Pode é não ser já, já, o que até nos dava imenso jeito que temos uma data de coisas em atraso para pôr em dia, nomeadamente, viver para além de sobreviver. 

No entretanto vivemos uma situação ímpar e excepcional. Temos, pela primeira vez de forma colectiva na minha geração, noção da nossa vulnerabilidade, do pouco controlo que detemos sobre o Mundo e da nossa própria mortalidade. De que, afinal , não somos omnipotentes e que não basta desejar muito para que as coisas se concretizem, porque há o mundo lá fora, alheio à nossa vontade, a borrifar-se para ela. Estamos, pela primeira vez, a passar verdadeiras privações, nós os filhos da década de 80, das fronteiras abertas, da livre circulação de pessoas e mercadorias, da moeda única, da queda do muro de Berlim, das facilidades e do imediatismo. Tumbas: baixem lá a garimpa. 

E se tudo isto nos custa muito, a pior privação de todas é a perda gradual da nossa liberdade. E isso, meus amigos, é transversal para todos. 

Portanto não vamos comparar misérias como os velhotes nas salas de espera dos centros de saúde a dizerem que as suas doenças é que são mesmo, mesmo beras, as dos outros são só mariquices. A mim dói-me mais na pele uma unha encravada que o cancro de quem não conheço. É triste mas é verdade. Como é verdade que estamos todos na merda. 

"Ah, estamos todos no mesmo barco!" Não estamos. Quem está, neste momento, nos cuidados intensivos de um hospital. com a vida em risco e ligado a um ventilador não está no mesmo barco que eu, aqui na minha casa confortável a escrever um post, com uma chávena de chá ao lado. Quem está em lay off ou com uma situação profissional incerta não está, com certeza, na mesma situação que um funcionário público que continua a receber o seu salário por inteiro e com o conforto de saber que o seu posto de trabalho o espera. Quem está em tele-trabalho com filhos pequenos, a quem ainda tem que acompanhar na tele-escola, não está no mesmo barco que o tipo solteito, sem filhos. em tele-trabalho. 

E o inverso. 

Eu, aqui na minha casa confortável a escrever um post, com uma chávena de chá ao lado mas com a minha mãe e a minha tia, enquanto profissionais de saúde, a sairem todos os dias para irem trabalhar e privada do contacto com ela, a ver a minha filha triste que dá dó por não as poder abraçar não estou no mesmo barco que a minha amiga que até vive com os pais e que tem todo o agregado familiar controlado, exposto ao mínimo de riscos e numa unidade contentora. A funcionária pública que não tem que se preocupar com a perda do trabalho pode ser a senhora que é vítima de violência doméstica e que agora está confinada a quatro paredes na presença contínua do seu agressor ou a pessoa com deficiência que teme ver-se preterida na atribuição de ventiladores em caso de escassez de recursos, pelo facto de ter uma deficiência. E o tipo solteiro, sem filhos, em tele-trabalho pode estar a enfrentar todo este stress absolutamente sozinho, num processo angustiante de solidão e sem ter com quem partilhar as angústias e treinar estratégias de coping. 

Sabemos pouco, muito pouco da vida dos outros. Da vida exterior mas, especialmente, da interior. Dos seus termos de comparação, do que se estão a ver privados face ao que tinham como dado adquirido, das suas dinâmicas familiares, personalidades, dos seus dramas pessoais. Do seu quadro de referências e valores. 

Talvez eu não me devesse queixar. A minha avó materna andou descalça toda a infância, o meu avô paterno deu cabo dos ossos a trabalhar toda a vida com botas de cano alto e água; a minha avó paterna desistiu da faculdade porque teve que casar e o meu avô paterno viveu toda vida com o castigo de ser um pulha do pior. 

Mas que me consolam as desgraças deles? Porque dever-me-ia sentir reconhecida por ter acesso a sapatos, a uma profissão intelectual, à possibilidade de completar um curso? Essa não é a minha história. Esse não é o meu percurso. Ninguém sente falta do que nunca teve: sente-se sempre falta do que perdemos. E todos, de uma forma ou outra, estamos a perder coisas: saúde, tempo, emprego, afetos das famílias, controlo financeiro, controlo emocional, qualidade de vida, concentração, capacidade de multitasking, saúde mental, rotina, estrutura, organização, previsibilidade, companhia, segurança. Paciência. 

Não é tempo de juízos de valor. Nem de comparações. Nem de competições de quem leva o prémio do mais miserável. Seremos sempre privilegiados face a outros em determinados indicadores e circunstâncias. Seremos sempre desfavorecidos face a outros face a outros indicadores e circunstâncias. As dores são coisas muito íntimas e pessoais. 

Não precisamos de compreender, apenas de aceitar e empatizar. 

Não estamos todos no mesmo barco. Estamos todos em canoas frágeis e nunca aprendemos a navegar. Crescemos com GPS e ninguém nos ensinou a orientar-nos pelas estrelas ou sequer a ler bússulas. Estamos, sim, todos, todinhos debaixo da mesma tempestade. 

Concentremo-nos em remar. Com foco e resiliência, sem olhar para os barcos e os remos dos outros. 

Não vamos ficar todos bem e vai doer a muitos. 
Mas a tempestade há-de passar. 

[*Obrigada à minha amiga Paula que me deu o mote para este post]



quarta-feira, 8 de abril de 2020

terça-feira, 7 de abril de 2020

Entretanto, numa galáxia não muito distante chamada Açores

Foto: Raquel Gama do grupo de fb "Fãs do Tiaguim"


Como sobrevivem os açorianos, perdão, as açorianas à quarenta?

Barricam-se em casa?
Fazem receitas de massa sovada e bolo lêvedo e partilham fotografias nas redes sociais?
Empurram kimas de maracujá de penálti?
Vão fazer os seus passeios higiénicos para os pastos verdejantes mantendo as devidas distâncias sociais com as vaquinhas?
Fazem almoços de espírito santo via zoom?
Passeiam na marginal ao largo do perímetro das ilhas?


Não!

Juntam-se em torno de uma causa bem maior: o Tiaguim. 

Como? 


Perguntar-me-ão os incautos leitores continentais quem raios é o Tiaguim? Pois bem, o Tiaguim é o Director Regional de Saúde dos Açores e as açorianas estão loucas por ele, ao nível de o terem decretado healthy sex symbol.

E Dr. Tiago Lopes, doravante designado por Tiaguim (diminutivo micaelense de Tiago, a.k.a. Tiaguinho) serena os ânimos açorianos, entretendo as pequenas com directos a ler os relatórios do dia,gerando debates sobre quais as melhores gravatas, inspirando coberturas de arroz doce e mantendo todo um povo unido em grupos de visualização enquanto faz as melhores recomendações para os tempos de pandemia. 

Numa terra de sismos, vulcões, furacões, tempo instável e muito isolamento social forçado à custa de greves da SATA e do mau tempo no canal, as açorianas não precisem que lhes ensinem como lidar com merdas difíceis. 

Precisam é de festa: e não há festas como as dos Açores!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O mundo divide-se entre...

... quem organiza os livros na estante por tamanho dos livros e quem organiza por ordem alfabética de autores.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...