quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A mámen, por ocasião do nosso 14º aniversário de casamento, esperando continuar a nunca ter que lhe pedir




"No te voy a pedir que me des un beso. Ni que me pidas perdón cuando creo que lo has hecho mal o que te has equivocado. Tampoco voy a pedirte que me abraces cuando más lo necesito, o que me invites a cenar el día de nuestro aniversario. 

 No te voy a pedir que nos vayamos a recorrer el mundo, a vivir nuevas experiencias, y mucho menos te voy a pedir que me des la mano cuando estemos en mitad de esa ciudad.

 No te voy a pedir que me digas lo guapa que voy, aunque sea mentira, ni que me escribas nada bonito. Tampoco te voy a pedir que me llames para contarme qué tal fue en el día, ni que me digas que me echas de menos. 

 No te voy a pedir que me des las gracias por todo lo que hago por ti, ni que te preocupes por mi cuando mis ánimos están por los suelos, y por supuesto, no te pediré que me apoyes en mis decisiones. Tampoco te voy a pedir que me escuches cuando tengo mil historias que contarte. 

No te voy a pedir que hagas nada, ni siquiera que te quedes a mi lado para siempre. 

 Porque si tengo que pedírtelo, ya no lo quiero. "

Frida Khalo

 Frida Kahlo

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Aos 8 anos e 24 dias tornei-me na mãe que sempre temi vir a ser

 "E que tal perguntares isso ao teu pai, fofinha?"



Adult goals: eu Vs minha filha

 A Ana repara que a tia usa sempre saltos altos e pergunta-me porque não os uso. Explico-lhe que prefiro calçado confortável mas que quando era pequena queria muito ser crescida para poder usar saltos altos.

Responde-me de rajada:

"Tu querias crescer para usar saltos altos, mãe? Que falta de imaginação! Eu quero crescer para poder beber café. E vinho. Café e vinho. Ah, e tinto de verano!"


...



Estou a criar uma potencial viciada. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Let's talk about sex, baby # acto III

Aproveito para lhe explicar que por causa das questões relacionadas com o sexo e a reprodução é que os órgãos genitais das meninas e dos meninos são considerados “zonas íntimas”, aquelas que ela não deve deixar ninguém tocar e tal. 

 Fica ali um minuto em silêncio, a remoer:

 “Pára tudo: então se o rabo não entra nada nisso de se fazer bebés é uma zona íntima porquê? “ 


Omfg.

Let's talk about sex, baby # acto II

Explico-lhe a cena do “encostanço” a.k.a. cópula e olha-me com um ar muito distinto: 

 “Tens noção que os adultos são muito nojentos?” ...

Let's talk about sex, baby # acto I

"Mãe, já percebi bem aquilo do óvulo e do espermatozóide se juntarem para formar um bebé mas explica-me lá melhor aquela parte do encostanço..." 

Here we go

1 de Setembro de 2020

sábado, 29 de agosto de 2020

Pandemia files

 

"A vida só é possível reinventada"- Cecília Meireles


Adoptei uma gata. E dois guppies que agora são uns três mil. Aprendi que é possível o tele-trabalho. E por isso a trabalhar no zoom e no teams. Aderi à netflix e abençoada a hora. Deixei de fazer dieta porque só consigo passar uma provação de cada vez. Li muitos livros. Aprendi a fazer um tear e fi-lo. Desliguei-me do telemóvel e desgostei do Facebook. Ouvi mais música e descobri mais cantores. Aprendi a fazer pão. Não deixei de comprar flores porque a beleza também alimenta. Lavei mais vezes as mãos em meses do que no resto da minha vida. Ensinei uma data de coisas à Ana. Arrumei a arrecadação. Fiz sestas. Comprei tecidos para a minha tia me costurar almofadas novas. E comprei loiça nova. Passei a andar sempre descalça em casa. Deixei crescer o cabelo e passei a seca-lo ao ar. Aprendi a fazer doce de ovos e bolo de noz. Vivi várias situações de ansiedade e nenhuma provocada pela pandemia. Não fiz nem uma única compra online. Poupei dinheiro até, que depois me serviria para as férias. Escrevi mais e melhor e não mostrei a ninguém. Concorri a um concurso de escrita que sei que não vou ganhar mas já ganhei só porque dei o passo de o tornar público. Precisei de desligar as notícias e reduzir o ruído de informação. Precisei de me afastar de muitas pessoas para me concentrar nos verdadeiramente meus. Comprei um termómetro. Deixei de ter certezas sobre a incerteza e reafirmei a minha convicção de que cada um faz o melhor que sabe com os recursos que tem. Adoptei um bonsai e ainda não o matei. Bebi menos café. Mantive vivos um vaso de amores perfeitos e um manjerico. Plantei uma horta cá em casa. Dormi mais. Pensei pouco nas desgraças. Redecorei os quartos. Senti saudades do mercado de fruta e flores. Mudei muito. Deixei de me sentir uma traidora comigo mesma ao assumir que mudei. 


Não sobrevivi apenas. Consegui a proeza de poder dizer que vivi.

É um avião?

É um unicórnio morto e esculachado? É um arco-íris com problemas hormonais? É uma farfalota pimpinela que nunca se depilou depois de ter corrido naquelas corridas que atiram tintas para o trombil dos participantes?


Não: é a mochila da minha filha.


Ponho água fresca numa jarra


Antigamente odiava todas as rotinas: eram chatas, aborrecidas, previsíveis e enfadonhas. Eu sou feita do imprevisível, do flexível, do não planeado, da surpresa da vida, do improviso. 

 Depois, tal como uma criança que vê um infindável número de vezes o mesmo filme de desenhos animados, comecei, devagarinho,a apreciar saber o que vai acontecer. Gosto de saber que regra geral encontro pessoas civilizadas que usam máscara e não põem em risco a saúde pública, de comprar legumes sempre numa banca e fruta noutras duas, de visitar as peixeiras que acham que eu tenho sempre cara de quem compra sardinhas (e, na verdade, eu prefiro carapaus), que o senhor dos ovos dê sempre um ovo à Ana e o das flores a tente corromper com uma geribera para mudar de clube de futebol, de beber um café da Luísa e no inverno de comer pão com chouriço. 

Em psicologia chama-se “segurança do previsível” e eu gosto muito de chamar mercado a este mercado e saber que para a Ana é e será sempre o “mercado das flores”. 

 Há uma felicidade segura em viver aqui e uma previsibilidade encantadora em ter flores frescas em jarras espalhadas pela casa todos os fins de sábados de manhã.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Mapa astral: recomeço em Pólo Norte com lua em Jorge Palma e sol em Sérgio Godinho




O desafio de crescer (envelhecer?) é a inevitabilidade de nos confrontarmos com o fim. 
Quando somos jovens é só começos: o início da escola, o início das férias, o início do desporto novo que se quer experimentar, a primeira vez que se sai para dançar com os amigos, o primeiro estado ébrio, o primeiro beijo, o primeiro amor e o primeiro desgosto de amor seguido de um segundo amor que sabe sempre a primeiro porque todos os novos amores são primeiros. 

À medida que crescemos ficamos com menos perspectiva de novos começos porque há muitas continuidades e isso pode ser incrivelmente seguro, contentor e bom mas não é o espanto da descoberta, da sensação da primeira vez. 

À medida que crescemos há mais fins e menos inícios. Cada vez mais. De fases, de relações de amizade ou de amor, de projectos profissionais, de crenças, de certezas, de vidas. E muitos destes fins sem continuidade, apenas com o deserto do vazio ali à espreita. Morrem-nos sonhos, morrem-nos desejos, morrem-nos pessoas. 

O principal desafio de crescer é tentarmos encontrar continuamente inícios. Por isso estes não são dias de fim de Verão, são dias de início que eu ainda estou para descobrir de quê. Mas são de início porque eu estou a crescer, sinto-o nos ossos e na alma. Crescer e não envelhecer. 

Procuro o início.

Procuramos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

E às tantas renovamos votos numa capela montados numa vassoura e o padre é o Hagrid

Faço anos de casada para a semana. 

Estou de férias (aguentem e não enguicem!) e começo a ver sítios fixes: 

"Ah, podemos ir para Santa Cruz! Olha mas em Montargil também não se está mal... E se formos doidos e arrancamos para o Gerês? Fixe, fixe, já viste as promoções das viagens para a Madeira? Porto Santo também fica logo ali ao lado. "


 Não tarda muito estamos em Hogwarts.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O meu nome é Pólo Norte ...

... e combinei picnicar ao almoço com a madrinha da minha filha uma coisa simples porque só tinha panados e ela rissois à mão mas depois podíamos ir tomar café e um pão com chouriço ali à praia das maçãs mas estava tanta gente que as Azenhas do mar são já ali e um café no spot novo é que era e se, já agora, fôssemos molhar ali os pés ao Magoito mas não arranjamos lugar para estacionar e assim como assim a Foz Do Lisandro é já ali e a água estava uma sopinha e por falar em sopinha bora jantar à Ericeira? 

 Digam olá à Pólo Norte.

sábado, 22 de agosto de 2020

Não sou médica. De nada.

Durante os últimos meses algumas pessoas têm-me perguntado qual a minha opinião sobre a covid e porque não escrevo sobre ela e a partilho. 

Aqui vai a síntese em 5 pontos: 

 1- a covid é um facto. Factos não são susceptíveis de opiniões.
 2- a haver pontos que possam levantar questões que carecem de opiniões, elas devem ser dadas por especialistas. De saúde, tendo em conta que a covid é uma doença. Neste caso médicos.
 3- não sou medica. 
 4- cinjo-me à minha insignificância e leio de fontes seguras: não de bloggers, opinion makers ou influencers. 
 5- já disse que não sou médica? 


De nada.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Não me lixem: é desporto!

Vir à ikea num dia com mais gente do que o expectável a 45 minutos de fechar conta como caminhada, marcha ou corrida de obstáculos?

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

This could be the end of everything





 I walked across an empty land

I knew the pathway like the back of my hand

I felt the earth beneath my feet

Sat by the river, and it made me complete
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
I came across a fallen tree

I felt the branches of it looking at me

Is this the place we used to love?

Is this the place that I've been dreaming of?
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
And if you have a minute, why don't we go

Talk about it somewhere only we know?

This could be the end of everything

So why don't we go

Somewhere only we know?

Somewhere only we know
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
And if you have a minute, why don't we go

Talk about it somewhere only we know?

This could be the end of everything

So why don't we go?

So why don't we go?
Ahh

Ohh
This could be the end of everything

So why don't we go

Somewhere only we know?

Somewhere only we know

Somewhere only we know

Como envolver o marido na decoração da casa? A Pólo Norte explica.

"Queres papel de parede de que cor?" 

 "Azul anil com relevo." 

"Azul anil? Não gosto nada..." 

"Sabes que o azul anil estimula a líbido e o papel de parede é para o nosso quarto?" 






Ali está ele, alegremente, a procurar papel de parede azul anil com relevo.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Ontem à noite, a seguir ao jantar, para efeitos de digestão bebi chá de Gordon's

Sou só eu que quando fico alcoolizada fico com cócegas na parte de dentro do buço e dos lábios?

Agradecida.

Misérias da minha vida

Obrigarem-me a fazer a narração de powerpoints, sendo que eu sou uma pessoa com voz de garrafão mal lavado.

Tenho uma amiga

... que foi convidada para dar formação online no âmbito de uma prestigiada instituição. Penteou-se decentemente, pôs um baton e escolheu um fundo que não o da estante, para fugir aos clichés. 

Tinha tudo para dar certo não fosse a puta da caneta BIC ter rebentado um minuto depois da formação começar, ficar com a mão toda cagada de tinta, com o stress começar a limpar a mão à camisola, dar-lhe uma comichão da bochecha e coçar e dar alegremente todo o resto da formação com manchas de tinta em toda a tromba. 

Suspeito que não me a voltam a convidar.

terça-feira, 26 de maio de 2020

É para verem a fé que estes canastrões têm em mim

Eu: a pessoa que informa no facebook que descobriu uma app de troca de casas durante as férias e cujos amigos mandam links complementares via mp de mais apps de trocas de CASAIS durante as férias.


Tá bonito.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

"Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco, e depois morre"




“Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco, e depois morre” - in “as velas ardem até ao fim”. 
 Nos últimos meses aprendi tanto, cresci tanto, aprendi tanto sobre mim e sobre o Mundo, abriram-se tantas luzes, desfizeram-se tantos nós. Tem sido um processo tranquilo e sereno ao contrário de todas as outras vezes em que cresci à força, puxada por episódios marcantes específicos: a separação dos meus pais, a morte dos meus avós, o nascimento de Ana, a morte do meu tio. 

 Desta vez é diferente, é de dentro que o crescimento vem, não é nada externo, consigo projectar-me,pensar mais fundo como quem inspira, sentir melhor. 

 Faço quarenta anos dentro de dois meses, o equador da vida e já não me sinto a envelhecer, como se fosse uma coisa pesada e fatídica, sinto-me só finalmente a crescer sem ser à bruta, à força, com estaladas da vida e abanões do destino. Crescer como cresce uma planta já depois de ter caule e folhas e flores, crescer para os lados, tornar-me mais robusta e forte, melhor. Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco. Pouco a pouco, é mesmo assim. Para compreender tudo bem. Tudo certo e melhor.

 E depois poder, enfim, morrer como quem (se) apaga (n)uma estrela.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

"Não estamos todos no mesmo barco, estamos todos na mesma tempestade"*




Sou psicóloga social. Já tinha estudado isto mas nunca pensei viver isto. Nasci seis anos depois do 25 de Abril, o tempo da liberdade poder entrar na escola primária, o tempo de amadurecimento necessário para adquirir aprendizagens estruturadas, consolidar conhecimentos, o tempo da liberdade amadurecer o suficiente para se poder alfabetizar. 

Nasci numa família polarizada, até regionalmente: do lado materno avós do Minho, avô analfabeto porque a escola era perda de tempo e tinha mais é que ajudar na venda da família e avó que frequentou um período da primeira classe, o suficiente para aprender a ler e depois foi servir para casa de uns senhores, vieram para Lisboa à procura de uma vida melhor e mal ou bem conseguiram-no, apesar do meu avô trabalhar toda a vida numa serração de pedra e a minha avó ser ama de crianças pequenas, que povoavam sempre a nossa casa; do lado paterno avós algarvios, de boas famílias, burgueses, a minha avô chegou a frequentar Direito em Coimbra, curso que abandonou para casar uma primeira vez com o pai dos meus tios, tendo-se apaixonado, mais tarde, pelo meu avô, por quem deixou tudo e vieram para Lisboa à aventura, o meu avô tinha um cargo alto na Lisnave e um comportamento baixo nas casas de fado e bordéus da capital, ao ponto de hoje as fotografias do casamento deles estarem todas recortadas pela minha avó e só constarem ela e o seu belo vestido para contarem a história. Consta que sambou sobre o seu túmulo. 

Nunca soube o que era pobreza extrema, racionamento de bens, censura nos jornais, escola para meninos e para meninas, cantar o hino de Portugal, ter aulas sob o olhar sordido de Salazar numa moldura e ter que me guardar e ser virgem até ao casamento, sob pena de desonra de toda a família.Quando eu nasci as crianças já tinham escolaridade obrigatória, o trabalho infantil estava criminalizado, as mulheres não tinham que se casar por vontade dos pais nem que suportar casamentos com pulhas, só porque sim.
Sou filha da União Europeia dos doze e depois dos quinze, até que lhes perdi a conta, da promessa de uma vida melhor, da Guerra do Golfo, de anos 90 de prosperidade, do "tens que tirar um curso para seres alguém", do 11 de Setembro, da legalização da interrupção voluntária da gravidez, das viagens baratas pelas Easyjets desta vida, dos homens reclamarem papéis igualitários de parentalidade, das mulheres ascenderem a lugares profissionais de poder e todas as possibilidade são reais para uma grande maioria das pessoas deste país. 

Herdei a liberdade e guardei-a como um dado adquirido, inquestionável e irreversível. 

De repento isto: estamos todos num Big Brother colectivo, confinados a quatro paredes, com relações a desgastarem-se, conflitos a emergirem e a gestão emocional à prova. Só não nos filmam e ainda bem, porque muitos de nós ainda não percebemos bem isto e continuamos a andar de pijama o dia todo, com carrapitos mal engembrados no cocuruto e a comer desenfreadamente, porque a fome emocional é uma realidade. É mesmo. 

Vejo, claramente, a adensarem-se duas facções: a dos optimistas do "estamos todos no mesmo barco" e a dos pessimistas do "isto está pior é para mim e não sei do que eles se queixam, cambada de privilegiados". Que também se traduz no "vamos ficar todos bem " versus o "vamos todos morrer". 

Boas notícias: isto há-de passar (e nessa perspectiva, sim, se o que vier a seguir implicar o extermínio do vírus sem que seja substituído por algo pior ou mais mortífero, tudo há-de ficar melhor genericamente), o que não quer dizer que fiquemos todos bem. Os que morreram ou vierem a morrer entretanto, não ficam bem merda nenhuma, nem as sua famílias, vamos lá deixar-nos de lalaland.

Más notícias: eventualmente, vamos todos morrer. Mesmo que não seja agora, mesmo que não seja disto. A mortalidade é um facto com o qual teremos todos que lidar. Pode é não ser já, já, o que até nos dava imenso jeito que temos uma data de coisas em atraso para pôr em dia, nomeadamente, viver para além de sobreviver. 

No entretanto vivemos uma situação ímpar e excepcional. Temos, pela primeira vez de forma colectiva na minha geração, noção da nossa vulnerabilidade, do pouco controlo que detemos sobre o Mundo e da nossa própria mortalidade. De que, afinal , não somos omnipotentes e que não basta desejar muito para que as coisas se concretizem, porque há o mundo lá fora, alheio à nossa vontade, a borrifar-se para ela. Estamos, pela primeira vez, a passar verdadeiras privações, nós os filhos da década de 80, das fronteiras abertas, da livre circulação de pessoas e mercadorias, da moeda única, da queda do muro de Berlim, das facilidades e do imediatismo. Tumbas: baixem lá a garimpa. 

E se tudo isto nos custa muito, a pior privação de todas é a perda gradual da nossa liberdade. E isso, meus amigos, é transversal para todos. 

Portanto não vamos comparar misérias como os velhotes nas salas de espera dos centros de saúde a dizerem que as suas doenças é que são mesmo, mesmo beras, as dos outros são só mariquices. A mim dói-me mais na pele uma unha encravada que o cancro de quem não conheço. É triste mas é verdade. Como é verdade que estamos todos na merda. 

"Ah, estamos todos no mesmo barco!" Não estamos. Quem está, neste momento, nos cuidados intensivos de um hospital. com a vida em risco e ligado a um ventilador não está no mesmo barco que eu, aqui na minha casa confortável a escrever um post, com uma chávena de chá ao lado. Quem está em lay off ou com uma situação profissional incerta não está, com certeza, na mesma situação que um funcionário público que continua a receber o seu salário por inteiro e com o conforto de saber que o seu posto de trabalho o espera. Quem está em tele-trabalho com filhos pequenos, a quem ainda tem que acompanhar na tele-escola, não está no mesmo barco que o tipo solteito, sem filhos. em tele-trabalho. 

E o inverso. 

Eu, aqui na minha casa confortável a escrever um post, com uma chávena de chá ao lado mas com a minha mãe e a minha tia, enquanto profissionais de saúde, a sairem todos os dias para irem trabalhar e privada do contacto com ela, a ver a minha filha triste que dá dó por não as poder abraçar não estou no mesmo barco que a minha amiga que até vive com os pais e que tem todo o agregado familiar controlado, exposto ao mínimo de riscos e numa unidade contentora. A funcionária pública que não tem que se preocupar com a perda do trabalho pode ser a senhora que é vítima de violência doméstica e que agora está confinada a quatro paredes na presença contínua do seu agressor ou a pessoa com deficiência que teme ver-se preterida na atribuição de ventiladores em caso de escassez de recursos, pelo facto de ter uma deficiência. E o tipo solteiro, sem filhos, em tele-trabalho pode estar a enfrentar todo este stress absolutamente sozinho, num processo angustiante de solidão e sem ter com quem partilhar as angústias e treinar estratégias de coping. 

Sabemos pouco, muito pouco da vida dos outros. Da vida exterior mas, especialmente, da interior. Dos seus termos de comparação, do que se estão a ver privados face ao que tinham como dado adquirido, das suas dinâmicas familiares, personalidades, dos seus dramas pessoais. Do seu quadro de referências e valores. 

Talvez eu não me devesse queixar. A minha avó materna andou descalça toda a infância, o meu avô paterno deu cabo dos ossos a trabalhar toda a vida com botas de cano alto e água; a minha avó paterna desistiu da faculdade porque teve que casar e o meu avô paterno viveu toda vida com o castigo de ser um pulha do pior. 

Mas que me consolam as desgraças deles? Porque dever-me-ia sentir reconhecida por ter acesso a sapatos, a uma profissão intelectual, à possibilidade de completar um curso? Essa não é a minha história. Esse não é o meu percurso. Ninguém sente falta do que nunca teve: sente-se sempre falta do que perdemos. E todos, de uma forma ou outra, estamos a perder coisas: saúde, tempo, emprego, afetos das famílias, controlo financeiro, controlo emocional, qualidade de vida, concentração, capacidade de multitasking, saúde mental, rotina, estrutura, organização, previsibilidade, companhia, segurança. Paciência. 

Não é tempo de juízos de valor. Nem de comparações. Nem de competições de quem leva o prémio do mais miserável. Seremos sempre privilegiados face a outros em determinados indicadores e circunstâncias. Seremos sempre desfavorecidos face a outros face a outros indicadores e circunstâncias. As dores são coisas muito íntimas e pessoais. 

Não precisamos de compreender, apenas de aceitar e empatizar. 

Não estamos todos no mesmo barco. Estamos todos em canoas frágeis e nunca aprendemos a navegar. Crescemos com GPS e ninguém nos ensinou a orientar-nos pelas estrelas ou sequer a ler bússulas. Estamos, sim, todos, todinhos debaixo da mesma tempestade. 

Concentremo-nos em remar. Com foco e resiliência, sem olhar para os barcos e os remos dos outros. 

Não vamos ficar todos bem e vai doer a muitos. 
Mas a tempestade há-de passar. 

[*Obrigada à minha amiga Paula que me deu o mote para este post]



quarta-feira, 8 de abril de 2020

terça-feira, 7 de abril de 2020

Entretanto, numa galáxia não muito distante chamada Açores

Foto: Raquel Gama do grupo de fb "Fãs do Tiaguim"


Como sobrevivem os açorianos, perdão, as açorianas à quarenta?

Barricam-se em casa?
Fazem receitas de massa sovada e bolo lêvedo e partilham fotografias nas redes sociais?
Empurram kimas de maracujá de penálti?
Vão fazer os seus passeios higiénicos para os pastos verdejantes mantendo as devidas distâncias sociais com as vaquinhas?
Fazem almoços de espírito santo via zoom?
Passeiam na marginal ao largo do perímetro das ilhas?


Não!

Juntam-se em torno de uma causa bem maior: o Tiaguim. 

Como? 


Perguntar-me-ão os incautos leitores continentais quem raios é o Tiaguim? Pois bem, o Tiaguim é o Director Regional de Saúde dos Açores e as açorianas estão loucas por ele, ao nível de o terem decretado healthy sex symbol.

E Dr. Tiago Lopes, doravante designado por Tiaguim (diminutivo micaelense de Tiago, a.k.a. Tiaguinho) serena os ânimos açorianos, entretendo as pequenas com directos a ler os relatórios do dia,gerando debates sobre quais as melhores gravatas, inspirando coberturas de arroz doce e mantendo todo um povo unido em grupos de visualização enquanto faz as melhores recomendações para os tempos de pandemia. 

Numa terra de sismos, vulcões, furacões, tempo instável e muito isolamento social forçado à custa de greves da SATA e do mau tempo no canal, as açorianas não precisem que lhes ensinem como lidar com merdas difíceis. 

Precisam é de festa: e não há festas como as dos Açores!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O mundo divide-se entre...

... quem organiza os livros na estante por tamanho dos livros e quem organiza por ordem alfabética de autores.

sábado, 28 de março de 2020

Nova estratégia de mámen: embebedar-me.

O mundo divide-se entre quem prefere vinhos do Douro e quem prefere vinhos alentejanos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Ora venham daí os vossos sinais de fumo, 'nha gente!

Como tornar ainda mais radical a experiência de isolamento social?

 Bloqueando o telemóvel e não saber onde se meteu o cartão do PUK.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quem não tem cão, caça com unicórnio

Mamen não sabe onde meteu a embalagem e começa à procura de uma máscara para sair à rua. 

 Sugestão da Ana, muito séria e solicita : “se não encontrares podes usar a minha máscara de unicórnio..."


Relembro:




sexta-feira, 20 de março de 2020

quarta-feira, 11 de março de 2020

O Mundo divide-se...

... entre as pessoas que sabem o que significa quarentena e os estúpidos.

terça-feira, 3 de março de 2020

segunda-feira, 2 de março de 2020

Confessem lá sobre as saudades que vocês tinham de uma quadripolarização




"Oi!
Ouvi dizer que te faltava a Ucrânia, portanto aqui tens a praça central de Kiev! A panorama ficou um bocado tremida porque isto foi na manhã depois de descobrir o vodka ucraniano...

De bónus, tens Prypiat, do alto de um prédio de 16 andares (bem contados, que subi a pé), com o sarcófago de Chernobyl a ver-se ao fundo! Tive de pedir o papel ao guia e deixá-lo na zona de exclusão, não fosse estar contaminado. xD

Beijinhos quadripolares radioactivos

Ana C."


Querida Ana: finalmente o teu email publicado e a Ucrânia quadripolarizada. Yeahhh!

[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

As minhas amigas dizem-me que é o Universo a pôr-me à prova. Mas o Universo está cheio de calorias, caraças!

A pessoa assume publicamente que está de dieta para ver se a pressão social a faz ter vergonha na cara.

Vai ao instagram e tem um pedido de amizade de quem?


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Operação #milfnocomando

No ano em que vou celebrar os meus 40 anos (pqp) decidi embarcar na operação #milfnocomando e perder peso, que a miúda vai fazer oito anos e a desculpa do pós-parto já não pega...

A modos que, a par da dieta, tenho começado lentamente a fazer exercício (odeio! Tenho rabo de chumbo e mamas grandes que não se compadecem com corridas, sim, porque aquilo da Marisa Cruz a saltar à corda na boínha sem as mamas quase a vazarem-lhe os olhos era completamente fake e impraticável). 

Hoje, de manhã, fui para o Guincho de bicicleta e encontrei uma amiga e estive ali à conversa com ela, devidamente equipada. Chique que só eu.

Depois andei 1 quilómetro e duzentos metros e espatifei-me na areia do piso e fui meia hora a dizer vernáculos e a soprar as palmas das mãos, evidentemente a andar com a bicicleta pela mão, que me doía o ego.

Voltei a fazer 1 quilómetro e quatrocentos metros e uns ciclistas gajos buzinaram-me. Ainda pensei que estava com o rabo mais pequeno e que me estariam a mandar piropos mas não, tinha era o pneu de trás completamente vazio.

Voltei tudo a pé de bicicleta a tira-colo, de mãos esfareladas, pneu nas lonas e língua suja de tantas asneiras ditas.

Perdi tempo e dignidade.
Peso é que não. 

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Panquecas com xarope de misérias

Ofereceram-me uma máquina própria, fiz a massa direitinha, sem me enganar numa só medida de farinha, açúcar e leite. À primeira porção de massa percebo que me esqueci de untar a superfície da máquina, a puta da massa enrola, cola-se tudo às bordas e desisto com a grande javardice da massa a parecer argamassa colada no raio de um metro de toda a bancada. 

Nas panquecas, como na vida

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Impulse

Quando um ex te adiciona no facebook e começa a pôr likes em todo o teu histórico de fotografias de perfil isso é impulse?

sábado, 11 de janeiro de 2020

Matrafona fora de época

Por motivos que não interessam para aqui, mámen ficou de fazer a minha mala para o fim-de-semana com a ajuda da Ana e depois irem ter comigo ao trabalho para seguirmos para a nossa escapadinha de fim-de-semana.

Tenho a dizer-vos que será um longo fim-de-semana vestida de matrafona de Torres Vedras com colares de macarrão pintados pela miúda e contas de plástico para ainda ser mais tcharam. E a dormir em pelota porque os pijamas ou as camisas de noite estão sobrevalorizados.

É possível que não haja fotografias...

(Eu mereço?)

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A primeira quadripolarização do come back





"Olá Pólo Norte. 

Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt. Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar! Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos. 

 Beijinhos"

Obrigada, Matilde! Grande beijinho.

Conheça todos os países já quadripolarizados aqui.

sábado, 9 de novembro de 2019

Pólo Norte assiste a um evento numa importante sociedade de advogados: uma experiência em três actos

Prelúdio: a que cheira a Opus Dei?

Entro no imponente edifício e o ar cheira tão bem que desconfio que meteram ambientadores da Rituals nas condutas do ar condicionado. Mal comparando, é mais ou menos como os pobres metem naftalina nos urinóis da casa de banho dos homens: tresanda mas como aroma zara home meets opus dei.

Primeiro acto: o desconhecimento de que lá fora no Mundo nem todos os sobrenomes têm duplas consonantes e a pelintrice existe e é real

“Qual é o sobrenome para confirmar aqui a inscrição? “ 
Respondo: Sintra.
Resto da população procura o meu nome nos "S".
Estes senhores andaram aqui aos papéis a procurar no C. Estou a deixá-los à beira da loucura porque não me encontram e não assumem que podem haver pelintras entre a plateia.


Antes do intervalo: viva a meritocracia

Um rapaz imberbe que diz "imeeenso" três vezes por frase e falta-lhe o fôlego para discursar apresenta-se: “O meu nome é Cristóvão Sebastião Bernardo Casais de Furão e sou o Presidente da Fundação xpto...”

Reações não verbais da plateia: "Uau! Tão novo e já Presidente de uma coisa deste gabarito, vamos lá ouvir com atenção..."

Rapaz no seguimento do discurso: “... a Fundação foi criada pela Dra. Isabelinha Constança Carlota Casais de Furão”.

Reações não verbais da plateia: "Aaaaaaahhhh!"

Segundo acto: também podiam ser injeções nos olhos

No coffee break apontam-me para a mesa dos comes e bebes e perguntam-me o que quero. Não encontro em lado nenhum a opção "x-acto". 

Terceiro acto: tanto arquivo morto em atraso lá no trabalho e eu aqui

Desisto e vou para o trabalho. E eu hoje até estou com baita preguiça e nem me apetecia ir trabalhar.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Fui convidada para ir dizer coisas ao Programa da Cristina

A primeira vez que me convidaram queriam que eu falasse de maminhas. 

Desta vez queriam que eu falasse de partos.

Temo que me peçam para falar nos desafios de integração da minha filha na creche quando ela estiver a entrar na Universidade.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Os encantos de trabalhar na zona oriental de Lisboa (a verdadeira, não a chatice do Parque das Nações)



Para ser melhor tinham acrescentado um "s" e escrito "já fostes!". Ou "Incha Pacheco!" Ou "Tumbas! Vai buscar" ou "É bem feita porque o cão tem a mania que é espertalhão!". Ficam aqui as sugestões. De nada.


"A poizé!Velhinho mas pago, enquanto os nossos estão a crédito!"

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Isto é para os apanhados do "Sai de Baixo", tenho a certeza.

Estou num daqueles cabeleireiros de shopping para gente que tem um horário de trabalho incompatível como cabeleireiros de horário regular. 

 A senhora que me cobriu a miséria das brancas chama-me "quérida" e "xuxu". 

O senhor que me faz o brushing diz que o meu cabelo é uma "chiqueza". 

 Sinto-me o Caco e estou à espera que a Neide Aparecida entre por aquela porta com o espanador em riste.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Sobre mantras e positividade tóxica

Sempre que alguém vem com aquela conversa da treta de que basta se querer muito para se ser o que se quiser dou o exemplo daquela vez em que eu queria muito ter franja e à conta de um remoinho no cocuruto acabei por ser uma mulher com uma palmeira plantada no alto da testa...

terça-feira, 13 de agosto de 2019

sábado, 11 de maio de 2019

Uma aventura no hospital (Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: que nunca vos falte tema!)



Uma pessoa está a trabalhar e recebe um telefonema da escola da filha de uma pessoa.
Uma pessoa tem uma micro trombose de cada vez que vê o número da escola no seu telemóvel.
Uma pessoa começa a tremer e a piscar das pálpebras e a suar do bigode.
Uma pessoa imagina o massacre de Ranholas, rapto escolar, um sismo com o epicentro na sala de aula da criatura, enquanto não ouve: "olá mãe, a Ana está com febre, pode vir buscá-la?"
Uma pessoa voa do trabalho até casa em dez minutos num percurso que demora trinta minutos a ser feito.
Uma pessoa chega e a miúda já está com a avó, com febre altíssima.
Uma pessoa não tem urgências no respetivo centro de saúde.
Uma pessoa acha que os sintomas correspondem à quarta amigdalite do último ano e vai de levar a miúda às urgências pediátricas do hospital, para lhe darem a porra da injeção de penincilina.
Uma pessoa já vai a transpirar para as urgências a adivinhar a porca miséria da sua vida e a sirene que vai sair das goelas da filha de uma pessoa.
Uma pessoa vai à triagem e recebe pulseirinha amarela.
Uma pessoa ouve da enfermeira que "isto hoje até está calminho, ela é chamada não tarda muito..."
Uma pessoa está ali a tentar arranjar um lugar para sentar-se com a miúda e não encontra nenhum a uma léguas de todas as outras crianças doentes e fica de pé e a parecer uma neurótica tipo "não toques em nada que isto está cheio de bactérias e entras com uma amigdalite e sais com uma gastroenterite.
Uma pessoa despe as vinte camadas de roupa da miúda para a refrescar da febre".
A filha de uma pessoa pede para ver o instagram de família para espreitar umas fotografias da prima que mora longe.
Uma pessoa liga os dados e abre a conta do instagram privado e começa a ver a rede social com a filha.
Uma pessoa fica muito apertadinha para fazer xixi.
Uma pessoa atira o telemóvel com a janela aberta no instagram da família e os dados ligados para dentro da mala.
Uma pessoa arrasta a miúda enquanto procura uma casa de banho.
Uma pessoa vê a primeira casa de banho da sala de espera das urgências ocupada e ouve sons de vómitos lá dentro.
A filha de uma pessoa pede colo a uma pessoa em virtude de não "querer tocar em nada, mamã!".
A filha de uma pessoa tem seis anos e pesa ao colo, fazendo especial pressão em cima da bexiga de uma pessoa.
Uma pessoa não consegue esperar o fim da batalha dos vómitos na casa de banho e a chegada de uma empregada de limpezas para limpar todo aquele bedum.
Uma pessoa está quase a finar-se da bexiga.
Alguém vê o ar desesperado de uma pessoa e aponta uma segunda casa de banho, muito discreta, ao pé de um fraldário.
Uma pessoa faz marcha até à casa de banho  com a miúda a tira-colo e mais pulseirinhas e camisolas e casacos da miúda no braço e, claro, a respectiva mala.
Uma pessoa chega e avista uma sanita liliputiana, onde não cabe sequer a nádega de uma pessoa.
Uma pessoa depressa constata que não consegue pousar o nalguedo na sanita do Tyrion Lannister.
Uma pessoa entrega o corpo às balas e pousa a miúda no chão e mais a mala e os casacos e, que se lixe, uma pessoa precisa é de fazer xixi, que se copulem as bactérias, os micróbios, os vírus e todos os microrganismos hospitalares não identificados.
Uma pessoa faz xixi de pé a fazer pontaria para a micro-pia do demo com a mesma motricidade de uma foca a bater palminhas.
Uma pessoa olha e dá de caras com a filha de uma pessoa de telemóvel de uma pessoa em riste a filmar as figurinhas de uma pessoa e ahahahah para mostrar ao pai ahahahah.
Uma pessoa arranca o telemóvel das manápulas de criatura filha de uma pessoa -"Ana*, eu acabo com a tua raça!"- e observa que a mesma estava a fazer um directo no instagram de família de uma pessoa.
Uma pessoa reza para que ninguém esteja online naquele momento.
Uma pessoa vê ali, fofinho, o sinal de um espectador.
Uma pessoa tem uma paragem cardíaca.
Uma pessoa nunca mais quer encarar o seu sogro na vida.
Uma pessoa questiona-se porque não se dedicou à vida religiosa e viveu uma vida de clausura sem marido nem filhos.
Uma pessoa sofre muito.
 Dos nervos.

 [* Nome fictício para efeitos meramente exemplificativos]

sexta-feira, 3 de maio de 2019

A minha vida é uma miséria

Sabem quando vão a leilões e atiram um número ao ar em voz alta e depois ficam cheios de cagufa com medo de ninguém licitar a seguir?! 

 Sabem esse nervoso miudinho de profundo enrascamento e aflição?

 Há três horas apareceu no meu feed uma fotografia amorosa de um cãozinho e eu comentei “adoro”. 

Achava eu. 

O meu corrector automático escreveu “adoto” e agora estou a braços com a senhora que encontrou o bicho e ninguém o está a licitar a seguir.


#fml

quarta-feira, 3 de abril de 2019

quarta-feira, 27 de março de 2019

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Oh wait!

Bom dia a todas as tias que estão a fazer bolachas de lobo mau para a festa temática da branca de neve das sobrinhas.

#fml

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Coisas que ficas a saber quando recuperas o teu iPhone passado mais de um mês

A Flávia esteve em Cascais dia 20 de dezembro e convidou-te para um café, a casa da tua amiga de cuja chave tens e alojaste pessoas tem um código de alarme que se não for activado faz um cagaçal do caraças (too late), feliz natal de montes de gente, amigas com férias marcadas em conjunto e como fiquei em silêncio assumiram que quem cala consente, o anfitrião de Roma queria ter-te ido apanhar ao aeroporto, o ex namorado mandou sms a reagir ao corte de cabelo, houve uma festa muita gira de Réveillon para a qual foste convidada e não sabias, o teu sobrinho Ben perdeu o peluche que lhe deste e está inconsolável.

Aparentemente, tudo se resolveu sem mim.

Sou tão #sqn importante, caraças. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Mundo divide-se (edição mete-nojo)

O mundo divide-se entre quem é mãe e continua a acordar às onze da manhã ao sábado e as outras. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Artur (37)




Conheci-o no dia da festa pública do primeiro aniversário da Ana: a ele e a toda a família- e não são poucos- loucos o suficiente para se enfiarem os seis num dia de calor extremo e virem dar-me um beijo a Lisboa directamente vindos de Tavira.

Nunca mais me esqueci.

A mãe- a Fátima- é uma mulher ímpar: mãe de (agora) cinco filhos, educa-os com o mesmo rigor, exigência, cuidado, disciplina e amor desde o mais velho- este Artur- ao mais pequeno Valentim, com um ano acabado de completar. E é um exemplo de educadora, o que se reflecte em todos eles mas hoje o post é para o Artur, o meu "sobrinho" chef, afoito e corajoso, destemido e criativo, bravo e rigoroso.

O Artur começou a interessar-se por cozinha no secundário, tendo concluído o Curso de Gestão e Produção de Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro, ao qual se seguiu um primeiro estágio curricular em grande, no The Oitavos na Quinta da Marinha como parte da equipa do então Chef  Pasteleiro Joaquim Sousa (o Chef que criou aquela sobremesa da flor negra que abria no prato e correu todos os facebooks, instagrams e masterchefs deste Mundo). 

Em 2014 acabou  o Curso e entrou no Belcanto do José Avillez onde estagiou  durante 3 meses, seguindo-se de um estágio no El Celler de Can Roca em Girona, que tem 3 estrelas Michelin e era naquele ano o “Melhor Restaurante do Mundo” pela 50 Best Restaurant. 

Foi aqui que começou a entrar mais na parte "salgada" da cozinha e trabalhou em quase todas as secções do restaurante incluindo o Laboratório. Regressou a Portugal e em 2015 foi pela primeira vez até Copenhaga para experimentar uma semana intensiva no Relae, e onde, mesmo em tão curto espaço de tempo,  despertou para a importância da origem do produto, a sua caminhada até chegar ao restaurante, à sustentabilidade e ao “foraging” (consiste em recolher plantas, ervas, frutas, cogumelos selvagens).



Claro que nem tudo são rosas, ou não fosse isto a vida, e foi também neste ano que teve uma experiência péssima que quase o fez desistir desta área e onde o chefe queria servir lavagante com 3 dias de cozido e onde não havia qualquer sentido de hospitalidade, respeito pelos ingredientes e sobretudo, respeito pelos clientes. Este episódio afectou bastante o Artur, um tipo franzino e sério, sem tempo a perder e em 2016 pensou como alternativa o ensino, tendo começado a dar aulas na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro. No entanto, Artur é "hands on", não é galinha de capoeira, é de campo e das bravas e logo, logo, começou a trabalhar no Restaurante Vistas no Monte Rei Golf & Country Club, tendo na sequência desta colaboração sido seleccionado para a final ibérica do San Pellegrino Young Chef of the Year 2018, que reuniu os 10 melhores jovens cozinheiros de Portugal e Espanha (com a participação de apenas dois portugueses). 

Rumou novamente à capital, o Artur intrépido, tendo ajudado a abrir a Confraria do Polvo, que aqui recomendei e cuja colaboração ter-se-ia mantido se não tivesse sido chamado pelo Noma, o melhor restaurante do Mundo, onde se encontra a estagiar há quatro meses. 

Durante os 2 primeiros meses esteve na produção e em algumas das estações a ajudar no serviço e preparações para serviço, que a vida de cozinheiro não é só glamour.  No entanto, o Artur brilha por onde passa, e no final do segundo mês foi convidado por um dos Sub-Chefs a fazer parte do Laboratório de Fermentação, Investigação e Desenvolvimento e ainda por lá anda, feliz e contente. Neste momento está a desenvolver produtos novos para o Menu de Peixe e Marisco que será servido a partir de 9 de Janeiro de 2019.
Se por um lado assisti orgulhosa e embevecida, como uma tia a sério, ao pulsar do Artur pelas cozinhas deste Mundo, por outro, não vejo a hora dele voltar a Portugal e marcar um jantarinho parolo e saloio à tuga e cozinhar só para mim!

Artur. Nome de Rei. Anotem que ainda vão ouvir falar muito dele.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Começar o dia a (Eslo)vacalhar

"Boa noite :)

Aqui vai a Quadripolarização da Eslováquia. Tenho de confessar que já vivi lá uns meses... Mas foi passando, passando e vim embora sem a Quadripolarizar! Espero estar perdoada x)
As duas primeiras fotos são do Lago Kuchadja, a paisagem não é a melhor mas dado que o lago estava todo congelado eu achei apropriado. Na terceira foto era eu que já estava congelada, mas o "ovni" é daqueles pontos imperdíveis e merecia ficar registado.




Não sei se precisavas, mas Quadripolarizei também Viena, no Palácio da Princesa Sissi (sim, e com mais um lago congelado!) :)



Espero que gostes das fotos e peço desculpa pelo papel tão pequeno, mas foi o que consegui arranjar.

Beijinhos
Raquel"


Xinapá, Raquel! Já me enviaste isto há tanto tempo que se calhar já tens filhos a entrar na universidade e já usas o cogumelo do tempo! Tu desculpas.me? Tu desculpas-me?

Eslováquia e Áustria quadripolarizadas! Yeahhhh!





[O planisfério está actualizado aqui
Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!]

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Uma aventura na IKEA (Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: botem os olhos nisto!)



Uma pessoa está em desmame de medicação fortíssima. 
Uma pessoa tem como efeitos secundários da medicação prisão de ventre. 
Uma pessoa tem como efeitos secundários do desmame da medicação a libertação desenfreada de ventre. 
Uma pessoa precisa de ir comprar umas coisas à IKEA. 
No meio do labirinto da IKEA o ventre duma pessoa decide começar a ter um espasmo, uma mistura de samba e wrestling. 
Uma pessoa grita ao marido "Já venho, toma aí conta da miúda", atira o carrinho pelos ares e começa a fazer marcha até ao wc que fica nos confins da IKEA. 
Uma pessoa repara que a filha de uma pessoa decidiu segui-la porque também está "com vontade de fazer xixi" . 
Uma pessoa começa a correr mas a filha de uma pessoa não a acompanha, o que faz uma pessoa ter que abrandar o passo e ter medo de se finar escatologicamente. 
Uma pessoa começa a surtar, pega na filha ao colo, espeta-na ao colo na anca e regressa ao treino de marcha. 
Uma pessoa avista a casa de banho. 
Uma pessoa irrompe a casa de banho aflitivamente. 
Uma pessoa pousa a criança e começa a desapertar o próprio cinto à velocidade da luz. 
Uma pessoa ouve uma vozinha "Mas mãe, eu preciso primeiro de fazer xixi"
Uma pessoa respira fundo, limpa o suor da testa e começa a ajudar a filha de uma pessoa a despachar-se. 
A filha de uma pessoa começa, muito lentamente, a cortar pelo picotado quadradinhos de papel higiénico e a forrar o tampo da sanita com toda a calma e precisão do Mundo para "se sentar sem tocar na tampa, mamã!". 
Uma pessoa começa a perceber que o seu ventre está a dançar a rumba e que provavelmente está prestes a dar-se uma tragédia. 
Uma pessoa continua a observar a filha de uma pessoa a forrar de papel higiénico meticulosamente a tampa da sanita. 
Uma pessoa lembra-se do Mr. Ben a embrulhar presentes naquela cena do "Love Actually". 
Uma pessoa grita "tu por amor de Deus despacha-te, Ana*!"
Uma pessoa ouve a filha "shhhhhhh"
Uma pessoa começa a controlar a respiração e a filha interrompe o "shhh" para fazer uma pergunta parva. 
Uma pessoa grita em surdina para não se ouvida em toda a casa de banho da IKEA "Faz xixi depressa já imediatamente!"
Uma pessoa vislumbra o fim do "shhhh"e pensa que tem que falar ao pediatra da capacidade tétrica de retenção de urina da bexiga da filha da pessoa.
Uma pessoa limpa a filha de uma pessoa e - finalmente!- consegue aliviar-se. 
Uma pessoa ouve uma vozinha "Preciso de oxigééénio!"
Uma pessoa abre os olhos e "shhhuttt! cala-te!"
Uma pessoa continua a ouvir "Cheira muito mal, mamã! Já disse que preciso de oxigénio!"
Uma pessoa ainda está a articular uma resposta quando dá pela filha da pessoa a abrir violentamente a porta do seu cubículo da casa de banho, deixando uma pessoa de ceroulas pelos joelhos sentada no real trono à vista de todas as utilizadoras da dita casa de banho. 
Uma pessoa agarra na filha de uma pessoa pelo cachaço e puxa-a para dentro, fechando a porta. 
Uma pessoa ouve risadas silenciadas do lado de fora da portinhola. 
Uma pessoa volta a ouvir numa voz flautada "Ó mãe, porque é que tens a sanita toda suja?!"
Uma pessoa atira um "Shuuut, não se diz isso, pá!"
Uma pessoa ouve de resposta " Ó mãe, porque é que tens a sanita toda limpa?"
Uma pessoa revira os olhos e manda a criatura calar-se, por favor. 
Uma pessoa volta ouvir a ladaínha "Mas eu preciso de respirar! Socooorro! Preciso de oxigénio!"
Uma pessoa acaba o serviço e vai para se limpar convenientemente. 
Uma pessoa dá conta que a filha de uma pessoa gastou todo o papel higiénico a forrar a sanita para fazer xixi. 
Uma pessoa pede à filha que vá à cabine sanitária do lado buscar papel higiénico. 
Uma pessoa fica outra vez na montra de toda a casa de banho, sentada e de ceroulas pelos joelhos, à custa da filha escancarar a porta toda para ir buscar papel higiénico à cabine do lado. 
A filha de uma pessoa regressa... com um quadrado de papel higiénico. 
Uma pessoa pondera suicidar-se com o fio do autoclismo quando percebe que o autoclismo está dentro da parede. 
Uma pessoa pede à filha que volte para buscar mais papel higiénico. 
A filha de uma pessoa suspira "ainda bem, assim respiro outra vez!"
Uma pessoa volta a arregalar os olhos. 
A filha de uma pessoa volta com mais dois quadradinhos rasgados meticulosamente pelo picotado de papel higiénico. 
Uma pessoa percebe, nas trezentas vezes, em que já ficou exposta de cuecas a tira colo à vista de todas as pessoas que frequentam a casa de banho, que há uma empregada de limpezas no espaço partilhado.
Uma pessoa instrui a filha de uma pessoa a pedir papel higiénico à empregada de limpezas. 
A filha de uma pessoa sai da cabine da casa de banho muito assertivamente. 
Uma pessoa ouve: "Olá, a minha mãe está toda borrada ali dentro, podia-nos arranjar papel higiénico?"
Uma pessoa pensa que se não morrer ali de vergonha, nunca mais morrerá. 
Uma pessoa vê a filha de uma pessoa entrar, de forma derradeira, com dois rolos de papel higiénico, daqueles industriais, um enfiado em cada pulso, como se fossem pulseiras e com os braços erguidos à laia de Dom Quixote a salvar o Sancho Pança.
Uma pessoa ouve risadinhas. 
Uma pessoa fica quinze minutos fechada dentro do cubículo à espera que saiam todas as eventuais testemunhas de tamanho vexame. 
Uma pessoa sai, finalmente, com a miúda de esguelha, e ouve o marido de uma pessoa na parte de fora da casa de banho a perguntar: "Que raio se passou ali dentro que tem saído toda a gente dali a finar-se a rir?"
Uma pessoa questiona-se porque não se dedicou à vida religiosa e viveu uma vida de clausura sem marido nem filhos. 
Uma pessoa sofre muito. 
Dos nervos. 

[* Nome fictício para efeitos meramente exemplificativos]


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