quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Ana, a herege

A minha mãe mostra à Ana uma imagem dos Três Pastorinhos e conta-lhe a história da aparição de Fátima.

"Avó: e porque é que a Lúcia está zangada?"

"Ó Ana, a Lúcia não está zangada!"

(silêncio enquanto volta a mirar a pagela)

"Ai avó, já olhaste bem para a cara dela?!..."


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Ana, a chiba

"Avó, sabes que a Bárbara  gosta de homens muito mais velhos?"

"Ahn? Como assim, Ana?"

"Então, avó, a Bárbara tem sete anos e já gostou do irmão da Madalena. que está no quinto ano! No quinto ano já tem 10 anos, avó! Dez anos!"

...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Papoilas e amor




Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se chama #sóquenão, ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou tal como eu não gosto, ensinei-lhe que borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos, ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar, ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância. 

Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou que foi e é sempre tudo sobre o amor.

Fuck Them!

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Ó Ana, não corra tanto, plamordedeus!

O sonho de qualquer mãe beta: a filha loira de olhos azuis, o labrador ou golden retriever ou cão ou lá o que é a marca do bicho e a praia.



Que nossa senhora dos sapatos de vela me proteja.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Ana, a fonética baralhada

Eu a propósito do registo do nosso fim-de-semana no seu diário gráfico: “Sabes aquelas açoteias que vimos no Algarve, Ana?!”~

Ana dá um belinha na própria testa e exclama: “é isso mesmo, mãe: o nome da nova auxiliar é açoteia!

(Pausa)

“Ou Soraia. É qualquer coisa assim...”

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Deus é sereia

Quando chegámos à Fuzeta olhaste para a areia com os olhos muito esbugalhados: taaaaantas conchas, mãe! 

Eu sorri e convidei-te a descalçares-te e começaste a explicar-me que as sereias só visitam as praias com areias cheias de conchas. Que são estas conchas as jóias que as sereias já não querem usar e assim as disponibilizam aos humanos. E a cada concha que apanhavas havia uma expressão de espanto: olha esta toda riscada, olha esta com tantas cores de arco-íris por dentro, olha este búzio que enroladinho. 

O gáudio de te ver durante mais de uma hora a maravilhares-te com pedaços do mar da cor dos teus olhos. 

E quando o sol começou a mergulhar no horizonte sentaste-te, cansada e em silêncio, e encostaste-te a mim, sentadas à chinês no areal. E eu levantei-me, enfim, e enquanto virava as costas para irmos beber um chocolate quente ali no borda d’água e tu um chá de limão e aquecermo-nos, comecei a ouvir um barulho repentino da maré a encher, a água a subir inesperadamente, o mar há um minuto parado e quieto, agora, de repente, a manifestar-se. 

Olhei para trás e estavas estarrecida: “mãe, shiiiiuuu! Ouve as sereias a abanarem as caudas debaixo do mar e a dizerem-nos adeus!” 

E depois um sussurro: “adeus, sereias! Adeus!” 

E ensinaste-me neste fim de tarde, Ana, tudo o que é importante saber sobre fé e amor, crença e sonho. Deus pode ter cabelos de algas e cauda de sereia. 

Obrigada por trazeres até mim esse segredo sem filtros, como esta fotografia, como tu, querida Ana, meu grande amor.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Ana e os estrangeirismos gastronómicos

Nós a preparar a carne e os molhos do fondue para o jantar e diz a Ana, muito convicta:

"Olhem, escusam-me de dar outros molhos, porque eu só gosto do molho cheesecake*, ok?"



[*Era o molho cocktail]

sábado, 21 de dezembro de 2019

2019 como o meu cabelo




Cortei e andei meses seguidos a chorar porque ele demorava a crescer e queria voltar a ser igual a sempre e chego ao fim do ano com ele comprido e a suspirar que se calhar deveria cortá-lo outra vez para experimentar voltar a ser diferente.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Chove, como na rua, em mim.

Ali estava eu: diante do meu próprio velório. 

No marido dela o Rui: desorientado, perdido, vazio, arrasado como se o vento da morte da mulher tivesse vindo com a tempestade que atrasava a vinda de mais gente a prestar as últimas homenagens. 50 anos. Tinha 50 anos e uma velhice pela frente que nunca chegou a viver e eu agora não sei como vai ser, ela foi sempre primeiro, abria sempre o caminho, contava-me como era, sem romantizações nem pessimismos: a realidade. 

A filha ia-nos recebendo um a um, com cortesia e uma maturidade que não se encontra em ninguém com 20 anos. A minha projeção da Ana na filha dela: ser filho de uma pessoa com deficiência torna os miúdos em seres diferentes. Não especiais: apenas diferentes. A Rita nunca corria desenfreadamente quanto era pequena e um dia com a Ana ao colo perguntei-lhe como tinha conseguido ela essa proeza da miúda nunca lhe fugir, que sorte que tinha, imagina que fugia, a aflição que seria não poderes correr para a apanhar à custa da cadeira de rodas e eu, que não sou veloz na corrida, que não aguento tempos infinitos em pé com ela ao colo, como vou fazer? “Os filhos fazem-se aos pais que têm”- disse-me a Dulce, agora ali à minha frente num caixão frio de madeira. 

Na Rita a Ana: madura, pragmática, objectiva, com uma força que não reconheço em mais filhos de ninguém. Os meus amigos a chegarem: o Filipe, o Luis. 

A Dulce tornou tudo possível quando o futuro de mulheres com deficiência era uma incerteza: era possível trabalhar e ser auto-suficiente, era possível viver sozinha, era possível casar, era possível ser mãe. E agora que eu já sou tudo isso, porque a Dulce confortou a minha ansiedade, porque estreou todas as possibilidades, quem me vai contar o futuro? Não sei, agora, como é possível ser velhinha, como se gere o síndrome do ninho vazio, como é ser avó, como é viver com corpos enrugados e artroses e no fim como é pensar que a morte vai chegar porque a vida já está cheia, preenchida, completa. 

A Dulce morreu e não tenho a minha referência e em quem me projectar. E, pela primeira vez, o futuro parece-me desconhecido e incerto. A Dulce morreu e já não tenho quem me faça spoiling à vida. 

Chove, como na rua, em mim.
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