segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Janeiro

 Janeiro foi interminável e duro. Um reveillon a três. O aniversário tão bom da minha tia, que no ano passado não pudemos comemorar. Fomos à feira da ladra com a Ana. E depois fizemos anos de namoro. Vinte e três. E fomos para a serra da estrela onde vimos neve e gargalhadas a três, e Coja e Conimbriga e somos felizes é em road trips, está mais que provado.

 Depois mais de metade da minha equipa de trabalho com covid. Um mês duríssimo no trabalho. Valeu-me a Ana Lúcia, a melhor aquisição para a minha equipa e uma colega incrível. Gostava que todos a conhecessem. E eu fiquei doente. Com uma infecção urinária, que depois ficou renal. Depois passei uma noite no hospital e, de caminho, acho que trouxe também o covid. Não foi assintomático nem fácil. Tive febrão, dores no corpo, dores de cabeça, muita tosse com espectoração e perda de olfacto e paladar. Uma névoa durante dias. E o Rui também doente. Só a Ana se safou, positiva mas assintomática. Ainda bem que tomei as vacinas porque se foi assim com vacinas, sem vacinas nem quero imaginar. 

Fechei um projeto internacional,com uma equipa fantástica da Câmara de Cascais, sabe Deus em que condições, mas está feito. Retomei aos poucos o trabalho, ainda não estou com os mesmos níveis de produtividade. Tusso muito, canso-me facilmente e estou com menos capacidade de concentração. 

Mas já tivemos alta, a minha mãe hoje levou a Ana- em pausa lectiva- para uma das suas aventuras e uma das minhas relações preferidas no Mundo é esta da minha mãe e da minha filha, a crescerem ambas em liberdade: a Ana a explorar o horizonte e a minha mãe a contemplá-la e a retratá-la como ninguém. Depois chegam a casa, cansadas e eufóricas, e eu fiz um bolo de natas da Concha e um chá e é Fevereiro, o mês do Rui, da minha mãe e da minha prima, de aventuras que se esperam boas e tudo, tudo mesmo, fica sempre melhor.

Ana, a chegofóbica

 

Ana, ontem ao jantar, enquanto nos ouvia falar do AVentesma.
- É tipo o Mursolini* em português, é isso?

(*Grande visão de como o Mussolini era um urso ..)

Primeiro dia de alta pós covid

 

Eu: " Aninha, yeaaah! Temos alta hoje. Vamos onde?"
Ana: "Mas estávamos mal em casa? Podemos ficar em casa?"
...

E quem é que teve alta do isolamento e está menos descovidada, quem é?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Está o caldo entornado

 Fiquei sem paladar.

Aquele nível basicozinho de maturidade

A minha comadre vem à minha janela entregar-me um bolo de café com leite (minha ryca comadre!):
Ela: Com'assim estás sem sabor?
Eu: É para que vejas. Agora é que está a barraca montada...
Ela: E o estás a pensar fazer?
Eu: Vou ali emborcar o whisky Talisker que trouxe da Escócia e que nunca consegui provar. Assim como assim aquilo não me vai saber a nada...
Ela: Não sabe a nada mas bate!
Eu: Isso é que é visão...

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

domingo, 23 de janeiro de 2022

Tenho uma amiga

 

Tenho uma amiga a quem a primirmã deu uma maquineta para aparar sobrancelhas no Natal.
Tenho uma amiga que, até ontem, não mexeu na profissional do sexo da maquineta mas que ontem, depois de uma semana adoentada e num dia de febre e sem nada com que se entreter, decidiu testar a máquina.
Tenho uma amiga que achou que a máquina não estava boa, deu--lhe uns safanões e em vez de testar a máquina noutra pilosidade corporal qualquer, decidiu testar na sobrancelha esquerda.
Tenho uma amiga que está, em pânico desde ontem, a ver tutoriais de maquilhagem com lápis de sobrancelhas porque já mandou mensagens a várias meninas das micropigmentações (todo um mundo que ficou a conhecer ontem) e dizem que o melhor é dar com o lápis mesmo até os cílios da sobrancelha voltarem a crescer.

domingo, 16 de janeiro de 2022

A estrela da serra



Subimos a serra devagar. Era fim de tarde e tínhamos esperança que quando o sol se pusesse ficasse mais frio e pudesse nevar de verdade. À medida que íamos subindo e os graus descendo, vimos que o que havia de neve era miserável, à excepção de numa pequena encosta que vislumbrávamos. Chegados à Torre percebemos tudo e fomos fazer tempo a beber um chocolate quente enquanto as senhoras faziam o fecho do café e o sol, realmente, se punha. Fomos os últimos clientes. O trânsito para descer a serra intensificava-se e nós a vê-los todos, um a um, partir.

Quando só restávamos mesmo nós ligaram os aspersores gigantes de água para que a mesma gelasse assim que batesse na dita encosta. Neve à força mas, ainda assim, neve. Neve para no dia seguinte alimentar a escola de ski. Neve, ainda assim.

E, nesse instante, em que a neve era fabricada à força da vontade do homem à nossa frente por aspersores gigantes e holofotes- e já sem nenhuma alma em redor- subimos a pista vazia, com sacos de plástico do lixo e descemos uma, duas, dezenas de vezes a encosta, com tombos e gargalhadas, escorregadelas e corridas para ver quem chegava primeiro lá baixo.

A minha filha gargalhava tão alto que era como se a Serra se fechasse para a ouvir, lua cheia no céu, três graus abaixo de zero, eco, neve e estrelas. Não perguntou porque os aspersores faziam chover água, o que eram os holofotes, porque não lhe tínhamos comprado um trenó e lhe tínhamos dado um saco de plástico para a mão. Não perguntou nada. Escorregou, subiu, voltou a escorregar, gargalhou sempre. Ininterruptamente.

Já cansados e de barriga cheia de neve, sozinhos no alto da serra e no caminho para o carro abraçou o pai. Eu fiquei para trás para os fotografar e, logo a seguir a este click, esperaram por mim e ela abraçou-me também: "Agora já descobri porque se chama serra da Estrela, mãe!". Porquê, Ana? " Porque a neve mágica é só mesmo a esta hora da noite, à luz das estrelas, não é?" Sorri e acenei. "Faz sentido. Por isso é que não fica aqui ninguém até à noite: deve ser mesmo um mistério bem guardado. Podemos combinar uma coisa os três?" Conta! " Este fica o nosso segredo: não contamos mesmo a ninguém!"

Shiiiiuu!

Sobre a escapadinha de fim-de-semana à zona Centro: um resumo

 

Não como desde o almoço e tenho comida em lista de espera para entrar no estômago.
São onze e meia da noite.

sábado, 15 de janeiro de 2022

A Ana quer criar uma petição, ó srs. de Viseu!

 

Devolvam a espada ao Viriato, que o homem parece que está a atirar o pau ao gato ou a jogar petanca ou o caraças, pá: não há direito!



quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Borboletas na barriga

 


Preciso de me rodear de coisas bonitas (e confortáveis). Não quero saber se está na moda (odeio o conceito de moda), se os outros gostam, se é consensual: se eu cismo com uma coisa, eu vou atrás.
Vale com tudo, também com objectos. Eu gosto de objectos, mais pela simbologia que pela utilidade, pelos gatilhos emocionais que me provocam.
Então eu cismei que queria redecorar a sala para enterrar 2021: trocamos os móveis de sitio, pomos coisas na arrecadação e trazemos outras que por lá andam, reforçamos as estantes porque livros é aquela coisa do first things first e, já com tudo nos novos sítios, percebemos que sobrou a parede da mesa de jantar e, de repente eu queria uma parede de pratos decorativos. Ah, está demode! Who cares? Eu quero muito.
Fui à feira da ladra e comprei dois, a Manuela de Guimarães disse que me dava uma série deles mas eu cismo com pratos com um tema específico: fauna e flora. E eu, a dizer que, caraças, não me chamasse eu Liliana se não haveria de ter um prato com uma borboleta azul.
Procurei por todo o lado e nada do bendito prato. Existia apenas na minha cabeça.
Hoje ele trancou-se no quarto à tarde, enquanto eu reunia em teletrabalho e, quando já quase noite vim à tona de trás do computador, ali estava na parede da minha sala: o prato com a borboleta azul.
O meu marido decidiu, a um dia de comemorarmos 23 anos de namoro, criar a fauna, a flora e pintar o princípio do Mundo em pratos na parede para mim.
Começou, como há 23 anos, a criar para mim uma Primavera completa.
Obrigada, Rui.

O Mundo divide-se...

 

...entre quem arruma os livros por ordem alfabética de autores e os outros

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Ten years challenge

 


Há dez anos tinha sabido há dois dias que estava grávida. Estava em Nova Iorque, a comemorar 13 anos de namoro no dia 13, porque casar os anos de namoro equivale a bodas de algodão doce.
Há dez anos conheci a Eileen e o Florin, e não imaginava que ia ganhar uma amiga irmã para a vida. Percorremos a quinta avenida a cantar a concrete jungle, fizemos a rota do sexo e a cidade com cosmopolitans e tudo a que tínhamos direito e tive um jantar romântico num rooftop com a cidade que não dorme inteiramente aos nossos pés. Nevava e era mágico.
Há dez anos era eu e a minha circunstância, tudo girava em torno de mim, egocêntrica e auto-centrada, a tentar encontrar quem eu era, como funcionava o Mundo e deslumbrada com a vida, a liberdade, os trinta acabados de completar.
Hoje sou eu, aos quarenta anos, na minha sala, num subúrbio de Cascais, depois de jantar bochechas de porco cozinhadas muito lentamente em vinho tinto, aquecimento ligado, gata a fazer tropelias, a minha mãe a fotografar o melhor ângulo da neta, a Ana a brincar com pedaços de madeira presos em fitas de cetim, a Ana a beber o seu "café", depois de ter dormido com tranças porque sonha ter o cabelo aos caracóis.
Talvez isto seja uma espécie de ten years challenge mas hoje, aqui, sou mais feliz que em Nova Iorque há dez anos, especialmente porque cada vez mais é tudo menos sobre mim e mais sobre o Mundo, a incrível normalidade da vida, enfim. O amor em mim

O Mundo divide-se...


... entre quem ama livros e os outros.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A pessoa tenta sr modernaça e acompanhar as tendências e tudo e tudo

 

A rapariga é linda de morrer, o miúdo é fofo que dói mas... que quarailho de maneira de arrumar os livros é esta?






Alguém me explique como se eu fosse a suburbana saloia que sou...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

A fé que a minha mãe tem em mim


Chego a casa do trabalho e a minha mãe comprou-me uma Monstera viçosa, que colocou num cesto girissimo, num arranjo decorativo super vistoso.
"Ai, mãe: adoro!"
"Ainda bem: é artificial e nunca a vais matar."

... 

Do Wall Street ao Boom

 

Veterinária Chef de cozinha. C.E.O.
A Ana já quis ser tudo.
Hoje de manhã: "Acho que quero ter uma loja no Martim Moniz e fazer bijuteria quando for grande..."
...

domingo, 9 de janeiro de 2022

Feira da ladra

 Na Feira da Ladra bebemos café a olhar o Mundo lá fora. Cá dentro era Açores e lá fora uma caldeação de gente, línguas, cores e sons. Ir à Feira da Ladra é encontrar o passado mesmo que não estejamos à procura de nada em particular, especialmente do passado.

A minha mãe e a mania das colecções: moedas, selos, medalhas e o meu pai, lá nos antípodas da memória, cheio de crachás e pins hippies. O meu tio Nato, que me trouxe aqui a primeira vez, à cata de credifones, a primeira colecção que fiz e a magia de descobrir a feira da Ladra pela primeira vez.

Desta vez o futuro: o sol do Inverno dos meus quarenta anos, a Ana pela mão, o Rui enterrado em bancas de livros ao desbarato e esquissos bons escondidos entre manhosos, a caça ao tesouro a pratos velhos para fazerem grafitti de cor na parede da minha sala e mais sol de Inverno, pessoas reais a venderem quinquilharias, " o que são quinquilharias, mamã?!" e nós a explicar à Ana quem era o Gil da Expo, o que faziam os Tamagotchis, a história do Batatoon e da bailarina Mimi e que os meus amigos adaptaram a "Lili apita aqui", as caixas de furos dos chocolates da Regina de que a minha mãe falou durante a ceia de Natal, os kispos iguais ao da stôra Arlete e mais a mão pequenina dela da minha, os puchinhos no cabelo e os óculos de sol destrambelhados que comprámos para cada uma de nós e os berlindes que leva fechados na mão. "São guelas, filha, são guelas!". Lá dentro do Panteão a Amália e o Camões porque não há mais portugalidade que a do Campo de Santa Clara às quintas e aos sábados de manhã.

Na feira da Ladra os ladrões de memórias venderam-mas com juros de amor.

Passado e futuro tão perto, tão íntimos: será sempre este o melhor presente. Este e guelas de vidro coloridos na mão pequenina da minha filha de nove anos debaixo do sol de inverno neste sábado pela manhã.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Topem-me a miúda


Ana a arrumar o quarto muuuuito lentamente e muuuuito contrariada.
Vem ter connosco à sala e pede ao pai o iPhone emprestado para a motivar a arrumar o quarto.
Eu para o Rui: "Vai pôr música e ligar à coluna, right?"
O Rui acena com a cabeça e é interrompido por uma vozinha muito baixinha do fundo do quarto:
"Siri, arruma-me o quarto!"
...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Sim, mostrámos a Casa de Papel à miúda

 

Ana ouve na televisão comentário político onde se diz que "Rio afirma-se nos debates eleitorais"
Esbugalha os olhos e pergunta-nos, incrédula:
"O Rio vai-se candidatar às eleições?"
Sim? (Nós, confusos)
Suspira, com os seus botões: "A Lisboa é que dava uma boa presidenta..."
...

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Parabéns tia Cinda!

 É por sua causa que começamos o ano sempre em festa. Foi a última dia meus tios a nascer mas foi sempre a primeira tia a chegar em todos os momentos da minha vida. É aparentemente serena mas interiormente ansiosa mas tem o condão de fazer com que nós achemos que tem sempre tudo sobre controlo. Na verdade, tem.

É como uma segunda mãe para mim e sempre que imagino como deve ser ter uma irmã tenho como referência a relação dela com a minha mãe. É uma segunda avó para a Ana, que não podia ser mais cúmplice dela, mais compatível, mais tudo. É a Titocas da Ana, a minha tia Cinda.

É doutorada em comida pré feita nos corredores dos hipermercados mas é a melhor costureira do Mundo. Quando era pequena preparava-me sempre banhos de espuma com gel da Avon e deixava-me ficar na banheira até ter as mãos engelhadas. Deixava-me comer delícias do mar directamente do congelador e fazia a melhor salada russa do Mundo, inundada de maionese. Na adolescência encobriu-me namoros e curtes em Monte Gordo e tem o condão do chantilly dela nunca falhar. Deu-me a minha prima, aos nove anos e meio, que foi a melhor coisa que me podia ter dado.

Adora dióspiros, lia livros de cordel quando éramos as duas miúdas, afinal só temos 18 anos de diferença, desenhava-me umas bonecas que eu adorava mas que deixariam Picasso às voltas na tumba, dava-me sempre a mão quando dormíamos juntas, até eu adormecer. Mesmo que ficasse com as mãos dormentes.
Na verdade nunca deixou de dar.

Há um ano não lhe pudemos cantar os parabéns e tivemos medo de nunca mais o podermos fazer.
Mas este ano, aos sessenta acabadinhos de estrear, cá está forte, gira e plena. Ela diz que teve sorte mas a sorte foi toda nossa!

Parabéns, minha tia!

sábado, 1 de janeiro de 2022

Serviço Público

 

Comprámos gelado de pipoca do Continente.
O Rui diz que sabe a "quando se abre uma gaveta e vem aquele bafio a gavetas fechadas".
Agora pensem.
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