segunda-feira, 13 de setembro de 2021

As fitas


Ele perguntou "também lá estiveste internada?" e eu disse que sim, confusa. É uma névoa na minha cabeça todo o tempo em que lá estive internada, uma névoa sobreposta pelo que a minha mãe me conta, as memórias felizes que ela assistiu, o dia em que a RTP lá foi e me filmou e os domingos em que as irmãs incluiam sempre batatas fritas no menu e a Lai, a educadora, única memória de afecto que guardo. Tinha na minha memória as memórias da minha mãe a ocuparem o lugar das minhas, não sabia para onde teriam elas voado. 

Mas depois ele continuou "e as fitas? Lembras-te das fitas?" e um portal de memórias recalcadas se abriu, como se fosse uma epifania do passado, uma visão de dor que enterrei num poço da minha memória- a psicologia explica- acabava a hora da visita a seguir ao jantar que era dado demasiado cedo, acho que pelas 19h, e a minha mãe e todas as visitas iam embora e vinham as irmãs, vestidas com o hábito creme, com as fitas. 

Às vezes eu choramingava, tinha 4 anos, 5, 7, 8, era pequena, choramingava "não quero as fitas! Tenho comichão e não me consigo coçar" e elas não me respondiam, não me explicavam, não me consolavam, limitavam-se a apertar as fitas à volta do meu corpo pequen ino e prendiam com firmeza e eu ficava sem me mexer toda a noite, às vezes durante muito tempo a olhar para o tecto da enfermaria e a pensar que a comichão iria passar e que a minha mãe chegaria no outro dia e ouvir os gritos de outras meninas: "tirem-me as fitas! Tirem-me as fitas!", depois passos delas e o silêncio a calar os gritos das outras meninas. 

Eu desisti de pedir, percebi que não me ouviam, não queria que os passos se aproximassem e se pedisse apertavam com mais firmeza, nem uma palavra, às vezes eu enchia o peito de ar para ficar com mais folga e poder mexer-me melhor até mas tirarem de manhã, muito cedo, acordavam-nos as sete para lavarem o chão com lixívia e umas máquinas que aspiravam e enceravam, tudo tinha que cheirar a limpo, a doença cheira mal. 

Nunca ninguém me abraçou, consolou ou alargou as fitas, em noites apertadas e silenciosas à espera de manhãs asséticas e da minha mãe chegar outra vez. 

Ele carregou com o dedo na ferida cicatrizada em vão"lembras-te das fitas?" e eu lembrei e perguntei, agora, à minha mãe se era real ou se o sonhara. "Era para vocês não caírem das camas!" e eu sei que ela acredita nisso, as irmãs diziam e ninguém questionava as irmãs- é a memória da minha mãe sobre as fitas mas não é a realidade e eu nem me lembrava que havia esta realidade mas ele perguntou pelas fitas e agora não me consigo esquecer de dormir de colete de forças grande parte da minha infância naquele hospital, do cheiro a lixívia e de tudo o que mais queria no Mundo era a hora em que chegava a minha mãe.

5 comentários:

Cátia Garcia disse...

Um xi muito apertadinho.

Filomena Silva disse...

❤️

DeepGirl disse...

Credo... Isso foi de facto algo para se querer esquecer e não se conseguir...

Pedro disse...

❤️

CCF disse...

Ainda amarram os velhotes assim no hospital, bem me custou que o fizessem ao meu pai e a resposta era sempre essa: pode cair da cama. Caramba, talvez uma queda da cama faça menos mal...
~CC~

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