sexta-feira, 8 de junho de 2018

Todos nós podemos ter Bourdain na voz



As pessoas acham que conhecem as pessoas. Cruzam-se com elas, tomam café, às vezes ouvem-nas com ouvidos de escutar, seguem a sua vida, correm e cumprem horários, picam pontos, suspiram nas filas de trânsito mas as pessoas conhecem muito pouco as outras pessoas, embora jurem que as conhecem. 

As pessoas fazem associações diretas, usam mecanismos de poupança cognitiva: é popular é feliz, tem energia é ativo, comunica bem é extrovertido, gosta de comer e beber é um bon vivant.

Se há um ano, casa nova acabada de comprar, trabalho que me realizava milhões, marido espetacular e filha feliz e saudável me dissessem que passado um ano, sem quase nada mudar para além de um mísero músculo, eu estaria a bater no fundo, rir-me-ia alto e a bom som.

Eu sou a pessoa que faz rir, a bem disposta, a que faz o quebra-gelo num grupo de estranhos, a extrovertida, a cheia de lata, a optimista, a de bem com a vida. Não é fabricado nem ensaiado: esta sou eu sempre. Ou na maioria das vezes.  Sempre fui, faz parte da minha essência. 

Um dia, em Novembro, sei agora precisamente o dia e o momento, o meu músculo piramidal saiu do sítio. Foi num sábado. Na segunda não conseguia andar e pedi à minha amiga enfermeira que me desse uma injecção de Relmus com Voltaren. Fui trabalhar cheia de dores mas a tentar ignorá-las: eu não sou a pessoa que cede a dores de corpo. Nessa mesma semana, viajei em trabalho até Estocolmo e as dificuldades de locomoção eram cada vez mais e maiores. Culpei o cabrão do frio, lá está, e os suecos e as almôndegas do IKEA, que se é para culpar, culpa-se com dignidade. 

Dezembro foi todo com dores, o Natal cá em casa com prendas compradas à pressão porque andar mais de cinquenta metros no shopping era uma tortura e quando a passagem de ano chegou, decidi ficar em casa, sentadinha sem sair do lugar a jogar jogos de tabuleiro. Era a perna, eram as costas, era tudo, as dores não melhoravam. 

"O que vale é que nunca te falta a boa disposição!"- diziam-me as pessoas, como se a minha essência fosse automaticamente prevalecer sobre a minha energia, o meu estado anímico, as dores reais no corpo, na matéria, nos ossos da anca, na lombar onde eu carregava o peso das costas vergadas, nos glúteos que doíam de forma agoniante, na perna que não cumpria a sua função. 

"Ah, já passaste por bem pior e passou, tens é que ter paciência e ânimo que isso se vai resolver"! Vais ver!" - Não via. Não se estava a resolver. Não se descobria a causa da dor. O neurocirurgião descobriu uma hérnia mas a descrição das dores não se podia dever a isso. A cirurgia não iria resolver o problema, que ele não sabia de onde vinha, só sabia de onde não vinha e não era da poda dele. Deu-me alta, com as mesmas dores, as dores a piorarem, as insónias a sucederem-se, a privação de sono porque virar-me na cama era espetar facas no glúteo, mexer-me era queimarem-me a coxa. 

Mudei de especialidade. O ortopedista que me dizia que percebia era de joelhos, encaminhou-me para o outro que era especialista em pés e já, se sabe, aquilo não era dos pés nem dos joelhos e o terceiro, numa consulta épica, olhou para um raio-x e gabou-me os ossos da anca: alinhadíssimos e perfeitos. Deu-me alta. Deram-me todos. Um a um, como quem decompõe o meu corpo em bocados e analisa pequeno orgão a orgão, função a função, esquecendo-se que o todo é mais que a soma das partes. A esta altura eu vivia em agonia. Não dormia com dores, não falava com dores, não tinha paciência para interagir com dores, não fazia nada em casa com dores. Acordava com um único objectivo: encontrar uma posição minimamente não-invasiva que me permitisse sobreviver mais um dia, sem me apetecer bater com a cabeça nas paredes e querer desaparecer. 

A esta altura as pessoas não me viam, por isso, não diziam aquelas coisas parvas que dizem as pessoas que acham que conhecem as pessoas, que eu tenho boa disposição, e que vai passar, e que já lidei com pior e sobrevivi e o caralhinho com toda a gente: eu estava a agonizar de dores. O meu marido não dormia porque eu tinha dois estados nocturnos: ou chorava com dores ou pedia mais um medicamente para S.O.S., um copo de água, uma massagem para aliviar a dor ou um abraço para poder chorar no colo dele sem vergonhas.Sempre baixinho, para não acordar a Ana. 


Não queria preocupar a minha mãe, que me dizia aquelas coisas que as mães dizem quando estão cheias de miaúfa mas não podem mostrar o flanco aos filhos: "Vá, endireita-te!", "Procura outro médico!", "Não te podes entregar a essa dor: tenta andar, tenta contrariar, vai ao fisioterapeuta, ao osteopata, à acupuntura, ao fisiatra!". E eu não dizia nada, que às mães não podemos dizer que não nos conhecem bem, a minha conhece e sabe que eu costumo reagir a esses "Call to action" mas agora era diferente.

Agora eu voltava, um dia, da neurologista que me respondeu que, na ausência de uma resposta conclusiva, eu teria dor neuropática e que teria que me acostumar à ideia, que iria ser sempre assim, uns comprimidos até ao resto da vida e a assimilação de que ficaria com menos mobilidade de forma progressiva. Agora eu chegava a casa a chorar e a minha mãe não sabia o que mais me dizer (disse mal da médica, o que ajuda sempre, a minha mãe é muito boa nas soluções de alívio paradoxais!), agora eu estava apática, agora eu estava parada, agora ela não sabia quem era aquela parte de mim. Nem eu. 

A minha filha começou a somatizar. Saía para a escola de manhã e eu estava a dormir, só conseguia encontrar uma posição e adormecer já de madrugada, o meu marido não me acordava para o ajudar nas manhãs, levava-a sempre a dar-me um beijo de leve, para não me acordar e eu sentia-o e sorria sem abrir os olhos. Voltava da escola e eu estava deitada no sofá, olhos inchados de chorar, olhar perdido de quem não sabe para onde vai, desconsolo de quem não encontra alternativas, se quem não se reconhece naquela carcaça dorida e apática, desanimada e em agonia física. Tentava mostrar-me igual mas ninguém nos conhece melhor que os nossos filhos, que nos conhecem de dentro, do tintino e da intuição. A meio do período a educadora enviou-me um email: a Ana andava triste e cabisbaixa, passara a desenhar-me sempre de cama e num período em que o tema das emoções fora o escolhido, lá vinha à baila o que os fazia tristes, felizes, zangados. As respostas da Ana giravam sempre à volta do mesmo: o que a fazia triste era a mãe estar doente, o que fazia feliz era a mãe não ter dores, o que preocupava era a mãe não poder voltar a andar, o que a frustrava era a mãe não lhe poder dar a mão por causa das canadianas e o que a zangava era os médicos não curarem a perna da mãe. Nós já suspeitávamos, conhecemos bem a nossa filha, mas, por outro lado, ninguém com dor crónica e sem encontrar medicação adequada consegue manter uma fachada para proteger os filhos. Nem eu, que sempre fui a pessoa que faz rir, a bem disposta, a que faz o quebra-gelo num grupo de estranhos, a extrovertida, a cheia de lata, a optimista, a de bem com a vida. Nem eu, que sempre fui a mãe optimista e energética, hiperactiva e feliz só por ela existir. 

Era tudo duro demais e agora ainda mais, com a Ana a sentir-se assim, a querer parentificar-se, aos 5 anos, a perguntar se quero que o pai traga o comprimido y ou a cápsula z enquanto ela traz o copo de água, a fazer-me cafuné e a beijar-me: “já vai passar, mamã!”

Veio a culpa de estar doente e a frustração de não ser a mãe ágil, saudável e enérgica que os 5 anos da Ana precisam. O meu marido estava exausto. A minha mãe estava perdida e confusa, sem saber o que fazer. A minha filha profundamente preocupada e triste Não atendia as chamadas dos meus amigos. Não abria janelas de chat no facebook. Não me apeteciam visitas nem socializar. Sair à rua era um suplício dantesco. Um dia, dei por mim a pensar que se eu morresse seria um alívio para mim, que viver assim sempre com dores e agonia era uma merda, que viver assim sem ser uma mais valia para a minha família, a dar trabalho, a provocar preocupação e angústia, a não corresponder aos requisitos de mãe que a minha filha merece. 

Procurei ajuda. Para as dores de corpo e de alma. 

Ainda não estou boa mas estou sem dores. Pelo menos de corpo (as de alma estão a acompanhar, devagarinho, as pequenas conquistas: largar as canadianas de vez e poder voltar a andar de mãos dadas com o meu marido, conseguir estar sentada e suportar o peso da minha filha num abraço no meu colo, dormir uma noite inteira sem dores). 

Valeu-me uma médica de Medicina interna, aquela especialidade que não goza de nenhum status quo, sem o ego boost dos neurocirurgiões que me foram dando alta e nunca me mandaram despir para ver onde era a dor, chegava a ressonância magnética e a TAC, não carece de se deitar na marquesa; sem a especialidade da especialidade dos ortopedistas que só percebem de ossos, ou joelhos ou ancas e que nunca me mandaram despir para ver onde era a dor, chega o raio x e a ecografia, apalpar a zona para quê, perguntou-me um deles,meio ofendido. Uma médica de Medicina interna que me ouviu, perguntou, deixou eu explicar, tratou das dores para eu poder sossegar e tratar do diagnóstico, reencaminhou-me para uma médica de medicina física e reabilitação que me viu de lágrimas nos olhos quando a primeira coisa que me sugeriu foi que me deitasse na marquesa para ela poder olhar o meu corpo, tocar nos músculos, nos ossos, na pele e na carne, procurar- finalmente- a dor!

Ainda não estou boa mas estou no processo de encontrar e resolver a causa, com um exame e um procedimento clínico específico, assim o SNS me encurte o tempo de espera. Ainda ando a medicação cavalar, os sonos ainda se trocam, às vezes fico desmemoriada e com menos rapidez de raciocínio. As curas têm efeitos colaterais. 
No caminho, um rasto de destruição: a dor continuada (ou crónica, como a queiram chamar) mata por dentro, dá cabo da cabeça, da energia. do estado anímico, da boa disposição e do optimismo, corrói a essência como traças na roupa, deixa-nos com buracos por dentro, vazios e ocos. E eu também. E a mim também. 

Agora estou a tratar de mim por dentro da matéria. Porque, no meu caso, a dor orgânica contagiou a dor na alma, na cabeça, nas emoções. Deixou-me de rastos e uma sombra da pessoa que, há um ano, se riria se lhe dissessem que estaria com sintomas depressivos. Eu não era uma pessoa com esse perfil. A mim nunca me faltava a boa disposição. Já tinha passado por pior, e tinha sempre sobrevivido. 

Na maioria das vezes somos os piores inquilinos das nossas próprias casas: somos exímios em tratar da fachada, pintamo-la para que a casa fique bonita para quem passe: abrimos as janelas, sacudimos os tapetes, a seguir tratamos de estender a roupa no estendal, pôr as peças brancas a corar, deixar o sol entrar por todo o lado. Lá dentro limpamos o pó, varremos e passamos uma esfregona. Se alguma coisa se estraga mandamo-la consertar na medida da importância da funcionalidade ou do incomodo que o estrago nos causa. O mesmo connosco: tratamos mais depressa uma dor de dentes aguda ou uma gripe que até é viral e sabemos que passados x dias passa que uma tristeza e uma melancolia que se pode arrastar anos, como uma pequena cárie emocional que devagarinho vai apodrecendo ou tornando oco o sentir.

Não queremos saber, evitamos pensar nisso, não priorizamos, não é urgente, deixamos para depois, quase sempre para quando um abcesso feio não nos deixa dormir e já não há nada a fazer ao dente senão arrancá-lo. O problema é que a alma, as emoções não se podem arrancar e colocar implantes ou próteses nos seus lugares. Tal como numa casa em que deixamos tudo num brinco mas nunca conseguimos dedicar tempo ao que está dentro dos armários, a arrumar as gavetas, a imprimir as fotografias em vez de as deixar reféns nos pcs, a organizar o que está “escondido” dentro de portas ou debaixo do tapete.

Achamos que uma dor de estômago é mais importante que uma dor de alma,
o estômago queixa-se, envia informação para o cérebro, é pica-miolos,como são todos os restantes órgãos internos quando se sentem mal. Já a cabeça, as emoções, conseguimos distraí-la, entretendo-a com as moínhas de todos os outros órgãos do corpo, ocupando-a de tal forma que ela própria se esquece que também o é. A nossa saúde emocional não pode ser varrida para debaixo do tapete das nossas prioridades porque existem dores orgânicas.

Pode calhar a todos, A mim foi desencadeada por uma deslocação estúpida do músculo piramidal e seis meses de dores ininterruptas e a constatação de que as minhas pernas não me deixavam andar. A outros, pode desencadear uma perda dura, uma tristeza que começa baixinho, a frustração de não se conseguir chegar nunca onde se quer chegar, a constatação do vazio de quem é popular e de quem todos acham que conhecem bem. 
António Bourdain suicidou-se. Tinha um emprego de sonho, viajava, conhecia o Mundo, tinha uma voz (até mesmo de activismo), comia bem e com prazer, bebia bem e com prazer. "Se gosta de comer e beber é um bon vivant."

As pessoas acham que conhecem as pessoas.

Ninguém conhece, verdadeiramente, ninguém. 

1 comentário:

sofia disse...

Bom dia Liliana
Bom saber que ultrapassou esta fase terrível da sua vida.
Tenho uma amiga que sofre há 4 anos e que há 4 anos anda de médico em médico. Está desesperada!
Seria possível saber o nome dessa médica para tentar que a minha amiga fosse vista por ela?
Ficar~lhe-ia muito grata.
Cumprimentos Sofia

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