Lisboa. Março de 2022. Uma diretora de serviço de um hospital de referência demite-se depois de ter sido acusada, por dezenas de enfermeiros, enfermeiras e assistentes operacionais, de alegado assédio moral e laboral. Dezenas. Que apresentaram, em bloco, uma carta à Administração do Hospital afirmando que se não fosse aberto um inquérito interno e uma averiguação, avançariam para a barra dos tribunais.
Face a isto a Administração decidiu abrir o inquérito, ouvir as dezenas de pessoas e, na sequência disto, suspender a profissional da suas funções que, segundo as notícias de orgãos de comunicação social mais sérios, se viu forçada a apresentar demissão neste contexto. E que o fez.
Jornal Expresso. Abril de 2022. Sai uma notícia que avança que "Em declarações ao Expresso, a médica disse que foi uma decisão pessoal e apontou como motivo a forma como se gerem as pessoas no Serviço Nacional de Saúde".
O Expresso, um jornal que sempre considerei sério, isento e de referencia, escreve exactamente esta notícia a propósito do caso:
"Sem adiantar em concreto o que a fez abandonar o SNS depois de uma carreira dedicada à prestação de cuidados na rede pública, a pediatra acrescentou apenas: “Não estou zangada com o SNS, que sempre servi com lealdade e com o melhor do meu conhecimento técnico. Este ciclo está encerrado.” (...)
Acrescenta a notícia "O fim de funções da responsável pela Infeciologia do Dona Estefânia é conhecido na mesma semana em que o hospital deixou de conseguir assegurar exames de imagiologia, como ecografias, no período noturno (a partir das 20 horas) por falta de profissionais."
Remata, ainda, com "Ao Expresso, a administração garante que tenta encontrar uma solução: “Há uma efetiva falta de radiologistas no SNS, cenário que complica a gestão das escalas. Estamos a procurar uma solução definitiva a contar a partir de 1 de abril, pois até esta data tudo está assegurado. Reforçamos que nenhuma criança deixa de ser vista ou fica sem cuidados.”
Temos, portando, uma culpabilização encapotada do SNS face à saída de profissionais especialistas e aparentemente com elevada competência técnica dos hospitais, por não lhes serem garantidas condições mínimas de trabalho.
Zero referências às acusações de alegado bullying, denunciado por DEZENAS de profissionais. Zero referências ao inquérito que foi aberto, à suspensão da profissional que daí resultou. Zero voz às DEZENAS de profissionais que alegadamente foram vítimas de assédio por parte desta senhora.
A caixa de comentários é inanarrável: as pessoas são facilmente manipuladas porque não procuram mais informação, porque lhes comem o que lhes põem à frente. Não as culpo. Houve tempos em que, se lesse no Expresso, não precisaria de procurar em mais lado nenhum. Não são estes os tempos.
Um profissional, especialmente, um médico faz-se de "humanidade" e amor às pessoas". Escrevi-o há dias a propósito da sorte que tenho em encontrar médicos incríveis no meu caminho. E enfermeiros e enfermeiras. E assistentes operacionais. Também nesse hospital de que se fala nas notícias, onde nasci, onde fui seguida e onde já colaborei como profissional.
Lisboa. Abril de 2022. Um abraço para todas as vítimas que são esquecidas nas notícias, que são duplamente violentadas com o desprezo da comunicação social e a falta de um espaço onde possam ter voz, onde possam denunciar abusos, onde possam alertar outros pares do que não é aceitável. Um abraço a todas as vítimas que, dão corpo, sangue e suor por um serviço público frágil mas cheio de gente com valor e que têm que ler que o SNS não presta e que por isso deixa sair "os melhores", os "especialistas", os "diretores".
O SNS está vivo graças a estas pessoas. A estas vítimas também. E graças à valentia e coragem de enfermeiros, enfermeiras e assistentes pessoais que, em bloco, não aceitam menos que o respeito que merecem e não permitem que o SNS perpetue desumanidade. Saibam que vos escuto e que muito gostaria de ouvir bem alto a vossa voz.
Para vocês: o meu mais profundo obrigada.
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