Os avós tinham chegado dos Açores, depois de uma distância de dois anos. A avó fala com ela muitas vezes por semana- num esforço que me enternece- para alimentar a relação, para acompanhar o crescimento da neta. Faço questão da Ana ligar de volta, contar sobre os seus dias, alegrias e inquietações. Sei a importância que os avós podem ter na vida dos netos, os meus continuam, depois de mortos, a orientar-me o caminho.
A minha mãe é a maior: ninguém a bate, ninguém está à sua altura nesta tarefa. A Ana diz sempre que é a avó aventureira e isso diz tudo sobre a relação delas, cheias de aventuras e afectos, riscos e segurança.
O meu pai não conhece a Ana, por desamor, incapacidade de se vincular.
Mas estes avós vivem longe, o caminho não se faz por estrada nem cacilheiro nem comboio nem bicicleta.
A avó liga várias vezes por semana, dizia eu, mas o avô nem por isso. Talvez por essa razão, estávamos curiosos para perceber como iriam interagir, a Ana e este avô distante e menos presente.
A meio da semana a avó perguntou insegura: "Gostas mais de mim ou do avô?" A Ana, colocada injustamente naquela posição frágil, não hesitou: "Do avô." E rematou " tens que perceber que estou a descobrir como é ter um avô e é alegre e divertido!".
Depois, foram até à feira de Natal e a Ana agarrou as mãos de dois dos homens da sua vida e pediu que atirassem ao alvo para lhe conseguirem um peluche gigante. Vibrou, torceu e no fim não ganhou o peluche.
A pontaria era má mas eles não sonham como é certeiro o sentido de orientação que estão a deixar na Ana, amada, querida, importada. A vinculação, o sentido de pertença e até a cena freudiana são mais valiosos que qualquer peluche gigante. E nunca ganham pó, por mais tempo que passe.
Ganha-se sempre no jogo do amor.

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