Aos 20 anos a gente quer arrumar a vida: introduzir sonhos em Excel, somar conquistas, acumular experiências, encontrar as fórmulas certas para cada operação e que no final as contas todas batam certo. Se pudermos introduzir gráficos que provem que não há margem de erro é tratar, analisar e discutir os dados, tanto melhor. Não queremos que haja dúvidas de que estamos certos.
Esperamos aos trinta anos termos a folha de Excel imaculada e depois percebemos que a matemática não depende só de nós: há falhas de electricidade, vírus nos computadores da vida, actualizações no próprio Excel de versão 1.1 e quando passamos a dominá-la, já vai na 7.1. e estamos sempre atrasados, desactualizados, perdidos. Errados nas contas. Irremediavelmente errados. São as primeiras pessoas significativas que nos morrem, as casas que não conseguimos comprar, as rendas de aluguer que aumentam, as viagens que sonhámos fazer para as quais o dinheiro não chega, a vida que desgasta as relações, os empregos que já não são para a vida e a consciência plena de que há muitas coisas que dependem dos nossos conhecimentos em Excel mas há a sorte, o mundo, o acaso e tudo aquilo que não controlamos. A electricidade que falha.
Aos 30 fechamos as macros e as folhas e de repente somos mães e dizem-nos que a vida vai mudar e romantizam e é um paint irreal e ultrapassado. De Excel a paint- imagine-se o fail. E vendem-nos as aguarelas de que vamos tomar conta dos filhos e de repente são os filhos que tomam conta de nós, do nosso tempo, energia e planos. É duríssimo. “A maternidade é um esvaziar-se que transborda tudo”- li algures. É isto.
Aos 40 a gente até quer desarrumar a vida. Para os 40 quero um word onde possa escrever e deletar, activar o corrector automático e ignorar as sugestões, mudar estilos e números de fontes, contar palavras e arriscar em negritos, itálicos e sublinhados naquilo que importa. Construir a minha história. A minha. Mesmo que tenha -rev01 ou _rev100 na extensão dos nomes dos ficheiros guardados. Não preciso de contas nem cores. Só da história contada de forma corrida. A minha história.
Se tudo falhar que não me falte papel e caneta.
Nunca me esqueci de como é bom escrever à mão. O difícil é recomeçar.

Sem comentários:
Enviar um comentário