quarta-feira, 24 de julho de 2019

Escalas quadripolares # 2

Então contem-me lá: numa escala de Winston Churchill a Boris Johnson quão britânicos se sentem today?

terça-feira, 23 de julho de 2019

Escalas quadripolares #1

Sempre que o meu marido me pergunta se não vou andar de bicicleta avalio a inocência da questão numa escala de 0 a Rosa Grilo...

domingo, 21 de julho de 2019

Tenho que dar um nome à minha bicla



Pedalei com mais força e deixei a Ana para trás, certa que o pai lhe deitava um olho. 

Deixei de os ouvir, ganhei balanço, passei por cima de calhaus grandes e achei que ia cair umas duas ou três vezes. Não parei. A regra foi-me ensinada no Alcoitão, de cada vez que fazia uma cirurgia ortopédica e lá ficava para reabilitação para reaprender a andar: ganha-se balanço e segue-se em frente, nunca se pára com medo de cair, é a coragem do balanço e a determinação de avançar que faz que não se caia. 

Se se cair, paciência, a voz da Dra. Beatriz : “se cair, levanta-se, ora essa. Levanta-se, ganha balanço e põe-se a andar”. 

De repente, fecho os olhos e continuo a pedalar: o vento na minha cara, a velocidade do ar contra o meu corpo a furar o espaço e a memória do meu avô que punha molas nas “perneiras” das calças para elas não se emaranharem na corrente da bicicleta velha e eu atrás à boleia, com a mochila às costas a caminho do liceu. 

O meu avô nunca me deixava ao portão, achava que eu tinha vergonha de ir na boleia da bicicleta velha guiada por um velho com molas a prenderem as calças e houve uma altura em que era capaz de ter, naquela altura em que todas as adolescentes querem ser cool, mas depois eu cresci e um dia, já no secundário, perguntei-lhe se me deixava mesmo ao portão, ele parou e olhou para trás “não tens vergonha que os teus amigos gozem contigo?” E eu disse que não, que tinha orgulho que ele me levasse na sua bicicleta porque me queria poupar as pernas e os pés fracos e sempre cansados mais o peso da mochila e o meu avô fez como eu no Alcoitao e tomou balanço e avançou, pedalando com muita força, e eu fechei os olhos e senti-me como hoje, e se caísse tudo bem, ele estava lá para me levantar. 

Hoje não está mas eu já não tenho medo e sei que se sacode as mãos, ganha-se balanço e avança-se. 

Nunca há outra opção senão avançar.

sábado, 20 de julho de 2019

É capaz de compensar nunca ter tido e provavelmente nunca vir a ter uma experiência sociológica no Tinder

“Tu és gira!” - disse-me ele.

“Oh isso não conta: tu gostas de mim!”

 “Então porque quando alguém que não gosta de ti aponta os teus defeitos eles contam?!”

 Tumbas. E senti-me mesmo, mesmo gira.

terça-feira, 16 de julho de 2019

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Queridos amigos

 O meu aniversário acontece dentro de 9 dias.

Uma palavra para os indecisos: abdominoplastia.

De nada.


 (Recadinho a Mámen Mámen meu querido marido: não querendo pressionar mas quem estraga velho paga novo, viu?)

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O SNS é de todos nós

Há meses que tinha esta consulta de otorrino agendada num hospital público para a Ana. Não sendo nada urgente, é importante que seja vista por um médico de especialidade. 
Hoje era o dia. Esperámos duas horas até que uma enfermeira teve a tarefa aborrecida de me explicar a mim (e a outros pais que estavam na sala de espera) que não conseguiam localizar a médica, pelo que, presumiam que estava de greve. 
Eu devo literalmente a minha vida a vários médicos. 
Ao Dr. Gentil Martins que me operou em condições muito adversas sendo eu prematura de muito baixo peso, aos quinze dias de vida, depois de me recusarem a operar porque “não valia a pena porque assim como assim ia morrer”. Sobrevivi. 
Ao Dr. Torrado da Silva e à Dra. Karin Dias que orientaram os meus pais, dois miúdos de vinte anos, e os ensinaram a cuidar de uma recém nascida com uma patologia grave. 
À Dra. Arlete Martins do CMRA que dos 2 meses aos 18 anos acompanhou cada decisão cirúrgica em conjunto com o Dr. Salis do Amaral, cada período de reabilitação pós cirúrgica, cada estádio do desenvolvimento e desafios novos que se colocavam. Que já na puberdade me liberou das botas ortopédicas e das talas e assistiu, à minha marcha autónoma, de lágrimas nos olhos. 
A Dra. Guilhermina Ladeira acompanhou a minha gravidez de alto risco, recebeu-me em cada urgência, ouviu todos os desabafos da minha depressao pré-parto, aliviou-me com serenidade cada angústia e interrompeu as suas férias para vir ajudar a Ana a vir ao Mundo e cozer-me a bainha de amor que restou na minha barriga. Nunca a esqueceremos. 
Recentemente tive um problema de saúde e foi a Dra. Daniela Marto, o Dr. Alexandre Camões e a Dra. Sílvia Barbosa a que me salvaram. Literalmente. Sempre com genuíno interesse, preocupações para além das clínicas e amor pelo próximo. Que somos todos. Que fui eu. 
Se não fosse o SNS eu não estaria viva. Mas se não fossem os médicos eu não só não estaria viva como não seria a pessoa com marcha autónoma, potencial cognitivo intacto,  capacidade de auto gestão das limitações inerentes à minha patologia, mãe, funcional e resolvida que sou hoje. 
Não foram apenas procedimentos clínicos. O Dr. Gentil Martins não se limitou a encerrar a minha mielomeningocelo: arriscou operar-me, importou-se, investiu, acreditou. A Dra. Karin Dias e o Dr. Torrado não se limitaram a acompanhar os primeiros meses: capacitaram os meus pais, confortaram-nos, fizeram-nos vincular-se e acreditar no meu potencial. A Dra. Arlete não me prescreveu apenas ortoteses: deu-me lições de exigência, rigor e resiliência, não se condescendeu e fez-me alcançar sempre o máximo do meu potencial, acompanhou a minha mãe no pós divórcio com a missão de quem é mais de que uma médica. O Dr. Salis do Amaral não me retirou apenas o cuboide e fez-me o alongamento do tendão de Aquiles: ia todos os dias, mesmo os de folga, à minha cabeceira da cama do hospital Sant’Ana para me chamar campeã. E eu acreditava. 
A Dra. Guilhermina não me fez apenas uma cesariana: preparou-me nos meses de gravidez para ser mãe da Ana, sem medos nem receios, com confiança e segurança. Capaz. 
A Dra. Daniela não me receitou apenas medicação na consulta da dor: salvou-me de uma depressão, do desespero. A Dra. Silvia Barbosa e o Dr. Alexandre Camões não me fizeram apenas infiltrações: devolveram-me a marcha, devolveram à minha filha a sua mãe. 
Hoje a Ana não teve consulta de otorrino. E eu expliquei-lhe o porquê e tudo bem: os médicos são nossos amigos. 
E nós aos amigos fazemos sempre uma única coisa: estamos com eles, apoiamo-los. 
Hoje esta greve também é nossa: de todos os que foram salvos pelo SNS e que o querem inteiro. De todos os que devem as suas vidas aos médicos que não são apenas médicos: são pessoas que salvam pessoas. E que o devem fazer num contexto da maior dignidade. Pessoas que escolheram uma profissão de amor. 

Obrigada.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

I want to ride my bike

Tenho 38 anos, quase 39. 

Passei a minha vida toda em crises existenciais: primeiro porque era diferente, depois porque queria muito andar de bicicleta sem rodinhas e as botas ortopédicas estorvavam, depois porque as borbulhas não passavam com clerasil, depois porque não sabia que área de estudo escolher, depois porque não tinha a certeza do que queria ser quando fosse adulta e a hora para universidade estava à porta, depois porque não arranjava emprego, depois porque arranjei e era a recibos verdes e não tinha estabilidade nem contrato de trabalho para pedir um empréstimo habitação ao banco, depois porque veio a pré-crise e a primeira empresa onde trabalhei declarou insolvência, depois separei-me no mesmo ano em que o meu avô morreu, depois tinha medo de pedir um empréstimo habitação e a crise e o camandro, depois a segunda empresa despediu-me grávida depois de me reconciliar, depois tive um aborto, depois trabalhei numa empresa que me dava um salário fixe ao fim do mês mas em que me sentia miserável, depois a minha avó morreu e tive uma gravidez de alto risco, depois veio o Passos Coelho, depois assaltaram-me a casa, depois fomos morar numa casa péssima arrendada, depois passei a trabalhar outra vez a recibos verdes e- quarailho!- já tinha dado para esse peditório e o que me levavam em impostos fazia-me chorar literalmente cada final de trimestre, depois comprei casa e uma hipoteca para a vida, depois fiquei gravemente doente, depois passei a trabalhar na associação onde me sinto realizada mas onde as condições não são fixes, depois perguntam-me se não vou mesmo ter segundo filho que os 40 estão à porta e a vida tem prazo de validade e eu continuo a não saber exactamente o que quero ser quando for grande e, de repente, já sou grande. Tenho quase 39 anos e à parte de ainda ter borbulhas que nenhum clerasil resolve e precisar definitivamente de arrumar a minha vida profissional num sítio com salário digno e onde possa fazer o que sei fazer bem (independentemente da área que segui e do título profissional que ganhei), tudo o que eu preciso no meu aniversário é de uma bicicleta. 

Com cestinho à frente e uma campaínha para não ser preciso desatar a praguejar.
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