segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Vivo na casa dos segredos # o casal

No primeiro dia encontramos a Daniela Ruah no Cascaishopping.

Depois a Maria do céu Guerra na estação dos correios.

Com o Paulo Bento, ontem, até uma fotografia tirararam.

Eles verbalizaram: "vocês vivem em Hollywood de Portugal ou quê?"

domingo, 23 de dezembro de 2012

Luto

[Passou ontem um ano desde que a campainha tocou no final da madrugada. Tinha jantado e saído com uns amigos na véspera e dado gargalhadas e risos enquanto a minha avó adormecia, a uns 30 km de mim, num sono do qual nunca chegou a acordar. 
Recordo hoje a maldita campainha, num tocar desesperado, por duas vezes em madrugadas distintas, na casa que deixei em Setembro. A campainha e a memória das duas noites mais tristes da minha vida continuam a ser as principais razões pelas quais não sinto saudades da casa onde vivi os últimos sete anos. 
Sou má a fazer lutos. Sou muito má. 
Não sei perder as minhas pessoas. Não as deixo ir. Não lhes encaro o rosto nos caixões, não lhes dou um último beijo, não lhes concretizo os rostos imóveis e as faces frias. Não lhes fixo os olhos cerrados. 
Não sei perder as minhas pessoas. Não as deixo enterrar. Não fito os caixões a serem engolidos pela terra. Não aviso os amigos para me virem dar os pêsames. Não atendo telefones e envio para spam as mensagens de condolências. Não decoro caras presentes nos velórios e não partilho com ninguém a minha dor. Não partilho com ninguém as minhas pessoas mesmo que tenham acabado de deixar de ser pessoas e passem a ser ar, fumo, cinzas, terra, pó. Alma, que seja. 
Não sei perder as minhas pessoas. Não lhes faço companhia nos rituais, não choro tudo o que devia chorar, não lhes visito os túmulos, não lhes ofereço flores frescas porque não acredito que se deva presentear a dor.  Não lhes conto as memórias, não limpo os vidros das molduras onde não exponho as suas fotografias, não verbalizo mais que a saudade, a falta agonizante.
Ontem, de manhã, 365 dias passados, a mesma reacção de há um ano atrás: o olhar no vazio, o caminhar sonâmbulo para o duche, as lágrimas a misturarem-se com a água quente a escaldar num choro em uníssono com o chuveiro, o evitamento da palavra "morte", a fuga ao pensamento da concretização do desaparecimento inequívoco da minha avó, a negação. Sempre a negação. 
Às vezes penso que a minha avó ainda me espera ao pé do poste da electricidade na esquina que dobra a nossa rua, que me chama com aquele cantar na voz, que me sorri quando lhe chego à beira, que me alivia o peso das costas tirando-me a mochila carregada de livros e transportando-a ela até casa. 
Depois? Depois imagino que hoje não a consegui ir visitar, tanto trabalho que tive, e ontem também não, já cheguei tarde e assim deixo os dias passarem, enganando-me e tentando acreditar que ela está lá, que continua sentada em frente à porta, à espera que eu entre para me dedicar um sorrir. Assim deixo os dias passarem carregando a culpa da minha falta de tempo para não ter passado lá por casa hoje, o ainda não a ter actualizado do número de telemóvel novo e por isso não ver no écran o número dela a ligar-me, e adormeço, com um nó na garganta, ouvindo, não sei como, ela dizer-me que me ama e que outros podem amar-me igualmente, mas ninguém mais do que ela. 
Sou má a fazer lutos e acho que ela foi, finalmente, de férias à terra, ver as minhas tias Carminda e Maria, visitar a quinta da Torre, comer uma rosquilha com chouriça de cebola. Foi com o meu avô e com eles foram a minha madrinha Ana e o meu padrinho Fortunato. Devem lá estar a jogar uma sueca agora, o meu avô colérico com a batota que ela e a minha madrinha fazem sempre, a minha madrinha e ela a troçarem, o meu padrinho a esboçar um riso tímido e divertido. Vinho em cima da mesa, assim espero.
Ontem não consegui escrever sobre a minha avó da mesma forma que não falo dela, senão em palavras escritas aqui, há um ano. A minha avó ainda é presente e eu não a deixo partir, sou má de lutos, já disse. 
Pelo menos até que, para mim, a palavra luto deixe de ser um verbo e passe a ser, finalmente, o substantivo que terá, um dia, que ser. Quando eu deixar a minha avó, enfim, partir. 
Hoje ainda não.]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Hoje celebra-se a missa por alma da minha avó

A alma é uma coisa estranha. Foi, precisamente, a minha avó que me explicou o que era a alma num dia em que, juntas, assistíamos a mais um episódio de "Um anjo na terra". "A alma é algo invisível"- dizia ela- "tu não lhe tocas, não a cheiras mas sentes. Sentes de uma forma muito, muito forte. É como uma força que paira no ar, uma força que representa as pessoas que morreram fisicamente. Uma presença, um sentir difícil de explicar". Depois perguntei-lhe porque sentia um nó na garganta quando assistia a alguns episódios da série e ela explicou-me que isso era "emoção". Tapámos-nos no sofá, quentinhas, o calor do corpo da minha avó a servir-me de cobertor, e vimos o episódio até ao fim. 
Não sei se a alma era isto que a minha avó dizia mas sei que sinto a minha avó presente, todos os dias, todos sem excepção. E sempre que penso nela volta o tal nó na garganta, tal como agora em que escrevo estas palavras.
Sinto-lhe o cheiro a refogado no ar, a papo-seco com manteiga aquecido nos bicos do fogão, sinto-lhe o toque da pele das faces enrugadas em cada beijo que dou à minha bebé, por vezes, quase que juro ouvir-lhe o tom de voz, a pronúncia minhota que teimava em preservar, um vislumbre do cabelo cor de corvo brilhante a contrastar com o verde azeitona dos seus olhos. Sinto-lhe o sabor do colo, dos abraços generosos, do aconchego farto, o balanço do seu embalar quando, já crescida, me deitava junto a ela em noites de insónias.
Sinto-lhe o bafo quente e maternal, o apertar da sua mão na minha para se agarrar quando a velhice lhe roubou o andar direitinho, a postura erecta, as mangas arregaçadas e a firmeza de estar. Como se, naquele agarrar de mãos, ela se sentisse mais que amparada, segura, tal como a minha filha me faz, hoje, quando lhe estendo as minhas mãos. 
A minha avó Ana morreu e com ela morreu a neta da minha avó. A minha avó Ana morreu tal como num episódio do "Anjo na Terra" e deixou-me a alma por explicar à bebé Ana. E um nó na garganta permanente.
Hoje, não mais que em nenhum dos 360 dias que passaram após a sua morte, rezarei pela sua alma. Não serão precisas orações decoradas para me sentir mais próxima dela, falo com ela todos os dias, em silêncio, para não deixar de a sentir aqui, mais perto. 
Mas hoje lá vou à igreja, porque um dia, quando a questionei, como poderia ela acreditar em todos os dogmas de uma religião, nas crenças que podem ser questionadas pela ciência, na rigidez judaico-cristã ela me respondeu "Não se trata de religião. filha. Trata-se de fé. De precisar de acreditar que as pessoas não têm fim. Que continuam. E, sabes, filha  a fé é que nos salva!"
Hoje, rezarei as orações que me ensinaste, avó. E embora a alma seja uma coisa estranha, vou mostrar-te que aprendi certinho o que me ensinaste e levo esta Ana que a vida me trouxe para, desde cedo, lhe ensinar o teu legado: a acreditar. Porque a fé é que nos salva. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que bebem sumos de xaropes como groselha ou capilé e as outras.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O Mundo divide-se ...

...entre aqueles que acreditaram no Pai Natal até depois de ingressarem na escola primária e os outros.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...