segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Mundo divide-se (edição mete-nojo)

O mundo divide-se entre quem é mãe e continua a acordar às onze da manhã ao sábado e as outras. 

O pai da minha filha

Às vezes olho para eles e comovo-me. Eu não tive um pai assim e admiro-o por ser tudo aquilo que o meu próprio pai, por incapacidade ou falta de vontade, não conseguiu ser. E admiro-a por viver tudo aquilo que eu gostava de ter vivido.

Há uma história que é só deles e onde eu não entro, uma história mais física e freudiana, uma história de cócegas ao acordar, panquecas à laia de discos pedidos ao domingo, uma história de cavalitas e a sensação de quando ela lá está quase que toca no céu, uma história dele a agarrar pelos pés e ela a dar gargalhadas, uma história de cumplicidade quando eu não estou, de regras próprias que incluem pizza no sofá e pipocas em barda a ver filmes na televisão. 

Uma história de furarem ondas com ela às cavalitas dele no Verão e ele segurar no chapéu de chuva dela para ela não se molhar no Inverno, dele acordar mais cedo todos os dias para lhe comprar pão fresco para lhe por na lancheira e de lhe contar todos os dias uma história antes de dormir à noite.

 Eu sou espectadora de todas estas histórias deles e reconcilio-me com este pai que, não sendo o meu, foi o que tão perfeitamente escolhi.

E quem tem mais sorte sou eu.

domingo, 25 de novembro de 2018

Dez(l)embro



Este ano decidi comprar enfeites de árvore definitivos. 

Parece-me que aos 38 anos, a pagar uma hipoteca, sedentária assumida, casada há doze anos (e juntos há vinte), no mesmo emprego há cinco anos seguidos, já estou numa altura em que posso pensar em criar tradições definitivas, objetos para permanecerem. 

Este ano, na nossa árvore de Natal teremos uma estrela por cada membro da família (os meus avós e tio também lá estarão) a lembrar-nos, Natal após Natal, quem somos: passado, presente e futuro. Inteiros. Unos. Família.

E não é disto que se trata o Natal?!



 [obrigada @zitamina pela concretização desta ideia tão de amor]

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Ana, 1960



Ana como tu, Ana. 

Um dia vais estar careca de ouvir esta história do teu nome que é o nome da minha avó que morreu quando tu decidiste vir morar para a minha barriga e da minha mãe que é a pessoa que mais amo no Mundo e saberás a importância de te chamares Ana, como todas as mulheres da minha vida, tu também. 

A minha mãe é simultaneamente a pessoa mais complexa e simples que conheço: complexa porque é inconformada, subversiva, incorrompível, desobediente, teimosa e nada agradadora, de ideias fixas e firmes, a mulher mais inteligente e justa que conheço, a melhor qualidade que podes vir a herdar dela para além da honestidade, integridade e o nome acabado em “ade” é o sentido rigoroso de justiça e isso é uma coisa bela e rara. 

Dizia-te eu, Ana, que é, simultaneamente, a pessoa mais simples que conheço porque sei-a de cor do ponto de vista de quem já morou nela, conheço-lhe as janelas dos sorrisos, a porta da vida, sei tudo o que ela não lhe apetece contar-me porque os olhos dela ditam palavras para o meu coração e cada silêncio dela é uma narrativa cheia de sentido para mim. 

Um dia nós as duas ficámos sozinhas no Natal e isso, tendo mudado tudo, não tornou nada diferente: sempre fomos as duas sozinhas numa placenta de amor vitalício que nada tem o condão de romper e nesse Natal, de há precisamente 30 anos, chorámos agarradas a ausência do meu pai, lembro-me do abraço apertado e das lágrimas dela a misturarem-se com as minhas e lembro-me que me agachei no seu colo e respirei fundo e tranquilizei-me: éramos só nós as duas e nada ficava, afinal, diferente. 

Nunca mais deixámos de ser só nós as duas porque o Natal é mãe, casa, é colo, é amor umbilical. Agora somos três, matrioskas, unas e é melhor e tu vieste para mostrar porque é o três o número da perfeição. Mas o meu Natal, aninhada, frágil e criança, crente na magia do Pai Natal e eufórica, esse Natal que me pertence será sempre ela.



O meu Natal é a minha mãe.
A minha mãe Ana, a realmente Maior.
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