"Avó, sabes que a Bárbara gosta de homens muito mais velhos?"
"Ahn? Como assim, Ana?"
"Então, avó, a Bárbara tem sete anos e já gostou do irmão da Madalena. que está no quinto ano! No quinto ano já tem 10 anos, avó! Dez anos!"
...
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Papoilas e amor
Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando
apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos
mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se
chama #sóquenão,
ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e
descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o
jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou
tal como eu não gosto, ensinei-lhe que
borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela
saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e
perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e
que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a
diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as
caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e
a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a
fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que
as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe
o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que
para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma
das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do
orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos,
ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e
que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar,
ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio
dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância.
Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou
que foi e é sempre tudo sobre o amor.
sábado, 22 de fevereiro de 2020
Ó Ana, não corra tanto, plamordedeus!
O sonho de qualquer mãe beta: a filha loira de olhos azuis, o
labrador ou golden retriever ou cão ou lá o que é a marca do bicho e a
praia.
Que nossa senhora dos sapatos de vela me proteja.
Que nossa senhora dos sapatos de vela me proteja.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
Ana, a fonética baralhada
Eu a propósito do registo do nosso fim-de-semana no seu diário gráfico: “Sabes aquelas açoteias que vimos no Algarve, Ana?!”~
Ana dá um belinha na própria testa e exclama: “é isso mesmo, mãe: o nome da nova auxiliar é açoteia!
(Pausa)
“Ou Soraia. É qualquer coisa assim...”
Labels:
Mãegyver
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Deus é sereia
Quando chegámos à Fuzeta olhaste para a areia com os olhos muito esbugalhados: taaaaantas conchas, mãe!
Eu sorri e convidei-te a descalçares-te e começaste a explicar-me que as sereias só visitam as praias com areias cheias de conchas. Que são estas conchas as jóias que as sereias já não querem usar e assim as disponibilizam aos humanos. E a cada concha que apanhavas havia uma expressão de espanto: olha esta toda riscada, olha esta com tantas cores de arco-íris por dentro, olha este búzio que enroladinho.
O gáudio de te ver durante mais de uma hora a maravilhares-te com pedaços do mar da cor dos teus olhos.
E quando o sol começou a mergulhar no horizonte sentaste-te, cansada e em silêncio, e encostaste-te a mim, sentadas à chinês no areal. E eu levantei-me, enfim, e enquanto virava as costas para irmos beber um chocolate quente ali no borda d’água e tu um chá de limão e aquecermo-nos, comecei a ouvir um barulho repentino da maré a encher, a água a subir inesperadamente, o mar há um minuto parado e quieto, agora, de repente, a manifestar-se.
Olhei para trás e estavas estarrecida: “mãe, shiiiiuuu! Ouve as sereias a abanarem as caudas debaixo do mar e a dizerem-nos adeus!”
E depois um sussurro: “adeus, sereias! Adeus!”
E ensinaste-me neste fim de tarde, Ana, tudo o que é importante saber sobre fé e amor, crença e sonho. Deus pode ter cabelos de algas e cauda de sereia.
Obrigada por trazeres até mim esse segredo sem filtros, como esta fotografia, como tu, querida Ana, meu grande amor.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
Ana e os estrangeirismos gastronómicos
Nós a preparar a carne e os molhos do fondue para o jantar e diz a Ana, muito convicta:
"Olhem, escusam-me de dar outros molhos, porque eu só gosto do molho cheesecake*, ok?"
[*Era o molho cocktail]
"Olhem, escusam-me de dar outros molhos, porque eu só gosto do molho cheesecake*, ok?"
[*Era o molho cocktail]
Labels:
Mãegyver
sábado, 21 de dezembro de 2019
2019 como o meu cabelo
Cortei e andei meses seguidos a chorar porque ele demorava a crescer e queria voltar a ser igual a sempre e chego ao fim do ano com ele comprido e a suspirar que se calhar deveria cortá-lo outra vez para experimentar voltar a ser diferente.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Chove, como na rua, em mim.
Ali estava eu: diante do meu próprio
velório.
No marido dela o Rui: desorientado, perdido, vazio, arrasado
como se o vento da morte da mulher tivesse vindo com a tempestade que
atrasava a vinda de mais gente a prestar as últimas homenagens. 50 anos.
Tinha 50 anos e uma velhice pela frente que nunca chegou a viver e eu
agora não sei como vai ser, ela foi sempre primeiro, abria sempre o
caminho, contava-me como era, sem romantizações nem pessimismos: a
realidade.
A filha ia-nos recebendo um a um, com cortesia e uma
maturidade que não se encontra em ninguém com 20 anos. A minha projeção
da Ana na filha dela: ser filho de uma pessoa com deficiência torna os
miúdos em seres diferentes. Não especiais: apenas diferentes. A Rita
nunca corria desenfreadamente quanto era pequena e um dia com a Ana ao
colo perguntei-lhe como tinha conseguido ela essa proeza da miúda nunca
lhe fugir, que sorte que tinha, imagina que fugia, a aflição que seria
não poderes correr para a apanhar à custa da cadeira de rodas e eu, que
não sou veloz na corrida, que não aguento tempos infinitos em pé com ela
ao colo, como vou fazer? “Os filhos fazem-se aos pais que têm”-
disse-me a Dulce, agora ali à minha frente num caixão frio de madeira.
Na Rita a Ana: madura, pragmática, objectiva, com uma força que não
reconheço em mais filhos de ninguém. Os meus amigos a chegarem: o
Filipe, o Luis.
A Dulce tornou tudo possível quando o futuro de mulheres
com deficiência era uma incerteza: era possível trabalhar e ser
auto-suficiente, era possível viver sozinha, era possível casar, era
possível ser mãe. E agora que eu já sou tudo isso, porque a Dulce
confortou a minha ansiedade, porque estreou todas as possibilidades,
quem me vai contar o futuro? Não sei, agora, como é possível ser
velhinha, como se gere o síndrome do ninho vazio, como é ser avó,
como é viver com corpos enrugados e artroses e no fim como é pensar que a
morte vai chegar porque a vida já está cheia, preenchida, completa.
A
Dulce morreu e não tenho a minha referência e em quem me projectar. E,
pela primeira vez, o futuro parece-me desconhecido e incerto. A Dulce
morreu e já não tenho quem me faça spoiling à vida.
Chove, como na rua,
em mim.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
Subscrever:
Mensagens (Atom)





