sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Chove, como na rua, em mim.

Ali estava eu: diante do meu próprio velório. 

No marido dela o Rui: desorientado, perdido, vazio, arrasado como se o vento da morte da mulher tivesse vindo com a tempestade que atrasava a vinda de mais gente a prestar as últimas homenagens. 50 anos. Tinha 50 anos e uma velhice pela frente que nunca chegou a viver e eu agora não sei como vai ser, ela foi sempre primeiro, abria sempre o caminho, contava-me como era, sem romantizações nem pessimismos: a realidade. 

A filha ia-nos recebendo um a um, com cortesia e uma maturidade que não se encontra em ninguém com 20 anos. A minha projeção da Ana na filha dela: ser filho de uma pessoa com deficiência torna os miúdos em seres diferentes. Não especiais: apenas diferentes. A Rita nunca corria desenfreadamente quanto era pequena e um dia com a Ana ao colo perguntei-lhe como tinha conseguido ela essa proeza da miúda nunca lhe fugir, que sorte que tinha, imagina que fugia, a aflição que seria não poderes correr para a apanhar à custa da cadeira de rodas e eu, que não sou veloz na corrida, que não aguento tempos infinitos em pé com ela ao colo, como vou fazer? “Os filhos fazem-se aos pais que têm”- disse-me a Dulce, agora ali à minha frente num caixão frio de madeira. 

Na Rita a Ana: madura, pragmática, objectiva, com uma força que não reconheço em mais filhos de ninguém. Os meus amigos a chegarem: o Filipe, o Luis. 

A Dulce tornou tudo possível quando o futuro de mulheres com deficiência era uma incerteza: era possível trabalhar e ser auto-suficiente, era possível viver sozinha, era possível casar, era possível ser mãe. E agora que eu já sou tudo isso, porque a Dulce confortou a minha ansiedade, porque estreou todas as possibilidades, quem me vai contar o futuro? Não sei, agora, como é possível ser velhinha, como se gere o síndrome do ninho vazio, como é ser avó, como é viver com corpos enrugados e artroses e no fim como é pensar que a morte vai chegar porque a vida já está cheia, preenchida, completa. 

A Dulce morreu e não tenho a minha referência e em quem me projectar. E, pela primeira vez, o futuro parece-me desconhecido e incerto. A Dulce morreu e já não tenho quem me faça spoiling à vida. 

Chove, como na rua, em mim.

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