terça-feira, 7 de agosto de 2012

Tudo sobre a preservação de células do cordão umbilical

Hoje, com o devido consentimento, publico a resposta que a querida Dra. Muxy-Muxy me deu a um e-mail chato e cheio de perguntas parvas de pré-mãe e que acho importante partilhar com toda a gente. Porque é claro e transpoarente e pode contribuir para mais pessoas ponderarem optar pelo Banco Público ao invés dos Bancos Privados, como será o nosso caso.

"Para que servem as células do cordão? Fundamentalmente para dois grandes grupos de doenças: as genéticas e as neoplasias do sangue ( linfomas e leucemias)
Ora para as primeiras o cordão do próprio interessará pouco uma vez que transportará a mesma doença.
Para as segundas existe nalguns casos um fundo genético, nestes o cordão do próprio volta a ser inútil, mas noutras não. Ok pareceria então lógico que se tu tens um cancro das células do sangue que são produzidas na medula, destróis a medula doente e usas as células do cordão para fazer uma medula nova. Se as células forem do próprio não existe rejeição logo o sucesso seria, teoricamente, muito maior que o transplante de dador " estranho". O que se passa é que nao foi isto que ocorreu. Os transplantes do próprio têm por múltiplas razoes menos sucesso que os outros, estando documentados, até ao momento dois ou três casos apenas.
Neste contexto o que parece interessar é aumentar até infinitos mil o pool de dadores de um banco de acesso universal para ue todos os meninos que um dia precisem tenham um dador disponível.
Fui clara?
Mais dois exemplos:
Tu podias dizer então e se eu depois der um irmão à Ana e ele precisar de um cordão e tiverem usado o dela? Bom primeiro nao podes ter a certeza que a Ana seria compatível com o irmão e neste caso mais uma vez quantos mais dadores houver no publico maior a possibilidade,segundo ela poderia sempre doar medula ao irmão se fosse preciso.
E no caso do jogador do Benfica. O Carlos Martins. O que se passou com o Gustavo foi que o seu sistema imunitário destruiu a sua medula, ora se pusesses lá uma medula igual corrias o risco que o sistema imunitário voltasse a fazer o mesmo.
Espero ter ajudado. "

Sobre a diferença entre as células do cordão e o tecido, respondeu-me ainda a pediatra mais fixe da blogosfera:

"A diferença é a seguinte: o sangue do cordão permite a recuperação de células pluripotenciais do sistema hematopoietico ( pumba, palavrão médico), o que em português quer dizer células fantásticas com capacidade de se transformar em qualquer tipo de célula do sistema sanguíneo. Isto limita a utilização do cordão às doenças do sangue. O tecido do cordão permitiria a recuperação de células pluripotenciais mesenquimatosas, lá está a gaja armada em parva outra vez, pensas tu, verdade mas só um nadinha, que são células que podem transformar-se em qualquer célula do tecido conjuntivo: ossos, músculo, ligamentos. O que, em rigor, acontece é que isto é ainda do domínio da ficção cientifica. Teoricamente é uma boa ideia mas na pratica não se sabe se vai resultar ou não. É ainda do planeta do se cá nevasse fazia-se cá ski. Mas de facto não neva."


Mais posts bons sobre esta matéria aqui, aqui e aqui. E aqui.
Porque quem sabe, sabe.

9 comentários:

Cláudia disse...

Já uma altura tinha 'linkado' a opinião da Drª lá pelos meus lados. Anda tanta publicidade a bancos que levam os olhos da cara pela criopreservação quando há uma solução muito mais económica, solidaria e funcional.

Alexandra Nobre disse...

Obrigada: Gostei de ler. Realmente as explicações da Drª Muxy são muito claras. Apenas um reparo...
" transformar-se em qualquer célula do tecido conjuntivo: ossos, músculo, ligamentos." Em histologia animal (ciência que estuda os tecidos animais) há quatro tipos de tecidos (epitelial, conjuntivo, muscular e nervoso). O músculo é tecido muscular e nunca conjuntivo.
Felicidades

Unknown disse...

Pólo, esta questão “atormenta-me” praticamente antes ainda de engravidar. Preservar nunca foi a questão, agora no público ou no privado? Todas as pesquisas que fizemos na internet, as conversas com médicos e enfermeiras, com outros pais ou futuros pais… nada nos deu uma resposta concreta, porque acho mesmo que simplesmente não há uma resposta certa ainda. Se por um lado é a conversa da exploração das empresas privadas, de não haver dados concretos, de as células do próprio não serem viáveis, etc, etc por outro a história das dificuldades financeiras do publico, de conservaram apenas 1/3 das doações e nunca chegarmos a saber onde ficaram as dos nossos filhos, conservadas, para estudos, ou para o lixo, blá, blá, blá. Acabamos por decidir o privado e a única e principal razão, foi apercebermos da necessidade quase angustiada dos pais que doaram de explicar a razão por o fazerem no público, uma necessidade enorme de se justificarem com argumentos lidos na net e em opiniões de outros pais que fizeram o mesmo, um peso na consciência disfarçado com argumentos altruístas de doação, pais que se calhar nunca na vida doaram sequer uma peça de roupa a uma qualquer instituição, pais que na volta gastaram 900€ num carrinho de bebé xpto.
Eu sou dadora de medula e espero que quando cheguem à idade adulta, os meus filhos queiram eles próprios ser dadores de medula, de sangue, voluntários, etc. Espero que nunca na vida precisem destas ou quaisquer outras células e que este dinheiro tenha sido literalmente dado à empresa que escolhemos. Mas a verdade é que eu já me conheço (“de gingeira”) nunca na vida ficaria tranquila sabendo, que por mais ínfima que seja a possibilidade de algum dia serem preciso estas células, eu não as tivesse pelo menos tentado conservar.
Esta foi a nossa percepção, a nossa experiência, que agora é assim, mas num próximo filho pode ser completamente diferente. Porque as opiniões são assim, como a ciência, estão sempre a evoluir.

A mim…já só (ainda) faltam 4 semanas….MEDO (felicidade ) :) !!

Carla Sousa disse...

Não foi por e-mail, mas pelos posts da Dr.ª Muxy-Muxy, que aí indicaste, que também dei por concluída esta questão. Doámos as células do cordão umbilical do nosso filho ao banco público, há 8 meses, mas na altura também questionámos tudo e todos sobre o que fazer. No fundo, só queremos o melhor para eles, certo?

Obrigada pela partilha! Há ainda muitas cabeças que precisam de serem elucidadas.

Beijinhos*

Maria Lopes disse...

Gostei muito deste post pois penso que serve para refutar uma série de inverdades que correm, não só na blogosfera, como também na comunicação social.

Marta disse...

No dia em que tiver um bebé as células do cordão vão para o banco público graças à Dra muxy muxy que adoro ler e que explica tão bem as coisas a pessoas que não percebem nada como eu. Beijinhos para ela e o filhote e para a Ursa mai linda e a sua maravilhosa Iana (sou minhota, pois claro!)

Morango Azul disse...

Interessante. Fiquei finalmente esclarecida. O meu GO também já me tinha dado a entender que o banco público seria ideal e mais barato.

Sílvia disse...

Concordo. Como estudante nessa área já ouvi imensas vezes dizer que a criopreservação de células estaminais por bancos privados é apenas um bom negócio porque joga com o nosso bem mais precioso - os nossos filhos - apesar das poucas garantias que ainda promete. E cobra imenso dinheiro para um trabalho tão simples, meia dúzia de aparelhos e um pequeno armazém (que aliás me parece que apenas há um para todo o país e recebe das várias empresas do ramo).
O banco público é uma escolha muito mais acertada. O único problema é que pelo que soube por amigas minhas ele parece não trabalhar tão bem na hora da recolha do kit após a colheita, chegando mesmo a ter que se telefonar imensas vezes a avisar da validade das células para o processo.
E ao dizer isto contra mim mesma falo porque os bancos privados são das únicas empresas que ainda vão criando postos de trabalho para gente como eu neste país. Mas também não sei até que ponto os mesmos vão conseguir defender a sua posição com tantas desvantagens em comparação com o público.

Queen of Hearts disse...

Quando tive o meu filho, andei angustiada com essa escolha imenso tempo. Medicamente, parecia-me muito incerto fazer a criopreservação no privado, mas... Depois, acabei por ter a escolha simpificada pelo facto de, ao preencher o questionário do banco público, perceber que não ia ser elegível - por uma alínea. E, por fim, a vida encarregou-se de não me deixar preservar as células do cordão do meu filho, apesar de ter uma amostra excelente, mas que foi comprometida por mau manuseamento das profissionais que fizeram a colheita, e contaminada com duas bactérias muito bitches.
No entanto, se tiver um segundo, já me decidi, farei pelo público. Se me aceitarem.

Só tenho pena que, tal como o privado é uma utopia, o público também não deixe de o ser. Porque sei (de fontes em que confio) que as faltas de verbas comprometem seriamente o futuro do banco; que a maioria das amostras não são usadas, porque não há condições de preservar todas as doações em bom estado; e que as condições de funcionamento do banco, como alguém disse acima, não são as ideiais. Sinto-me um pouco "traída" por tudo isto. Enfim, há que acreditar que as coisas melhorem, e que o objectivo de quem quer ajudar e fazer o que considera melhor não fique perdido nas intenções.

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