domingo, 17 de junho de 2018

O retiro que foi tudo menos um retiro



O Retiro para mim não era mais que o parque urbano principal de Madrid. Sou uma pessoa estranha: entusiasmo-me com coisas novas mas tenho uma alma velha e não me consigo desprender do passado, como se quando o fizesse o estivesse a atraiçoar não só a ele, enquanto passado, mas também à pessoa que fui e que não quero que lá fique mas que continue. É difícil esta gestão de querer uma certa constância, duma lealdade ao percurso sem cair no erro de me tornar rígida face à mudança. Tenho um sentido de justiça old fashioned e sou de uma lealdade canina. 

O que mais ambiciono na vida é a liberdade de viver sem preconceitos, de ser verdadeiramente flexível e open minded. Não fazer juízos de valor nem generalizações abusivas, de não criar rótulos nas pessoas e de respeitar as diferenças de todas elas. 
Participar no retiro estava na minha lista de dez grandes preconceitos (a par das cenas zen das meditações, do poder  curativo das maratonas, da Hello Kitty e dos livros da Margarida Rebelo Pinto mas já não digo que desta água não beberei...) até porque Gustavo Santos, life coaches e uma série de gente oportunista a tentar fazer dinheiro com as emoções e fragilidades das pessoas depois de tirar cursos de 2 meses sobre PNL e Eneagramas sem qualquer background de estudo de ciências do comportamento ou sociais, não ajudam muito a dar credibilidade às coisas. 

A última década foi difícil e dura, talvez crescer implique esta dureza, esta dor, esta confusão e tentativa de conciliação entre quem fomos e em quem, todos os dias, nos vamos tornando. Foi a década mais importante da minha vida com dois momentos verdadeiramente transformadores: a estreia da morte na minha vida (e a luta incessável em gerir o luto) e a estreia da vida na minha vida, com a Ana a mudar tudo para melhor. A perda e o ganho, na mesma linha temporal. O meu marido partilhou, recentemente, um texto que encontrou por acaso e que, de repente, resumiu aquilo que eu precisava tanto de incorporar: "“Tudo que tu amas, tu eventualmente perderás, mas, no fim, o amor voltará numa forma diferente”. Foi esse o mote.

Tenho mil esferas na minha vida e sou muito desorganizada, quer com o tempo, quer com o espaço, quer com a energia que dispendo em todo este processo. Organização só no meu pensamento e nas minhas emoções: sinto que sou boa nisto do sentir e do pensar, mas extremamente caótica na parte do concretizar. 


Passei os últimos sete meses doente- organicamente doente- e tive tempo para uma auto-análise profunda, para tentar discernir o que é um desafio a superar, no que quero investir, no que quero largar e deixar ir porque cria entropia, nas minhas oportunidades de melhoria e nos pontos fortes que tenho que potencializar. Tem estado aqui tudo, na minha cabeça mas era preciso dizer alto para o tornar real, ter testemunhos para me obrigar ao compromisso, ter apoio de quem confio em que me ajuda a questionar-me ainda mais, a percorrer becos que não arrisco a visitar por negação ou evitação, a encarar falhas, fendas e vulnerabilidades. 

Começámos por ser um grupo informal de sete psicólogos que se juntou por via da internet. Todos a querermos trabalhar melhor e de forma mais eficaz e preparada as emoções das pessoas com quem trabalhamos, a querermos trocar estratégias e ferramentas, a investir na troca e partilha de boas práticas. Eu sabia que queria trabalhar nesta área da dinamização de grupos de auto-ajuda com os pais e as famílias de crianças com deficiência, com pessoas com dores crónicas, orgânicas ou emocionais e com pessoas com dificuldades em conciliar alguma das esferas das suas vidas. Eram estes os três grupos de pessoas com quem eu queria trabalhar, são estas as pessoas para quem acho que posso constituir uma mais-valia e fazer a diferença. Outros dos meus colegas queriam trabalhar com outros grupos vulneráveis: mulheres vítimas de violência doméstica, adolescentes, crianças em risco, pessoas com adições, casais e famílias...

Durante três meses criámos um grupo secreto de partilha no facebook: cada um de nós propôs uma atividade, reflexão, ação para o grupo inteiro preparar, de forma a termos um portfolio de sete exercícios de reflexão para poderem servir de base de trabalho no encontro presencial que, entretanto, se configurava como óbvio. O público-alvo: nós mesmos, trabalharmos os nossos issues, pormos a nú as nossas fragilidades, dar o flanco publicamente perante estranhos (é sempre mais fácil perante estranhos), passarmos por todo o processo porque só desta forma poderíamos criar empatia com quem pudéssemos vir a trabalhar no futuro numa metodologia semelhante, mas apropriada e moldada ao perfil de cada um de nós.

Foi duro. Houve muitos dados de anamnese trabalhados e rimo-nos muito sempre que alguém, com um discurso vencido e conformista, lá dizia que, sim senhor, Freud explica (e explica mesmo muitas coisas). 

"Organização só no meu pensamento e nas minhas emoções: sinto que sou boa nisto do sentir e do pensar, mas extremamente caótica na parte do concretizar." Pois que sim. Mas venho muito mais arrumada por dentro, destralhei issues, deitei irremediavelmente fora tantas coisas que estavam cheia de pó e bolor na minha vida, que eu já nunca mais iria usar, que só estavam a ocupar espaço e a estorvar a circulação. Pessoas também, as tóxicas, as que não acrescentam, as que não ajudam e só atrapalham. Trago planos escritos, em papel, tornados concretos e com prazos escritos também para agir, tratar de coisas, concretizar planos, sonhos, desejos, tentar mudar sem medo, tentar não ter medo de mudar por respeito ao passado que passou, deitar abaixo paredes velhas e pedir ajuda para remover os escombros, construir de novo, arriscar em novos planos e pedir ajuda, aquilo em que eu sou melhor quando se trata para os outros e pior no que a mim própria diz respeito.

Em Outubro porei em prática tantas coisas que aprendi, vivi e acredito que poderão ajudar outras pessoas no primeiro retiro "Sentir, pensar, agir" com pais e cuidadores de pessoas com deficiência. Estou entusiasmada e expectante que venham esses dias.
Entretanto vou por um x na extensa lista de "to do" que trago para mim mesma. Com espírito de compromisso e responsabilidade. E com o suporte de seis pessoas que se juntaram ao acaso e que partilharam cinco dias de vida intensos e inesquecíveis. O grupo continuará no facebook e talvez para o próximo ano faremos uma segunda edição, como aqueles grupos de ex-combatentes do Ultramar que se juntam uma vez por ano para lembrarem tempos difíceis de guerra em tempos de paz. Nós também mas cá dentro. Houve revolução em cada um de nós.  

Antes de voltar a casa passei por uma florista e trouxe um ramo de malmequeres. Desta vez, apesar de brancos, cravos encarnados em mim.

[Em Setembro uma colega do grupo dinamizará seu primeiro projecto de grupo de auto-ajuda em contexto residencial (concordámos todos que a palavra retiro tem uma carga que não queremos dar a isto). Será destinado a pessoas que se sentem assoberbadas e em processo de quase burn-out. Interessados podem enviar um email para quadripolaridades@hotmail.com que reencaminho. Eu, para já, tenho em vista o feriado grande de Outubro para preparar o melhor fim-de-semana possível para um grupo de cuidadores que precisa de ser cuidado.]

[De resto, nada temais. Não venho zen-parva nem com clichés e a achar que descobri a luz. E continua a acreditar no poder curativo de um bom palavrão].

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