segunda-feira, 2 de julho de 2018

O outro queria um Ferrari amarelo



Eu queria uma camisa amarela, a modos que no Natal a minha mãe ofereceu-me uma muito gira da Primark.

No entanto, fiquei doente e foi em Maio que, a propósito de uma reunião importante com um parceiro chique, com sede ali no Marquês de Pombal, a estreei. 

Típica camisa da Primark: simples, tecido leve e com botões meio soltos. 

Sou uma nódoa a andar de canadianas, pelo que, quando cheguei à sede do parceiro todo eu era uma instalação desconchavada tipo Joana Vasconcelos: camisa de fora, mala sempre a cair do ombro e a empecilhar na canadiana, a outra mão a segurar uma pasta com papéis toda amarrotada também a empecilhar na outra canadiana e o ar mais esgroviado do Mundo. 

"Respira fundo e compõe-te, Lilana!"- pensei eu, enquanto chamava o secular elevador, daqueles com gradeamento. 

Dou o primeiro passo para entrar no famigerado elevador e não sei como, parece que ainda estou a ver o momento em câmara lenta, a canadiana enriça-se num botão, o botão solta-se e cai, em slow motion, para o exacto espaço entre o
elevador e a entrada, caindo para sempre naquele fosso.

Qual dos botões, perguntam vocês? O de baixo? O de cima? Nããã!
O do meio, pois está claro: o botão principal, o que tapa as mamas, precisamente, lá podia ser outro?!

E ali estava eu, a ver subir o cabrão do elevador e a pensar, piso a piso, como iria resolver o facto de aparecer com o mamaçal todo de fora (para quem não me conhece,eu sou "amiga do peito"!) a uma reunião onde as pessoas se cumprimentam só com um beijo.

Ao sair, tentei compor a camisa, enquanto me equilibrava nas canadianas e... cai segundo botão (eram três) e nesta altura estava boa para ir para o Meco, não para uma reunião num parceiro chique. 

Pensei que a única solução era andar com os braços mesmo coladinhos às costelas, de forma a apertar violentamente as "meninas" e tentar cobrir-me com o tecido, anteriormente conhecido como camisa, e agora uma espécie de lenço inútil.  

Entro, ninguém dá por nada (ou fingiram muito bem) e quando me perguntaram se queria um café, aceitei de imediato, para ganhar tempo enquanto a secretária se afastava e me deixava sozinha uns minutos até o meu interlocutor chegar. 

E foi assim, que aos 37 anos, tive uma reunião espectacular com a minha poderosa camisa amarela toda agrafada com um agrafador de mesa que ali jazia. 

Estou assim, capaz de patentear a ideia!
Ou só de mandar a Primark para o amarelo que a pariu!

domingo, 1 de julho de 2018

Da Ópera do Chiado à Lyrica de Arroios ou há ironias verdadeiramente quadripolares.

Disclaimer: eu sou a pessoa que nem sequer bilhete de ida e volta no comboio compra, porque conheço de ginjeira o potencial para me acontecerem imprevistos na puta da vida e não quero arriscar.

Odeio projectos a longo prazo porque acho sempre que isso me vai deixar refém das coisas e limitar-me caso me apeteça mudar de ideias.

Portanto, a compra da prenda de Natal do meu marido só se pode explicar pela facto de eu, à altura, já estar doente e a achar que ia quinar, portanto, que tinha que me despedir dele partilhando com ele experiências há muito adiadas e cumprindo um date por mês, com bilhetes comprados, lugares reservados e tudo planeado com uma antecedência que hoje, à distância de meio ano, ainda me deixa, como diria a minha avó "barada" (se não sabem o que é, perguntem ao minhoto mais próximo!"). Ou então explica-se porque estava já doente e com falta de imaginação e numa ida à FNAC tratei de tudo duma sé vez e despachei o assunto. 

Durante os últimos sete meses arrastei-me, primeiro com dores, depois com o efeito arrebatador da medicação, portanto, neste momento sinto que estive numa espécie de coma e lembro-me das coisas muito ao longe, meio difusas e, a esta distância, nem sei como consegui ir aos sítios e fazer coisas. Mas diz que fui, há fotografias que o provam e tudo. 

Assim,em Janeiro fomos comemorar o nosso aniversário de namoro ao Cooking and Nature Hotel (não gostámos muito e nem tem que ver com eu estar doente, foi mesmo uma desilusão), em Fevereiro adorámos o visionamento do Harry Potter em concerto (foi uma altura em que tive uma ligeira melhoria e deste lembro-me bem!) na Altice Arena, em Março (no auge das dores) consegui fazer a "aventura na serra" com mámen sabe-Deus-como porque estava no auge das dores e em Abril já estava praticamente e enlouquecer de dores. Em pura agonia.
Claro que era em Abril que tinha que estar marcado o programa mais desejado pelo homem: a ida à ópera. Pronto vocês têm maridos fits e desportivos, urbanos e coiso: a mim saiu-me um betinho erudito. É que o temos. E como é das ilhas, de uma em particular bastante pequena onde a vida cultural resume-se ao encontro de bandas filarmónicas, assistir à ópera no São Carlos era um desejo há muito adiado. Claro que eu em Dezembro, na loucura, comprei um camarote inteiro (onde estava com a cabeça?) e foi, claramente, o espectáculo com que ele mais delirou quando recebeu o presente de Natal. E claro que tinha que estar marcado para Abril, o pior mês que tive em termos de dores. 

O rapaz que, não desfazendo os das outras, é o mais fixe disse que não se importava de não ir, que haveria de haver outras oportunidades, o que importava era eu estar confortável. Mas, perante a fixeza do homem e mais a minha culpa judaico-cristã (e vá, porque gosto mesmo dele e sabia que era uma coisa que ele tinha tanta vontade de fazer comigo) enfiei uma data de comprimidos no bucho, estiquei o cabelo com a escova de esticar o cabelo que recebi no Natal, pus base a rodos para ver se disfarçava o ar doentíssimo e pálido com que estava, enfiei o único vestido de gala que me servia, todo ele preto e cheio de pedras tcharan- um Mango A/W 1999- enfiei as canadianas (a.k.a. muletas) no braço e lá fui. 

Claro que em Abril, água mil. Claro que chovia a rodos. Claro que o meu cabelo ficou um merdum 5 minutos depois e, de repente, achei que aquele era look para o Harry Potter dois meses antes pois eu estava tipo a Hermione e claro que andar de canadianas, com as borrachas dos ponteiros a escorregar sem parar fizeram logo com que o meu mood ficasse espectacular. Claro que ao chegar, o empregado me conduziu a um elevador de mil oito troca o passo e claro que o camarote que eu tinha reservado era super longe e senti que estava a fazer o triatlo de São Carlos, depois da molha que tinha apanhado já tinha nadado, agora estava na parte da corrida e não tarda muito ia pedalar dali para fora, mais de dez minutos a andar sobre a alcatifa almofadada de São Carlos e a perna a doer-me e eu de vestido a empecilhar-me, cabelo lambido e o ar mais miserável do Mundo. O homem todo feliz no seu fato piu-piu e o cabelo ligeiramente molhado, só paradar aquele ar blasé. 

Chegados ao camarote respirei fundo. O pior tinha passado. Havia três lugares: um para cada um de nós e uma para a minha perna (abençoada ideia peregrina em ter comprado o camarote inteiro!).O ambiente no São Carlos é épico e o homem estava ali a realizar o seu sonho de tenor frustrado. 

Começa a ópera.


Ok, tem legendas, boa! Dá para ir acompanhando a história e eis que entra o Romeo (ler "Rrrrrrróóóómeeeeeooooo!") mas epá...
- "Ó Rui, o Romeu é uma gaja?"
- "Shut, não sei! Deixa-me ouvir!"
- "Epá, ó Rui, isto não pode ser da medicação: quem está a fazer de Romeu é uma gaja!"
- "Shut, não interessa, é mesmo assim que a ópera foi escrita..."
- "Não interessa?! Era virmos ver um musical sobre a Tieta do Agreste e aparecer-te a Guida Scarlati, gostavas? O Romeu tem que ser um homem. Um homem cheio de pêlo, muito macho e italiano, pá!"
- "Liliana, estamos na ópera, importas-te de te abstrair desse detalhe?"
-" Com'ássim abstrair? Isto faz algum sentido? Não me consigo abstrair agora..."
E foi assim que eu, que como toda a gente sabe sou pela liberdade sexual, cada uma sabe da sua camae tudo e tudo que, aos 37 anos e nove meses, percebi que isto tudo é perfeito e fantástico: mas não ponham uma mulher a fazer de Romeu e a beijar a Julieta que eu não me consigo abstrair do potencial lésbico do momento, ok?"

Intervalo. Vou espreitar o telemóvel. Uma mensagem da minha médica neurologista já reformada mas que pedira a um colega ortopedista de topo o favor de olhar para uns exames meus e dar o seu parecer a perguntar se tinha os exames comigo,  pois o colega estava de banco no Hospital Dona Estefânia e tinha ali um furinho entre cirurgias para me dar uma opinião. 

E, de repente, ali estava eu, para espanto de muitos pais na sala de espera das urgências de um hospital pediátrico, a entrar ofegante, vestida de gala e a rigor, acompanhada por um gajo vestido de gala e a rigor, a entrar numa consulta de um hospital pediátrico... sem estar acompanhada por nenhuma criança!

A cara das pessoas era impagável e eu lá me dei conta do plus da maquilhagem entretanto esborratada (esfreguei muito os olhos para conseguir ver bem o palco, que o camarote era tão bom que era de lado e tínhamos que fazer ginástica para ver algumas partes da cena) que me fazia parecer um guaxinim e do cabelo à Hermione,entretanto seco mas em mau. 

O ortopedista não teceu nenhum comentário. Disse que não era nada da poda dele mas aconselhou-me a mudar de medicação. Em 5 minutos prescreveu-me daquelas receitas modernaças que vão descarregar no nosso telemóvel e deu-me alta. 

Já não fomos a tempo de apanhar o fim da ópera (assim com'assim se eu quiser ver cenas lésbicas vou ao Youporn e Romeu de pipi não é para mim) e voltámos para casa cabisbaixos: mámen estava desgostosíssimo porque não conseguiu ver o espectáculo até ao fim (e não achou graça quando eu lhe expliquei que aquilo morria tudo no fim,que não se apoquentasse) e eu particularmente desanimada porque era mais uma especialidade que se descartava de mim e não me apontava nenhuma orientação. 

Fizemos a A5 em silêncio, a caminho de casa. Parámos na farmácia de serviço e eis que vem a nova medicação:




A minha vida é uma trágico-comédia.
E estávamos a assistir de camarote.  

[Fuck my life!]


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