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terça-feira, 9 de abril de 2019

Quem define o que é preconceito terá que ser sempre o alvo deste

Começou no Carnaval: a mãe de uma pessoa para quem trabalho (gosto muito de ambas) queixava-se no facebook de que as pessoas estavam muito sensíveis a propósito dos comentários indignados e cheios de razão face a uma notícia de uma escola que tinha mascarado os seus alunos de negros, com peles pintadas, saias de palha e artefactos tribais. 

A senhora indignava-se e quando lhe expliquei sobre apropriação cultural recusou-se a aceitar os meus argumentos, contrapondo que agora se vê “racismo em tudo”. Falei-lhe de racismo flagrante e racismo subtil com toda a boa vontade. 

Continuava irredutível: que era uma forma de se mostrar a diversidade étnica e cultural, dizia a senhora e batia o pé. Contrapus para a realidade que eu e ela conhecemos: se numa escola decidissem mascarar os alunos de pessoas com deficiência, espetando-os em cadeiras de rodas ou dando-lhes canadianas, ela que é mãe de uma pessoa com deficiência, como se sentiria? Que era incomparável, que toda a vida nos mascarámos de chineses e indianos e qual era o mal. Eu continuava: porque não mascararem-se de pessoas com deficiência? Não era, pela mesma lógica, uma forma de sensibilização para a diversidade funcional? 

Às vezes as pessoas têm que se remeter à sua insignificância face a temas que não as melindram, sendo humildes o suficiente para respeitarem os assuntos que melindram outrem. Não interessa se a intenção é ou não racista (normalmente é, mesmo que velada e inconsciente, é muitas vezes racismo subtil e está tão enraizada que nem damos por ela...), a questão é que se ofende, se melindra, se tem impacto generalizado na população de negros: é racismo. Mesmo que não compreendamos. Não temos que compreender (quem não consegue compreender). Temos que ser humildes e aceitar. E pedir desculpas, retratando-nos. 

Isto a propósito do boneco negro que hoje jazia no iscte para gestão da raiva. “Ah, o boneco podia ser Branco”. Ah, mas não era. “Ah, mas é irrelevante, para o efeito, até podia ter sido um saco de boxe”. Mas não foi. “Ah, é apenas um ser inanimado de uma cor”. Pois mas a cor não é laranja ou roxo: representa uma figura humana negra. “Ah vocês vêem racismo em tudo!” Não está centrado no sujeito, isto do racismo, mas no objecto.

 Nós podemos vê-lo ou não, desde que eles o sintam: é racismo. 

Tal como seria discriminação se o boneco, de todos os bonecos que se pudessem ter escolhido para o efeito, estivesse sentado numa cadeira de rodas. 

Aceitem. 

Retratem-se.

sábado, 6 de outubro de 2018

Vamos falar de chá






Tinha onze ou doze anos, lia o Clube das Chaves e as Gémeas no Colégio de Santa Clara e ainda estava a aprender a lidar com as maminhas que me tinham aparecido e ainda a porra da menarca preconce e todas aquelas hormonas parvas que apareceram sem avisar. 

Os rapazes gostavam de jogar futebol mas era inverno, no início dos anos 90 não havia cá pavilhões gimnodesportivos nem campos cobertos e os rapazes-maçados!- tinham encontrado como alternativa à diversão via futebol:apalpar os rabos às meninas que, no intervalo,passavam nos corredores em direcção à sala. 

Eu tinha onze ou doze anos, via o "Agora Escolha" e às vezes o "Já Tocou" mas sentia-me uma miúdinha por dentro e quando, nesse Inverno, olhei para a fila de rapazes perfilados e encostados às paredes de ambas as laterais do corredor da C+S não queria acreditar que me iriam apalpar a mim, nem sequer era uma boazona, meia geek e segui segura. Fui apalpada no rabo, nas mamas e onde mais calhou naquele caminho que me pareceu infinito, enquanto gritava de horror, o coração a palpitar depânico, humilhada e reduzida a distração de rapazes que não podiam jogar futebol porque estava a chover enquanto se riam do pânico em mim gerado. Atrás de mim outras iguais a mim, a serem tratadas de igual forma. 

Abeirei-me de uma  "contínua" que minimizou o episódio, com condescendência para os rapazes "oh filha, já se sabe como são parvos os rapazes desta idade: vocês não liguem!" e me fez sentir ridícula e mariquinhas. Na sala de aula falei à professora que em tom de gozo me sugeriu que "olha, responde-lhes com a mesma moeda: apanhem-nos quando estiverem sozinhos e apalpem-nos todos" e fiquei incrédula: eu não queria apalpar ninguém, tinha onze ou doze anos, ouvia New Kids on the Block, não me interessava o corpo dos rapazes parvos da minha escola, nem castigá-los tocando-lhes arbitrariamente. Em casa falei à minha mãe que- como sempre com a assertividade que a caracteriza- me instruiu para no dia seguinte ir, com algumas das minhas outras colegas que tinham sido apalpadas, ao Conselho Directivo fazer queixa de cada um dos rapazes que conseguira identificar. Na sala do Conselho Directivo as duas professoras que receberam o nosso grupinho ouviram-nos atentamente para nos sugerirem o mesmo "vocês já sabem que os rapazes são mesmo parvo: não lhes liguem! As portas estão abertas para o exterior no inicio e no fim do corredor, vocês saiam e façam o caminho por fora e assim não se sujeitam a que eles vos apalpem". Uma de nós, penso que a Susaninha ainda terá retorquido que estava a chover, contornar o corredor por fora implicaria que nos molhássemos sem termos culpa nenhuma dos apalpões e fomos abafadas por um "mas vocês querem ser apalpadas ou não? Estamos a dar-vos uma alternativa...". 

Nesse dia, em que percebemos que ninguém iria chamar os rapazes ao conselho directivo,que ninguém os ia repreender ao corredor, que só dependia de nós fugir e não deles serem obrigados a conter-se e castigados pela acção; nesse dia fomos reduzidas à insignificância por outras mulheres, contínua, professoras, presidente do concelho directivo.

Tinha onze ou doze anos mas, nesse dia, percebi que as mulheres são as maiores inimigas delas mesmas. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

E agora vamos lá falar de coisas sérias. Muito sérias.



"KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO

Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta. O que concluí é absolutamente kafkiano.
Ora atentem:

- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.


- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.

- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos comentários).

- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados. Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.

- No seu estilo tão típico, o Trump assinou uma executive order para pôr fim à separação de famílias. Ou seja, é um herói porque vem resolver o problema que ele mesmo criou. O mais provável, segundo as ONG no terreno, é que essa executive order permita a detenção conjunta de pais e filhos enquanto os pais aguardam julgamento. O que é bom porque, uma vez que essa prática é ilegal, isso dá a quem está no terreno um ato jurídico concreto para atacar. E continua a colocar-se o problema da reunião familiar: não há nenhum sistema no terreno para o fazer. É inacreditável mas é mesmo verdade: os EUA separaram estas famílias sem terem um plano sobre como as reunir novamente. As ONG no terreno relatam que às vezes conseguem localizar as crianças porque os processos de entrada no país têm números sequenciais aos dos pais. Mas nem sempre. As crianças estão já espalhadas pelos EUA e ninguém sabe muito bem onde. Ou seja, isto está longe de estar resolvido e a batalha jurídica destas famílias está longe de ter acabado! Além de tudo isto, têm ainda pela frente a batalha pelo estatuto de refugiados.


- Não, o decreto executivo do Trump não resolve absolutamente nada. Significa, "na melhor das hipóteses", que as famílias passam a poder ficar detidas em conjunto indefinidamente, enquanto os pais aguardam julgamento penal e enquanto não são ouvidos por um juiz de imigração sobre o seu pedido de asilo. Não sei bem em que mundo paralelo isto pode ser uma boa notícia...

- O motivo pelo qual as famílias estavam a ser separadas na fronteira é o chamado Flores Settlement, que determina que um menor não pode ser detido em instalações destinadas à detenção de adultos por mais de 20 dias. Este acordo contém toda uma série de proteções para os menores detidos pelas autoridades de imigração que a administração Trump quer assim fazer cair. Estamos a falar da proibição de estes partilharem quarto e casa de banho com adultos que não conhecem, da obrigação de terem acesso a cuidados médicos dignos, entre muitas outras normas de proteção. Revogar isto não é solução para nada! Não se deixem iludir pela propaganda do Trump! As ONG no terreno vão certamente litigar contra isto.

- Acresce que este decreto executivo só vale para o futuro, ou seja, impede novas separações familiares. Quanto àquelas que já aconteceram, nada se prevê quanto à reunião familiar. Aliás, nem se sabe bem como fazê-lo em termos práticos porque, muito simplesmente, está o caos instalado e ninguém sabe bem onde estão as crianças. A maior parte dos pais e das mães desconhece o seu paradeiro. Para aqueles que se apresentaram num posto fronteiriço e pediram asilo, sendo depois detidos por entrarem ilegalmente no território (sim, isso mesmo que leram!), geralmente os processos de asilo dos pais e dos filhos têm números sequenciais e por isso as ONGs no terreno conseguem localizar as crianças de forma mais ou menos simples. Para aqueles que foram detidos já em território americano e só depois separados, sabe Deus!

- Tudo isto para dizer que nada está resolvido, que a batalha jurídica destas famílias e das demais que venham a ser detidas em conjunto vai durar meses ou anos e que não podemos desmobilizar. Estar atento, estar informado, contribuir na medida das nossas possibilidades para ajudar quem está no terreno a lutar contra a barbárie -- é esta a nossa "to do list"!

- O nosso interesse e contributo continuam a fazer todo o sentido! Não desmobilizar até que TODAS as crianças estejam de volta aos braços dos pais!

Aqui fica o link para ajudarmos estas famílias: 

Da minha amiga Inês Melo Sampaio Antunes que trabalha no Tribunal de Justiça Europeu 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

We’re The Superhumans!

“We’re The Superhumans” é a campanha de apoio do Channel 4 à equipa Paralímpica Inglesa nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro.

Ao som de " I Can” assistimos a garra, superação, espírito de sacrifício, esforço, trabalho, disciplina, talento e, feito de tudo isto, desporto.

Brilhante!

              

sábado, 17 de agosto de 2013

A festa da Ana serviu para angariar cerca de 300 doações de sangue e de potenciais dadores de medula

Serviu para perceber a amizade que as pessoas me dedicam. Para me emocionar com a dedicação e o empenho e a energia e a força de trabalho da Sandra, da Bé, da Laura, da Catarina e da Sílvia. Para dar um beijo emocionado à minha Luisinha e mãe que vieram de Guimarães para a festa. Para conhecer o Zouk, o melhor DJ do Mundo, um tipo tão fixe que nem dá para vos explicar o quanto. Para ficar com lágrimas nos olhos quando vi a Zia, o Guilherme, a Matilde e o Manel que vieram do Porto. Para ver o ar cansado da Niki a fazer algodão doce, como se não houvesse amanhã, numa mãquina caseira mas sem nunca perder o sorriso e a boa disposição. Para conhecer a Laia pela mão da Paula. Para ficar fã dos tipos do Mecanismo Criativo, o grupo de teatro mais cool de que há história. Para saber que a Paula apoia sempre a família quadripolar. Para dar um abraço e mil dedos de conversa com o Luis da Confraria da Empada. Para ser reconhecida pelo colar de arco-íris oferecido pela Bé e não por ser a loira com o maior mamaçal da festa. Para ficar enternecida com o spot da Olga, tão mimoso e querido, complementado pelas almofadas oferecidas pela tia Laura. Para elogiar a saia fashion da Rute do Alentejo que trouxe toda a família e espetadas de fruta. Para passar a ser fã da SATA. Para matar saudades da pronúncia micaelense com a Corisca e a Carlinha, vindas directamente dos Açores. Para dar um abraço apertado à Teresinha. Para gostar ainda mais de Aveiro, por conta das 3 metades mercearia. Para saber que conto sempre com a Alexandra-a Grande, o Troll of the North, a Mónica Lice, a Ana do Pedagogia do Terror, a Marta do Dolce Far Niente, a Niki Ansiedades, a Patrícia do Bicharocos Carpinteiros. para ver mámen enfardar batatas fritas da Dalimar que nem um esfomeado. Para rever a Sofia Sengo. Para gostar mais da Zon que da MEO, que nos deu pipocas. Para beber um gin escondidinha com a Silvia do Clube VII. Para dar dois dedos de conversa animados com o casal porreiraço que veio em representação da Padaria D'Avó. Para matar a sede com o melhor granizado de limão do Mundo da Blueberry. Frozen Yogourt. Para perceber que a Ana e esperta e só vai para o colo de mulheres com fibra como a Filipa Catarino. Para que a Cozinha Verde me sensibilizasse para a inclusâo das crianças celíacas e dos convidados vegetarianos nas festas de aniversário. Para ver a Carla Rocha da RFM a arrumar o estaminé no fim da festa. Para saber que Mámen, Pedro, Mário, Samuel (da Olga), António, Andrea, Rui Charroque e marido da Ilze (não me recordo do nome) são os tipos mais fixes da história dos tipos fixes. Para- finalmente!- experimentar as tãos famosas Bolas de Praia. Para ficar embevecida com o abraço da Inês Pessoa. Para fazer uma festinha (consentida!) na barriga da Cláudia só para cutucar a Maria Catarina. Para confirmar que a Dânia é cá da malta. Para me deliciar com os bolinhos caseiros da Clarisse. Para me comover com a dedicação da Ana da Miau Cookies que fez 500 bolachinhas para oferecer aos convidados da festa, Para constatar quem é que escreve que sim e promete mundos e fundos e quem é que, efectivamente, aparece e faz acontecer. Para- estúpida!- não reconhecer ai vivo a Sofia Franco, a Leonor Fernandes e a sara Félix. Para ajudar nos preparativos de casamento da Rossana, que veio do Algarve por nós. Para dar uma gargalhada com a pintura dos olhos da Ângela Vilhena, a Mary Poppins mais gira da festa.  Para perceber a grávida pieguinhas que fui a admirar a Rosália a ajudar freneticamente num dia de quase 40 graus com uma Maria Clara a encher-lhe a barriga. Para ficar com inveja da boa da Ana Para gostar ainda mais da desbocada da Lina, da Rita e da Joana. Para rever sempre, com o mesmo gosto, a minha Leonor. Para abraçar o pequeno João, que comemora nestes dias também um ano sem quimioterapia e gostar tanto da Sandra e da mana, a quem cravo já um post para o mãegyver. Para perceber que a Liliana Para perceber que o destino se encarregou (e bem) de decidir que a Rosa era a madrinha ideal para a Ana. Para me divertir a ver a minha mãe fazer uma coreografia de zumba com a neta ao colo, para delírio da plateia. Para rever a querida Tehur, sempre pronta, sempre disponível, com um sorriso de lua cheia. Para ver a Neuza emocionada por me conhecer, quando eu sou apenas uma rapariga que tem um blog. Para conhecer o Presidente da Junta de Freguesia das Cardosas, de Arruda dos Vinhos. Para ver o bolo de aniversário mais imponente do Mundo confeccionado pela Lourdes, Paulinha, Carla, Cláudia, Elsa, Raquel, Dânia, Telma, Isabel, Sílvia e Joana. para ficar triste pelo motivo que afastou a Sara desta festa. Para sentir que a causa é importante o suficiente para várias pessoas terem interrompido as suas férias e terem arrancado em direcção ao Clube VII, como a Ana e a Teresa Martins. Para beber limonada da H3 como se não houvesse amanhã. Para conhecer ao vivo póletes da Margem Sul (elas existem!) como a destrambelhada da Inês. Para ficar com um nó na garganta quando vi a Fátima e toda a sua maravilhosa prole, entre os quais a pequeníssima Mafaldinha que aguentou, estóicamente, uma viagem do Algarve a Lisboa só para estar na festa da Ana. Para assistir à formação de uma equipa de pessoas que poderia mudar o mundo que, não se conhecendo, geriu toda a parte dos comes e bebes com uma eficiência admirável, liderada pela Ana Santos, Ana Correa, a Susana , Para receber a visita dos meus amigos de cheiro, muito admirados por ouvirem pessoas chamarem-me de Pólo, mas que ali foram para provar que estão connosco em todos os contextos (obrigada Laurinha, Margarida, Paulo, Rita, Marta, Tiaguinho, Manelita, Jorge, Débora, Vicente, Cláudia, João, Sofia, Rui, Afonso, Cristina e Zé Miguel mano!). Para perceber que a minha amiga Luna é tão fixe que leva com duas estuchas seguidas de festas de anos infantil por nossa causa. Para ver a minha tia e a minha prima, tão distantes do mundo cibernáutico, a conviver com pessoas que eu só conhecia virtualmente. Para curtir milhões o ar despachado das meninas dos patins (Lisboa Troopers Roller Derby sois as maiores!). Para ficar um bocadinho invejosa por não ter uma irmã e ser tão próxima e cúmplice como as manas Maximino (Patrícia e Joana, obrigada!). Para dar um abraço à Raquel dos tererés e sentir que já a conhecia. Para ver que há pais que continuam a tarefa de educar os filhos para o altruísmo, quando vi a Francisca e a Mariana a trabalharem na festa a servir gelados de iogurte, numa missão de toda a família. Para ficar embevecida com a minúcia e preciosismo dos detalhes da decoração feitos pela Joana do Valor Fuschia. Para sorrir com o senhor grandalhão, cujo nome não decorei, que ao lado de uma senhora magrinha e com ar frágil, desmaiou a dar sangue. para ter um orgasmo de paladar a provar os suspiros com doce de ovos da Party's & Cookies Para dizer vernáculos quando a médica do IPS me recusou como dadora de sangue porque tinha uma borbulha no sobre-lábio, alegando que poderia ser herpes e ignorando as minhas explicações de que era reacção a todo o chocolate e doces que havia comido na véspera, na festa de casa da Ana.  Para oferecer kimas às pessoas e vê-las entusiasmadas com a pequena garrafinha verde. Para achar que o Andrea, homem de uma generosidade tal, será um verdadeiro PaiGyver para a Maria Clara que aí vem, em breve (e para, por causa dele, passar a gostar só um bocadinho de escoteiros). Para ser fâ de toda a família dos Bicharocos Carpinteiros. Para admirar a dedicação da Teresa que foi para a festa de máquina de costura em riste para coser gotinhas de arco-íris para enfeitar a festa. Para conhecer a menina que estava na porta a acolher os convidados e que, com um passado de leucemia, estudo actualmente medicina para poder servir os que passarão pela mesma situação no futuro. Para conhecer a Tânia, cuja vida foi irónica e trouxe para perto um caso de cancro infatil, já depois de se ter voluntariado como fotógrafa da festa da Ana. Para reafirmar que a Sacolinha é a melhor pastelaria do Mundo.Para me espantar como alguém em Angola consegue ajudar de forma tão próxima (um grande beijo Liliana Delgado!). Para dar um beijinho às meninas dos Moínhos de Maneio que ofertaram kilos de framboesas. Para ver ao vivo a barriga da Sally cuja notícia de gravidez eu acompanhei em directo através do facebook. Para babar com a Ana vestida de arco-íris, obra da mestre Rita Cutxie Cutxie. Serviu para ficar mega fã do Clube VII. Para admirar a capacidade de mobilização da Regina.Para delirar com cada fiada de bandeirolas que me chegava via CTT nos dias que antecederam a festa, obra de mais de 30 habilidosas costureiras. Para dizer à sobrinha da manelinha Colaço, a viva voz, que tem a melhor tia do Mundo. Para conhecer, finalmente, a Mac e babar com os sete bolinhos de gomas que nos preparou. Para comer à socapa uma bolachinha "Keep Calm" da Mo's Sweeties. Para relembrar que o destino foi um fixe quando colocou o Pau, a Sofia (e, sim,a conterrânea Carolina) nos nossos caminhos. Para ver muitas crianças felizes, às gargalhadas, a correr, a sujar-se, a divertirem-se. para ver pais com os olhos a brilhar com a alegria dos filhos. Para receber montes de palavras bonitas e abraços apertados e uma reprimenda de uma senhora mais velhota ("gosto muito de ler o seu blog, às vezes farto-me de rir, outras de chorar, devia era dizer menos asneiras!"). Serviu para fazer felizes as crianças da "Fundação- o Século" para onde foi toda a comidae bebida que sobrou da festa. Para perceber que estou rodeada de gente boa, que faz de mim muito, mas muito pequenina quando comparada com todos e com cada um. Para sentir que eu e mámen estamos em sintonia e numa felicidade sem fim partilhada. Para comprovar que a Ana veio ao Mundo com uma missão: espalhar "anor". Serviu para se fazer história nas nossas vidas. E fazer de mim uma pessoa que tenta ser, todos os dias, um ser um bocadinho melhor. 

Obrigada a todos!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Tudo sobre a preservação de células do cordão umbilical

Hoje, com o devido consentimento, publico a resposta que a querida Dra. Muxy-Muxy me deu a um e-mail chato e cheio de perguntas parvas de pré-mãe e que acho importante partilhar com toda a gente. Porque é claro e transpoarente e pode contribuir para mais pessoas ponderarem optar pelo Banco Público ao invés dos Bancos Privados, como será o nosso caso.

"Para que servem as células do cordão? Fundamentalmente para dois grandes grupos de doenças: as genéticas e as neoplasias do sangue ( linfomas e leucemias)
Ora para as primeiras o cordão do próprio interessará pouco uma vez que transportará a mesma doença.
Para as segundas existe nalguns casos um fundo genético, nestes o cordão do próprio volta a ser inútil, mas noutras não. Ok pareceria então lógico que se tu tens um cancro das células do sangue que são produzidas na medula, destróis a medula doente e usas as células do cordão para fazer uma medula nova. Se as células forem do próprio não existe rejeição logo o sucesso seria, teoricamente, muito maior que o transplante de dador " estranho". O que se passa é que nao foi isto que ocorreu. Os transplantes do próprio têm por múltiplas razoes menos sucesso que os outros, estando documentados, até ao momento dois ou três casos apenas.
Neste contexto o que parece interessar é aumentar até infinitos mil o pool de dadores de um banco de acesso universal para ue todos os meninos que um dia precisem tenham um dador disponível.
Fui clara?
Mais dois exemplos:
Tu podias dizer então e se eu depois der um irmão à Ana e ele precisar de um cordão e tiverem usado o dela? Bom primeiro nao podes ter a certeza que a Ana seria compatível com o irmão e neste caso mais uma vez quantos mais dadores houver no publico maior a possibilidade,segundo ela poderia sempre doar medula ao irmão se fosse preciso.
E no caso do jogador do Benfica. O Carlos Martins. O que se passou com o Gustavo foi que o seu sistema imunitário destruiu a sua medula, ora se pusesses lá uma medula igual corrias o risco que o sistema imunitário voltasse a fazer o mesmo.
Espero ter ajudado. "

Sobre a diferença entre as células do cordão e o tecido, respondeu-me ainda a pediatra mais fixe da blogosfera:

"A diferença é a seguinte: o sangue do cordão permite a recuperação de células pluripotenciais do sistema hematopoietico ( pumba, palavrão médico), o que em português quer dizer células fantásticas com capacidade de se transformar em qualquer tipo de célula do sistema sanguíneo. Isto limita a utilização do cordão às doenças do sangue. O tecido do cordão permitiria a recuperação de células pluripotenciais mesenquimatosas, lá está a gaja armada em parva outra vez, pensas tu, verdade mas só um nadinha, que são células que podem transformar-se em qualquer célula do tecido conjuntivo: ossos, músculo, ligamentos. O que, em rigor, acontece é que isto é ainda do domínio da ficção cientifica. Teoricamente é uma boa ideia mas na pratica não se sabe se vai resultar ou não. É ainda do planeta do se cá nevasse fazia-se cá ski. Mas de facto não neva."


Mais posts bons sobre esta matéria aqui, aqui e aqui. E aqui.
Porque quem sabe, sabe.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

"Tens um mano na tua barriga?"

"Tens um mano na tua barriga?" - entrou de rompante pelo meu quarto. A mãe, internada no quarto ao lado, tentou demove-la. " Não incomodes a senhora! Anda cá!". Mas ela continuava a olhar para mim, de pé, à beira da minha cama de hospital. Olhos azuis, cabelo louro, 4 anos de gente.
"Também tens um mano na barriga?"- insistia. Pego-a ao colo para se sentar aos pés da cama, leve que nem uma pluma. "Cuidado com o meu cateter!". A mãe, pálida e com ar gasto, grávida do mesmo tempo gestacional que eu, a contar-me da leucemia da filha, dos tratamentos de quimioterapia, da gravidez que pode ser uma esperança de vida, de mais vida ainda, o verdadeiro milagre da vida, para a filha que já vive. Das possibilidades de compatibilidade do novo bebé, que entretanto ganha pouco peso no útero, fruto do sistema nervoso da mãe que, internada, não acompanha pela primeira vez, em dois anos e meio, o ciclo de químio da filha.
"Tens um Bobi?"- fita-me, a pequena, de olhos pregados no suporte com rodas que me eleva o soro. E a mãe sorri, gasta e cansada, velha no pico dos seus 26 anos, a aguardar um milagre que são dois, agora. O bebé só tem um rim mas não lhe importa. A doença da filha ensinou-a a racionalizar a realidade. "Vive-se só com um rim, eu quero é que ele nasça bem, mesmo que não seja compatível,. Quero- os aos dois, bem! Percebe-me, não é?" Percebo tão bem.
E a menina canta- me aos pés. Elevo-a no elevador da cama, fica alta no cimo do colchão elevado. "Vou tocar no sol!"- e não parece doente, enquanto escorrega pelas minhas pernas, se ri às gargalhadas e folheia um livro que me ofereceu uma leitora deste blog.
A mãe a insistir que me deixe sossegada, sorriso exausto. Está desempregada, " ninguém dá trabalho a uma mulher que tem que faltar uma semana por mês para acompanhar a filha na quimioterapia". E, agora, internada. O marido teve que meter baixa para a substituir- "o dinheiro da baixa não vem logo no mês em que gozamos a baixa, este mês nao sei como irá ser". A filha, tagarela, dá gargalhadas e, por um momento, o sorriso abre-se, alheio aos problemas. Acaricia a barriga, como que a regar o crescimento do bebé que aí vem.
Falamos dos bebés que esperamos. Chega mámen para a visita, senta a menina ao colo, faz-lhe desenhos a pedido. A mãe elogia o jeito dele para desenhar. Mostro- lhe a fotografia da parede do quarto da Ana, pintada por ele. A menina pergunta se ele lhe pode desenhar uma Kitty na parede. Sorrimos os dois, cúmplices. Hoje toleramos a Kitty. Sim, irá pintá-lá, logo que a mãe regresse a casa. A menina salta de alegria.
Chega o jantar, a mãe e a menina recolhem ao seu quarto, não sem antes a pequena insistir: "Tens um mano na barriga?".
Lembro- me das discussões que temos tido acerca da preservação de células estaminais. Banco Público ou empresa privada? Se colocarmos no Banco Publico e aparecer alguém que precise, a nossa filha fica sem as suas células disponíveis. No Privado as células serão sempre guardadas para ela.
E a menina ali ao lado, a precisar de um transplante de medula. Não pode haver egoísmo na humanidade. Nem umbiguismo. Se a nossa filha fosse compatível, não hesitaríamos um segundo, sabemo-lo com o olhar, as palavras não são precisas.
E, finalmente, respondo "Sim, tenho uma (m)Ana na barriga!". Porque todos os bebés deveriam ser irmãos da menina.
A minha sê-lo-á.
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