sábado, 15 de fevereiro de 2025

Ob-la-di, ob-la-da, life goes on, brah...




Eu tenho sempre boa intenção. Mas depois mete-se a vida, essa talarica.*

Primeiro veio o aniversário de namoro e uma escapadinha surpresa a Madrid. Tinha intenção de blogar desde Madrid (dude, eu sou a pessoa que ia de férias semanas seguidas e blogava todos os dias com novidades e roteiros e textos escorreitos e organizados e divertidos e tudo e tudo) mas depois meteram-se as visitas aos museus, a descida do Rastro, a invasão a mini galerias refundidas e a livarias excêntricas, mais aquele restaurante incrível com 20 qualidades de ovos rotos, a pastelaria de charme onde comprei um praxinoscópio de presente para o Rui e ainda o bar que era uma antiga redação de jornal e passeios de mãos dadas ao sol de inverno e, quando vi, já era. 

Voltei para Portugal e aqueles três dias de férias sairam-me caros com muito trabalho por recuperar e uma activadade intensa na associação (acho que já aqui disse que sou Presidente da associação e todos os dias me chicoteio pela ideia peregrina em ter assumido um compromisso que representa, praticamente, um segundo trabalho a tempo inteiro). Ando realizada, já se sabe, mas a realização não repõe horas de sono nem o desgaste do corpo. Podre, sou uma mulher podre. 

Ainda fui ao cinema ver o "Ainda estou aqui" e queria ter vindo aqui escrever a minha opinião mas, depois, quando pisquei os olhos, era fim do mês. E acho que fiquei com uma tendinite, porque não tinha posição para me deitar. E morreu o pai de uma colega. E a miúda teve pausa de final de semestre, mais notas e, claro, como me ocorreu que era boa ideia aceitar ser a representante dos pais da turma da Ana ainda houve reuniões na escola. A 31 de janeiro fiquei com uma febre desgraçada mas depois meteu-se o ano novo chinês (que, btw, este ano estava uma bela caca lá na Alameda) e no fim de semana a seguir o Rui fazia anos. E a minha mãe no dia a seguir. Já avisei a Ana que quando arranjar uma cara metade tem que filtrar se não faz anos perto de mim nem do pai, que isso é logo um factor de exclusão. E também avisei que com pais psicólogos é provável que lhe queiramos aplicar umas provas psicométricas, para termos a certeza de que não acaba casada com um traste ou um eleitor do Chega, que é mais ou menos a mesma coisa. 

E pronto, o Rui fez anos e não queria "fazer nada de especial", o que significou que fomos almoçar a um bistrot grego e passar a noite a um hotel com spa e, claro, podes tirar a pobre das barracas mas não tiras as barracas da pobre, eu e a Ana encafuámo-nos na piscina quentinha, e depois na sauna e à saída da sauna eu já estava meia grogue, mais jacuzzi e- não perguntem como- ainda passámos num LIDL outlet na margem sul, com centenas de pessoas às compras, que só justifico porque estava já praticamente sem oxigénio no cérebro. A minha mãe comemorou o aniversário no dia seguinte e o jantar foi cá em casa e limpámos a mansão e cozinhámos prato de peixe e carne e ainda fizemos sobremesa e eramos quinze à mesa e eu já estava mais para lá do que para cá. 

A modos que passei o domingo a dormir non stop, achava-se que era de cansaço, até porque eu sou a pior a ouvir o meu corpo que ou o gajo fala um idioma que eu não compreendo ou sou eu que sou surda mesmo, mas quando acordei na segunda eu já não era eu, e o meu corpo lá terá achado um espacinho na minha agenda para, licencinha, me oferecer um febrão a sério e me mandar para as urgências. 

E aqui estou, com uma pneumonia, obrigada, como têm passado? Parece que saunas no inverno não são boa ideia- disse-me o médico- Que as bactérias fofinhas adoram copular no quentinho e uma decidiu que uma viagem ao meu pulmão esquerdo era praticamente um retiro espiritual e ali ficou num shanti shanti. O antibiótico é de uma boa casta, acredito que mate tudo o que se mete no seu caminho, na minha cabeça vem sempre a ideia dos bonecos do Era uma Vez a Vida, mata tudo,já disse? Até a minha flora intestinal e a modos que, sim senhora, estou melhor dos pulmões mas os meus intestinos e estômago estão uma porca miséria.

Eu bem que queria blogar, juro-vos. Mas entretanto uma deputada de extrema direita decidiu ofender a comunidade de pessoas com deficiência e eu estive obcecada a spamar todos os endereçoes de todos os deputados da Assembleia da República com uma nota de repúdio que preparámos lá na Associação. E depois- hoje-  meteu-se o dia dos namorados e quando estava a sair do carro, abri o porta bagagens e quando o fechei não vi que o Rui tinha metido o nariz onde não era chamado e fechei-lhe com a porta na tola, a modos que o incrível fondue que tinhamos preparado foi comida à sombra de um novíssimo e a estrear segundo lenho na testa que já levou pontos colados, ainda não eram nove da noite. 

Desconfio que, nas urgências hospitalares, me irão ofecer um cartão cliente frequente. Às tantas quando tiver dez carimbos oferecem-me uma garrafa de soro. Ou uma arrastadeira, que por acaso, agora era o que me dava mais jeito agora. 

Na sexta que vem volto à Assembleia da República, pois serei nomeada para uma coisa importante na área da deficiência. Estou mortinha por me cruzar com a senhora deputada da extrema direita, até porque toda a gente conhece a minha elevada maturidade. 

Entretanto, prometo que volto a blogar. Só não me consigo comprometer quando. A vida é uma talarica*, já me diz a minha filha. 


[* talarica é a nova versão teen para profissional do sexo: adoro a expressão!]

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Update: a cadela Luna

Agendámos grooming (para vocês verem ao que eu cheguei) para a minha cadela. 

Recebemos sms de confirmação a dizer que a Sónia nos esperava na loja às x horas para o banho e a tosquia higiénica da Luna. 

Reação em uníssono e imediata minha e do Rui ao lermos a sms:

"Ohhh, 'tadinha da Sónia!"


É muito calminha, obrigada. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Casa e Mundo. Ou Mundo e Casa. Tanto faz.

 Entramos nos quartos de hotel onde permaneceremos um par de dias e tu começas a tirar da mala todas as peças de roupa e a pendurá-las, meticulosamente, no roupeiro. Eu sorrio, olhando, de soslaio, para a minha mochila, onde a roupa permanece sempre durante a estadia, seja por que período for.

Nas cidades que visitamos em escapadinhas rápidas tu, logo no primeiro dia, decoras mapas, estudas caminhos e direções e orientas-te como se aquela (esta) tivesse sido sempre a nossa casa. Eu sorrio, porque quero saber pouco dos caminhos, gosto de me perder em itinerários improváveis e de descobrir, aleatoriamente, destinos com os quaia nunca nos cruzaríamos, porque nao vêm nos guias, nos mapas ou nos planos dos outros.

Nos bairros que calcorreamos, de braços dados, fingimos que somos nativos, tu brincas e dizes sempre a caminho dos hotéis ou casas que alugamos parcos dias, em Madrid, Sevilha, Paris, Roma, Londres, Veneza ou Florença, que estamos no "nosso bairro".

Eu tiro-te do caminho, meto o nariz em lojas solidárias, ateliers de arte e design em garagens e caves, livrarias de bairro, lojas de antiguidades e mercados de rua, chamo-te a atenção para detalhes quase imperceptíveis nas vielas e arrasto-te para atalhos que não lembram a ninguém, mas que nos fazem sempre descobrir mundos insondáveis e pessoas maravilhosas.


Talvez, como há 26 anos, o segredo de sermos felizes se resuma nesta coisa boa e tão fácil de fazeres "casa", ninho ou morada em qualquer sitio onde me leves contigo e eu transformar em Mundo qualquer viela, beco ou atalho por onde te arraste comigo.

Parabéns pelo nosso 26 aniversário de namoro: que bom tem sido receber casa de ti e dar-te, eu, Mundo. Ninho e céu. Contenção e dispersão. Ficar e partir. Segurança e aventura. Previsão e infinito. Paixão e amor.

Casa e Mundo: um singular plural. 
Nós. 
Assim.

sábado, 11 de janeiro de 2025

Diz-me que és mãe de uma adolescente sem me dizeres que és mãe de uma adolescente

 


Quando vos falarem pela primeira vez da expressão "skin care" não dêem troco: é uma armadilha!

Pobres dizendo pobrices

Acordo com herpes labial no lábio superior em dois sítios.

A minha filha cruza-se comigo no corredor, olha-me com ar de blheeerck, disfarça para não levar uma berlaitada e atira com um:"O herpes é o botox dos pobres, não achas, mamacita?"
...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Há um episódio da Princesa Sofia




Há um episódio da Princesa Sofia em que ela aconselha à amiga a pensar em coisas felizes quando ela se sente muito triste ou zangada.*

[A primeira vez que vi a Ana, olhos nos olhos, sangue com saliva de beijos, coração a transbordar. Cortar as pontas do feijão verde com a minha avó, a faca de cabo de madeira, para a seguir ela me fazer peixinhos da horta. Apanhar o autocarro para ir com a minha mãe comer hot dogs a um carrinho ambulante, em Cascais, às sextas-feiras quando não tínhamos dinheiro para nada, quase nem para comprar hot dogs. A hora em que o meu avô chegava do trabalho para almoçar e a mistela que me fazia, esmagando as batatas e o peixe cozido, de modo a convencer-me a comê-los. O cheiro a lavanda da minha professora Emília da escola primária. Os olhos castanhos da Laica, a (única) cadela da minha vida. Papo-seco com manteiga derretida nos bicos do fogão. O dia em que a minha tia chegou de Londres, depois do que para mim pareceram séculos de anos de emigração, numa altura em que mal havia telefone quanto mais skype. Sentir que chegava ao céu sentada nas cavalitas do pai que tive antes de deixar de ter pai. O pão por Deus, todos os primeiros de Novembro, a passear com a minha mãe de saco na mão pela minha rua, todas as vizinhas a sorrirem e a darem-me doces ao ver-me passar. O dia em que calcei uns sapatos que não as horríveis botas ortopédicas, tinha uns dez anos, acho eu. A primeira vez que vi a minha prima na maternidade e o sentimento de que era um bocadinho minha. A primeira vez que viajámos as duas, eu e a minha mãe, no cruzeiro a Marrocos, prova dos nove em como nos safávamos sozinhas.O cheiro das folhinhas da minha colecção de blocos. Cada cinto de cor diferente conseguido no karaté. Groselha, capilé e leite com nesquick colocado em couvetes e transformado em gelados nos Verões da minha infância. O balanço do corpo da minha avó, em noites com dores graves, a embalar-me enquanto se aninhava ao meu lado na cama apertada. O sorriso imperfeito do meu avô. O lançamento dos livros, o orgulho nos olhos de toda a família. A viagem à Eurodisney com a minha mãe, de auto-caravana. Conseguir fazer o pino de cabeça. O meu tio, sóbrio e jovem, a levar-me ao Avante. O meu primeiro beijo na Vagueira e o coração a sair-me pela boca. A sensação de poder a beber um copo ao cimo das escadarias do Bahaus com a Cláudia. A minha festa de 18º aniversário a ver o dia nascer no Tamariz. O fogo de artifício e o jogo de luzes no fim da minha primeira noite na Expo'98 com o João. O meu nome na pauta exibida na vitrina da Reitoria. Os olhos orgulhosos do meu avô a contar a toda a gente que eu tinha entrado na faculdade. O primeiro dia de praxes. O dia em que nos beijámos pela primeira vez no terraço da faculdade. Cheiro a relva acabadinha de cortar. Andar de barco no Serpentine e ser feliz em Covent Garden. Trabalhos académicos partilhados com eles na casa da Avenida de Roma e muita pasta ao almoço e ao jantar. A primeira vez que acampámos na Caldeira de Santo Cristo e toda a paixão que sentíamos sob aquele céu estrelado. Encontrar o conforto nos olhos da minha mãe sempre que estou doente (e passa sempre porque os olhos dela curam tudo). O dia em que a minha avó "acordou" do AVC e voltou a falar e a esperança que senti. A primeira chave de uma casa só minha no porta-chaves. Os primeiros cartões profissionais com o meu nome ali gravado. Aquela noite no Alcatruz. O sol de Cabo Verde na minha pele e ponchas partilhadas com a minha comadre. A marcha nupcial a tocar e lá à frente todas as pessoas que eu mais amo a partilharem não mais que dois metros quadrados. Lapas grelhadas nos Açores. A minha mãe a ajeitar-me o cabelo por debaixo do véu de noiva. O "sim": o meu e o dele. O lenço dos namorados que me ofereceram e as minhas raízes minhotas para sempre presentes. Muitos amigos felizes por nos verem felizes. O cheiro a jasmim e o amanhecer no deserto com vista para lagos coloridos numa lua-de-mel inesquecível. A reconciliação num aeroporto insular. Os livros dele novamente na estante da nossa casa. As conversas de carro na road trip pela Escócia. Aletria no Natal. Os saltos de alegria imensa dele ao olhar para a confirmação de um teste de gravidez. Nova Iorque a dois e meio. Cheiro a hortelã e canela. O ar incrédulo da minha mãe a receber a notícia que ia ser avó. O grito de euforia da minha prima ao ouvir a notícia que era uma menina que aí vinha. Dias de Santo António comemorados em minha casa com a Cláudia e a Rosa. O beijo que ele me pousou assim que entrou no quarto, primeiro que tudo, antes sequer de ver a filha que tínhamos acabado de fazer nascer. O cheiro dos livros que eu mais gosto de ler. A chegada a casa e a sensação de sermos uma família de três. A primeira gargalhada. A primeira palavra "mamã". Queijo e vinhos franceses comidos num terraço de Montmartre. Beijos de bochechas cheias todas as noites. Deitar-me em conchinha nas noites frias de Inverno. Tom Jobim a tocar no ar. As gargalhadas deles enquanto ele lhe dá banho. Sushi em dias tristes. O cheiro dela enquanto a massajo com creme Mustela a seguir ao banho. O respirar dela no meu colo a adormecer. Mojitos bebidos a três (mosqueteiras). Ramos de malmequeres oferecidos sem pretexto nenhum. Descobrir Budapeste a dois e sentir que o meu lugar é sempre onde somos felizes em plural. A minha mãe a rir em coro com a minha filha. Sol na pele. Dez anos de casados numa igreja velha com a sensação mais plena de espiritualidade que já senti. A caixa de música de corda que ele me ofereceu. Pés descalços. A alegria dela quando abre a porta e o gato a espera. O cheiro a fruta fresca todos os sábados no mercado pela manhã. Expressões de todas as minhas pessoas concentradas no rosto da minha filha. Estocolmo doente de braço dado com ele a amparar-me. Aniversário numa pizzaria com todos os meus amigos. A Ana a aprender a ler. Ser a fada dos dentes da minha filha. Road trip no Pico e o amor de pessoas boas. Ficar boa depois de seis meses muito doente. Amar os outros como forma de nos amarmos mais a nós mesmos. ]

* E depois, quando a amiga pensa, faz-se céu limpo e arco-íris no Mundo.

[Agora, comigo também.]. 


Texto de 20/03/2019, perdido no histórico do feed do meu facebook

Qual é a vossa música-tesourinho-deprimente*?



*aquela que têm vergonha de assumir que adoram porque está para lá de ultrapassada

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Eau d'velhice




Dói-me a omoplata há imenso tempo. 

Tomo um banho quente, visto o pijama e Mámen vem dar-me um abracinho:

"Cheiras bem! Que perfume é esse?"

...

...

...

Era um Transact que tinha acabado de colar no costado.


Fui signatária de uma carta aberta* que teve hoje projeção nos media

 Pergunta-me a minha filha, com os olhos muito arregalados:



"Tu és UMA PERSONALIDADE, mãe?!"


[* Para quem quiser saber mais pode sabê-lo aqui]

Updates #a minha tia

 Mesmo jogo que contei aqui (link). Tem escrito no post it na testa "João Baião" e já perguntou se era um apresentador de televisão e já lhe respondemos que sim. "Goucha"? Não. "Júlio Isidro"? Não. "Vasco Palmeirim"? Não. "Cláudio Ramos?" Não. 

Corre os nomes todos, menos o certo e faz um sorriso de eureka: "É o Hélder Reis! É o Hélder Reis!"

Ninguém sabe quem é o Hélder Reis e responde muito admirada, como se o dado fosse de cultura geral:

"Por amor de Deus: é o melhor amigo do Goucha"

Não acertou no Baião mas sabe tudo sobre... o Hélder Reis!

Está óptima, obrigada!

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