sábado, 29 de fevereiro de 2020

Coração em tempos de cólera

O meu coração é um freguês do Lidl que passeia naqueles corredores centrais cheios de bugigangas à espera de aparecer uma quinquilharia que nunca me ocorreria que viesse a precisar mas que, a partir daquele momento, não consigo imaginar a minha vida sem tal inutilidade. E embora tenha tudo em casa, domine os sítios onde está tudo guardado, tenha moldado o sofá e as almofadas ao meu corpo e os tapetes e os chinelos aos meus pés deformados, o meu coração vai sempre lembrar-se que precisa de uma máquina de cortar pelos do nariz. Colorida, embora a cor não faça falta para nada e com certificação iso9001 e tudo.
Só que a verdade, verdadinha, é que eu nem sequer tenho pêlos no nariz.

Dia Internacional das Doenças Raras





No dia mais raro do ano chamamos a atenção para os milhões de pessoas no Mundo que vivem com uma doença rara. 

Celebremo-las! 




                      

A blogosfera é um lugar estranho

Volto aqui e encontro as ruas vazias.

 Eu nunca fui muito gaiteira, sempre meio individualista e metida cá com os meus botões (sempre adorei esta expressão) e lembro-me de ter sido eu a meter conversa com alguns transeuntes não mais que meia dúzia de vezes, quase nunca por iniciativa própria. Abri, no entanto e quase sempre, o sorriso a quem me abordava e cumprimentava e sempre acolhi, com agrado, quem me batia à porta e quisesse entrar. Quase que me recordo de um tapete imaginário de "bem-vindo quem vier por bem". 

Eram tempos engraçados onde não me importava de encabeçar festas bacocas de troca de postais e eleições do bilf mais sexy do bairro ou de lançar campanhas de "neste verão, não abandone o seu blog!" e a gente era fresca e inconsciente e, passava por aqui à socapa durante o horário de expediente e às vezes voltava mais cedo da hora de almoço para passar aquele restinho de tempo em frente do computador, que os telemóveis não eram o que são. 

Havia casas mais imponentes no bairro, quase que condomínios fechados aos comuns mortais, habitados por pessoas que admirávamos e que escreviam magistralmente e tinham ideias incríveis e escreviam livros, na altura em que a Chiado editora não vendia sonhos a escrivãos de botequins e escrever livros ainda era uma coisa séria: era a Rititi, a Sofia, a Luna, a Mad, a Helena, a Jonas . Quando queríamos ouvir música como que deve de ser aproximávamo-nos da janela da Teresa e fechávamos os olhos, tentando não escrever disparates com receio que nos corrigisse no seu intocável Português. Também não resistíamos a espreitar pela janela da Concha e tirar ideias de decoração e a invejar as suas mãos de fada, as sugestões da Mónica sobre moda e a Joana ainda não tinha escrito livros e cozinhava como nós, numa cozinha que não era de revista e comida que toda a gente conseguia fazer, de tacho, e sem ingredientes esquisitos. Cheirava sempre bem quando lhe passávamos à porta. Ainda cheira. 

Havia as populares- eram duas- e eram engraçadas e despretensiosas, mas depois cat-fights. E coiso. 

Por falar em gajos, havia gajos e os que escreviam bem quase ninguém nunca os conheceu: o Pedro, o Prezado, o Capitão Microondas, o Jibóia, o Ricardo, Francis, o Pedro M., o Pulha Garcia, o Mak, o mau o Tolan, o Robene, o Troll of the North e o Piston. E depois chegou o Alfaiate Lisboeta mas isso já foi no tempo em que as fotografias começavam a ganhar pontos às letras. Agora assim escritos parecem muitos, mas não eram. 

E depois houve uma altura muito gira em que vieram para cá morar pessoas fora da caixa, sem medo de dizer asneiras, com ideias novas e frescas, como aquela fase em que pessoas fixes povoaram ali a zona do Intendente e tornaram-no só o bairro mais cool: a SJ, a Leididi, a Rita Maria, a Alexandra, a Raquel, a Mariana e, claro, a Xuxi.

Ninguém sabia o nome de ninguém e isso era o que menos interessava, eram as ideias que nos fascinavam e a possibilidade do bairro ser suficientemente grande, para que todas pudéssemos coexistir sem nos pegarmos uns com os outros e cada qual ter, com largueza, o seu próprio speaker's corner, e, simultaneamente, suficientemente pequeno para nos cruzarmos e cumprimentarmos e trocarmos ideias em mesas de café virtuais. Era prazenteiro e divertido.

Mas isso foi noutro tempo, em que havia tempo para nos sentarmos à frente de um computador e escrevermos textos com a alma e as ganas ao invés de sermos produtores de conteúdos digitais. Sabíamos lá o que era isso. Mas ríamos, e tínhamos amores e desamores e às vezes, muito de vez em quando, conhecíamo-nos ao vivo, mas só quando era mesmo inevitável, porque queríamos preservar a magia do outro desconhecido ser quem projectávamos e isso era sempre muito mais mágico de quem ele era na realidade. 

Volto aqui e encontro as ruas vazias. 

Sobraram os esforçados como acontece muitas vezes na escola tradicional: os alunos esforçados, que geralmente não são sequer os mais espertos ou inteligentes mas sim os que trabalham muito, chegam à universidade, tiram cursos medíocres mas alcançam o estatuto de doutores. Sobram os que venderam as casas às sothebys desta vida que transformaram os blogs em coisas que não são blogs e tudo bem, só não vivem nesta blogosfera, mudaram-se para uma espécie de Hysteria Lane, onde não vão às compras ao mesmo mini-mercado de bairro que nós. Os poucos. 

Faltam-nos os geniais, os verdadeiramente inteligentes, como os alunos que não estão para mamar com a estucha de um sistema educativo obsoleto e desmotivam, procuram outros interesses, emigram, mudam de áreas, vão ser geniais e felizes, na medida das suas felicidades pessoais, para outra freguesia. 

Sobraram alguns dos bons mas bato-lhes às portas e encontro terrenos baldios em vez dos blogs ("sorry, esta página já não existe"), algumas moradas estão cheias de pó com últimos posts de há muitos anos ou só com despedidas como campas abandonadas sem sequer flores murchas a enfeitá-las, espreito-lhes as janelas e não os encontro, provavelmente a passar temporadas em casas de férias de instagrams ou em clubes reservados onde se divertem a jogar golf com as suas bolhas fantásticas nos facebooks desta vida. Visito alguns, de vez em quando, para aprender coisas com quem sabe. 

Resistem, aqui, os que tenho na linha lista de blogs, aqui do lado direito, e que o Deus do blogspot os conserve, que uma pessoa aprecia a companhia valiosa. 

Volto aqui e encontro ruas vazias. 

Tenho esperança que, tal como eu, sintam o apelo do regresso às origens. Há muito que fazer por cá, folhas no chão por apanhar mas o céu das palavras continua azul e há espaço livre para continuarmos a escrever. 

Voltem. 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Ana, a maravilhosa introvertida



Sou extrovertida, animada, barulhenta, divertida e popular. Ocupo muito espaço nas relações (o que, na maioria das vezes, nem sequer é uma coisa boa), sou impulsiva, impaciente e hiperactiva, gosto de estar no centro das atenções e posso parecer “over” em tantas e tantas outras situações. Por outro lado sou a rainha das festas: conto piadas, distribuo temas de conversa, lanço os foguetes e apanho a cana. 
As pessoas sentem-se, geralmente, animadas na minha presença. Sou muito auto-confiante nas relações interpessoais e altamente empática. 

 Em todas as procuras de emprego, depois de passar a triagem curricular, safei-me sempre nas entrevistas presenciais, muito mais pelas minhas competências sociais do que pelas hard skills. Ser extrovertida abre muitas portas. O mundo está feito para os extrovertidos e se colocarmos uma conotação positiva/negativa nestes traços de personalidade, a extroversão será sempre encarada, no senso comum, como o o traço de personalidade positivo. As pessoas adoram os miúdos descarados e fala-baratos, os mais comunicativos e sem medo de se exporem, os que gostam de palco. Os miúdos extrovertidos arrancam gargalhadas, dão pica e conversa e fazem os adultos sentirem-se divertidos e felizes. 

 Daí que quando engravidei projectei a Ana assim, barulhenta, divertida e destrambelhada, ruidosa e sociável como eu. A Ana sempre foi uma bebé tranquila, chorava quando precisava de alguma coisa, aninhava-se no meu colo e ali aguentava muito tempo feliz e contemplativa e nunca gostou de andar de colo em colo- "ai que a menina estranha toda a gente!"- só no meu, do pai, da avó e da tia. Nunca foi uma miúda que sorrisse indiscriminadamente nem uma criança “dada”, e não fosse ser factualmente uma bebé Nestlé, não era uma bebé que apetecesse, que cativasse. 

 Um dia no colégio, tinha três anos, vi-a a brincar sozinha e inquiri a educadora: que aquele era um comportamento regular, que odiava ambientes de grupo confusos e de disputa, que não tinha paciência para negociar brinquedos e que não precisava da aprovação dos pares nem cedia à pressão social . Fiquei com o coração apertado, se me visse sozinha aos três anos na creche, sentir-me-ia perdida e abandonada e ai minha rica filha. 

 A timidez, ou a introversão como lhe chamo eu, não era na altura- como não continua a ser- um problema para a Ana. Custou-me a entender que o estar sozinha não acarreta qualquer sofrimento para a Ana e que não só não evita ,como procura, muitas vezes, ambientes tranquilos e recatados, onde se predispõe a criar, a brincar, a testar e a descobrir o Mundo, sem pressões externas, sem ritmos impostos pelos outros sem negociação.
A Ana não aprecia grandes grupos com muitas interações, não gosta de dispersar, privilegia ter uma amiga ou duas de referência e investe, aprofundadamente, nessas relações ao invés de dispersar tempo, atenção e energia em grupos com mais elementos. Também não gosta de conversas de circunstância, recusa desde sempre a dar beijos a estranhos (e nós nunca a obrigámos) e, se puder, não esboça mais que um sorriso quando se metem com ela. E metem-se muito, o que a incomoda grandemente.

 Ao princípio custou-me empatizar com a Ana e cai no erro de a empurrar para o comportamento esperado e socialmente desejável. Foi para mim durante muito tempo uma espécie de conflito interno, assente num receio inconsciente de que a Ana fosse diferente, se sentisse diferente e que isso lhe trouxesse sofrimento. Que, por ser tímida e reservada, a vida lhe fosse mais difícil. Com base neste medo quase caí no erro de achar que a Ana teria que gostar ou teria que se adaptar a uma maioria, para que não fosse excluída, marginalizada ou apenas desajustada ou inadaptada. Obrigá-la a interações sociais forçadas, insistir no “dá um aperto de mão ao senhor!”, “vai lá brincar com os meninos ali no parque infantil” e colocá-la em contextos desportivos ou artísticos que implicassem interação social: tentei de tudo. 

A Ana continuava a não se sentir confortável. 

A pôr-se debaixo do meu sovaco de cada vez que se queria ver livre de uma situação indesejável, a olhar para o chão e a emburrar. E eu a repreendê-la, quando ficávamos sozinhas, e a instruí-la sobre normas sociais com estranhos que nunca mais veríamos, pessoas com que nos cruzamos mas com quem só temos micro-interações, dizer-lhe que tinha que ser mais simpática.
E a pensar que as pessoas- todas- a achariam mal educada e no fundo era “about me”: uma mãe incompetente que não obriga a filha a ser cativante e fofinha e, por isso, querida e gostada por todos. Popular e cativante. 

 E um dia caiu-me a moeda: eu estava a dar sinais, inconscientes, à minha filha de seis anos, de que tinha deixar de ser ela, de ser como é, para corresponder às expectativas dos outros. Dos outros que não nos interessam grande coisa porque, para os que ela ama e verdadeiramente lhe importam, o comportamento é sempre de profunda proximidade e amor dedicado. Que era mais importante os outros, os estranhos, elogiarem a sua simpatia e validarem em como era um amor de criança do que a fazer sentir-se confortável.
 Quarailho, estava a privilegiar as expectativas dos outros e a aprovação social ao bem estar emocional da minha filha! E passei a adoptar outra estratégia, que era a de deixá-la gerir as relações sociais como entende, sem a repreender ou forçar, mas justificando-a a terceiros, como que a defendê-la de julgamentos alheios e juízos de valor, a pedir que “não a levassem a mal”: “ah, a Ana é tímida, sabe?!” ou “não sai nada a mim que sou uma galhofeira”. A expô-la, portanto. A justificá-la sem qualquer sentido. 

 Até que me fartei: deixei de justificar a introversão da minha filha e abraço-a e celebro-a. 

Sou uma mãe extrovertida e tenho uma filha introvertida. Aprendi, a custo, o importante que é respeitar as características da Ana, não a extrovertoevangilizando e estando sempre a tentar que se adapte a contextos ou comportamentos que pedem extroversão. Da mesma forma que se fosse uma mãe introvertida e tivesse um filho mais extrovertido, também não deveria impedi-lo ou castrá-lo na sua necessidade, igualmente legítima, de socialização. 

Ser extrovertido não é bom da mesma maneira de que ser introvertido não é mau. Introversão e extroversão não são sequer traços de personalidade opostos: fazem parte do mesmo continuum e toda a gente é, simultaneamente, extrovertida e introvertida, sendo apenas um dos traços o dominante e o outro o recessivo. É um espetro, portanto. E que maravilhoso e diverso que isso representa! 

A Ana é criativa e independente. Sensível e bondosa. Não é influenciável nem sente pressão social. Não precisa de agradar ninguém. É obstinada e confiável. Quando escolhe alguém dedica-lhe todo o seu amor e faz tudo por essa pessoa. E não escolhe muita gente, por isso, só pessoas muito especiais entram no mundo da Ana. Não dispersa, é observadora e boa ouvinte, atenta aos detalhes e discreta. Lida bem com a frustração e não valoriza a opinião de terceiros que não legitima. Conhece-se bem e é auto-confiante. É muito subtil e tem um sentido de humor acutilante. Não precisa de palco: tem os aplausos dentro de si e é a criança mais generosa e empática que conheço. É muito dedicada à família. Não é impulsiva e é ponderada na tomada de decisões, tendo uma sensatez fora do normal para a sua idade. É muito perspicaz e óptima a resolver problemas. Aprecia leitura, arte, música. E retira muito prazer em atividades solitárias: gosta mesmo muito da sua própria companhia. Aprecia o silêncio, a organização, ambientes estruturados. Adora escrever, fazer jardinagem e, ainda por cima sendo filha única, tem uma imaginação brutal nas suas brincadeiras. Acredita em fadas e unicórnios e tem estratégias de coping incríveis. É independente e livre. Muito livre. 

 É a timidez da Ana que traz todas estas características fantásticas que fazem dela a miúda espantosa que é. Então da próxima vez que lhe dizerem “então: não falas?” ou “o gato comeu-te a língua” pensem que isso é tão rude como mandar calar um extrovertido. Da próxima vez que lhe disserem “ai és tão bonita mas depois és tão antipatica” ou “aí Ana: és tão bichinho do mato!”: ide para o real caralho.

 Eu aprendo todos os dias com a Ana: a ser mais calma, mais ponderada, melhor ouvinte, mais paciente, a respeitar o tempo e o espaço do outro.A gostar mais de mim e da minha própria companhia. Há muito que aprender com os introvertidos, embora o Mundo esteja feito à medida de nós, os como eu, os extrovertidos, os carismáticos e barulhentos. 

A introversão da Ana não era nada que eu alguma vez projectasse mas, hoje, não a trocava por nada. Porque é ela que faz da minha filha o ser maravilhoso que é.
 Só não a chateiem na rua, tá?

Estão proibidos de fazer piadas com o verbo engolir, seus porcos nojentos!

Tenho saudades do tempo em que o maior questionamento da minha vida era perceber se, de facto, engolíamos ou não aquela bolinha de prata que era furada pela palhinha nos pacotes de leite com chocolate...


Ana, a herege

A minha mãe mostra à Ana uma imagem dos Três Pastorinhos e conta-lhe a história da aparição de Fátima.

"Avó: e porque é que a Lúcia está zangada?"

"Ó Ana, a Lúcia não está zangada!"

(silêncio enquanto volta a mirar a pagela)

"Ai avó, já olhaste bem para a cara dela?!..."


As minhas amigas dizem-me que é o Universo a pôr-me à prova. Mas o Universo está cheio de calorias, caraças!

A pessoa assume publicamente que está de dieta para ver se a pressão social a faz ter vergonha na cara.

Vai ao instagram e tem um pedido de amizade de quem?


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Ana, a chiba

"Avó, sabes que a Bárbara  gosta de homens muito mais velhos?"

"Ahn? Como assim, Ana?"

"Então, avó, a Bárbara tem sete anos e já gostou do irmão da Madalena. que está no quinto ano! No quinto ano já tem 10 anos, avó! Dez anos!"

...

We'll always have Pedro

Dia 23 de Outubro quis cá voltar. Não por saudades do blog, da escrita, mas das pessoas que me seguiam, dos amigos que fiz, pela leitura mútua, pela partilha. Era dia mundial do ballet. Tenho agora 40 anos, cabelos e barba brancos, excesso de peso e comecei este ano a ter aulas, pela primeira vez na vida, de ballet. Para assinalar o dia, partilhei uma foto minha com as sapatilhas calçadas numa rede social. Entre comentários parvos, estavam os likes de bloggers que me acompanharam desde o início do wahparis. Os vossos, portanto. Em cada um desses likes, senti a vossa empatia, mais do que os dos amigos reais de todos os dias e claro, de seguidores anónimos que roboticamente apenas colocam likes em fotos bonitas. Talvez a culpa seja minha, que me despi aos vossos olhares mais do que faço no dia-a-dia. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Que Santa Vorwerk me proteja

Eu a fazer sopa para o jantar em modo dieta: "Lalalala: vou fazer sopa de cogumelos! Deixa lá ver a receita da bimby!

Hummm.

Tiro o leite e a farinha. Epá, natas também não pode ser..."



A modos que tenho água de couve flor, cebola e cogumelos em centrifugação na bimby.


Operação #milfnocomando

No ano em que vou celebrar os meus 40 anos (pqp) decidi embarcar na operação #milfnocomando e perder peso, que a miúda vai fazer oito anos e a desculpa do pós-parto já não pega...

A modos que, a par da dieta, tenho começado lentamente a fazer exercício (odeio! Tenho rabo de chumbo e mamas grandes que não se compadecem com corridas, sim, porque aquilo da Marisa Cruz a saltar à corda na boínha sem as mamas quase a vazarem-lhe os olhos era completamente fake e impraticável). 

Hoje, de manhã, fui para o Guincho de bicicleta e encontrei uma amiga e estive ali à conversa com ela, devidamente equipada. Chique que só eu.

Depois andei 1 quilómetro e duzentos metros e espatifei-me na areia do piso e fui meia hora a dizer vernáculos e a soprar as palmas das mãos, evidentemente a andar com a bicicleta pela mão, que me doía o ego.

Voltei a fazer 1 quilómetro e quatrocentos metros e uns ciclistas gajos buzinaram-me. Ainda pensei que estava com o rabo mais pequeno e que me estariam a mandar piropos mas não, tinha era o pneu de trás completamente vazio.

Voltei tudo a pé de bicicleta a tira-colo, de mãos esfareladas, pneu nas lonas e língua suja de tantas asneiras ditas.

Perdi tempo e dignidade.
Peso é que não. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Papoilas e amor




Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se chama #sóquenão, ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou tal como eu não gosto, ensinei-lhe que borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos, ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar, ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância. 

Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou que foi e é sempre tudo sobre o amor.

Fuck Them!

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A CONHECER | Bali dos pobres


No Parque de Campismo (municipal!) da praia de Mira jaz um paraíso a preço de saldo.

Não digam que vão daqui.

De nada.

[Mais fotografias da nossa escapadinha a Mira em instagram.com/quadripolaridades ]

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Ó Ana, não corra tanto, plamordedeus!

O sonho de qualquer mãe beta: a filha loira de olhos azuis, o labrador ou golden retriever ou cão ou lá o que é a marca do bicho e a praia.



Que nossa senhora dos sapatos de vela me proteja.

"No final, vamos lembrar-nos não das palavras dos nossos inimigos mas do silêncio dos nossos amigos"





Uma vénia ao “Público” que publica hoje exactamente assim.

A morte de Vasco Pulido Valente deixa, indubitavelmente, um vazio impossível de preencher.

Post só perceptível por nascidos nos anos 80

A Ana acordou cheia de alergia na pele da cara.

Minha sugestão imediata para mámen: “Olha, bora mascará-la de Macaulay Culkin na última cena de “O meu primeiro beijo”?

Pernas e timidezes

Íamos a pé sozinhas, as duas, em direção à praia da Tocha. Ela cantava baixinho, saltitava, contornava obstáculos e apanhava flores da berma e a mim começava a doer-me a perna, mas continuava em silêncio.

A Ana ensinou-me tudo sobre silêncio, a mim que o tento matar desde a infância, no quarto do hospital à noite a falar em voz alta sozinha, para afastar a solidão e não ter a tentação de tocar à campainha e incomodar a enfermeira.

Não avistámos gente nos primeiros 2 quilómetros, até que uma senhora se aproximou de bicicleta e nos alertou que ainda teríamos que andar 7 quilómetros e que “a menina não aguenta” até lá. Decidimos voltar para apanhar um táxi e a senhora agarrou na bicicleta pela mão e veio a fazer-nos companhia, para desagrado da Ana, para quem a minha sociabilidade acaba por lhe trazer situações intrusivas e micro-interacções que, de bom grado, dispensaria. 
 
Quando chegámos à vila despedimo-nos da senhora, aliás, despedi-me eu, que ela acenou só com a cabeça e disse adeus com a mão. Percebi desagrado por parte da senhora. 
 
As pessoas não gostam de gente tímida, confundem-na com mal educada e a Ana já está habituada a isso e também a que eu o justifique junto a estranhos com tentativas de humor “olhe que não sai a mim que sou uma gaiteira!” ou racionalizando a coisa expondo-a “sabe, ela é tímida...”. Para a defender de juízos de valor alheios. Tudo errado, bem sei. Sei hoje.
 
Na cooperativa comprámos fruta e a senhora da caixa meteu-se com ela “ estás tão linda mascarada!” e a seguir um monossilábico “obrigada”. A senhora reagiu pela falta de interacção que tinha idealizado no guião da sua cabeça “aiii, tu és muito envergonhada! Que feio!” e a Ana aproximou-se de mim, enfiando-se debaixo da minha asa.
 
A senhora confrontou-me: “Ah, sabe minha senhora: isso passa! Não vai ter ela outro remédio senão lhe passar!”. Eu estava pronta a fazer o sorriso amarelo do costume e a concordar, naquilo da desejabilidade social, mas caiu-me a moeda e escolhi o lado da trincheira da minha filha face à estranha: “pode não passar e se não passar tudo bem: o mundo tanto precisa de extrovertidos como de introvertidos, de descarados como de tímidos, de sociáveis como de reservados: a diversidade é uma coisa linda” e encerrei ali o tema. 
 
À saída a Ana agradeceu-me: “obrigada, mãe, por me teres defendido com a senhora da caixa”. Ah, sabes Ana, eu gosto de ti e da tua timidez, gosto mesmo muito da tua timidez. Ah, e obrigada por me teres defendido com a senhora da bicicleta.
Ela sorriu como que a descobrir que eu tinha reparado na pequena subtileza: “Eu não disse que quem não aguentava o caminho eras tu, não foi, mãe?”. Foi. “Mãe: eu gosto da tua perna doente”. 
 
Amar é protegermo-nos, Ana. 
“Sempre, mãe”.
 Sempre, Ana. 
 
Prometo.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Se na próxima encarnação tiver a sorte de nascer lésbica, é com ela que quero lesbicar


Da genial sj no seu "Não mudes nunca"

Revenge of the 80's

O sonho de todas as mães nascidas nos anos 80: espetei um sinal feito a lápis preto dos olhos na bochecha da minha filha, devidamente mascarada de Sevilhana.

Tumbas

Ana desfilando pela Escola de Samba Unidos do Kama Sutra

Toda a gente sabe o trauma que eu tenho com o Carnaval. É carregar aqui no link, para quem chegou agora, embora para os quadripolares veteranos a história já seja antiga e do conhecimento de todos. 

Vai daí que jurei a mim mesma, nesta saga da maternidade, que iria cumprir todas as vontades da Ana no que diz respeito às máscaras de Carnaval que ela quisesse vestir e temos alinhado num rol de Minie, Elsa, Mérida, LOL unicórnio, fada e todo o imaginário girly de uma miúda na primeira infância. Um enjoo, portanto. Mas tudo pela integridade emocional da pequena criatura. 

Este ano, na nossa road trip aos "Pueblos Blancos" (vide instagram com a viagem todinha) e, de passagem por Sevilha, não resistimos a comprar-lhe um traje completo de Sevilhana, que fez as delícias dela e de todos os transeuntes que por ela passavam, já com a expectativa de podermos usá-lo como máscara no próximo Carnaval. Neste, portanto. 

A modos que, até terça-feira passada, já tinha posto de parte o vestido, os sapatos à bolinhas, a mola do cabelo, o leque e as castanholas e andava feliz e contente, a sentir-me super competente nesta coisa da maternidade. 

Terça-feira estourou a bomba com o maldito bilhetinho da escola: ah, os meninos podem vir mascarados do que quiserem e tal (aleluia: já ninguém aguenta o tema dos mares e dos oceanos há cinco anos seguidos) mas vai haver um desfile de Carnaval e todos devem trazer uma máscara, à parte, que lhes tape a cabeça e o pescoço (wtf?), para desfilarem verdadeiramente mascarados. 

E foi aí que começou o descalabro. 

Em minha defesa ando em dieta e a falta de hidratos de carbono e de açúcar toldam-me o raciocínio (Ana Póvoas: na verdade a culpa é tooooda tua!) e, na ânsia, na aflição e-assumamos!- no desespero lembrei-me de um fato de unicórnio que tinha comprado há meses na H&M e que tinha passado numa loja Ale Hop e tinha visto uma máscara de unicórnio. Dito, feito: saí do trabalho, passei ali na loja do Campo Pequeno e cheguei a casa toda feliz e contente, a achar que era o santo graal da maternidade. 

Pior: a minha mãe viu e achou pefeito, mámen viu e não tossiu nem mugiu. Assunto arrumado. 

Até que ponho a fotografia no meu instagram e a minha amiga Carolina meteu o dedo na ferida e cuspiu-me o materno-fail. 



Posto isto, embora eu já não consiga desver, a verdade é que sem tempo para uma alternativa, a minha filha hoje irá desfilar na Escola de Samba Unidos do Kama Sutra, devidamente mascarada de grande unicórnio a praticar o sexo anal louco e desenfreado com pequeno unicórnio. 

Tragam-me a taça da pior mãe. 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Ana, a fonética baralhada

Eu a propósito do registo do nosso fim-de-semana no seu diário gráfico: “Sabes aquelas açoteias que vimos no Algarve, Ana?!”~

Ana dá um belinha na própria testa e exclama: “é isso mesmo, mãe: o nome da nova auxiliar é açoteia!

(Pausa)

“Ou Soraia. É qualquer coisa assim...”

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Pólo Norte, a romântica


Vem uma meia de leite cheia de espuma esquisita e começo a mexer aquilo desenfreadamente até que oiço:
- isso era um coração, pá!

...

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Em Maio o pessoal "bomba" bué!

Fevereiro é o mês mais pequenino do ano mas a minha filha comemora o aniversário do pai, da avó materna, do avô paterno, da prima madrinha, do tio paterno e de três grandes amigos da mãe.
Oito em vinte oito dias, já para não falar do dia dos namorados.
Este é o mês em que toda a gente comemora o aniversário ou é só uma fatalidade desta família?!

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Aos 8 de Fevereiro de 2020, pelos 60 anos da minha mãe




É a pessoa que simultaneamente nos abana a estrutura, agita, provoca, cutuca, empurra e não nos deixa outro remédio senão arriscar, reagir, encontrar o ponto de equilíbrio e mantermo-nos em pé. E é simultaneamente a pessoa que nos permite cair, nos ampara as quedas e no fim atira com um “levanta-te e sacode-te que ninguém está a ver”. Isto define exactamente a minha mãe: a pessoa que nos ensina tudo sobre a coragem da vida. A mim e à Ana. 

Celebra hoje sessenta anos e é a pessoa mais importante da minha vida desde o dia em que,com a mesma coragem e equilíbrio, não me deixou outra escolha senão sobreviver com quedas mas também me ensinou a viver conhecendo o meu centro de gravidade, num equilíbrio muito nosso. Sempre de cabeça erguida e de pé. 

Parabéns, mãe.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

[Erradinha]

[Ontem, perante uma falha minha- tenho cometidas muitas que ando numa fase cheia de dores de crescimento- atirou um "ai, mãe não és nada certinha!". 

Fiquei estática a projectar-me no tempo e no espaço, a ver-me de fora para dentro- e é tão difícil - e devolvi-lhe um "achas que eu sou erradinha, Ana?".  Sorriu e abraçou-me, como que a consolar-me por não sabe ela bem do quê. Nem eu. 

Vou fazer 40 anos e, de repente, o tempo escancarou-se diante de mim, esta porra de equador da vida. Tenho quase tudo a meio, começado e não acabado: um livro, um blog, uma persona, uma vida. Tudo o resto tenho começado e em andamento mas nem sempre- quase nunca- sei a quantas ando nisto da conjugalidade, da maternidade, do pensamento, do trabalho, do coração, da porra da vida. Com a idade fiquei com mais dúvidas, mais inseguranças, mais preguiça, mais medos. Menos eu. 

Escrevo menos e escrever era a actividade que me fazia sentir mais competente. Organizava-me para o fazer todos os dias, saía, realizava-me. Durante toda a vida era a escrita que mais companhia me fazia e mais respostas me dava a todas as dúvidas existenciais que ia tendo e nunca mais deixei de ter, só que agora não sei muito bem onde encontrar respostas. 

A miúda cresceu, ficou mais autónoma e eu achei que ia ter mais tempo. Se calhar tenho mas também fiquei mais desorganizada, caótica, insegura e preguiçosa e mais acordar em stress, ajudar a miúda a despachar-se, o pequeno almoço,a lancheira, a marmita e a A5, o relógio, o começar e interromper tarefas, o atender telefonemas, falar com pessoas, hora de almoço em 5 minutos para logo a seguir voltar a trabalhar porque achei que era a jornada contínua que me safaria e não foi. Não foi. 

Depois são 6 da tarde, a A5 outra vez e a merda da pergunta -“O que é que fazemos para jantar?"-e esquecemo-nos de tirar coisas do congelador e o banho e o secador de cabelo, o sono no sofá.Às vezes os ciclos têm que se fechar, voltas a eles de vez em quando, nos meridianos da vida, agora no equador, ninguém te pode salvar senão tu. Senão tu. 

A Ana abraça-me: "Não faz mal, mãe. Eu às vezes também não acerto."

Mas hoje escrevo. E talvez por escrever possa começar a acertar. A ser mais eu. 

Mais eu.]

Filosofia quadripolar


 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Cada qual tem os amigos que merece

Eu a tentar não panicar e a fazer piadolas sobre o facto de terem nascido dentes de lampreia no céu da boca da minha filha.

Os amigos das outras: comentários de ahahahahahha

Os meus amigos: mensagens privadas com fotografias fofinhas



FML

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Sou a mãe dos dragões tuga

Estão a nascer à miúda dentes no céu da boca.

Não sei se a leve ao dentista ou se a exiba triunfalmente ao Pinto da Costa como a verdadeira filha do dragão.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Panquecas com xarope de misérias

Ofereceram-me uma máquina própria, fiz a massa direitinha, sem me enganar numa só medida de farinha, açúcar e leite. À primeira porção de massa percebo que me esqueci de untar a superfície da máquina, a puta da massa enrola, cola-se tudo às bordas e desisto com a grande javardice da massa a parecer argamassa colada no raio de um metro de toda a bancada. 

Nas panquecas, como na vida
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