sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ceci n'est pas une déclaracion d'amour

Sinto uma espécie de amor adolescente pelo meu marido. Já tivemos crises. Muitas. Já desgostei dele (oh, já desgostei tanto...) mas, sempre soube, que nunca iria deixar de o amar.Cumpriu-se e nunca deixei, um segundo sequer, mesmo que a vida e o amor fossem, tantas vezes, coisas diferentes.
Amo-o até ao infinito e mais além.
Às vezes ele vem ao meu encontro e avisto-o ao longe, andar trapalhão e cabelo desalinhado, e penso "que sorte, caraças, como é bonito o meu namorado!". Muitas vezes esqueço-me que crescemos e que adultizámos, que há alianças nos dedos para nos lembrarem de promessas formais, em dias felizes, de dedos outrora vazios, de lágrimas e de vida vivida, de tudo voltar ao sítio certo, o sítio onde ele é o meu namorado da faculdade, o sítio onde ele é o meu noivo, com um anel de noivado comprado a prestações, nós num Fiat Uno, depois, agora, o meu marido. Crescemos, caramba, mas eu ainda olho para ele com aquele ar de espanto de quem não sabe como conseguiu arranjar um namorado tão bonito, são os olhos, não sei, talvez o esgar de sorriso, o cabelo despenteado, não sei, sei que é meu, o rapaz dos Açores, tão giro, é meu. 
E isto podia ser uma declaração de amor se hoje fosse um dia para comemorar, um dia especial, como mandam os compêndios do amor. Mas não é, é apenas um dia em que me atrasei de manhã e ele não se importou de se desviar do seu caminho, de se atrasar, só para me trazer à porta do escritório e no caminho cantámos com a rádio no volume máximo, em coro, e rimo-nos, esquecendo-nos que íamos ambos a caminho do trabalho, lá atrás a cadeirinha da miúda  a teimar em não nos deixar esquecer que crescemos, que somos adultos, mas hoje, na A5, lembrei-me porque gosto tanto dele, desta forma tão tonta, tão adolescente e - que se foda!- tão boa, enfim. 

Opá, isto é tão bom!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Pergunta para queijinho: duas gémeas quadripolares fazem um par octopolar?


Grande beijinho, Joana e Inês.
Há pais com dores de cabeça chatas à custa das filhas giras, o vosso deve ter uma cefaleia crónica à vossa custa...

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Mundo divide-se entre ... (post bairrista)

... quem não percebe mesmo qual a graça em levar com alhos porros na pinha no São João e os outros.


(Que me desculpem os portuenses,  que eu cá adoro a tradição das lanternas mas isto dos alhos porros não tem piléria nenhuma, pá!)

As leitoras deste blog são melhores que as dos outros



Quadripolarizações em directo de NYC. 

"Aqui vão as quadripolarizações do 911 memorial e do novo World Trade Center! Beijos de NYC. Filomena."
"

domingo, 22 de junho de 2014

Sobrevivi a uma venda de garagem

Ou melhor, em Cascais, eleva-se sempre as expectativas e chama-se à coisa "Garden Sale". Chegámos pela fresca, cheios de sacos e com um ar desnorteado. Nunca vendi nada na vida, acho que nem rifas. Não tenho qualquer aptidão comercial. Mas hoje a ideia era diferente: fazer uns trocos, livrar-me dos monos (ou como se diz na gíria dos garden salers "destralhar") e fazer um programa diferente a dois com mámen. Assim foi.
A coisa começou logo na entrada do Parque Marechal Carmona, o sitio onde decorria a pseudo feirinha da ladra. Virámos à esquerda depois da entrada, o que significa que escolhemos ficar no lado que não é o de passagem para os visitantes do parque. Mámen ripostou porque raios queria ir eu para o lado onde passava menos gente, onde estava o meu sentido de oportunidade mas contrapus com o facto dali poder ficar na relva em vez de no caminho cheio de pó, de ter a sombra das árvores e de me diferenciar da confusão. Encolheu os ombros e fez-me a vontade. A contra gosto. 
Estendidas as toalhas comecei a dispor dos objectos criteriosamente seleccionados na véspera. Ia mirando um a um, com olhar de mãe que vê os filhos partir para a guerra, num silêncio de pesar. Puxei da cadeirinha mete-nojo e sentei-me. Olhei para o lado e a vizinha da banca bebia café num termo (nota mental nº 1- trazer comida e bebidas para estas andanças é essencial). Mámen- esse santo- prontificou-se a ir a um café buscar bebidas quentes e a um supermercado ali perto abastecer-se de pic-nic e fiquei sozinha. 
Começam a chegar as primeiras pessoas. Uma inglesa pede-me para ver um bule em forma de autocarro britânico que trouxe da minha primeira viagem a Londres com o homem e que por ser tão piroso kitsh nunca chegámos a usar. Comprámo-lo numa lojinha de Covent Garden e assim que a freguesa mo pediu para o ver, fiquei com um nó na garganta. Passei-o para a sua mão e, na tentativa de regatear preço apontou um defeito na pintura do bule. Arranquei-lho da mim "que sim, senhora, tinha toda a razão, onde já se viu eu estar a querer vender um bule com defeito, mil perdões, milhões de desculpas, retiro já o bule da banca". A mulher ainda tentava negociar, que não havia problema, que bastava eu fazer uma pequena atenção mas que não, que ia lá vender uma coisa estragada, por quem sois... Foi-se embora com um ar confuso e eu respirei de alívio, enquanto guardava o meu bulinhe querido num saco refundido. 
A seguir veio outra senhora e começou a remexer numa capa de lã muito gira que comprei quando estava separada, lembro-me que assim que a vesti pela primeira vez me senti muito distinta, a capa aumentava-me a auto-estima e costumava coordená-la com umas botas de peter-pan de meia estação e sentia-me mesmo gira quando as vestia. As botas estragaram-se e, por causa disso, deixei de usar a capa de lã. A freguesa perguntou-me o preço e inflacionei um bocadinho, na tentativa vã de a dissuadir a levar a minha rica capinha. Nem ripostou, remexia na carteira quando eu avancei com um "mas não a quer ao menos experimentar?". Disse-me que não era preciso, que gostava mesmo da capa. Estava eu a acabar de proferir a frase "ah, espere não a leve, que tem aí uns inestéticos borbotos..." quando o homem regressou com os cafés e o lanchinho. De repente, só o vi a agarrar na capa e a elogiar a cor, que com certeza ficaria a matar com a tez da senhora, que era de uma lã boa, os borbotos eram da falta de uso e de estar a apodrecer no armário, que nunca me tinha visto com aquela capa... 
Engoli em seco, quando a mulher se afastou com  minha capinha querida, miando que ainda por cima era uma peça vintage que a Tie Rack já nem existe em Portugal, enquanto mámen, esse estupor insensível, me arregalava os olhos. 
Entretanto, um casal de franceses comprou uma camisola da Gant e outra de lã de caxemira do homem que, todo contente, arrumava o dinheiro na latinha, enquanto eu- incrédula- lhe perguntava se ele tinha noção que nunca mais iríamos ter a vida que já tivemos para comprar camisolas de lã de caxemira daquela qualidade. Encolheu os ombros e disse-me que lhe estavam ambas larguíssimas e já não as iria nunca mais usar. ainda lhe soltei uma praga de que, os homens depois dos 40 engordam, vais-te arrepender, ao que me respondeu que gostava da ideia dos objectos terem uma segunda vida. Estupor, que sempre me disse que não acreditava na reencarnação!
A seguir começou a chuviscar e eu pensei que era altura de ir para casa mas não. Mámen, sempre alerta, ex-escuteiro dos quintos costados, trouxera um plásticozinho para cobrir a mercadoria... Bufei. Bufei muito.
Nesta altura, a nossa vizinha de banca desistira (um abraço solidário, se me estás a ler!) e mámen insistiu que tínhamos que mudar, mesmo, de localização. Assim foi.
De repente, localizados no meio do caminho, começaram a chover clientes. Muitos clientes. A primeira apontou-me um cachecol Pierre Cardin: "é verdadeiro?". Antes de eu alvitrar um "Não tenho a certeza", já mámen dizia que sim, por quem nos tomais vós, pode sentir a qualidade através do toque, ora experimente lá. E lá foi a senhora, toda contente, com o meu cachecol branco, que não uso vai para mais de dez anos, mas que me foi oferecido pela minha tia e lhe custou os olhinhos da cara. 
A machadada final foi quando uma grávida me perguntou o preço da banheira Shantala da Ana, objecto que nunca me deu jeitinho nenhum. Mas olhando para ela vinha-me à memória a minha filha bebézinha, coisa mais linda de sua mãe, com ar de gato escaldado a entrar na banheira, e dava-me memórias sorridentes. Mámen avançou com o preço e a senhora disse que a levava. Perguntei-lhe se esperava um rapaz ou uma rapariga e avançou-me que era um rapaz. "Mas a banheira é cor-de-rosa, isso para si não é um problema?". Que não, não era, viesse daqui a shantala. 
Enquanto ela se afastava com a minha banheirinha, os meus olhos enchiam-se de lágrimas. "És um insensível, mámen!"- atirei-lhe, com revolta. "Pensa que vai ter uma segunda vida, outro bebé lá dentro, fazer outra mãe feliz..." respondeu-me o idiota.  "Segunda vida já tinha ela..."- ripostei.  Desta vez mámen perdeu a paciência: "servir de alguidar para tirares a roupa da máquina de lavar não é segunda vida, Pólo Norte! E para a próxima ficas em casa que és a pior negociante de que há memória..."
Engoli em seco e calei-me. Para a próxima não é preciso ficar em casa. Basta que, em vez de café, ele me traga vodka e uns calmantes. Muuuitos calmantes.

(Para além do signo o facto de eu ser filha única também serve de atenuante, certo?)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Cruzada quadripolar: descubra o(s) país(es)...






Beijinhos à Cristina que me enviou quadripolarizações fabulosas, esquecendo-se de identificar os sítiso onde as fez. 
Isto é que é a essência da verdadeira quadripolar, caramba!

(Alguém tem palpites?)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Diz que é do signo*

Sábado vou, pela primeira vez, vender tralha a uma feirinha beto-coisa da ladra. Uma decisão tomada foi a de começar a destralhar a casa. Temos coisas a mais, que temos, coisas obsoletas e outras ultrapassadas e, com a vinda da Ana, a casa está cada vez mais recheada de objectos, uma vez que os dela multiplicam-se como cogumelos por todas as divisões da casa. Para além dos objectos em bom estado e funcionais há ainda uma série de OCNI (objectos caseiros não identificáveis) devidamente guardados pelo acumulador cá de casa. 
Ontem andámos a passar a pente fino as várias divisões da casa e foi um ver se te avias: "esta mala nãããooo! Foi a minha melhor amiga que me deu na minha festa de 15 anos." "Mas usa-la? Não, mas lembra-me a minha festa e eu estava tão feliz naquele dia" seguidos de "Podes pôr dois Maias no saco para levar que não precisas de três exemplares do livro." "Nem pensar, um era da minha mãe e o outro da minha avó, ambos têm história." "Manda o teu!" "Mas estás maluco ou quê? Está todo analisado e cheio de apontamentos que a professora Dalila Chumbinho era top e isto vai dar um jeito à Ana quando ela der os Maias na escola que não te passa pela marmita..." finalizado com "Temos 34 canecas novas, Pólo Norte. Novas. Podias beber chá um mês inteiro sem ter que lavar canecas. Faz uma escolha!" "Mas estás parvo? Estas trouxemos da nossa primeira viagem juntos a Londres, estas foi o Zé Miguel que nos trouxe da Noruega e têm um design tão giro, estas rústicas gamámos no restaurante do Zé Varunca e foi num dia em que fomos tão felizes e o entrecosto estava tão bom...". Nesta altura ele olha-me com um ar muito sério, de soslaio, e eu defendo-me:
"Ter loiça suficiente para não ser preciso lavá-la durante um mês é mau, queres lá ver?"

Cheira-me que sábado vou vender as latas NAN e as mil caixinhas de ovos para servirem de matéria-prima aquelas senhoras artesãs que fazem bijuteria-coiso com cápsulas Nespresso, é o que é...

(*caranguejo)

terça-feira, 17 de junho de 2014

Os cérebros de aluguer e os neurónios de substituição

O que não consigo mesmo aceitar é que alguém leve o seu desejo de ter um texto com visibilidade ao ponto de escrever, sem vergonha, que ser mãe é uma questão meramente biológica e que o argumento da natureza é que é. 


Fomos conhecer o nosso cérebro de aluguer. O cérebro de aluguer está feliz porque assim poderá ver o seu texto medíocre ser discutido, comentado e quiçá- na loucura!- ter até muitas partilhas no facebook. Fomos conhecer os meandros da ignorância e a falta de cultura dos seus neurónios de substituição.
Realmente só pessoas que não são grandes seres humanos conseguem iniciar uma crónica apontando exemplos hollywoodescos de barrigas de aluguer para disvirtuar o conceito. 
Claro que o texto fica muito mais apelativo se colocarmos nomes de bombas como a senhora do Sexo e a Cidade e a Sofia Vergara, mas faz sentido, com sorte são palavras-chaves para um texto medíocre ter mais vizualizações. Pode ser que lá vá ter gente que google para ver as maminhas da Glória ou fashionistas que buscam sobre outfits da Sara Jessica. Elton John e marido também é capaz de ser uma boa cartada: virão daqui os defensores da familia tradicional, essa instituição como-deve-de-ser. Fado, natureza e tradição já em substituição de futebol- que só nos dá desgostos- e Fátima.
Prosseguindo: apontando exemplos de pessoas que não conhecemos, estrelas de cinema lá de longe e artistas da cassete pirata, invocando ilações em vez de argumentos de que estes tenham recorrido a barrigas de aluguer por mero capricho, indisponibilidade ou falta de vagar é generalizar um assunto mais sério que afecta pessoas que, efectivamente, não podem, ou não conseguem ser mães de forma natural. Apontando o foco para a "pobre, ignorante e explorada" barriga de aluguer anónima que, na realidade, de forma informada e consentida, acedeu a doar temporariamente o seu útero para substituir o corpo ineficiente ou inoperacional de alguém não só é pouco inteligente: é pernicioso, até. 
A velha questão de se opinar sobre o corpo de alguém enerva-me. Enerva-me muito. "Ah e tal, sou contra o aborto." Perfeito, não faças nenhuma IVG, it's up to you. "Ah, eu também sou a favor apenas dos partos naturais". Boa, grande valente, dá-lhe com força e pare para aí a criança como bem entenderes. O facto de termos posições pessoais sobre assuntos não passam disso: opiniões individuais. Não querem fazer nenhum aborto: não façam. Querem parir sem epidural: força aí. Querem dar de mamar até as crianças terem 5 anos: go ahead! Acreditam que as crianças só devem vir ao Mundo por fertilização natural: pinem noite e dia e se não conseguirem, paciência. Mas... e se quiserem ser mães e biologicamente não for possível? Deverão resignar-se só porque "a natureza não o quis?" Mas que porra de argumento vem a ser este?
Agora que direito temos nós, defensores da nossa liberdade de escolha individual, de alvitrar sobre as posições dos outros? Que sei eu das motivações, das histórias de vida, das crenças, dos valores de cada um? Em que medida tenho o direito de interferir na liberdade de cada um decidir para a sua vida as decisões que melhor lhe servem?
Se a Sofia Vergara encomendou um bebé a uma amiga porque a sua carreira não lhe permite ficar grávida, que tenho eu que ver com isso? Ela e a amiga concordaram? Ficaram felizes e contentes, ambas, com a situação? So what?
Claro que as manobras de distração continuam: "ou ainda à novela em torno da chegada do novo filho de Elton John em cujo certificado de nascimento surge no lugar da mãe o homem com quem Elton John casou." Dois homens, com uma orientação sexual que não lhes permite procriar de forma natural querem ser pais: e agora? É a morte do artista? É uma infâmia? É pecado? O acesso à maternidade/paternidade é um direito exclusivo dos casais heterossexuais sem problemas de fertilidade? Uuuuhhhh, que distintos, que exclusivos. Há um brasão para os membros do clube, pins com uma pilinha e um pipi estilizados para se colocar nas lapelas dos casacos? Deveremos fazer reverência a estes afortunados? Os escolhidos pela natureza? 
De um texto medíocre, cheio de manobras de distracção, de argumentos falaciosos que generalizam que quem recorre à maternidade de substituição é, maioritariamente, por capricho ou vaidade, colocando para segundo plano os que não conseguem 
biologicamente ter filhos; a parte que melhor resume o ponto de vista da autora vem em forma de ironia mas, curiosamente, diz muito mais sobre o que a autora pensa do que todo o restante texto: "Uma mulher grávida não é hoje uma mulher grávida mas um repositório de circunstâncias únicas". Por isso há que as endeusar, argumentando que a maternidade não é para quem quer mas só para quem pode e culminando com a defesa das barrigas de aluguer que devem gozar do mesmo estatuto de endeusamento das mães grávidas e não reduzidas ao anonimato que, curiosamente, por questões éticas, é um direito que lhes assiste. 

Colocar a questão entre os pais caprichosos que encomendaram o bebé, estereotipando-os como endinheirados, mediáticos e autistas sociais e as barrigas de aluguer coitadinhas, pobrezinhas e anónimas é cruel e, mais uma vez, generalista. Resumir a argumentação, criticando os orgãos de estado que "resolveram unir-se para acudir ao problema das mulheres que por ausência de útero, lesão ou doença desse órgão não podem ser biologicamente mães. E que continuarão sem sê-lo porque a gravidez ainda não é um processo jurídico mas sim biológico." é de mau. Malvado. 

Só quem nunca viveu de perto o sentimento de impotência de quem tenta, anos a fio, ser pai sem sucesso, centenas de testes de gravidez negativos, tratamentos e tratamentos sem fim, hormonas que disformam, injecções na barriga, os shopings cheios de grávidas que nunca as próprias, carrinhos de bebés que nunca mais serão comprados pode, de ânimo leve, incluir estas pessoas num hipotético "lado solar". 

Criticar um legislador atento a uma problemática que não pertence a um grupo de representatividade mínima mas a um problema que é da sociedade, que é de todos, é ignorante. Criticar que alguém legisle que duas partes- uma que ser ser pai e não consegue e outra que não quer ser pai e que consegue- num interesse comum possam, à luz da lei, ter esse processo regulamentado é estúpido. Só recorrerá à gestação de substituição quem quer: é uma escolha individual da mãe, do pai e da barriga de aluguer. Do domínio e da esfera de cada uma das partes, tendo em conta as suas histórias, crenças, valores e motivações. Quem somos nós para opinar? 

Defender a adopção como única alternativa viável a quem não pode ter filhos é autista. Só quem não conhece, minimamente, as dificuldades em adoptar em Portugal pode apontar esta sugestão de ânimo leve. E, ainda que a adopção fossem um processo ágil e célere: e se as pessoas não quiserem adoptar? Se quiserem ter um filho com a sua carga genética, com o esgar de riso que lhes vai lembrar a sua avó Luísa ou o remoínho de cabelo igual ao do tio Mário? Não têm direito? A natureza é que é- sempre- soberana? Está certo...
E se uma mulher não quiser ser mãe mas biologicamente estiver preparada para o ser e colocar essa competência ao dispor de outras mulheres? De uma amiga? De uma irmã? Tiramos-lhe a dignidade? Nem sei que diga...
Porque raio alguém se acha no direito de não aceitar e se indignar até,  num tom cheio de juízos de valor, que uma mãe que quer ser mãe, que já se privou da vivência da gravidez, que acordou com outra mulher essa gestação de substituição encara com ânimo leve todo este processo? Achará a senhora cronista que este processo de ver alguém carregar no seu ventre, de alimentar no seu corpo um filhos nosso deixa alguma mulher indiferente? Sem empatia? Sem uma profunda gratidão por quem lhe permitirá viver o que a natureza lhe vetou?
A maternidade não é uma questão meramente biológica. É uma questão emocional, psicológica, afectiva e social. E também biológica. 
Por um dos factores não estar garantido à partida devemos negar o acesso a uma mulher de ser mãe? Então proponho que se tratem as outras variáveis da mesma forma: se a mulher não está emocionalmente preparada para ser mãe, se não tem maturidade, se não tem condições afectivas, se não tem enquadramento social; então neguemos-lhe o direito à maternidade. Ou o acesso, vá. Já que a senhora cronista acha que ser mãe não é um direito: é um desígnio de Deus da natureza. Tretas!
Em resumo do meu ponto de vista, todas as mulheres têm o direito a fazerem as suas escolhas individuais: a quererem ser mães, a não quererem ser mães, a terem partos na água, sem epidural, com cesariana e anestesia geral, a amamentarem até aos 5 anos ou a espetarem biberão na boca dos seus recém-nascidos, a usarem fraldas descartáveis ou reutilizáves, a porem os seus filhos nas creches ou deixarem-nos nas avós bem como a emprestarem o seu corpo para possibilitarem a outras mulheres serem mães ou a recorrerem à gestação de substituição para o conseguirem ser. Têm, sobretudo, o direito à liberdade, às suas escolhas individuais sem terem que ser alvos de críticas sociais e condenações em praça pública por outras pessoas. Especialmente, se essas pessoas também forem mulheres. 
A existência de jornalistas que assinam textos com este tom, com esta forma e com este conteúdo pressupõe problemas éticos que me parecem intransponíveis. Para a jornalista, para o jornal que lhe dá espaço e para os leitores em geral. E para a liberdade de todos nós.
Alguém tem aí um cérebro de aluguer ou neurónios de substituição? Sou capaz de lhos fazer chegar. Agradecida.
(depois de ler isto)

O Mundo divide-se entre...

... quem lambe as varetas da batedeira no fim de fazer um doce e os outros.

domingo, 8 de junho de 2014

Cascais est mort, vive Cascais

E enquanto uns escorraçam os clientes o Tchipepa fechou portas, seguindo-se à Cidabela e à Lua-de-mel e a senhora de olhos azuis- que estava sempre na caixa do Gianni quando lá íamos comprar os melhores croissants com gila do Mundo- reformou-se . 

Ontem a minha terra celebrou os seus 650 anos e eu não me apetece desejar-lhe os parabéns. Porque mudando-se os tempos, eu só queria que se mantivessem as vontades...

sábado, 7 de junho de 2014

A grande novidade quadripolar do mês de Junho: a minha marcha é linda!

Pólo Norte é, assim, oficialmente, a primeira madrinha blogosférica de uma marcha popular.
E quando descermos, lindas e altaneiras, a Avenida de um jeito quadripolar que só nós sabemos, queremos ouvir um:



"O Bairrrrooooo Alto é que é!"

(Beijinhos Rita e Ana Carina)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Espero que isto não esteja tudo interligado

18h30. Estou no taxi a caminho da Dora. O taxista ouve a Rádio Renascença, está a dar missa. Em silêncio, sinto-o a orar. Interrompe a ladainha em sussurro e abre o porta-luvas. Saca de uma caixa de comprimidos e emborca uns 4 ou 5. Sem água. 
O trânsito está caótico. Um Clio quer mudar de faixa e empanca as três vias. "Palhaço de merda!"- resmunga entre dentes. O taxímetro não pára (isto dispara com o tempo ou com os quilómetros andados, caramba?). Continua a rezar. Um outro taxista ultrapassa-o à cão: "Fogareiro do caralho!". 
Vou para a Dora, estou atrasada meia hora, e tenho medo que hoje ela me coloque a mim e aos pêlos numa câmara de gás. 
Pelo sim, pelo não, faço coro com o senhor nas avé-marias. E no praguejar contra o trânsito também.
Nossa Senhora do pelume me proteja!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A (minha) blogosfera

A blogosfera é um bairro. E como em todos os bairros há vizinhos que nunca passarão de vizinhos, pessoas que partilham a mesma plataforma, que habitam no mesmo espaço, com quem nos cruzamos de vez em quando ora no elevador ora no semáforo do cruzamento. Há vizinhos com quem simpatizamos, dizemos bom dia, boa tarde, fazemos festas nas cabeças dos filhos, trocamos conversas de circunstância, falamos do tempo e dos tempos.
Continuam a haver ruas onde não passo, não me interessam, subúrbios da (minha) blogosfera mal frequentados, que evito, quase que me esqueço que existem. Continuam a haver cafés que não frequento, não me identifico com os seus clientes, não faço coro nas calhandrices, não me chego. Continuam a haver reuniões de tupperware e conjuntos de mulheres que fazem caminhadas à noite, não acho mal, mas não me interessa, prefiro não guardar restos de comida em caixas e nem gosto de andar a pé.
E há vizinhos com quem, mais tarde ou mais cedo, pela empatia, pelas semelhanças, pelas afinidades, acabamos por nos tornar amigos. Primeiro encontramo-nos no café e partilhamos a mesma mesa, depois combinamos um café sem putos, depois há um jogo de futebol e convidamo-los a virem vê-lo a nossa casa, uma das crianças comemora o seu aniversário e oferecemo-nos para ajudar a fazer bolinhos na véspera, deitamos um olhinho aos putos de todos que brincam no parque e vamos ganhando espaço assim, devagarinho, na vida uns dos outros.
São poucos (e bons, aliás, os melhores!) os meus amigos do blogo-bairro, que se tornam amigos para além da vizinhança, que me visitam noutros contextos, que têm espaço onde quer que eu esteja, especialmente, se não estiver no bairro.
A Susana é uma delas, para além da blogosfera, da Maria e da Pólo Norte, do gato e da ursa, dos leilões de decotes e da ONU, para além de eu ser má a gerir relações à distância, de Portugal e do Haiti.
A Susana é parte desta experiência. É 100% quadripolar e eu sou 100% mariesca.
Beijinhos, minha querida (fazes cá falta: muita: tanta!)


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Faz hoje seis anos que morreu com ele a menina do meu avô

Sabes, vô, nestas coisas das datas sou, como em muitas coisas na vida, cheia de contradições. Sei a data de aniversário de todos, não me esqueço do aniversário de um familiar, de um amigo do coração, dos amigos de infância e dos da escola primária, da professora que me foi mais querida ou do meu primeiro namorado. Não me esqueço das datas especiais, a do teu casamento com a avó, do dia em que a D. foi baptizada, do milésimo casamento do tio N., da minha queima das fitas ou do dia do lançamento dos livros. Mas não sou de decorar datas tristes, evito ocupar espaço na minha memória com números que simbolizam dor, perda, lágrimas e vazio. 
O mesmo que faço ao tempo triste faço ao espaço. Nunca mais voltei ao cemitério onde arquivaram os teus ossos doentes e gastos, matreiros e velhacos. Tu não és a memória de um dia triste nem de uma cova solitária com uma caixa de madeira onde guardam o fim. 
Fz hoje seis anos que me morreste, avô, e nesse dia morri eu também, parte de mim, morreu a menina do meu avô.
Mas não morreu a minha infância vivida contigo, os momentos a dois, o colo quente, as tuas mãos de gigante Adamastor, a memória da tua voz, das anedotas seguidas de gargalhadas, a rapidez do zapping comandado por ti, o sorriso com os dentes afastados, os óculos de massa, a boina na cabeça, o prato de batatas e peixo cozido cuidadosamente esmigalhados por ti para que eu o conseguisse comer, o beijo demorado.
Faz hoje seis anos que morri contigo, que morreu contigo a menina do seu avô. Vives na mulher que me ajudaste a ser, todos os dias, em todas as datas, em todos os espaços, para sempre. 
Não falo contigo no passado porque serás sempre presente em mim. Gosto tanto de ti avô e tenho saudades sem fim. 
"Ó Vôoooo!"- chamo-te em pensamentos. Beijo-te de olhos fechados. Sei que receberás este beijo, de mim para ti. 

Quadripolar Cape Town


"Esta foi tirada da janela do meu apartamento em Cape Town. Como estou quase a mudar-me para Maputo, espero enviar-te outra brevemente!

Um beijinho, Vanessa"


Grande beijinho, Vanessa! Obrigada!

terça-feira, 3 de junho de 2014

O Mundo divide-se... (após discussão de dois adolescentes no fim-de-semana)

... entre as pessoas que perante a frase "nos olhos" pronunciam "nozolhos" e as que pronunciam "nojolhos".

A minha maravilhosa pulseira de elásticos cor-de-rosa choque

A mãe dera o alerta para uma situação de bullying na escola. O T. tem oito anos e uma deficiência motora que, embora pouco visível, obriga a determinadas ausências da sala de aula, que encanitam os outros meninos. Os outros meninos não percebem porque se ausenta a professora também nesses momentos, não percebem porque o T. não consegue fazer os mesmos exercícios de ginástica e não percebem uma série de (pequenas) diferenças. 
A mãe contactou com as enfermeiras para fazerem uma pequena acção de sensibilização na sala de aula, explicando a deficiência à turma. Entretanto, depois de desmarcar outros compromissos para priorizar este, juntei-me às minhas colegas, aparecendo de surpresa na sala de aula. 
Comecei por fazer o jogo das diferenças, lançando características que iam fragmentando o grande grupo, isolando cada menino na sua especificidade, até que todos ficaram isolados, um a um, todos diferentes, únicos e, por isso, (sempre a reforçar) especiais.  Fiz a desconstrução sobre o que é a deficiência e como a maioria de nós tem partes do corpo menos eficientes: "tu usas óculos, tu tens asma, há ali uma menina com herpes e aquele lá assumiu que tem alergia ao sol."
Depois convidei o T. a juntar-se à conversa, explicando a sua diferença, que o torna único e, por isso, especial. E todos o ouviram, atentos. Havia perguntas, dúvidas, curiosidades e foi a vez de despirmos a deficiência do estigma, pô-la a descoberto, de uma forma desempoeirada e natural, porque ser diferente, afinal de contas, não é uma coisa má, é só algo que nos traz unicidade, que nos torna especiais. 
No fim, os meninos ficaram sem dúvidas, sem macaquinhos na cabeça, sem curiosidades, sem preconceitos, devidamente esclarecidos. E um a um, abraçaram o T. (e eu juro que tive que me controlar para não chorar). A seguir, agarraram-no pela mão e foram brincar para o recreio. 
Nós despedimo-nos e antes de partirmos o T. entregou dois desenhos que tinha feito em casa, especialmente para as enfermeiras que sabia que hoje viriam. Ficou atrapalhado quando percebeu que não tinha preparado nada para mim, não contava que eu aparecesse. Serenei-o e disse-lhe que não fazia mal, assim tínhamos uma boa desculpa para nos voltarmos a encontrar. Abraçámo-nos. 
À saída do portão verde ouvi uma corrida de passos pequenos. O T. pediu-me que estendesse o braço: "Ontem fiz esta pulseira para a minha mãe mas ela não se importa e quero dar-ta a ti. É uma pulseira diferente das que eu costumo fazer. E por isso, é especial."
Cheguei a casa e olho para o pulso. Hoje foi um dia diferente. E, sim, por isso especial. 

Obrigada, T. 

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que no fim da refeição não têm pudor em molhar o pão no azeite que sobra e as outras.
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