segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A tia Conceição



O meu sogro tinha-nos dado as coordenadas por alto. A casa da tia Conceição, única tia bisavó da Ana do lado do avô paterno, fica numa parte longínqua e alta da ilha, mergulhada em nevoeiro. 

Não avisámos que íamos (eu contrariada que não me parece bem aparecer em casa alheia sem me fazer anunciar) mas a tia Conceição, mais deoito décadas sobre os ossos rijos, recebeu-nos como se nos esperasse há uma vida. Tirou uma cerveja do frigorífico e começou a desfilar histórias de netos, sobrinhos-netos, novas gerações frescas que prometem a continuidade desta linhagem de mulheres de olhos cor de mar. 

Fitou a Ana, trisneta da sua mãe, e marejaram-se os olhos de lágrimas: “são iguaizinhas: os cabelos loirinhos e os olhos. Ah , os olhos! Azuis enormes. Faz impressão, são iguaizinhas!” Limpou as lágrimas com o antebraço e nós estremecemos e sorrimos, comovidos com as memórias a brotarem como as hortenses férteis ali ao lado no quintal. 

Quis-nos mostrar a casa, rebocada rusticamente, pouca mobília, tudo arrumado magistralmente, fotografias de toda a gente nos poucos móveis e nas paredes despidas de acessórios. Casamentos, baptizados, coroações, primeiras comunhões e queimas das fitas da última geração: histórias de sangue numa exposição única que é também a história da minha filha. Um museu de memórias. 

Fitei o quadro com os olhos, sem os conseguir desviar. 

A coroa do Espírito Santo presente em todas as casas açorianas, símbolo de uma fé partilhada e coletiva. Sorri e pensei que um dia teria que levar uma coroa para nossa casa e voltei, atenta, à conversa que se desenrolava, vagarosa e cheia de afectos, na sala de estar com chão de linóleo. 

À saída a tia diz que não tem nenhuma notinha para dar à Ana [ó tia, por amor de Deus, não queremos dinheiro! Só a vimos abraçar!] e vêm-lhe as lágrimas aos olhos enquanto diz que provavelmente já não nos volta a ver. 

Soa a despedida e ele mascara a conversa com um abraço demorado. Vai buscar uma aguardente caseira que oferece ao sobrinho neto. 

Olha para a moldura da coroa e diz-me:”Gostas, não gostas?!” 

Sorrio e aceno, sem nenhuma intenção senão a gentileza do elogio. Tira-a da parede e dá-ma, sem me deixar reclamar: “lembrem-se de mim”. 

Lembraremos, tia!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Ficar vazia

 



Era o meu tio solteiro e bon vivant. Teve um desgosto de amor daqueles dos livros de literatura sul americana e nunca mais se predispôs a amar. Bebia demais, fumava demais, sentia demais. Era meu padrinho e a vida foi-nos afastando pela dificuldade que eu sentia em empatizar com os vícios para além do homem de quem tanto gostava. Jogava comigo à batalha naval e ao domino com o meu avô. Vieram-lhe as lágrimas aos olhos quando pegou na Ana ao colo no dia em que nasceu e tinha um orgulho embevecido nela. Gostava de fazer sopas de letras, as mesmas dos livros que lhe ofereci quando o fui visitar com a dupla pneumonia. Foi há 4 anos e eu achei que tudo ia ficar bem. Comprei-lhe camisolas interiores térmicas e pedi a todos os santinhos que ele ficasse bom. Nunca ficou. Já não estava. No Natal estava fanhoso, bebia e saia-lhe líquido pelo nariz. Já falava com dificuldades e, soube depois, tinha o céu da boca queimado. Fizeram o biópsia e o meu amigo enfermeiro deu-me a notícia pelo telefone: havia pouco a fazer. Acompanhei-o a consultas, sempre calado, impaciente, sempre com pressa para que o tabaco lhe acalmasse o medo, a ansiedade, a desorientação. Eu fingia que tinha tudo sobre controlo mas tinha medo com ele, por ele, igual ao dele. Na véspera ele já não conseguia respirar. Nas urgências sugeriram a traqueostomia e toda a família decidiu que sim, mesmo que fosse contra a sua vontade, como era aliás. Pediram-me que entrasse no S.O. e o convencesse a autorizar - era a única a quem ele ouvia - e assim que entrei vi-o a chorar pela primeira vez, os olhos de angústia e desespero, a voz a faltar, a cabeça a acenar, que não, que não. Assinei o termo de responsabilidade e trouxe-o a dormir a última noite no meu sofá, a noite toda acordada a velar a aflição dele, a dar-lhe só mais um cigarro, o derradeiro. Desceu as escadas da minha casa com a dignidade de quem quer ser autônomo até ao fim e só o voltei a ver no hospital nesse dia. Esperava-me para morrer, o meu tio Nato. Sentiu a minha presença, respirou como quem salta de uma falésia para mergulhar. Esboçou um sorriso, apertou-me a mão e partiu. Há dois anos fiquei mais triste e frágil. Mais só.

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